Contra o metodo

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CONTRA O M?ëTODO Esbo?ºo de uma teoria an?írquica* da teoria do conhecimento

* Coment?írios acerca da acep?º?úo em que se toma, aqui, o termo `anarquismo’, acham-se em nota 12 da Introdu?º?úo e no pr??prio tex- to, cap?¡tulo XVI, trecho correspondente ?ás notas 18 e seguintes.

Paul Feyerabend CONTRA O M?ëTODO Tradu?º?úo de Octanny S. da Mata Leonidas Hegenberg

?ìndice Anal?¡tico ITENS: INTRODU?ç?âO P?ígina 17 A ci?¬ncia ?® um empreendimento essencialmente an?írquico: o a- narquismo teor?®tico ?® mais humanit?írio e mais suscet?¡vel de esti- mular o progresso do que suas alternativas representadas por or- dem e lei.

I P?ígina 7 Isso ?® demonstrado seja pelo exame de epis??dios hist??ricos, seja pela an?ílise da rela?º?úo entre id?®ia e a?º?úo. O ??nico princ?¡pio que n?úo inibe o progresso ?®: tudo vale.

II P?ígina 37 Cabe, por exemplo, recorrer a hip??teses que contradizem teorias confirmadas e/ou resultados experimentais bem estabelecidos. ?ë poss?¡vel fazer avan?ºar a ci?¬ncia, procedendo contra- indutivamente.

III P?ígina 45 A condi?º?úo de coer?¬ncia, por for?ºa da qual se exige que as hip??te- ses novas se ajustem a teorias aceitas, ?® desarrazoada, pois preserva a teoria mais antiga e n?úo a melhor. Hip??teses que contradizem teorias bem assentadas proporcionam-nos evid?¬ncia imposs?¡vel de obter por outra forma. A prolifera?º?úo de teorias ?® ben?®fica para a ci?¬ncia, ao passo que a uniformidade lhe debilita o poder cr?¡tico. A uniformidade, al?®m disso, amea?ºa o livre desenvolvimento do in- div?¡duo.

IV P?ígina 65 Qualquer id?®ia, embora antiga e absurda, ?® capaz de aperfei?ºoar nosso conhecimento. A ci?¬ncia absorve toda a hist??ria do pensa- mento e a utiliza para o aprimoramento de cada teoria. E n?úo se respeita a interfer?¬ncia pol?¡tica. Ocorrer?í que ela se fa?ºa necess?íria para vencer o chauvinismo da ci?¬ncia que resiste em aceitar alter- nativas ao status quo.

V P?ígina 77 Nenhuma teoria est?í em concord?óncia com todos os fatos de seu dom?¡nio, circunst?óncia nem sempre imput?ível ?á teoria. Os fatos se prendem a ideologias mais antigas, e um conflito entre

fatos e teorias pode ser evid?¬ncia de progresso. Esse conflito cor- responde, ainda, a um primeiro passo na tentativa de identificar princ?¡pios impl?¡citos em no?º?Áes observacionais comuns.

VI P?ígina 101 Como exemplo dessa tentativa, trago ?á baila o argumento da torre, de que os aristot?®licos se valiam para refutar o movimento da Ter- ra. O argumento envolve interpreta?º?Áes naturais ÔÇö id?®ias t?úo es- treitamente ligadas a observa?º?Áes, que se faz necess?írio especial esfor?ºo para perceber-lhes a exist?¬ncia e determinar-lhes o conte- ??do. Galileu identifica as interpreta?º?Áes naturais que se mostram inconsistentes com a doutrina de Cop?®rnico e as substitui por ou- tras.

VII P?ígina 119 As novas interpreta?º?Áes naturais constituem linguagem de obser- va?º?úo original e altamente abstrata. S?úo introduzidas e ocultadas, de sorte que n?úo se percebe a modifica?º?úo havida (m?®todo da anam- nese). Encerram a id?®ia da relatividade de todo movimento e a lei da in?®r- cia circular.

VIII P?ígina 139 Dificuldades iniciais provocadas pela altera?º?úo v?¬em-se afastadas por hip??teses ad hoc que, assim, desempenham, ocasionalmente, uma fun?º?úo positiva; asseguram ?ás novas teorias espa?ºo para se desen- volverem e indicam o sentido da pesquisa futura.

IX P?ígina 151 Al?®m de alterar as interpreta?º?Áes naturais, Galileu alterou tamb?®m as sensa?º?Áes que parecem amea?ºar Cop?®rnico. Admite que

tais sensa?º?Áes existam, louva Cop?®rnico por n?úo hav?¬-las conside- rado e afirma t?¬-las afastado com o aux?¡lio do seu telesc??pio. Contu- do, n?úo oferece raz?Áes te??ricas acerca do por que procederia espe- rar que o telesc??pio tra?ºasse dos c?®us um quadro verdadeiro.

Ap?¬ndice I P?ígina 169 Ap?¬ndice II P?ígina 175

X P?ígina 189 As primeiras observa?º?Áes do c?®u feitas atrav?®s de telesc??pio s?úo vagas, imprecisas, contradit??rias e p?Áem-se em conflito com o que todos podem ver a olho desarmado. E a ??nica teoria que teria le- vado a distinguir entre as ilus?Áes provocadas pelo telesc??pio e os fen??menos reais foi refutada por testes simples.

XI P?ígina 221 De outra parte, h?í alguns fen??menos telesc??picos tipicamente co- pernicanos. Galileu apresenta esses fen??menos como prova aut??- noma em prol de Cop?®rnico, mas a situa?º?úo ?® antes a de que uma concep?º?úo refutada ÔÇö a doutrina copernicana ÔÇö tem certa seme- lhan?ºa com fen??menos que emergem de outra concep?º?úo refutada ÔÇö a id?®ia de que os fen??menos telesc??picos retratam fielmente o c?®u. Galileu domina em raz?úo de seu estilo e de suas mais aperfei- ?ºoadas t?®cnicas de persuas?úo, porque escreve em italiano e n?úo em latim e porque recorre a pessoas hostis, por temperamento, ?ás ve- lhas id?®ias e aos padr?Áes de aprendizagem a elas relacionados.

XII P?ígina 227 Esses m?®todos `irracionais’ de fundamenta?º?úo tornam-se necess?í- rios devido ao `desenvolvimento desigual’ (Marx, Lenine) dos di- ferentes ramos da ci?¬ncia. A teoria copernicana e outros elemen- tos essenciais da ci?¬ncia moderna puderam sobreviver t?úo- somente porque, no passado, a raz?úo foi freq??entemente posta de lado.

XIII P?ígina 253 O m?®todo de Galileu estende-se a outros campos. Pode ser usado, por exemplo, para eliminar os argumentos que se levantam contra (Os correspondentes problemas cient?¡ficos permanecem, entretan- to, intocados.) XIV P?ígina 257 Os resultados at?® agora conseguidos trazem em seu bojo a suges- t?úo de abolir a distin?º?úo entre contexto da descoberta e contexto da justifica?º?úo e de p??r de parte a distin?º?úo correlata entre termos observacionais e termos teor?®ticos. Nenhuma dessas distin?º?Áes tem papel a desempenhar na pr?ítica cient?¡fica. Tentativas de dar- lhes for?ºa trariam conseq???¬ncias desastrosas.

XV P?ígina 267 Enfim, a exposi?º?úo feita nos cap?¡tulos VI-XIII atesta que a vers?úo do pluralismo de Mill, dada por Popper, n?úo est?í em concord?óncia com a pr?ítica cient?¡fica e destruiria a ci?¬ncia, tal como a conhece- mos. Existindo a ci?¬ncia, a raz?úo n?úo pode reinar universalmente, nem a sem-raz?úo pode ver-se exclu?¡da. Esse

tra?ºo da ci?¬ncia pede uma epistemologia an?írquica. A compreen- s?úo de que a ci?¬ncia n?úo ?® sacrossanta e de que o debate entre ci- ?¬ncia e mito se encerrou sem vit??ria para qualquer dos lados em- presta maior for?ºa ao anarquismo.

XVI P?ígina 283 Tamb?®m n?úo escapa a essa conclus?úo a engenhosa tentativa de Lakatos, feita no sentido de erigir metodologia que (a) n?úo emite ordens mas (b) coloca restri?º?Áes a nossas atividades ampliadoras de conhecimento. De fato, a filosofia de Lakatos s?? se afigura li- beral porque ?® um anarquismo disfar?ºado. E seus padr?Áes, abstra?¡dos a partir da ci?¬ncia moderna, n?úo podem ser vistos como ?írbitros imparciais na pend?¬ncia entre a ci?¬ncia moderna e a ci?¬ncia aristo- t?®lica, o mito, a m?ígica, a religi?úo, etc.

Ap?¬ndice III P?ígina 333 Ap?¬ndice IV P?ígina 343 XVII P?ígina 347 Al?®m disso, tais padr?Áes, que envolvem uma compara?º?úo entre classes de conte??do, nem sempre s?úo aplic?íveis. As classes de con- te??do de certas teorias s?úo insuscet?¡veis de compara?º?úo, no senti- do de que nenhuma das rela?º?Áes l??gicas habituais (inclus?úo, exclu- s?úo, superposi?º?úo) vige entre elas. Ocorre isso quando compara- mos os mitos ?á ci?¬ncia. Ocorre, ainda, nas mais desenvolvidas, mais gerais e, portanto, mais mitol??gicas partes da pr??pria ci?¬ncia.

Ap?¬ndice V P?ígina 441 XVIII P?ígina 447 Dessa forma, a ci?¬ncia se aproxima do mito, muito mais do que uma filosofia cient?¡fica se inclinaria a admitir. A ci?¬ncia ?® uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo homem e n?úo necessariamente a melhor. Chama a aten?º?úo, ?® ruidosa e impuden- te, mas s?? inerentemente superior aos olhos daqueles que j?í se ha- jam decidido favoravelmente a certa ideologia ou que j?í a tenham aceito, sem sequer examinar suas conveni?¬ncias e limita?º?Áes. Co- mo a aceita?º?úo e a rejei?º?úo de ideologias devem caber ao indiv?¡- duo, segue-se que a separa?º?úo entre o Estado e a Igreja h?í de ser complementada por uma separa?º?úo entre o Estado e a ci?¬ncia, a Tal separa?º?úo ser?í, talvez, a ??nica forma de alcan?ºarmos a huma- nidade de que somos capazes, mas que jamais concretizamos.

Introdu?º?úo Ordnung ist heutzutage meistens dort, wo BRECHT A ci?¬ncia ?® um empreendimento essencialmente an?írquico: o anarquismo teor?®tico ?® mais humanit?írio e mais suscet?¡vel de estimular o progresso do que suas alternativas representadas por ordem e lei.

Este ensaio ?® escrito com a convic?º?úo de que o anarquismo, embora n?úo constituindo, talvez, a mais atraente filosofia pol?¡tica, ?®, por certo, excelente rem?®dio para a epistemologia e para a filo- `A Hist??ria, de modo geral, e a hist??ria das revolu?º?Áes, em particular, ?® sempre de conte??do mais rico, mais variada, mais multiforme, mais viva e sutil do que’ o melhor historiador e o me- lhor metodologista poderiam imaginar1. A Hist??ria est?í repleta de `acidentes e conjunturas e curiosas justaposi?º?Áes de eventos’2 e pa- tenteia a nossos olhos a `complexidade das mudan?ºas humanas e o car?íter imprevis?¡vel das conseq???¬ncias ??ltimas de qualquer ato ou decis?úo do homem’3. Devemos realmente acreditar que as regras ing?¬nuas e simplistas que os metodologistas adotam como guia s?úo capazes de explicar esse `labirinto de intera?º?Áes’4? N?úo ?® claro que, em se tratando de um processo dessa esp?®cie, s?? pode ter participa?º?úo bem sucedida um oportunista brutal que n?úo se prenda a filosofia alguma e que adote a diretriz que a ocasi?úo pa- re?ºa indicar?

