Contra o metodo

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CONTRA O M?ëTODO Esbo?ºo de uma teoria an?írquica* da teoria do conhecimento

* Coment?írios acerca da acep?º?úo em que se toma, aqui, o termo `anarquismo’, acham-se em nota 12 da Introdu?º?úo e no pr??prio tex- to, cap?¡tulo XVI, trecho correspondente ?ás notas 18 e seguintes.

Paul Feyerabend CONTRA O M?ëTODO Tradu?º?úo de Octanny S. da Mata Leonidas Hegenberg

?ìndice Anal?¡tico ITENS: INTRODU?ç?âO P?ígina 17 A ci?¬ncia ?® um empreendimento essencialmente an?írquico: o a- narquismo teor?®tico ?® mais humanit?írio e mais suscet?¡vel de esti- mular o progresso do que suas alternativas representadas por or- dem e lei.

I P?ígina 7 Isso ?® demonstrado seja pelo exame de epis??dios hist??ricos, seja pela an?ílise da rela?º?úo entre id?®ia e a?º?úo. O ??nico princ?¡pio que n?úo inibe o progresso ?®: tudo vale.

II P?ígina 37 Cabe, por exemplo, recorrer a hip??teses que contradizem teorias confirmadas e/ou resultados experimentais bem estabelecidos. ?ë poss?¡vel fazer avan?ºar a ci?¬ncia, procedendo contra- indutivamente.

III P?ígina 45 A condi?º?úo de coer?¬ncia, por for?ºa da qual se exige que as hip??te- ses novas se ajustem a teorias aceitas, ?® desarrazoada, pois preserva a teoria mais antiga e n?úo a melhor. Hip??teses que contradizem teorias bem assentadas proporcionam-nos evid?¬ncia imposs?¡vel de obter por outra forma. A prolifera?º?úo de teorias ?® ben?®fica para a ci?¬ncia, ao passo que a uniformidade lhe debilita o poder cr?¡tico. A uniformidade, al?®m disso, amea?ºa o livre desenvolvimento do in- div?¡duo.

IV P?ígina 65 Qualquer id?®ia, embora antiga e absurda, ?® capaz de aperfei?ºoar nosso conhecimento. A ci?¬ncia absorve toda a hist??ria do pensa- mento e a utiliza para o aprimoramento de cada teoria. E n?úo se respeita a interfer?¬ncia pol?¡tica. Ocorrer?í que ela se fa?ºa necess?íria para vencer o chauvinismo da ci?¬ncia que resiste em aceitar alter- nativas ao status quo.

V P?ígina 77 Nenhuma teoria est?í em concord?óncia com todos os fatos de seu dom?¡nio, circunst?óncia nem sempre imput?ível ?á teoria. Os fatos se prendem a ideologias mais antigas, e um conflito entre

fatos e teorias pode ser evid?¬ncia de progresso. Esse conflito cor- responde, ainda, a um primeiro passo na tentativa de identificar princ?¡pios impl?¡citos em no?º?Áes observacionais comuns.

VI P?ígina 101 Como exemplo dessa tentativa, trago ?á baila o argumento da torre, de que os aristot?®licos se valiam para refutar o movimento da Ter- ra. O argumento envolve interpreta?º?Áes naturais ÔÇö id?®ias t?úo es- treitamente ligadas a observa?º?Áes, que se faz necess?írio especial esfor?ºo para perceber-lhes a exist?¬ncia e determinar-lhes o conte- ??do. Galileu identifica as interpreta?º?Áes naturais que se mostram inconsistentes com a doutrina de Cop?®rnico e as substitui por ou- tras.

VII P?ígina 119 As novas interpreta?º?Áes naturais constituem linguagem de obser- va?º?úo original e altamente abstrata. S?úo introduzidas e ocultadas, de sorte que n?úo se percebe a modifica?º?úo havida (m?®todo da anam- nese). Encerram a id?®ia da relatividade de todo movimento e a lei da in?®r- cia circular.