Tal ?®, sem d??vida, a conclus?úo a que t?¬m chegado observa- dores inteligentes e ponderados. `Duas importantes conclus?Áes pr?íticas decorrem da?¡ [do car?íter do processo hist??rico]’, escreve Lenine5, na continua?º?úo da passagem mencionada acima. `Em primeiro lugar, a de que, para cumprir sua tarefa, a classe revolu- cion?íria [isto ?®, a classe daqueles que desejam alterar seja uma par- te da sociedade, como a ci?¬ncia, seja a sociedade em seu todo] de- ve estar em condi?º?Áes de dominar, sem exce?º?úo, todas as formas ou aspectos de atividade social [deve compreender e saber aplicar n?úo apenas uma particular metodologia, mas qualquer metodolo- gia e qualquer de suas varia?º?Áes imagin?íveis]…; e, em segundo lu- gar, deve estar preparada para saltar de uma ?á outra, da maneira a mais r?ípida e mais inesperada.’ `As condi?º?Áes externas’, escreve Einstein6, `que os fatos da experi?¬ncia colocam [diante do cientista] n?úo lhe permitem, ao e- rigir seu mundo conceptual, que ele se prenda em demasia a um dado sistema epistemol??gico. Em conseq???¬ncia, o cientista apare- cer?í, aos olhos do epistemologista que se prende a um sistema, como um oportunista inescrupuloso…’ Um meio complexo, onde h?í elementos surpreendentes e imprevistos, reclama procedimen- tos complexos e desafia uma an?ílise apoiada em regras que foram estabelecidas de antem?úo e sem levar em conta as sempre cambi- ?ë poss?¡vel, naturalmente, simplificar o meio em que o ci- Afinal de contas, a hist??ria da ci?¬ncia n?úo consiste apenas de fatos e de conclus?Áes retiradas dos fatos. Cont?®m, a par disso, id?®ias, interpreta?º?Áes de fatos, problemas criados por interpre- ta?º?Áes conflitantes, erros, e assim por diante. An?ílise mais pro- funda mostra que a ci?¬ncia n?úo conhece `fatos nus’, pois os fa- tos de que tomamos conhecimento j?í s?úo vistos sob certo ?ón- gulo, sendo, em conseq???¬ncia, essencialmente ideativos. Se as- sim ?®, a hist??ria da ci?¬ncia ser?í t?úo complexa, ca??tica, permeada de enganos e diversificada quanto o sejam as id?®ias que encerra;

e essas id?®ias, por sua por sua vez, ser?úo t?úo ca??ticas permeadas de enganos e diversificadas quanto as mentes dos que as inventa- ram. Inversamente, uma pequena lavagem cerebral muito far?í no sentido de tornar a hist??ria da ci?¬ncia mais ins?¡pida, mais simples, mais uniforme, mais `objetiva’ e mais facilmente access?¡vel a tra- A educa?º?úo cient?¡fica, tal como hoje a conhecemos, tem precisamente esse objetivo. Simplifica a ci?¬ncia, simplificando seus elementos: antes de tudo, define-se um campo de pesquisa; esse campo ?® desligado do resto da Hist??ria (a F?¡sica, por exemplo, ?® separada da Metaf?¡sica e da Teologia) e recebe uma `l??gica’ pr??- pria. Um treinamento completo, nesse tipo de `l??gica’, leva ao condicionamento dos que trabalham no campo delimitado; isso torna mais uniformes as a?º?Áes de tais pessoas, ao mesmo tempo em que congela grandes por?º?Áes do procedimento hist??rico. `Fa- tos’ est?íveis surgem e se mant?¬m, a despeito das vicissitudes da Hist??ria. Parte essencial do treinamento, que faz com que fatos dessa esp?®cie apare?ºam, consiste na tentativa de inibir intui?º?Áes que possam implicar confus?úo de fronteiras. A religi?úo da pessoa, por exemplo, ou sua metaf?¡sica ou seu senso de humor (seu senso de humor natural e n?úo a jocosidade posti?ºa e sempre desagrad?í- vel que encontramos em profiss?Áes especializadas) devem manter- se inteiramente ?á parte de sua atividade cient?¡fica. Sua imagina?º?úo v?¬-se restringida e at?® sua linguagem deixa de ser pr??pria7. E isso penetra a natureza dos `fatos’ cient?¡ficos, que passam a ser vistos como independentes de opini?úo, de cren?ºa ou de forma?º?úo cultu- ?ë poss?¡vel, assim, criar uma tradi?º?úo que se mant?®m una, ou intacta, gra?ºas ?á observ?óncia de regras estritas, e que, at?® certo ponto, alcan?ºa ?¬xito. Mas ser?í desej?ível dar apoio a essa tradi- ?º?úo, em detrimento de tudo mais? Devemos conceder-lhe direi- tos exclusivos de manipular o conhecimento, de tal modo que quaisquer resultados obtidos por outros m?®todos sejam, de i- mediato, ignorados? Essa ?® a indaga?º?úo a que pretendo dar

todo cient?¡fico, ou o que um particular autor julga serem as leis cient?¡ficas, chegam a integrar-se ao pr??prio anarquismo. `O anar- quismo ?® um conceito geral, baseado em uma explica?º?úo mec?ónica de todos os fen??menos’, escreve Kropotkin10: `Seu m?®todo de in- vestiga?º?úo ?® o das ci?¬ncias naturais exatas…, o m?®todo de indu?º?úo e dedu?º?úo’. `N?úo parece t?úo claro’, escreve um moderno professor `radical’ de Col??mbia11, `que a pesquisa cient?¡fica exija absoluta li- berdade de express?úo e debates. A evid?¬ncia sugere, antes, que certos tipos de restri?º?úo n?úo colocam empecilhos no caminho da ci?¬ncia…’ H?í, certamente, pessoas para as quais isso `n?úo parece t?úo claro’. Comecemos, portanto, com uma apresenta?º?úo geral da me- N?úo h?í por que temer que a decrescente preocupa?º?úo com lei e ordem na ci?¬ncia e na sociedade ÔÇö que ?® caracter?¡stica desse tipo de anarquismo ÔÇö venha a conduzir ao caos. O sistema nervoso humano ?® demasiado bem organizado para que isso venha a ocor- rer13. Poder?í, ?® claro, vir tempo em que se fa?ºa necess?írio conce- der ?á raz?úo uma vantagem tempor?íria e que ser?í avisado defender suas regras, afastando tudo o mais. N?úo creio, por?®m, que esteja- mos vivendo esse tempo.

NOTAS 1. `A Hist??ria como um todo e, em particular, a hist??ria das revolu?º?Áes ?® sempre mais rica de conte??do, mais variada, multiforme, viva e cheia de engenho do que chegam a imaginar os grupos em que h?í maior refinamento e as mais conscientes vanguardas das mais avan?ºadas classes’ (V. I. Lenine, `Left-Wing Communism ÔÇö An Infan- tile Disorder’, Selected Works, vol. 3, Londres, 967, p. 401).

Lenine dirigia-se a partidos e vanguardas revolucion?írias e n?úo 2. Herbert Butterfield, The Whig Interpretation of History, Nova I- 4. Ibid. p. 25, cf. Hegel, Philosophie der Geschichte, Werke, vol. 9, ed. Edward Gans, Berlim, 1837, p. 9: `Mas o que a experi?¬ncia e a Hist??ria nos ensinam ?® que as na?º?Áes e os governos jamais aprenderam qualquer coisa na Hist??ria e jamais agiram de a- cordo com regras que dela poderiam ter derivado. Cada per?¡- odo apresenta caracter?¡sticas t?úo peculiares, atravessa condi- ?º?Áes t?úo espec?¡ficas que decis?Áes ter?úo de ser tomadas, mas somente poder?úo ser tomadas no per?¡odo e a partir dele’. `Muito sagaz'; `penetrante e muito sagaz'; `NB’, escreve Lenine em anota?º?Áes marginais a esse trecho. (Collected Works, vol. 38, Londres, 1961, p. 307.) 5. Ibid. Vemos aqui, de maneira clara, como algumas altera?º?Áes podem transformar uma li?º?úo de filosofia pol?¡tica em li?º?úo de metodologia. Isso n?úo surpreende. Metodologia e pol?¡tica s?úo, ambas, meios de passar de um a outro est?ígio hist??rico. A ??- nica diferen?ºa est?í em que as metodologias-padr?úo deixam de ter em conta o fato de que a Hist??ria apresenta, constante- mente, fei?º?Áes novas. Vemos, tamb?®m, que uma pessoa como Lenine, que n?úo se intimida diante de fronteiras tradicionais e cujo pensamento n?úo se prende ?á ideologia de uma profiss?úo, pode fazer advert?¬ncias ??teis a todos, inclusive aos fil??sofos 6. Albert Einstein, Albert Einstein: Philosopher Scientist, ed. P. A. 7. Quanto ?á deteriora?º?úo de linguagem que acompanha cada aumento de profissionalismo, cf. meu ensaio `Experts in a Free Society’, The Critic, novembro /dezembro 1970.

10. Peter Alexeivich Kropotkin, `Modern Science and Anar- chism’, Kropotkin’s Revolutionary Pamphlets, ed. R. W. Baldwin, Nova Iorque, 1970, pp. 150-2. `Uma das grandes caracter?¡sti- cas de Ibsen ?® a de que, para ele, nada valia, exceto a ci?¬ncia.’ B. Shaw, Back to Methuselah, Nova Iorque, 1921, xcvii. Comen- tando esses fen??menos e fen??menos similares, Strindberg es- creve (Antibarbarus): `Uma gera?º?úo que teve a coragem de li- bertar-se de Deus, de esmagar o Estado e a Igreja, de subme- ter a sociedade e a moralidade, continuava, por?®m, a curvar-se diante da Ci?¬ncia, onde se imp?Áe que a liberdade reine, a ordem 11. R. P. Wolff, The Poverty of Liberalism, Boston, 1968, p. 15. Para cr?¡tica pormenorizada de Wolff, ver nota 52 de meu ensaio `Against Method’, in Minnesota Studies in the Philosophy of Science, 12. Ao escolher o termo `anarquismo’, simplesmente acompanhei uso geral. Contudo, o anarquismo ÔÇö tal como praticado no passado e como vem sendo hoje posto em pr?ítica por cres- cente n??mero de pessoas ÔÇö apresenta caracter?¡sticas que n?úo me disponho a apoiar. Pouco se preocupa com as vidas hu- manas e com a felicidade humana (salvo as vidas e a felicidade dos que pertencem a algum grupo especial); e encerra preci- samente o tipo de seriedade e dedica?º?úo puritanas que eu de- testo. (H?í algumas encantadoras exce?º?Áes, como a de Cohn- Bendit, mas s?úo minorias). Por essas raz?Áes, eu prefiro recor- rer, agora, ?á palavra Dada?¡smo. Um dada?¡sta n?úo feriria um in- seto j?í para n?úo falar em um ser humano. Um dada?¡sta n?úo se deixa absolutamente impressionar por qualquer tarefa s?®ria e percebe o instante em que as pessoas se det?¬m a sorrir e

assumem aquela atitude e aquelas express?Áes faciais indicado- ras de que algo importante est?í para ser dito. Um dada?¡sta est?í convencido de que uma vida mais digna s?? ser?í poss?¡vel quando come?ºarmos a considerar as coisas com leveza e quando afastarmos de nossa linguagem as express?Áes enraiza- das, mas j?í apodrecidas, que nela se acumularam ao longo dos s?®culos (`busca da verdade'; `defesa da justi?ºa'; `preocupa?º?úo apaixonada'; etc., etc.). Um dada?¡sta est?í preparado para dar in?¡cio a alegres experimentos at?® mesmo em situa?º?Áes onde o alterar e o ensaiar parecem estar fora de quest?úo (exemplo: as fun?º?Áes b?ísicas da linguagem). Espero que, tendo conhecido o panfleto, o leitor lembre-se de mim como um dada?¡sta irre- 13. Mesmo em situa?º?Áes amb?¡guas nebulosas, logo se consegue uniformidade de a?º?úo e a ela se adere tenazmente. Ver Mazu- fare Sherif, The Psychology of Social Norms, Nova Iorque, 1964.

I Isso ?® demonstrado seja pelo exame de epis??dios hist??ricos, seja pela an?ílise da rela?º?úo entre id?®ia e a?º?úo. O ??nico prin- c?¡pio que n?úo inibe o progresso ?®: tudo vale.

A id?®ia de conduzir os neg??cios da ci?¬ncia com o aux?¡lio de um m?®todo, que encerre princ?¡pios firmes, imut?íveis e incondi- cionalmente obrigat??rios v?¬-se diante de consider?ível dificuldade, quando posta em confronto com os resultados da pesquisa hist??- rica. Verificamos, fazendo um confronto, que n?úo h?í uma s?? re- gra, embora plaus?¡vel e bem fundada na epistemologia, que deixe de ser violada em algum momento. Torna-se claro que tais viola- ?º?Áes n?úo s?úo eventos acidentais, n?úo s?úo o resultado de conheci- Percebemos, ao contr?írio, que as viola?º?Áes s?úo necess?írias para o progresso. Com efeito, um dos not?íveis, tra?ºos dos recentes deba- tes travados em torno da hist??ria e da filosofia da ci?¬ncia ?® a com- preens?úo de que acontecimentos e desenvolvimentos tais como a inven?º?úo do atomismo na Antig??idade, a revolu?º?úo copernicana, o surgimento do moderno atomismo (teoria cin?®tica; teoria da dis- pers?úo; estereoqu?¡mica; teoria qu?óntica), o aparecimento gradual da teoria ondulat??ria da luz s?? ocorreram porque alguns pensado- res decidiram n?úo se deixar limitar por certas regras metodol??gicas `??bvias’ ou porque involuntariamente as violaram.

Essa maneira liberal de agir n?úo ?®, repito, apenas um fato da hist??ria da ci?¬ncia. g algo razo?ível e absolutamente necess?írio para que se desenvolva o conhecimento. De maneira mais espec?¡fica, ?® pos- s?¡vel evidenciar o seguinte: dada uma regra qualquer, por `funda- mental’ e `necess?íria’ que se afigure para a ci?¬ncia, sempre haver?í circunst?óncias em que se torna conveniente n?úo apenas ignor?í-la como adotar a regra oposta. Exemplificando: h?í circunst?óncias em que ?® aconselh?ível introduzir. elaborar e defender hip??teses ad hoc, ou hip??teses que se colocam em contradi?º?úo com resultados expe- rimentais bem estabelecidos e aceitos, ou hip??teses de conte??do mais reduzido que o da existente e empiricamente adequada alter- H?í circunst?óncias ÔÇö que ocorrem com apreci?ível freq???¬n- cia ÔÇö em que a argumenta?º?úo (ou o debate) perde sua caracter?¡stica antecipadora para tornar-se obst?ículo ao progresso. Ningu?®m sus- tentar?í que ensinar crian?ºas ?® puramente uma quest?úo de debate (embora a argumenta?º?úo possa fazer parte do ensino e dele deves- se fazer parte em maior extens?úo do que a habitual) e quase todos hoje admitem que um aparente resultado da raz?úo ÔÇö o dom?¡nio de uma linguagem, a exist?¬ncia de um mundo percept?¡vel ricamen- te articulado, a capacidade l??gica ÔÇö ?® devido, em parte, ?á doutri- na?º?úo, e, em parte, a um processo de desenvolvimento que atua com a for?ºa de uma lei natural. E quando os argumentos parecem produzir efeito, isto se deve mais ?á repeti?º?úo f?¡sica do que ao seu Tendo admitido isso, tamb?®m devemos conceder que e- xiste a possibilidade de desenvolvimento n?úo argumentativo, as- sim no adulto como nas (partes teor?®ticas das) institui?º?Áes, tais como a ci?¬ncia, a religi?úo, a prostitui?º?úo e assim por diante. N?úo cabe, ao certo, dar como assentado que o poss?¡vel para uma crian?ºa ÔÇö adquirir, ao menos est?¡mulo, novos modos e com- portamento, adot?í-las sem esfor?ºo vis?¡vel ÔÇö est?í para al?®m do alcance de pessoas mais velhas. Antes, caberia esperar que alte- ra?º?Áes catastr??ficas do ambiente e f?¡sico, guerras, desmorona-

em verdade, regras e formas de pensamento falso e a?º?úo err??nea ÔÇö falso e err??nea, entenda-se, do ponto de vista do senso comum (cient?¡fico)2 Dessa maneira, o pensamento dial?®tico surge como uma forma de pensamento que `reduz ao nada as pormenorizadas de- (De passagem, importa assinalar que o freq??ente uso de pa- lavras como `progresso’, `avan?ºo’, `aperfei?ºoamento’, etc. n?úo sig- nifica afirme eu estar de posse de um conhecimento especial acer- ca do que seja bom e do que seja mau nas ci?¬ncias, nem significa pretenda eu impor esse conhecimento aos leitores. Cada qual ler?í as Assim, para um empirista, `progresso’ significar?í transi?º?úo para uma teoria capaz de permitir que a maioria de seus pressupostos b?ísicos seja objeto de testes emp?¡ricos diretos. Alguns acreditam que a essa esp?®cie pertence a teoria qu?óntica. Aos olhos de outros, `progresso’ poder?í significar unifica?º?úo e harmonia, talvez at?® mesmo ?ás expensas da adequa?º?úo emp?¡rica. Dessa maneira enca- rava Einstein a teoria geral da relatividade. E minha tese ?® a de que o anarquismo favorece a concretiza?º?úo do progresso em qualquer dos sentidos que a ele se decida emprestar. Mesmo uma ci?¬ncia que se paute pelo bem ordenado s?? alcan?ºar?í resultados se admitir, ocasionalmente, procedimentos an?írquicos.) ?ë claro, portanto, que a id?®ia de um m?®todo est?ítico ou de uma teoria est?ítica de racionalidade funda-se em uma concep?º?úo demasiado ing?¬nua do homem e de sua circunst?óncia social. Os que tomam do rico material da hist??ria, sem a preocupa?º?úo de empobrec?¬-lo para agradar a seus baixos instintos, a seu anseio de seguran?ºa intelectual (que se manifesta como desejo de clareza, precis?úo, `objetividade’, `verdade’), esses v?¬em claro que s?? h?í um princ?¡pio que pode ser defendido em todas as circunst?óncias e em todos os est?ígios do desenvolvimento humano. ?ë o princ?¡pio: tudo vale.

?ë preciso, agora, passar a examinar e a explicar esse princ?¡- pio abstrato, analisando-o em ternos pormenorizados e concretos.

NOTAS 1. Um dos poucos pensadores a compreender esse tra?ºo do e- volver do conhecimento foi Niels Bohr: `… ele nunca tentar?í esbo?ºar um quadro completo, mas acompanhar?í paciente- mente todas as fases de desenvolvimento de um problema, a partir de algum paradoxo manifesto, para gradualmente che- gar a sua elucida?º?úo. Em verdade, jamais encarar?í os resulta- dos obtidos como outra coisa que n?úo pontos de partida de outros estudos. Especulando acerca das perspectivas de uma linha de investiga?º?úo, afastar?í as habituais considera?º?Áes de simplicidade, eleg?óncia e mesmo de coer?¬ncia, observando que tais qualidades somente podem ser adequadamente ap??s (grifo meu) o evento…’ L. Rosenfeld, in Niels Bohr. His Life and Work as seen by his Friends and Colleagues, ed. S. Rosental, Nova Iorque, 1967, p. 117. Ora a ci?¬ncia jamais ?® um processo completo; est?í, portanto, sempre `antes’ do even- to.Conseq??entemente, a simplicidade, a eleg?óncia ou a coe- r?¬ncia jamais constituem condi?º?Áes necess?írias da pr?ítica (ci- 3. Hegel, Wissenschaft der Logik, vol. I, Meiner, Hamburgo, 1965, p. 6.

II Cabe, por exemplo, recorrer a hip??teses que contradizem te- orias confirmadas e/ou resultados experimentais bem esta- belecidos. ?ë poss?¡vel fazer avan?ºar a ci?¬ncia, procedendo contra-indutivamente.

Examinar o princ?¡pio em pormenor concreto significa tra- ?ºar as conseq???¬ncias das contra-regras que se op?Áem a algumas regras comuns do empreendimento cient?¡fico. Para ter id?®ia dessa forma de opera?º?úo, consideremos a regra segundo a qual ?® a ` ex- peri?¬ncia’ ou s?úo os ` fatos’ ou s?úo os ` resultados experimentais’ que medem o ?¬xito de nossas teorias, a regra segundo a qual uma concord?óncia entre a teoria e os ` dados’ favorece a teoria (ou n?úo modifica a situa?º?úo), ao passo que uma discord?óncia amea?ºa a teo- ria e nos for?ºa, por vezes, a elimin?í-la. Essa regra ?® elemento im- portante de todas as teorias da confirma?º?úo e da corrobora?º?úo. ?ë a ess?¬ncia do empirismo. A ` contra-regra’ a ela oposta aconselha- nos a introduzir e elaborar hip??teses que n?úo se ajustam a teorias firmadas ou a fatos bem estabelecidos. Aconselha-nos a proceder O procedimento contra-indutivo d?í surgimento ?ás seguin- tes indaga?º?Áes: ?ë a contra-indu?º?úo mais razo?ível do que a indu- ?º?úo? H?í circunst?óncias que lhe favore?ºam o uso? Quais os argu- mentos em seu favor? Quais os argumentos a ela contr?írios? Ser?í, talvez, cab?¡vel preferir sempre a indu?º?úo e n?úo a contraindu?º?úo? E assim por diante.

mos de um mundo imagin?írio para descobrir os tra?ºos do mundo real que supomos habitar (e que, talvez, em realidade n?úo passe de outro mundo imagin?írio). A primeira fase da cr?¡tica que dirigiremos contra os conceitos e processos comuns, o primeiro passo na cr?¡tica aos ` fatos’ h?í de consistir, portanto, em uma tentativa de romper o c?¡rculo vicioso. Temos de inventar um sistema concep- tual novo que ponha em causa os resultados de observa?º?úo mais cuidadosamente obtidos ou com eles entre em conflito, que frus- tre os mais plaus?¡veis te??ricos e que introduza percep?º?Áes que n?úo integrem o existente mundo percept?¡vel2. Esse passo ?® tam- b?®m de car?íter contra-indutivo. A contra-indu?º?úo, portanto, ?® sempre razo?ível e abre sempre uma possibilidade de ?¬xito.

como um agente secreto que participa do jogo da Raz?úo para so- lapar a autoridade da Raz?úo (Verdade, Honestidade, Justi?ºa e as- sim por diante)4.

NOTAS 1. Para esclarecer o papel de Pimandro na Revolu?º?úo Coperni- 2. `Entre em conflito’ ou `ponha em causa’ t?¬m o prop??sito de ser mais gerais do que `contradiz’. Afirmo que um conjunto de id?®ias ou a?º?Áes `conflita’ com um sistema conceptual se ?® incompat?¡vel com ele ou se faz o sistema parecer absurdo. Pa- 3. Dessa maneira, o Professor Ernan McMullin interpretou al- guns de meus primeiros artigos. Ver `A Taxonomy of the Re- lations between History and Philosophy of Science’, Minnesota 4. `Dada’, diz Hans Richter (in Dada: Art and Anti-Art) `n?úo se Isso n?úo exclui a habilidosa defesa dos programas, para mos- trar o car?íter quim?®rico de todas as defesas, ainda que `racio- nais’ . Cf., tamb?®m, cap?¡tulo XVI, texto correspondente ?ás no- tas 21, 22, 23. (De id?¬ntica maneira, um ator ou teatr??logo poderia apresentar todas as manifesta?º?Áes externas de `pro- fundo amor’ para desmascarar a impostura do `amor profun- do’. Exemplo: Pirandello.) Espero que essas observa?º?Áes afas- tem o temor que a senhorita Koertge manifesta de que eu a- penas pretendia iniciar um novo movimento, onde os lemas `proliferem’ ou `tudo vale’ substituam os lemas do falseamen- to, do indutivismo ou da programa?º?úo de pesquisas.

III A condi?º?úo de coer?¬ncia, por for?ºa da qual se exige que as hip??teses novas se ajustem a teorias aceitas, ?® desarrazoada, pois preserva a teoria mais antiga e n?úo a melhor. Hip??teses que contradizem teorias bem assentadas proporcionam-nos evid?¬ncia imposs?¡vel de obter por outra forma. A prolifera- ?º?úo de teorias ?® ben?®fica para a ci?¬ncia, ao passo que a uni- formidade lhe debilita o poder cr?¡tico. A uniformidade, al?®m disso, amea?ºa o livre desenvolvimento do indiv?¡duo.

No presente cap?¡tulo, oferecerei argumentos pormenoriza- dos, em prol da `contra-regra’ que nos impele a introduzir hip??te- ses incompat?¡veis com teorias bem assentadas. Os argumentos ser?úo indiretos. Levantar-se-?úo mediante cr?¡tica da exig?¬ncia de que as hip??teses novas devam ajustar-se ?áquelas teorias. A essa exig?¬ncia Prima facie, a condi?º?úo de coer?¬ncia pode ser apresentada em poucas palavras. ?ë sabido (e foi minuciosamente demonstrado por Duhem) que a teoria de Newton ?® incongruente com a lei da queda dos corpos, de Galileu, e com as leis de Kepler; que a termodin?ómi- ca estat?¡stica ?® inconsistente com a segunda lei da teoria fenomeno- l??gica; que a ??tica ondulat??ria ?® incompat?¡vel com a ??tica geom?®tri- ca; e assim por diante2. Note-se que estamos falando de incoer?¬ncia l??gica, podendo ocorrer que as diferen?ºas de previs?úo se mostrem muito pequenas para que um experimento as possa apontar. Note- se tamb?®m que estamos asseverando n?úo a incoer?¬ncia de, digamos, a teoria de Newton e a lei de Galileu, mas, antes, a incoer?¬ncia de al- gumas conseq???¬ncias da teoria de Newton, no dom?¡nio de validez da lei de Galileu com a lei de Galileu. Neste ??ltimo caso, a

situa?º?úo ?® particularmente clara. A lei de Galileu afirma que a ace- lera?º?úo dos corpos em queda livre ?® uma constante, enquanto a aplica?º?úo da lei de Newton ?á superf?¡cie da Terra indica uma acele- ra?º?úo que n?úo ?® constante, mas que decresce (embora impercepti- velmente) quando aumenta a dist?óncia em rela?º?úo ao centro da Mais abstratamente: consideremos uma teoria T’ que descre- ve adequadamente a situa?º?úo que se apresenta no dom?¡nio D’. T’ est?í em concord?óncia com um n??mero finito de observa?º?Áes (de classe, digamos, F) e em concord?óncia com essas observa?º?Áes den- tro da margem de erro M. Qualquer alternativa que se ponha em contradi?º?úo com T’, fora de F e dentro dos limites M, encontrar?í apoio naquelas mesmas observa?º?Áes e ser?í, portanto, aceit?ível, se T’ se mostrou aceit?ível. (Admitirei que F s?úo as ??nicas observa?º?Áes feitas.) A condi?º?úo de coer?¬ncia ?® muito menos tolerante. Elimina uma teoria ou uma hip??tese n?úo porque esteja em desacordo com os fatos; elimina-a quando ela se p?Áe em desacordo com outra teo- ria, com uma teoria, acentuemos, de cujas inst?óncias confirmadoras partilha. E dessa maneira transforma em medida de validade uma parte da teoria existente que ainda n?úo foi submetida a teste. A ??ni- ca diferen?ºa entre essa medida e uma teoria mais recente ?® apenas o tempo de exist?¬ncia e o contato maior que temos com a teoria usa- da como ponto de refer?¬ncia. Se a teoria mais recente fosse a mais antiga, a condi?º?úo de coer?¬ncia operaria em seu favor. `A primeira teoria adequada tem o direito de prioridade sobre teorias posterio- res igualmente adequadas’3. Sob esse aspecto, o efeito da condi?º?úo de coer?¬ncia ?® similar ao efeito dos mais tradicionais m?®todos de dedu?º?úo transcendental, de an?ílise de ess?¬ncias, de an?ílise fenome- nol??gica, de an?ílise ling???¡stica. Contribui para a preserva?º?úo do que ?® antigo e familiar, n?úo porque seja portador de qualquer inerente vantagem ÔÇö n?úo porque esteja melhor fundamentado na observa- ?º?úo do que a alternativa de sugest?úo recente ou porque seja mais elegante ÔÇö mas apenas por ser mais antigo e familiar. Essa n?úo

?® a ??nica situa?º?úo em que, a mais aprofundado exame, surge sur- preendente semelhan?ºa entre o empirismo de nossos dias e algu- Ora, parece-me que essas breves considera?º?Áes ÔÇö embora levem a uma interessante cr?¡tica t?ítica da condi?º?úo de coer?¬ncia e aos primeiros fragment?írios elementos de apoio ?á contra- indu?º?úo ÔÇö n?úo chegam, ainda, ao cerne da quest?úo. Mostram que uma alternativa para o ponto de vista aceito, alternativa que apresente os mesmos casos corroboradores, n?úo pode ser elimi- nada atrav?®s de arrazoado factual. N?úo demonstram que a alter- ?ë lament?ível, diria um defensor da condi?º?úo de coer?¬ncia, que o Acrescentar teorias novas de car?íter igualmente insatisfat??rio n?úo melhorar?í a situa?º?úo; nem h?í muito sentido no tentar substituir A substitui?º?úo n?úo se operar?í com facilidade. Talvez imponha dom?¡nio de um formalismo novo e talvez exija que problemas familiares sejam acomodados a pautas novas. Manuais ter?úo de ser reescritos, precisar?úo sofrer revis?Áes os curr?¡culos universit?í- rios e os resultados experimentais ser?úo reinterpretados. E qual o resultado de tal esfor?ºo? Outra teoria que, do ponto de vista emp?¡rico, n?úo oferece qualquer vantagem em rela?º?úo ?á que subs- tituiu. O ??nico aprimoramento real, continuaria o defensor da Esses fatos novos ou corroborar?úo as teorias em vigor ou nos for?ºar?úo a modific?í-las, indicando, com precis?úo, os pontos em que apresentam defici?¬ncias. Em ambos os casos, dar?úo lugar a progresso real e n?úo a altera?º?Áes arbitr?írias. O procedimento conveniente h?í de ser, portanto, o de confrontar a concep?º?úo aceita com tantos fatos relevantes quanto poss?¡vel. A exclus?úo de alternativas torna-se, pois, simples quest?úo de oportuni- dade: invent?í-las n?úo traz qualquer ajuda e chega a ser prejudicial ao progresso, pois absorve tempo e aten?º?úo que

poderiam ser devotados a prop??sitos melhores. A condi?º?úo de co- er?¬ncia afasta essas discuss?Áes est?®reis e for?ºa o cientista a concen- trar-se em fatos que, ao final, s?úo os ??nicos reconhecidos ju?¡zes de uma teoria. ?ë assim que o cientista militante justifica o apego a uma ??nica teoria, com exclus?úo das alternativas empiricamente Vale a pena voltar a real?ºar o n??cleo razo?ível desse argu- mento. As teorias n?úo devem ser modificadas, a menos que haja raz?Áes prementes para a modifica?º?úo. A ??nica raz?úo premente pa- ra alterar uma teoria ?® a discord?óncia com fatos. O exame de fatos incompat?¡veis com a teoria conduz, portanto, a progresso. Exame de hip??teses incompat?¡veis n?úo leva ao mesmo resultado. Conse- q??entemente, conv?®m agir de forma a fazer crescer o n??mero de fatos relevantes. N?úo conv?®m agir de maneira a fazer crescer o n??mero de alternativas factualmente adequadas, mas incompat?¡- veis. Talvez se desejasse acrescentar que o aperfei?ºoamento for- mal, traduzido em maior eleg?óncia, simplicidade, generalidade e coer?¬ncia, n?úo deve ser exclu?¡do. Mas, uma vez ocorridos esses aperfei?ºoamentos, parece que somente resta ao cientista a coleta E assim ?® ÔÇö contanto que os fatos existam e a eles se possa chegar, independentemente de se ter ou n?úo em conta alternativas da teoria a ser submetida a teste. A esse pressuposto, do qual depende, de ma- neira decisiva, a validez do argumento precedente, denominarei pressuposto da autonomia relativa dos fatos, ou princ?¡pio da autono- mia. N?úo assevera esse princ?¡pio que a descoberta e a descri?º?úo de fatos sejam independentes de todo teorizar. Assevera, por?®m, que ?® poss?¡vel chegar aos fatos integrados ao conte??do emp?¡rico de uma teoria, sejam ou n?úo consideradas as alternativas dessa teoria. N?úo me consta que esse important?¡ssimo pressuposto haja sido formula- do, explicitamente, como um postulado do m?®todo emp?¡rico. To- davia, ele est?í claramente presente em todas as investiga?º?Áes relati- vas a quest?Áes de confirma?º?úo e testes. Todas as investiga?º?Áes dessa

ordem utilizam modelo em que uma ??nica teoria ?® confrontada com uma classe de fatos (ou enunciados de observa?º?úo) que se presumem, de alguma forma, `dados’. Penso que esse retrato sim- plifica em demasia a situa?º?úo real. Os fatos e as teorias est?úo mui- to mais intimamente ligados do que o admite o princ?¡pio da auto- nomia. N?úo apenas ocorre que a descri?º?úo de cada fato singular depende de alguma teoria (que, naturalmente, pode diferir da teoria a ser submetida a teste), como tamb?®m ocorre existirem fatos que s?úo desvelados apenas com o aux?¡lio de alternativas da teoria a ser submetida a teste e que se tornam inacess?¡veis t?úo logo essas alter- nativas se v?¬em exclu?¡das. E isso leva a sugerir que a unidade me- todol6gica a que devemos referir-nos, ao discutir quest?Áes relati- vas a testes e a conte??do emp?¡rico, se constitui de todo um conjunto de teorias, parcialmente superpostas, factualmente adequadas, mas mutuamen- te inconsistentes. No presente cap?¡tulo, s?? apresentaremos um breve esbo?ºo desse modelo de teste. Antes de faz?¬-lo, entretanto, desejo examinar um exemplo que mostra claramente a fun?º?úo das alter- Sabe-se, hoje, que a part?¡cula browniana ?® m?íquina de mo- vimento perp?®tuo de segunda esp?®cie e que sua exist?¬ncia refuta a segunda lei fenomenol??gica. O movimento browniano coloca-se, pois, no dom?¡nio dos fatos relevantes para a lei. Ora, poderia essa rela?º?úo entre o movimento browniano e a lei ter sido descoberta de maneira direta, isto ?®, poderia ter sido descoberta por meio de exame das conseq???¬ncias observacionais da teoria fenomenol??gica que n?úo fizesse uso de uma teoria alternativa do calor? Essa inda- ga?º?úo abre-se, de imediato, em duas: (1) poderia a relev?óncia da par- t?¡cula browniana ter sido descoberta dessa maneira? (2) poderia ter A resposta ?á primeira pergunta ?®: n?úo o sabemos. ?ë im- poss?¡vel dizer o que teria ocorrido se a teoria cin?®tica n?úo fosse introduzida no debate. Suponho, entretanto, que, em tal caso, a part?¡cula browniana teria sido encarada como algo extra-

vagante ÔÇö muito ?á semelhan?ºa de como foram considerados ex- travagantes os surpreendentes efeitos relatados pelo falecido pro- fessor Ehrenhaft5 ÔÇö e n?úo lhe teria sido atribu?¡da a posi?º?úo deci- siva que lhe est?í reservada na doutrina contempor?ónea. A resposta ?á segunda pergunta ?® simplesmente: N?úo. Consideremos o que se tornaria necess?írio fazer, em face da descoberta de inconsist?¬ncia entre o fen??meno do movimento browniano e a segunda lei. Im- por-se-ia: (a) medida do movimento exato da part?¡cula para determi- nar a altera?º?úo de sua energia cin?®tica plus a energia despendida para vencer a resist?¬ncia do fluido; e (b) medida precisa de tempe- ratura e de transfer?¬ncia de calor no meio circundante, para asse- gurar que toda perda ocorrida se v?¬, de fato, compensada pelo a- cr?®scimo de energia da part?¡cula em movimento e pelo trabalho executado contra o fluido. Essas medi?º?Áes colocam-se fora das possibilidades experimentais6: nem a transfer?¬ncia de calor nem a Conseq??entemente, ?® imposs?¡vel uma refuta?º?úo ` direta’ da segun- da lei, refuta?º?úo que t?úo-somente levaria em conta a teoria feno- menol??gica e os fatos concernentes ao movimento browniano. ?ë imposs?¡vel a refuta?º?úo em virtude da estrutura do mundo em que vivemos e das leis v?ílidas nesse mundo. Ali?ís, como se sabe, a real refuta?º?úo surgiu por caminho muito diverso. Surgiu via teoria ci- n?®tica e a partir do uso que dela fez Einstein para calcular as pro- priedades estat?¡sticas do movimento browniano. Ao longo desse procedimento, a teoria fenomenol??gica (T’) viu-se incorporada ao contexto mais amplo da f?¡sica estat?¡stica (T) de modo a violar-se a condi?º?úo de coer?¬ncia; depois disso, preparou-se um experimento Parece-me que esse ?® exemplo t?¡pico da rela?º?úo que se estabeleceu entre as teorias ou os pontos de vista muito gerais e os `fatos’. A relev?óncia e o car?íter refutador dos fatos deci- sivos s?? podem ser verificados com o aux?¡lio de outras teorias que, embora factualmente adequadas8, n?úo est?úo em concor- d?óncia com a concep?º?úo a ser submetida a teste. Assim sendo,

a inven?º?úo e articula?º?úo de alternativas talvez tenham de preceder a apresenta?º?úo dos fatos refutadores. O empirismo, pelo menos em algumas de suas mais sofisticadas vers?Áes, exige que o conte??- do emp?¡rico de todo conhecimento por n??s conseguido seja au- mentado o quanto poss?¡vel. Conseq??entemente, a inven?º?úo de alternati- vas para a concep?º?úo que est?í em debate constitui parte essencial do m?®todo emp?¡rico. Inversamente, a circunst?óncia de a condi?º?úo de coer?¬ncia eliminar alternativas mostra, agora, que ela est?í em discord?óncia Afastando testes valiosos, reduz o conte??do emp?¡rico das teorias autorizadas a permanecer (e estas, como acima referi, ser?úo, ge- ralmente, as teorias que primeiro se viram formuladas); e, em es- pecial, reduz o n??mero de fatos que evidenciariam as limita?º?Áes daquelas teorias. Este ??ltimo resultado de determinada aplica?º?úo da condi?º?úo de coer?¬ncia ?® de interesse muito restrito. Pode muito bem ocorrer que a refuta?º?úo das incertezas, em mec?ónica qu?óntica, pressuponha exatamente uma incorpora?º?úo da atual teoria em um contexto mais amplo que n?úo esteja em concord?óncia com a id?®ia de complementaridade e. que, portanto, sugira experimentos no- vos e decisivos. E pode tamb?®m ocorrer, se bem sucedida, que, a insist?¬ncia, por parte da maioria dos f?¡sicos de hoje, em defender as condi?º?Áes de coer?¬ncia, impe?ºa, para sempre, as incertezas de se verem refutadas. Dessa maneira, a condi?º?úo, ao final, dar?í mar- gem a uma situa?º?úo em que certo ponto de vista se petrifique em dogma, sendo posto, em nome da experi?¬ncia, em posi?º?úo intei- Vale a pena examinar, com maior min??cia, essa defesa, apa- rentemente `emp?¡rica’, de um ponto de vista dogm?ítico. Admita- mos que os f?¡sicos hajam acolhido, consciente ou inconscien- temente, a id?®ia da singularidade da complementaridade e que se recusem a examinar alternativas. De in?¡cio, ?® poss?¡vel que esse procedimento se mostre inofensivo. Afinal de contas, um homem e mesmo uma escola influente s?? podem fazer umas

auxiliares, destinadas a abranger casos especiais, de sorte que fa- cilmente alcan?ºa alto grau de confirma?º?úo baseado em observa- ?º?Áes. O mito foi ensinado por longo tempo; seu conte??do recebe o refor?ºo do medo, do preconceito e da ignor?óncia, ao mesmo tempo que de um exerc?¡cio clerical zeloso e cruel. Suas id?®ias pe- netram o idioma comum; infeccionam todas as formas de pensa- mento e atingem muitas decis?Áes de relevante significa?º?úo para a vida humana. O mito proporciona modelos para a explica?º?úo de qualquer conceb?¡vel evento ÔÇö conceb?¡vel, entenda-se, para os que aceitaram o mito 11. Assim sendo, seus termos-chave ver-se-?úo fi- xados de maneira clara; e a id?®ia (que talvez tenha, originalmente, levado a esse procedimento) de que s?úo c??pias de entidades isen- tas de altera?º?Áes e que a altera?º?úo de significado, se ocorrer, se de- ver?í a erro humano ÔÇö essa id?®ia passar?í a apresentar-se como plaus?¡vel. Essa plausibilidade fala em favor de todas as manobras utilizadas para a preserva?º?úo do mito (inclusive a elimina?º?úo de oponentes). O aparelhamento conceptual da teoria e as emo?º?Áes ligadas ?á sua aplica?º?úo, insinuando-se em todos os meios de co- munica?º?úo, em todas as a?º?Áes e, afinal, em toda a vida da comuni- dade, passam a garantir o ?¬xito de m?®todos tais como o da dedu- ?º?úo transcendental, da an?ílise de uso, da an?ílise fenomenol??gica ÔÇö meios de emprestar maior solidez ao mito (o que mostra, assi- nalemos de passagem, que todos esses m?®todos, caracter?¡sticos de escolas filos??ficas antigas e modernas, apresentam um tra?ºo co- mum: tendem a preservar o status quo da vida intelectual). Tamb?®m os resultados de observa?º?úo falar?úo em favor da teoria, de vez que formulados com observ?óncia de seus termos. E surge a impress?úo de se haver, finalmente, alcan?ºado a verdade. Torna-se evidente, ao mesmo tempo, que se perdeu todo contato com o mundo e que a estabilidade atingida, a apar?¬ncia de verdade absoluta, n?úo passa do resultado de um conformismo absoluto12. Com efeito, como ser?í poss?¡vel submeter a teste ou aprimorar a verdade de uma teoria, se ela ?® elaborada de maneira tal que qualquer acontecimento conceb?¡vel

pode ser descrito e explicado nos termos de seus princ?¡pios? A ??- nica maneira de estudar esses princ?¡pios que a tudo abrangem seria compar?í-los com um conjunto de outros princ?¡pios igualmente abran- gentes ÔÇö mas a possibilidade desse procedimento est?í, desde o in?¡- cio, afastada. O mito n?úo tem, pois, relev?óncia objetiva; continua a existir apenas como resultado do esfor?ºo da comunidade de cren- tes e de seus orientadores, sejam estes sacerdotes ou vencedores do Pr?¬mio Nobel. Esse ?®, a meu ver, o mais forte argumento con- tra qualquer m?®todo que estimule a uniformidade, quer seja esse m?®todo emp?¡rico ou n?úo. Cada m?®todo dessa esp?®cie ?®, em ??ltima an?ílise, um m?®todo decepcionante. D?í for?ºas a um conformismo sombrio e fala de verdade; leva ?á deteriora?º?úo das capacidades in- destr??i o mais precioso dom da juventude ÔÇö o enorme poder de Resumindo: Unanimidade de opini?úo pode ser adequada para uma igreja, para as v?¡timas temerosas ou ambiciosas de algum mito (antigo ou moderno) ou para os fracos e conformados segui- dores de algum tirano. A variedade de opini?Áes ?® necess?íria para o conhecimento objetivo. E um m?®todo que estimule a variedade ?® a ??nico m?®todo compat?¡vel com a concep?º?úo humanitarista. (Na medida em que a condi?º?úo de coer?¬ncia restringe a variedade, ela encerra um elemento teol??gico, elemento que se traduz na adora- ?º?úo dos “fatos”, que ?® um tra?ºo caracter?¡stico de quase todo empi- rismo13.)

NOTAS 1. A condi?º?úo de coer?¬ncia remonta pelo menos a Arist??te- les. Desempenha papel importante na filosofia de Newton

(embora Newton a violasse constantemente). ?ë acolhida pela 2. Pierre Duhem, La Th?®orie Physique: Son objet, Sa Structure, Paris, 1914, cap?¡tulo IX e X. Em seu Objective Knowledge. Oxford, 1972, pp. 204-5, Karl Popper cita-me para apoiar a afirma?º?úo de que foi dele, originalmente, a id?®ia `segundo a qual as teori- as podem corrigir uma lei relativa a ÔÇ£observa?º?ÁesÔÇØ ou a ÔÇ£fen??- menosÔÇØ que elas, supostamente, devem explicar’ . Comete ele dois equ?¡vocos. O primeiro consiste em admitir que as refe- r?¬ncias que a ele fa?ºo constituem prova hist??rica de sua prio- O segundo equ?¡voco est?í em olvidar que a id?®ia referida j?í ocorre em Duhem, em Einstein e, especialmente, em Boltz- mann, que antecipou todas as observa?º?Áes filos??ficas de ` The Com respeito a Boltzmann, cf. meu artigo na Encyclopaedia of Philosophy, ed. Paul Edwards. Com respeito a Duhem, cf. Objec- 3. C. Truesdell, `A Program Toward Rediscovering the Rational Mechanics of the Age of Reason’, Archives for the History of 4. Evid?¬ncia mais minuciosa a prop??sito da exist?¬ncia dessa atitude e de sua influ?¬ncia sobre o desenvolvimento das ci- ?¬ncias encontra-se em Thomas Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, Chicago, 1962. A atitude ?® extremamente comum no campo da teoria qu?óntica. `Tiremos vantagem das teorias bem sucedidas de que dispomos e n?úo percamos tempo a imaginar o que ocorreria se utiliz?íssemos outras teorias’ pa- rece constituir a diretriz orientadora de quase todos os f?¡si- cos de nossa ?®poca (cf., por exemplo, W. Heisenberg, Physics and Philosophy, Nova Iorque, 1958, pp. 56 e 144) e dos fil??so- fos `cient?¡ficos’ (p. ex., N. R. Hanson, `Five Cautions for the Copenhagen Critics’, Philosophy of Science, n??.. 26, 1959, pp. 325

ss.). A atitude se manifesta nos artigos e nas catas de Newton (endere?ºadas a Hooke, Pardies e outros) acerca da teoria das cores e se manifesta, ainda, em sua metodologia geral (cf. mi- nhas refer?¬ncias em `Classical Empiricism’. The Methodological 5. Tendo, em variadas condi?º?Áes, testemunhado esses fen??me- nos, reluto muito mais do que a comunidade cient?¡fica atual em afast?í-los, em d?í-los como simples Dreckeffekt. Cf. tradu- ?º?úo que fiz de confer?¬ncias pronunciadas por Ehrenhaft, em Viena, no ano 1947, e que me disponho a fornecer mediante solicita?º?úo postal. Era melhor professor que a maioria dos ou- tros e deu a seus alunos muito melhor id?®ia acerca do car?íter prec?írio do conhecimento f?¡sico. Ainda recordo qu?úo interes- sadamente estudamos a teoria de Maxwell (no manual de A- braham-Becker, em Heaviside, freq??entemente mencionado nas exposi?º?Áes de Ehrenhaft, e nos trabalhos originais do pr??prio Maxwell) e a teoria da relatividade, com o objetivo de refutar sua assevera?º?úo segundo a qual a F?¡sica te??rica era desprovida de sentido; e qu?úo surpresos e desapontados nos sentimos ao descobrir que n?úo havia cadeia dedutiva direta a conduzir da teoria ao experimento e que muitas dedu?º?Áes ofe- recidas eram assaz arbitr?írias. Demo-nos conta, ainda, de que quase todas as teorias ap??iam sua solidez em um reduzido n??mero de casos paradigm?íticos, sendo necess?írio compro- meter-lhes a estrutura para que passem a abranger os casos restantes. ?ë lament?ível que os fil??sofos da ci?¬ncia s?? rara- mente se ocupem de casos de fronteira, como faziam Ehre- nhaft ou Velikovsky, preferindo ver-se reconhecidos pelos donos da ci?¬ncia (e na pr??pria ?írea de naufr?ígio) a alcan?ºar 6. Para min??cias, ver Zs. Physik, vol. 81 (1933), pp. 143 ss.

do artigo de Elie Zahar, `Why Did Einstein’ s Programme su- persede Lorentz’s?’, British Journal for the Philosophy of Science, ju- 10. L. Rosenfeld, `Misunderstandings about the Foundations of the Quantum Theory’ , Observation and lnterpretation, ed. Kor- 11. Para descri?º?Áes minuciosas, cf. Ch. H. Lea, Materials for a His- tory of Witchcraft, Nova Iorque, 1957, bem como H. Trevor- Roper, The European Witch Craze, Nova Iorque, 1969, onde h?í 12. A an?ílise do uso, para considerar apenas um exemplo, pres- sup?Áe a exist?¬ncia de certas regularidades concernentes ao u- so. Quanto mais as pessoas diferem, no que concerne a id?®ias fundamentais, mais dif?¡cil se torna desvelar essas regularida- des. Conseq??entemente, a an?ílise do uso operar?í melhor em uma sociedade fechada, que se mantenha unida gra?ºas a um poderoso mito como se deu com a sociedade dos fil??sofos de Oxford, que existia h?í cerca de vinte anos. Os esquizofr?¬nicos sustentam, muito freq??entemente, cren?ºas t?úo r?¡gidas, amplas e desligadas da realidade quanto as melhores filosofias dogm?í- ticas. Note-se, contudo, que essas cren?ºas lhes ocorrem natu- ralmente, ao passo que por vezes, um fil??sofo `cr?¡tico’ dedica toda sua vida ?á tentativa de encontrar argumentos que criem 13. ?ë interessante notar que s?úo quase id?¬nticas as trivialida- des que levaram os protestantes ?á B?¡blia e as trivialidades que levam os empiristas e outros fundamentalistas ao que lhes serve de fundamento, a saber, a experi?¬ncia. Assim, em seu Novum Organum, Bacon pede que todas as no?º?Áes preconcebidas (aforismo 36), todas as opini?Áes (aforismo 42 ss.) e mesmo as palavras (aforismo 59, 121) `sejam conjuradas e a elas se renuncie com firme e solene

resolu?º?úo e delas deve a compreens?úo libertar-se completa- mente, de sorte que o acesso ao reino do homem, reino que se fundamenta nas ci?¬ncias, possa assemelhar-se a um acesso ao reino dos c?®us, onde s?? se concede entrada ?ás crian?ºas’ (afo- rismo 68). Em ambos os casos, a `disputa’ (que ?® considera?º?úo de alternativas) se v?¬ criticada; em ambos os casos somos convidados a afast?í-la; e, em ambos os casos, nos prometem `imediata percep?º?úo’, aqui, de Deus, e l?í, da Natureza. Para in- forma?º?úo acerca do pano de fundo teor?®tico de tal similarida- de, cf. meu ensaio `Classical Empiricism’, in The Methodological Para informa?º?úo acerca dos fortes la?ºos entre o puritanismo e a ci?¬ncia moderna, ver R. T. Jones, Ancients and Moderns, Cali- f??rnia, 1965, cap?¡tulos 5-7. Exame exaustivo dos numerosos fatores que influenciaram o surgimento do moderno empiris- mo encontra-se em R. K. Merton, Science, Technology and Society in Seventeenth Century England, Nova Iorque, Howard Fertig, 1970 (vers?úo-livro do artigo de 1938).

IV Qualquer id?®ia, embora antiga e absurda, ?® capaz de aperfei- ?ºoar nosso conhecimento. A ci?¬ncia absorve toda a hist??ria do pensamento e a utiliza para o aprimoramento de cada te- oria. E n?úo se respeita a interfer?¬ncia pol?¡tica. Ocorrer?í que ela se fa?ºa necess?íria para vencer o chauvinismo da ci?¬ncia que resiste em aceitar alternativas ao status quo.

avan?ºada e aparentemente mais precisa n?úo ?® invulner?ível, po- dendo ser alterada ou inteiramente destru?¡da com o aux?¡lio de i- d?®ias que a vaidade da ignor?óncia j?í tenha lan?ºado nos cestos de res?¡duos da Hist??ria. Essa a via pela qual o conhecimento de hoje pode, amanh?ú, passar a ser visto como conto de fadas; essa a via pela qual o mito mais rid?¡culo pode vir a transformar-se na mais O pluralismo das teorias e das doutrinas metaf?¡sicas n?úo ?® apenas importante para a metodologia; tamb?®m ?® parte essencial da concep?º?úo humanit?íria. Educadores progressistas t?¬m sempre tentado desenvolver a individualidade de seus disc?¡pulos, para as- segurar que frutifiquem os talentos e convic?º?Áes particulares e, por vezes, ??nicos que uma crian?ºa possua. Contudo, uma educa- ?º?úo desse tipo tem sido vista, muitas vezes, como um f??til exerc?¡- cio, compar?ível ao de sonhar acordado. Com efeito, n?úo se faz N?úo significa isso dever ele absorver um particular conjunto de concep- ?º?Áes, com exclus?úo de tudo o mais? E, se um tra?ºo de imagina?º?úo nele permanecer, n?úo encontrar?í adequada aplica?º?úo nas artes ou em um fluido reino de sonhos que pouco tenha a ver com o mun- do em que vivemos? Ao final, n?úo levar?í esse processo a um di- v??rcio entre a realidade odiada e as deliciosas fantasias, entre a ci- ?¬ncia e as artes, entre a descri?º?úo cautelosa e a irrestrita auto- express?úo? Os argumentos em prol da pluralidade evidenciam que isso n?úo precisa acontecer. ?ë poss?¡vel conservar o que mereceria o nome de liberdade de cria?º?úo art?¡stica e us?í-la amplamente n?úo ape- nas como trilha de fuga, mas como elemento necess?írio para des- cobrir e, talvez, alterar os tra?ºos do mundo que nos rodeia. Essa coincid?¬ncia da parte (o indiv?¡duo) com o todo (o mundo em que vive), do puramente subjetivo e arbitr?írio com o objetivo e sub- misso a regras, constitui um dos mais fortes argumentos em favor da metodologia pluralista. Para maior esclarecimento, o leitor ?® convidado a consultar o magn?¡fico ensaio de Mill, On Liberty14.

cional, que deu surgimento a escolas, observat??rios, tradi?º?Áes cient?¡ficas e interessant?¡ssimas teorias. Essas teorias, que eram expressas em termos sociol??gicos e n?úo matem?íticos, deixa- ram suas marcas na sagas, nos mitos, nas lendas e podem ser reconstru?¡das de duas maneiras; avan?ºando, no presente, a partir dos resqu?¡cios da astronomia da Idade da Pedra (tais como pedras mareadas, observat??rios de pedra, etc.) ou recu- ando para o passado, a partir de vest?¡gios liter?írios que encon- Marshack, The Roots of Civilization, Nova Iorque, 1972. Exem- plo do segundo m?®todo est?í em de Santillana ÔÇö von De- chend, Hamlet’s Mill, Boston, 1969. Para um sum?írio e inter- preta?º?úo, cf. meu Einf??hrung in die Naturphilosophie, Braunschweig 8. Cf. cap?¡tulo 9 de L?®vi-Strauss, Structural Anthropology, Nova I- orque, 1967. Quanto ?á base fisiol??gica de vodu, cf. C. R. Rich- ter, `The Phenomenon of Unexplained Sudden Death’, in The Cannon, Bodily Changes in Pain, Hunger, Fear and Rage, Nova I- orque, 1915, e ` ÔÇ£VoodooÔÇØ Death’, in American Anthropologist, nova s?®rie, xliv, 1942. Minuciosas observa?º?Áes biol??gicas e meteorol??gicas feitas pelos chamados `primitivos’ s?úo apre- 9. R. C. Croizier, Traditional Medicine in Modern China, Harvard University Press, 1968. O autor oferece vers?úo equilibrada e interessant?¡ssima dos desenvolvimentos havidos, incluindo numerosas cita?º?Áes retiradas de livros, jornais, panfletos, mas, freq??entes vezes, mostra inibi?º?úo, que se prende a seu respei- 10. Chou Shao, 1933, citado por Croizier, op. cit., p. 109. Cf., tamb?®m, D. W. Y. Kwok, Scientism in Chinese Thought, New Haven, 1965.

`Experts in a Free Society’, The Critic, novembro/dezembro de 1970, e cap?¡tulo XVIII deste ensaio. Para informa?º?úo acerca das tens?Áes entre `vermelho’ e `t?®cnico’, cf. F. Schurmann, Ide- ology and Organization in Communist China, University of Califor- 12. Para informa?º?úo acerca dos resultados iniciais, cf. T. Nakaya- ma Acupuncture et M?®dicine Chinoise Verifi?®es au Japon, Paris, 1934, e F. Mann Acupuncture, Nova Iorque, 1962; edi?º?úo revis- ta, Nova Iorque, 1973. Na medicina tradicional, a verifica?º?úo de pulsa?º?úo ?® o principal m?®todo de diagn??stico, consideran- do-se 12 diferentes tipos de pulsa?º?úo. E. H. Hume, Doctors East and West, Baltimore, 1940, pp. 190-2, fortalece interessan- tes exemplos em que o diagn??stico fundado, na pulsa?º?úo e o Cf., tamb?®m, E. H. Hume, The Chinese Way of Medicine, Balti- more, 1940. Para conhecer o desenvolvimento hist??rico e ter informa?º?Áes adicionais, cf. a introdu?º?úo a The Yellow Emperor’s Classic of Internal Medicine, trad. llza Veith, Berkeley e Los An- 14. Cf. a refer?¬ncia que fa?ºo a esse ensaio na se?º?úo 3 de `Against Method’, Minnesota Studies in the Philosophy of Science, vol. 4, Minneapolis, 1970.

V Nenhuma teoria est?í em concord?óncia com todos os fatos de Os fatos se prendem a ideologias mais antigas, e um conflito entre fatos e teorias pode ser evid?¬ncia de progresso. Esse conflito corresponde, ainda, a um primeiro passo na tentati- va de identificar princ?¡pios impl?¡citos em no?º?Áes observa- cionais comuns.

creve ele em obra mais tardia3, `quando penso que Aristarco e Co- p?®rnico foram capazes de levar a raz?úo a dominar de tal modo a sensibilidade que, em detrimento desta ??ltima, a primeira se fez senhora da cren?ºa que professavam’. A teoria da gravita?º?úo, pro- posta por Newton, viu-se, desde o in?¡cio, frente a dificuldades s?®- rias, que propiciavam material para sua refuta?º?úo. Ainda hoje, no campo n?úo-relativista, `existem discrep?óncias numerosas entre a observa?º?úo e a teoria’4. O modelo at??mico de Bohr foi introduzi- do e conservado, apesar de clara e inabal?ível evid?¬ncia em contr?í- rio5. A teoria especial da relatividade manteve-se, a despeito dos transparentes resultados experimentais obtidos por Kaufmann, em 1906, e a despeito da refuta?º?úo D. C. Miller (falo de refuta?º?úo porque o experimento foi, do ponto de vista da evid?¬ncia poss?¡vel na ?®poca, pelo menos t?úo bem realizado quanto os experimentos iniciais de Michelson e Morley)6. A teoria geral da relatividade em- bora surpreendentemente bem sucedida em alguns setores (tenha- se em conta, n?úo obstante, as observa?º?Áes abaixo), falhou no ex- plicar 10ÔÇØ no movimento dos pontos nodais de V?¬nus e mais de 5ÔÇØ no movimento dos pontos nodais de Marte7; al?®m disso, en- frenta, agora, novas dificuldades, devido aos c?ílculos do movi- mento de Merc??rio, feitos por Dicke e outros8. Todos esses s?úo problemas de ordem quantitativa e podem ser resolvidos com a descoberta de um melhor conjunto de n??meros, sem for?ºar-nos a O segundo caso, das falhas qualitativas, ?® menos conhecido, mas de interesse muito maior. Nesse caso, a teoria ?® incompat?¡vel n?úo com um fato rec??ndito, que pode ser trazido ?á luz com o au- x?¡lio de equipamento complexo e s?? ?® conhecido por especialistas, mas ?® inconsistente com circunst?óncias facilmente percebidas e O primeiro e, a meu ver, o mais importante exemplo de uma inconsist?¬ncia desse tipo ?® a teoria de Parm?¬nides a prop??- sito do imut?ível e homog?¬neo, teoria contraditada por quase tu- do que ?® de n??s conhecido e de que temos experi?¬ncia. A

plo disso ?® a atitude em face da regra de Kepler, segundo a qual um objeto, visto atrav?®s de uma lente, ?® percebido no ponto de interse?º?úo dos raios que caminham da lente para o olho15. A regra implica que ser?í visto como infinitamente afastado o objeto que se situe no foco.

`Ao contr?írio, entretanto’, escreve Barrow, professor de Newton e seu predecessor em Cambridge, fazendo coment?írio em torno dessa predi?º?úo16, `a experi?¬ncia nos assegura que [um ponto situado nas vizinhan?ºas do foco] aparece a dist?óncias v?írias, na depend?¬ncia das diferentes situa?º?Áes do olho… E quase nunca pa- rece mais afastado do que estaria, se diretamente visto a olho de- sarmado; por vezes, ali?ís, parece muito mais pr??ximo. …E tudo isso d?í a impress?úo de escapar a nossos princ?¡pios’. `Em mim, po- r?®m’, continua Barrow, `nem essa, nem qualquer outra dificuldade exercer?í influ?¬ncia t?úo grande a ponto de levar-me a renunciar ?á- quilo que sei ser claramente agrad?ível ?á raz?úo.’

(E + v x B), onde Q ?® a carga da part?¡cula que se move, V ?® a sua velocidade e B ?® o campo el?®trico. Essa magnitude se reduz, em todos os casos, a QEV, a menos que estejamos dispostos a admi- tir a exist?¬ncia de p??los magn?®ticos singulares. (Em contexto ade- quado, esse resultado d?í forte apoio ?ás id?®ias e ?ás descobertas ex- perimentais do falecido Felix Ehrenhaft22.) ?ë imposs?¡vel, muitas vezes, fazer o levantamento de todas as conseq???¬ncias interessantes de uma teoria ÔÇö e assim descobrir os resultados absurdos que dela decorrem. Isso talvez se deva ?á defici?¬ncia dos m?®todos matem?íticos existentes e pode tamb?®m dever-se ?á ignor?óncia dos que defendem a teoria. Em tais circuns- t?óncias, o mais comum ?® utilizar uma teoria at?® certo ponto (fre- q??entemente arbitr?írio) e considerar uma teoria nova para c?ílculo de aspectos mais refinados. Do ponto de vista metodol??gico, esse procedimento ?® um verdadeiro pesadelo. Expliquemo-nos, usando como exemplo o c?ílculo de trajet??ria de Merc??rio, nos termos de O peri?®lio de Merc??rio se desloca a um ?¡ndice de aproxi- madamente 5.600ÔÇØ por s?®culo. Desse valor, 5.026ÔÇØ s?úo geom?®tri- cos, estando ligados ao movimento do sistema de refer?¬ncia, ao passo que 575ÔÇØ s?úo din?ómicos e devidos a perturba?º?Áes do siste- ma solar. Todas essas perturba?º?Áes, exceto os famosos 43ÔÇØ, s?úo explicados pela mec?ónica cl?íssica. E nesses termos a explica?º?úo ?® A explica?º?úo mostra que a premissa de onde derivamos os 43ÔÇØ n?úo ?® a teoria geral da relatividade aliada a convenientes con- di?º?Áes iniciais. A premissa inclui a F?¡sica al?®m dos pressupostos re- lativistas admitidos. E ocorre mais: o c?ílculo relativista, a chamada `solu?º?úo Schwarzschild’, n?úo diz respeito apenas ao sistema plane- t?írio tal como este existe no mundo real (isto ?®, em nossa gal?íxia as sim?®trica); diz respeito ao caso inteiramente fict?¡cio de um uni- verso de simetria central, encerrando uma singularidade em ponto m?®dio e nada mais. Quais as raz?Áes para recorrer a t?úo estranha combina?º?úo de premissas?

A raz?úo, nos termos da resposta costumeira, est?í em que trabalhamos com aproxima?º?Áes. As f??rmulas da F?¡sica cl?íssica n?úo aparecem porque a relatividade ?® incompleta. E o caso da si- metria central n?úo ?® invocado porque a relatividade nada oferece de melhor. Ambos os esquemas defluem da teoria geral, sob cir- cunst?óncias especiais que se manifestam em nosso sistema plane- t?írio, contanto que omitamos magnitudes demasiado reduzidas para merecer considera?º?úo. Em conseq???¬ncia, estamos usando ampla- mente a teoria da relatividade e a estamos usando de maneira a- Note-se como essa id?®ia de aproxima?º?úo difere da id?®ia le- g?¡tima. Geralmente, dispomos de uma teoria, temos como fazer os c?ílculos acerca do particular caso de nosso interesse, notamos que esses c?ílculos nos conduzem a magnitudes que se colocam abaixo do n?¡vel de precis?úo experimental, omitimos essas magnitudes e chegamos a um formalismo fortemente simplificado. No caso que nos ocupa, efetuar as aproxima?º?Áes requeridas equivaleria a calcu- lar, em bases relativistas, todos os problemas dos n-corpos (inclu- sive resson?óncias a longo termo entre as diferentes ??rbitas plane- t?írias), desprezando magnitudes inferiores ?á precis?úo da observa- ?º?úo e mostrando que a teoria, dessa maneira simplificada, coincide com a mec?ónica celeste cl?íssica, tal como corrigida por Schwarzs- child. Esse procedimento jamais foi utilizado porque o problema relativista dos n-corpos continua a resistir a uma solu?º?úo. Nem se- quer existem solu?º?Áes aproximadas para problemas importantes, como, por exemplo, o problema da estabilidade (um dos primei- ros grandes empecilhos com que se defrontou a teoria de New- ton). A parte cl?íssica do explanans n?úo ocorre, pois, t?úo-somente por for?ºa de conveni?¬ncia ÔÇö ?® absolutamente necess?íria. E as apro- xima?º?Áes feitas n?úo s?úo o resultado de c?ílculos relativistas, mas s?úo introduzidas para levar a relatividade a acomodar-se ao caso Na moderna f?¡sica matem?ítica, s?úo comuns as aproxima- ?º?Áes ad hoc. Desempenham importante papel na teoria qu?ónti-

Avancemos. N?úo apenas se d?í que fatos e teorias encon- tram-se em constante desarmonia, mas d?í-se ainda que jamais se acham t?úo nitidamente separados como todos parecem crer. As regras metodol??gicas falam de `teorias’, `observa?º?Áes’ e `resultados experimentais’ como se se tratasse de objetos claros e bem defini- dos, de propriedades f?íceis de avaliar e entendidos da mesma Todavia, o material de que o cientista realmente disp?Áe ÔÇö as leis, os resultados experimentais, as t?®cnicas matem?íticas, os pre- conceitos epistemol??gicos, a atitude frente ?ás absurdas conse- q???¬ncias das teorias que aceita ÔÇö ?®, sob muitos aspectos, inde- terminado, amb?¡guo e jamais se acha totalmente desvinculado de sua his- t??ria. Esse material sempre se acha contaminado por princ?¡pios que o cientista n?úo conhece e que, se conhecidos, dificilmente se- riam pass?¡veis de testes. Discut?¡veis concep?º?Áes acerca da cogni- ?º?úo ÔÇö como a de que os sentidos, usados em circunst?óncias nor- mais, fornecem fidedignas informa?º?Áes acerca do mundo ÔÇö inva- dem a pr??pria linguagem da observa?º?úo, passando a constituir termos observacionais, bem como a servir de base para a distin?º?úo entre apar?¬ncia ilus??ria e apar?¬ncia verdadeira. Como resultado, d?í-se que as linguagens de que se vale a observa?º?úo prendem-se a velhas camadas da especula?º?úo que afetam, dessa maneira indireta, at?® a mais progressiva metodologia. (Exemplo: a estrutura espa?ºo- tempo, da F?¡sica tradicional, codificada e consagrada por Kant.) A impress?úo sensorial, por simples que seja, sempre cont?®m um componente que traduz a rea?º?úo fisiol??gica do organismo percep- tivo, a qual n?úo tem correlato objetivo. Esse componente `subjeti- vo’ freq??entemente se combina com os demais, para formar um conjunto n?úo estruturado, que deve ser subdividido a partir do ex- terior, com aux?¡lio de procedimentos contra-indutivos. (Exemplo disso ?® a apar?¬ncia que tem uma estrela fixa vista a olho desarma- do, apar?¬ncia onde se incluem os efeitos subjetivos de irradia?º?úo, difra?º?úo, difus?úo, restritos pela inibi?º?úo lateral dos elementos adjacentes da retina.) E, por fim, surgem as premissas auxilia-

de nossas teorias. Julgamento das teorias pelos `fatos’, procedido de maneira imediatista e inapta, poder?í eliminar id?®ias, simplesmente porque eles n?úo se amoldam ao sistema de refer?¬ncia de alguma cosmologia mais antiga. Dar por certos os resultados e observa?º?Áes experimen- tais, lan?ºando o ??nus da prova sobre a teoria equivale a acolher a ideologia observacional sem t?¬-la jamais examinado. (Note-se ha- ver a suposi?º?úo de que os resultados experimentais foram obtidos com o maior cuidado poss?¡vel. Conseq??entemente, `dar por certos os resultados, etc.’ equivale a `d?í-los por certos ap??s o mais cuida- doso exame de sua fidedignidade'; com efeito, nem mesmo o mais cuidadoso exame que se fa?ºa de um enunciado de observa?º?úo chega a interferir com os conceitos que o expressam ou com a es- trutura da imagem sensorial.) Ora, como ser?í poss?¡vel examinar `algo de que nos utiliza- Como ser?í poss?¡vel criticar os termos em que habitualmente va- O primeiro passo a dar em nossa cr?¡tica dos conceitos de uso comum consistir?í em criar a medida da cr?¡tica, algo com que possam tais conceitos sofrer compara?º?úo. Claro est?í que, a- van?ºando, desejaremos saber alguma coisa mais acerca dessa medida-padr?úo; desejaremos saber, por exemplo, se ?® melhor Para que esse exame comece, h?í de existir, antes de tudo, a me- dida-padr?úo. Em conseq???¬ncia, o primeiro passo a dar, em nossa cr?¡tica dos conceitos comuns e das rea?º?Áes habituais, ser?í o de saltar para fora do c?¡rculo e inventar um novo sistema conceptual (inventar, por exemplo, uma nova teoria que entre em conflito com os resultados observacionais mais cuidadosa- mente colhidos e introduza o d??bio nos mais plaus?¡veis princ?¡- pios teor?®ticos), ou o de importar este sistema de fora do ?ómbi- to da ci?¬ncia: da religi?úo, da mitologia, das id?®ias dos n?úo- especialistas25 ou das palavras desconexas dos loucos. Esse passo

?®, ainda uma vez, contra-indutivo. Assim, a contra-indu?º?úo ?®, ao mesmo tempo, um fato ÔÇö sem ela a ci?¬ncia n?úo poderia existir ÔÇö e um lance leg?¡timo e necess?írio no jogo da ci?¬ncia.

medi?º?Áes n?úo s?úo compat?¡veis com o pressuposto fundamental de Lorentz e Einstein’. Rea?º?úo de Lorentz: `… parece muito poss?¡vel que devamos abandonar completamente essa id?®ia’ (Theory of Elec- trons, segunda edi?º?úo, p. 213). Ehrenfest: `Kaufmann demons- tra que o el?®tron deform?ível de Lorentz ?® rejeitado pelas me- di?º?Áes’ (`Zur Stabilit?ñtsfrage bei den Bucherer-Langevin Elek- tronen’, Phys. Zs., vol. 7, 1906, p. 302). A relut?óncia de Poinca- r?® em aceitar a `nova mec?ónica’ de Lorentz explica-se, ao me- Cf. Science and Method, Nova Iorque, 1960, Livro III, cap?¡tulo 2, se?º?úo V, onde o experimento de Kaufmann ?® examinado em pormenor, levando ?á conclus?úo de que `o princ?¡pio da re- latividade… n?úo se reveste da import?óncia fundamental que es- tamos inclinados a atribuir-lhe’. Cf., tamb?®m, St. Goldberg, `Poincar?®’s Silence and Einstein’s Relativity’, British Journal for the H?¡story of Science, vol. 5, 1970, pp. 73 ss. e a bibliografia ali apontada. Somente Einstein considerou os resultados como `improv?íveis’ porque seu pressuposto b?ísico, do qual se de- duz a massa do el?®tron em movimento, n?úo ?® sugerido por sistemas teor?®ticos que abrangem mais amplos complexos de fen??menos’ (Jahrbuch der Radioaktivit?ñt und Elektrizit?ñt, vol. 4, 1907, p. 439). A obra de Miller foi, durante muitos anos, estu- dada por Lorentz, que n?úo encontrou a falha. Somente em 1955, vinte e cinco anos depois de Miller haver terminado seus experimentos, foi que se encontrou satisfat??ria explica- ?º?úo para os resultados a que ele chegou. Cf. R. S. Shankland, `Conversations with Einstein’, Am. Journ. Phys., vol. 31, 1963, pp. 47-57, especialmente p. 51 e as notas 19 e 34; cf., tamb?®m, o debate que n?úo chegou a conclus?Áes, em `Conference on 7. Chazy, op. cit., p. 230.

de Dicke n?úo invalidam o argumento de que teorias superadas (como a da mec?ónica celeste cl?íssica) podem ser usadas para cr?¡tica das que as sucederam com melhor fado (relatividade geral). Al?®m disso, Dicke foi um perigo passageiro e isso ?® tudo 9. Herbert Feigl (Minnesota Studies, 5, 1971, p. 7) e Karl Popper (Objective Knowledge, p. 78) tentaram apresentar Einstein como um adulterador ing?¬nuo. Assim, escreve Feigl: `Se Einstein se fundava na ÔÇ£belezaÔÇØ, ÔÇ£harmoniaÔÇØ, ÔÇ£simetriaÔÇØ, ÔÇ£eleg?ónciaÔÇØ, ao construir… sua teoria geral de relatividade, imp?Áe-se, n?úo obs- tante, lembrar que ele tamb?®m disse (em uma confer?¬ncia pronunciada na cidade de Praga, no ano de 1920 ÔÇö ?á qual eu, jovem estudante, estive presente): ÔÇ£Se as observa?º?Áes relativas ao desvio para o vermelho nos espectros das grandes estrelas n?úo se mostrarem quantitativamente de acordo com os prin- c?¡pios da relatividade geral, minha teoria estar?í reduzida a p?? e cinzasÔÇØ `. Popper registra: `Einstein … disse que se o efeito do desvio para o vermelho… n?úo fosse observado, no caso das estrelas an?ús brancas, sua teoria da relatividade geral estaria re- Popper n?úo cita a fonte de sua afirma?º?úo, sendo de crer que se apoiou em Feigl. Entretanto, o relato de Feigl e a repeti?º?úo de Popper colocam-se em conflito com as nu- merosas ocasi?Áes em que Einstein acentua o `car?íter racio- nal da quest?úo’ (`die Vernunft der Sache’) que se p?Áe acima da `verifica?º?úo com base em pequenos efeitos’ ÔÇö e isso n?úo apenas em observa?º?Áes casuais ou durante uma palestra, mas por escrito. Cf. a cita?º?úo em nota 6 acima, que se re- fere ?ás dificuldades de que se rodeia a teoria especial da relatividade e ?® anterior ?á reuni?úo a que Feigl esteve pre- sente. Cf., tamb?®m, as cartas a M. Besso e a K. Seelig, ci- tadas em G. Holton, `Influences on Einstein’s Early Work’, Organon, n??. 3, 1966, p. 242, e K. Seelig, Albert

Einstein, Zurique, 1960, p. 271. Em 1952, Born escreve o se- 190, com respeito ?á an?ílise que Freundlich fez da flex?úo da luz nas vizinhan?ºas do Sol e do desvio para o vermelho): `Re- almente parece que sua f??rmula n?úo ?® de todo correta. E pa- rece que o ?® menos ainda no caso do desvio para o vermelho [o caso crucial a que se referem Feigl e Popper]; leva a um va- lor muito menor do que o valor te??rico, quando caminhamos no sentido do centro do disco solar e a um valor muito supe- Seria isso um ind?¡cio de n?úo-linearidade?’ Einstein (carta de 12 de maio de 1952, op. cit., p. 192) responde: `Freundlich… n?úo me abala de maneira alguma. Ainda que a deflex?úo da luz, o movimento do peri?®lio ou o desvio fossem desconhecidos, as equa?º?Áes da gravita?º?úo continuariam a ser convincentes, pois evitariam o sistema inercial (fantasma que a tudo afeta e por nada ?® afetado). ?ë realmente estranho que os seres humanos se mos- trem geralmente surdos aos mais fortes argumentos, enquanto se inclinam a superestimar precis?Áes de medida (grifo meu). Como explicar esse conflito (entre o testemunho de Feigl e os escritos de Einste- in)? N?úo ?® poss?¡vel explic?í-lo por uma altera?º?úo da atitude de Einstein. Sua atitude irreverente para com a observa?º?úo e o experimento existiu desde o in?¡cio, como vimos. A explica?º?úo estar?í, talvez, em um equ?¡voco por parte de Feigl ou em ser 10. Para uma defesa dos processos de Parm?¬nides, cf. meu `In Defence of Classical Physics’, loc. cit. Cf., tamb?®m, a parte de- 11. W. Heisenberg, `Der gegenw?ñrtige Stand der Theorie der Elementarteilchen’, Naturwissenchaften, n??. 42, 1955, pp.

a New Theory of Vision, Obras, vol. I, ed. Frazer, Londres, 17. Admitindo que M ?® a observada massa da part?¡cula carregada, o valor de sua acelera?º?úo, no tempo t, vem expresso por

Para esta particular dificuldade, cf., tamb?®m, H. R. Post, `Cor- respondence, Invariance and Heuristics’, in Studies in the History and Philosophy of Science, novembro de 1971, nota 14. A asser- ?º?úo de Post, segundo a qual a F?¡sica `?® notavelmente malsuce- dida…’ como ci?¬ncia, p. 219, e segundo a qual, em compara- ?º?úo, `a bot?ónica tem bom poder preditivo em seu campo de aplica?º?úo’, nota 14, concorda com a opini?úo que professo e mostra que a ci?¬ncia aristot?®lica, globalmente considerada, tal- vez tenha sido mais adequada que suas sucessoras altamente abstratas. Post e eu discordamos, entretanto, quanto a muitos outros pontos. O leitor ?® convidado a ler o brilhante ensaio que ele escreveu para servir de ant?¡doto parcial contra o ponto 18. Cf. W. Heitler, The Quantum Theory of Radiation, Oxford, 1954, Cf. o debate na 12?¬ Confer?¬ncia Solvay, The Quantum Theory of Fields, Nova Iorque, 1962, especialmente as co- munica?º?Áes de Heitler e Feynman. Hoje (1971) a situa- ?º?úo ?®, em ess?¬ncia, a mesma, cf. Brodsky e Drell, `The Present Status of Quantum Electrodynamics’, Annual Re- Todos os exemplos oferecidos nas notas 3-16 podem

ser usados como base para estudos do tipo daquele que se de- senvolver?í nos cap?¡tulos VI-XII (Galileu e a Revolu?º?úo Co- pernicana). Isso mostra que o caso de Galileu n?úo ?® `uma exce- ?º?úo, caracterizadora do in?¡cio da chamada revolu?º?úo cient?¡fica’ (G. Radnitzky, `Theorienpluralismus Theorienmonismus’ in Diemer Meisenheim, 1971, p. 164), mas, ao contr?írio, t?¡pica da mudan?ºa cient?¡fica em todos os tempos. Sem embargo, concordo com Radnitzky, ao dizer ele que `hoje’, ou seja, na F?¡sica de 1960/70, a situa?º?úo talvez seja um tanto diversa. A raz?úo est?í em que a F?¡sica vem experimentando um per?¡odo de estagna?º?úo ÔÇö enorme crescimento de seu porte esconde a surpreendente pobreza de novas id?®ias fundamentais. (Essa estagna?º?úo liga-se ao fato de que a F?¡sica est?í se transforman- do de ci?¬ncia em neg??cio e de que os f?¡sicos mais jovens dei- xaram de usar a Hist??ria e a Filosofia como instrumentos de pesquisa.) 21. Essa dificuldade foi apontada por Bohr em sua tese de douto- ramento,cf. Niels Bohr, Collected Works, vol. I, Amsterd?ú, 1972, pp. 158, 381. Assinalou ele que altera?º?Áes de velocidade, devidas a altera?º?Áes do campo externo, se equilibrariam de- pois de definido o campo, de sorte que n?úo poderiam surgir efeitos magn?®ticos. Cf., tamb?®m, Heilbron e T. S. Kuhn, `The Genesis of the Bohr Atam’, Historical Studies in the Physical Sci- ences, n??. 1, 1969, p. 221. O argumento referido no texto foi colhido em The F eynman Lectures, vol. 2, Calif??rnia e Londres, 23. A obra de von Neumann no campo da mec?ónica qu?óntica ?® exemplo especialmente esclarecedor desse procedimento.

Para conseguir satisfat??ria demonstra?º?úo do teorema da ex- pans?úo no espa?ºo de Hilbert, von Neumann substitui as qua- se-intuitivas no?º?Áes de Dirac (e Bohr) por concep?º?Áes pr??- prias e mais complexas. As rela?º?Áes teor?®ticas entre essas no- ?º?Áes s?úo suscet?¡veis de tratamento mais rigoroso que as rela- ?º?Áes teor?®ticas entre as no?º?Áes que as precederam (`mais rigo- D?í-se coisa diversa no que respeita ?ás rela?º?Áes entre elas e os procedimentos experimentais. N?úo h?í como especificar ins- trumentos para a grande maioria de observ?íveis (Wigner, A- merican Journal of Physics, vol. 31, 1963, p. 14) e, onde a especifi- ca?º?úo ?® poss?¡vel, torna-se necess?írio modificar, de maneira arbitr?íria, leis bem conhecidas e n?úo refutadas ou ent?úo admi- tir que problemas triviais de mec?ónica qu?óntica, tal como o problema de espalhamento, n?úo t?¬m solu?º?úo (J. M. Cook, Journal of Mathematical Physics, vol. 36, 1957). Nesses termos, a teoria transforma-se em um verdadeiro monstro de precis?úo e rigor, enquanto sua rela?º?úo para com a pr?ítica se torna mais obscura do que nunca. ?ë interessante notar que desenvolvi- mentos semelhantes ocorrem no `pensamento primitivo’. `O tra?ºo mais surpreendente da profecia de Nupe, que se faz a- trav?®s do uso da areia’, escreve S. F. Nader em Nupe Religion, 1954, p. 63, `?® o contraste entre sua pretensiosa estrutura te??- rica e sua primitiva e canhestra aplica?º?úo na pr?ítica’. N?úo ?® necess?írio dispor da ci?¬ncia para produzir os pesadelos de 24. A exist?¬ncia de dificuldades qualitativas ou `bols?Áes de resis- t?¬ncia’ (Santo Agostinho, Contra Julianum, V, xiv, 51 ÔÇö Migne, vol. 44) foi usada por padres da Igreja para afastar obje?º?Áes que a ci?¬ncia do tempo levantava contra certos aspectos da f?® crist?ú, como, por exemplo, a ressurrei?º?úo de Cristo (que Porf?¡- rio havia considerado incompat?¡vel com a F?¡sica).

d?¬ncia trazida pelos sentidos, pondo a terra em movimento, era um n?úo-matem?ítico perturbador. Esse `perturbador teve a coragem, que n?úo tiveram grandes observadores e cientistas conhecedores de Matem?ítica, de afastar a informa?º?úo dos sentidos, para permanecer fiel a princ?¡pios em que firmemente acreditava’. K. von Fritz, Grundprobleme der Geschichte der Anti- ken Wissenschaft, Berlim-Nova Iorque, 1971, p. 165. `N?úo sur- preende, portanto, que o passo seguinte, em tal caminho, haja sido dado por um homem cujos escritos, tanto quanto os co- nhecemos, mostram-no como estilista e divulgador talentoso a quem, ocasionalmente, ocorriam id?®ias, e n?úo por um pen- cit., p. 184. Os perturbadores e os intelectuais sem profundi- dade avan?ºam, enquanto os pensadores `s?®rios’ descem ?ás re- gi?Áes mais sombrias do status quo ou, para diz?¬-lo de outra maneira, ficam presos ?á lama.

VI Como exemplo dessa tentativa, trago ?á baila o argumento da torre, de que os aristot?®licos se valiam para refutar o movi- mento da Terra. O argumento envolve interpreta?º?Áes natu- rais ÔÇö id?®ias t?úo estreitamente ligadas a observa?º?Áes, que se faz necess?írio especial esfor?ºo para perceber-lhes a exist?¬n- cia e determinar-lhes o conte??do. Galileu identifica as inter- preta?º?Áes naturais que se mostram inconsistentes com a doutrina de Cop?®rnico e as substitui por outras.

Parece-me que (Galileu) incide muito em digress?Áes cont?¡nuas e que n?úo se det?®m para explicar tudo quanto ?® relevante em cada ponto; mostra isso que n?úo examinou os pontos ordenadamente e que simplesmente buscou raz?Áes para alcan?ºar particulares efeitos, sem ter considerado… as primeiras causas…; e, dessa maneira, construiu sem alicerces.

e inven?º?Áes n?úo est?í no que ?® necess?írio ÔÇö embora, de outra forma, passasse a corresponder a um grande equ?¡voco ÔÇö mas no que n?úo o ?®…

GALILEU Entretanto, quando o bom senso cr?¬ que sofistas raciona- lizadores t?¬m a inten?º?úo de abalar o fundamento mesmo do bem- estar geral, passa a ser n?úo apenas procedente, mas permiss?¡vel e at?® mesmo louv?ível ajudar a boa causa com pretensas raz?Áes antes que permitir que a vantagem passe… ao oponente.

que disciplinam o emprego do conceito sob investiga?º?úo. Nunca apreendemos inteiramente esse conceito, pois sempre utilizamos parte dele na tentativa de determinar-lhe os elementos constituti- vos. S?? h?í um meio de fugir ao c?¡rculo vicioso: consiste em usar medida externa de compara?º?úo, inclusive maneiras novas de relacionar conceitos e dados de percep?º?úo. Retirada do dom?¡nio do discurso natural e afastada de todos os princ?¡pios, h?íbitos e atitudes que constituem sua forma de vida, essa medida externa se afigurar?í, sem d??vida, estranha. Isso, entretanto, n?úo ?® argumento contra sua utiliza?º?úo. Pelo contr?írio, a impress?úo de estranheza revela que as interpreta?º?Áes naturais est?úo operando e constitui um pri- meiro passo no sentido de que venham a ser descobertas. Expli- O exemplo pretende evidenciar que a concep?º?úo coperni- cana foge a um acordo com `os fatos’. Do ponto de vista desses fatos, a id?®ia de movimento da Terra ?® bizarra, absurda e obvia- mente falsa ÔÇö para repetir apenas algumas das express?Áes fre- q??entemente usadas naquela ?®poca e ainda ouvidas sempre que profissionais mais apegados ?ás tradi?º?Áes se defrontam com uma teoria nova e contr?íria aos fatos. Isso leva-nos a suspeitar que a concep?º?úo copernicana ?® um padr?úo de medida externa, exata- Podemos, agora, passar a contemplar a outra face do argu- mento, utilizando-o como dispositivo identificador, capaz de auxiliar- nos a descobrir as interpreta?º?Áes naturais que excluem o movi- mento da Terra. Fazendo o argumento girar sobre si mesmo, par- timos da assevera?º?úo de que a Terra se move e, a seguir, indagamos quais as altera?º?Áes que se fazem necess?írias para afastar a contra- di?º?úo. Essa investiga?º?úo poder?í exigir tempo consider?ível e seria procedente afirmar que ela at?® hoje n?úo chegou ao fim. ?ë poss?¡vel, portanto, que tenhamos de continuar a conviver com a contradi- ?º?úo por d?®cadas ou por s?®culos. Ainda assim, ela deve ser defen- dida at?® que tenhamos terminado a investiga?º?úo, pois, caso con- tr?írio, essa

investiga?º?úo, a tentativa de descobrir os componentes antediluvia- nos de nosso conhecimento, sequer poderia come?ºar. Essa, n??s o vimos, ?® uma das raz?Áes poss?¡veis de oferecer para conservar e, tal- Os ingredientes ideol??gicos de nosso conhecimento e, mais espe- cialmente, de nossas observa?º?Áes, s?úo descobertos com o aux?¡lio As teorias s?úo submetidas a teste e, eventualmente, refutadas pelos fatos. Os fatos encerram componentes ideol??gicos, concep?º?Áes antigas que foram perdidas de vista ou que jamais chegaram a ser explicitamente formuladas. Esses componentes s?úo altamente suspeitos. Em primeiro lugar, devido ?á sua idade e obscura ori- gem: n?úo sabemos como e por que surgiram; em segundo lugar, porque a sua pr??pria natureza os protege e sempre os protegeu de exame cr?¡tico. No caso de contradi?º?úo entre uma teoria nova e in- teressante e uma cole?º?úo de fatos firmemente estabelecidos, a me- lhor maneira de agir consistir?í, portanto, em n?úo abandonar a teo- ria, mas utiliz?í-la para descobrir os princ?¡pios ocultos que sejam respons?íveis pela contradi?º?úo. A contra-indu?º?úo ?® parte essencial desse processo de descoberta. (Excelente exemplo hist??rico: os argumentos contra o movimento e o atomismo, desenvolvidos por Zen?úo e Parm?¬nides. Di??genes, o c?¡nico, enveredou pelo ca- minho simples, que seria trilhado por muitos cientistas contempo- r?óneos e por todos os fil??sofos de nosso tempo: refutou os argu- mentos, com o levantar-se e caminhar de um lado para outro. O caminho oposto, aqui recomendado, levou a resultados muito mais interessantes, como ?® testemunhado pela hist??ria do inciden- te. N?úo devemos apoiar-nos demasiado em Di??genes, pois conta- se tamb?®m que ele bateu em um disc?¡pulo que se mostrou satisfei- to com sua refuta?º?úo, dizendo haver oferecido raz?Áes que o disc?¡- pulo n?úo deveria aceitar sem a elas acrescentar raz?Áes pr??prias9.)

Tendo descoberto uma particular interpreta?º?úo natural, como poderemos examin?í-la e submet?¬-la a teste? ?ë claro que n?úo podere- mos agir da maneira habitual, isto ?®, dela derivar predi?º?Áes e com- par?í-las com os `resultados de observa?º?úo’. Desses resultados n?úo mais dispomos. A id?®ia de que os sentidos, usados em circunst?ón- cias normais, levam a retratos corretos dos eventos reais ÔÇö por exemplo, ao retrato do movimento real dos corpos f?¡sicos ÔÇö foi afastada de todos os enunciados de observa?º?úo. (Recorde-se ter sido verificado que essa no?º?úo constitui parte essencial do argu- mento anticop?®rnico.) Todavia, afastada aquela id?®ia, nossas rea- ?º?Áes sensoriais deixam de ser relevantes para os testes. Essa con- clus?úo foi generalizada por alguns racionalistas mais antigos, que decidiram alicer?ºar sua ci?¬ncia exclusivamente na raz?úo e atribu?¡- ram ?á observa?º?úo uma fun?º?úo auxiliar insignificante. Galileu n?úo Se uma interpreta?º?úo natural perturba uma concep?º?úo que ?® atraente e se a elimina?º?úo dessa interpreta?º?úo retira a concep?º?úo do dom?¡nio do observ?ível, o ??nico procedimento cab?¡vel ?® o de re- A interpreta?º?úo de que se vale Galileu rep?Áe os sentidos na posi- ?º?úo de instrumentos de explora?º?úo, mas t?úo-somente com respeito ?á realidade do movimento relativo. O movimento `em meio a coisas que o t?¬m em comum’ ?® `n?úo-operativo’, ou seja, `?® insens?¡vel, ?® im- percept?¡vel e sem qualquer efeito’10. O primeiro passo dado por Galileu, ao examinar, em conjunto, a doutrina copernicana e a in- terpreta?º?úo natural comum, mas n?úo expl?¡cita, consiste, portanto, em substituir esta ??ltima por outra interpreta?º?úo. Dito de maneira dife- Trata-se, naturalmente, de um recurso inteiramente leg?¡- timo. De modo geral, a linguagem de observa?º?úo, presente em Considerando, de um lado, a estrutura de express?Áes comuns e, de outra parte, a estrutura da filosofia aristot?®lica, nem aquele

uso nem aquela familiaridade podem ser vistos como um teste dos princ?¡pios subjacentes. Esses princ?¡pios, essas interpreta?º?Áes natu- rais, ocorrem em todas as descri?º?Áes. Casos extraordin?írios, que poderiam criar dificuldades, s?úo afastados com o aux?¡lio de `ex- press?Áes de ajustamento’11, como a `semelhan?ºa de’ ou `an?ílogo a’ que removem as dificuldades, permitindo que a ontologia b?ísica permane?ºa incontestada. Um teste, entretanto, se faz de urgente necessidade. De urgente necessidade especialmente nos casos em que os princ?¡pios parecem amea?ºar a teoria nova. Torna-se, ent?úo, razo?ível introduzir linguagens alternativas de observa?º?úo, con- frontando-as tanto com o idioma original quanto com a teoria sob exame. Procedendo dessa maneira, devemos assegurar-nos de que o confronto se faz em termos justos, isto ?®, n?úo devemos criticar um idioma que deva funcionar como linguagem de observa?º?úo devido a n?úo ser ele ainda bem conhecido e estar, portanto, menos for- temente relacionado com nossas rea?º?Áes sensoriais e ser menos plaus?¡vel do que um outro idioma `comum’. Cr?¡ticas superficiais dessa esp?®cie, elevadas ?á condi?º?úo de `filosofia’ inteiramente no- va,. s?úo abundantes em meio ?ás discuss?Áes em torno do problema esp?¡rito-corpo. Os fil??sofos que desejam introduzir e submeter a teste concep?º?Áes novas v?¬em-se, dessa forma, postos diante n?úo de argumentos, que poderiam, provavelmente, contestar, mas de uma impenetr?ível muralha de rea?º?Áes solidamente estabelecidas. A situa?º?úo n?úo difere muito da situa?º?úo de pessoas ignorantes de l?¡nguas estrangeiras, para as quais certa cor ?® muito melhor tradu- zida pela palavra `vermelho’ do que pela palavra `rosso’. Em opo- si?º?úo a essas tentativas de convers?úo por apelo ao que ?® familiar (`Sei o que ?® a dor e sei, tamb?®m, por introspec?º?úo, que ela nada tem a ver com processos materiais!’), importa acentuar que um ju- ?¡zo comparativo acerca das linguagens de observa?º?úo ÔÇö lingua- gens de observa?º?úo materialistas, fenomenalistas, objetivo- idealistas, teol??gicas, etc. ÔÇö s?? pode come?ºar quando todas elas s?úo dominadas com igual flu?¬ncia.

entretanto, nem mesmo isso ?® certo, enquanto n?úo houver si- do provado que a Terra est?í em repouso’ (p. 19). Ora, se ad- mitirmos (2), as partes livres dos sistemas que se movem em linha reta h?úo de tender a percorrer trajet??rias circulares, as- sim contradizendo (1). Foi essa incoer?¬ncia que me disp??s a dividir o argumento de Galileu em duas fases, uma concer- nente ?á relatividade do movimento (s?? o movimento relativo ?® notado), a outra concernente ?ás leis de in?®rcia (e s?? o movimen- to inercial preserva a rela?º?úo entre as partes de um sistema ÔÇö admiti- do, ?® claro, que movimentos inerciais vizinhos s?úo aproxima- damente paralelos). Para conhecer as duas fases do argumen- to, ver o cap?¡tulo seguinte. Devemos tamb?®m dar-nos conta de que aceitar a relatividade do movimento, mesmo para traje- t??rias inerciais, significa abandonar a teoria do impetus. Isso Galileu parece j?í ter feito a esta altura, pois seu argumento a favor da exist?¬ncia de movimentos `cont?¡nuos’ ou `perp?®tuos’, que ele esbo?ºa nas pp. 147 ss. do Dialogue invoca movimentos que s?úo neutros, isto ?®, nem naturais nem provocados, e que 11. J. L. Austin, Sense and Sensibilia, Nova Iorque, 1964, p. 74. Ex- press?Áes do ajustamento desempenham importante papel na filosofia aristot?®lica.

VII As novas interpreta?º?Áes naturais constituem linguagem de observa?º?úo original e altamente abstrata. S?úo introduzidas e ocultadas, de sorte que n?úo se percebe a modifica?º?úo havida (m?®todo da anamnese). Encerram a id?®ia da relatividade de todo movimento e a lei da in?®rcia circular.

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