VIII P?ígina 139 Dificuldades iniciais provocadas pela altera?º?úo v?¬em-se afastadas por hip??teses ad hoc que, assim, desempenham, ocasionalmente, uma fun?º?úo positiva; asseguram ?ás novas teorias espa?ºo para se desen- volverem e indicam o sentido da pesquisa futura.

IX P?ígina 151 Al?®m de alterar as interpreta?º?Áes naturais, Galileu alterou tamb?®m as sensa?º?Áes que parecem amea?ºar Cop?®rnico. Admite que

tais sensa?º?Áes existam, louva Cop?®rnico por n?úo hav?¬-las conside- rado e afirma t?¬-las afastado com o aux?¡lio do seu telesc??pio. Contu- do, n?úo oferece raz?Áes te??ricas acerca do por que procederia espe- rar que o telesc??pio tra?ºasse dos c?®us um quadro verdadeiro.

Ap?¬ndice I P?ígina 169 Ap?¬ndice II P?ígina 175

X P?ígina 189 As primeiras observa?º?Áes do c?®u feitas atrav?®s de telesc??pio s?úo vagas, imprecisas, contradit??rias e p?Áem-se em conflito com o que todos podem ver a olho desarmado. E a ??nica teoria que teria le- vado a distinguir entre as ilus?Áes provocadas pelo telesc??pio e os fen??menos reais foi refutada por testes simples.

XI P?ígina 221 De outra parte, h?í alguns fen??menos telesc??picos tipicamente co- pernicanos. Galileu apresenta esses fen??menos como prova aut??- noma em prol de Cop?®rnico, mas a situa?º?úo ?® antes a de que uma concep?º?úo refutada ÔÇö a doutrina copernicana ÔÇö tem certa seme- lhan?ºa com fen??menos que emergem de outra concep?º?úo refutada ÔÇö a id?®ia de que os fen??menos telesc??picos retratam fielmente o c?®u. Galileu domina em raz?úo de seu estilo e de suas mais aperfei- ?ºoadas t?®cnicas de persuas?úo, porque escreve em italiano e n?úo em latim e porque recorre a pessoas hostis, por temperamento, ?ás ve- lhas id?®ias e aos padr?Áes de aprendizagem a elas relacionados.

XII P?ígina 227 Esses m?®todos `irracionais’ de fundamenta?º?úo tornam-se necess?í- rios devido ao `desenvolvimento desigual’ (Marx, Lenine) dos di- ferentes ramos da ci?¬ncia. A teoria copernicana e outros elemen- tos essenciais da ci?¬ncia moderna puderam sobreviver t?úo- somente porque, no passado, a raz?úo foi freq??entemente posta de lado.

XIII P?ígina 253 O m?®todo de Galileu estende-se a outros campos. Pode ser usado, por exemplo, para eliminar os argumentos que se levantam contra (Os correspondentes problemas cient?¡ficos permanecem, entretan- to, intocados.) XIV P?ígina 257 Os resultados at?® agora conseguidos trazem em seu bojo a suges- t?úo de abolir a distin?º?úo entre contexto da descoberta e contexto da justifica?º?úo e de p??r de parte a distin?º?úo correlata entre termos observacionais e termos teor?®ticos. Nenhuma dessas distin?º?Áes tem papel a desempenhar na pr?ítica cient?¡fica. Tentativas de dar- lhes for?ºa trariam conseq???¬ncias desastrosas.

XV P?ígina 267 Enfim, a exposi?º?úo feita nos cap?¡tulos VI-XIII atesta que a vers?úo do pluralismo de Mill, dada por Popper, n?úo est?í em concord?óncia com a pr?ítica cient?¡fica e destruiria a ci?¬ncia, tal como a conhece- mos. Existindo a ci?¬ncia, a raz?úo n?úo pode reinar universalmente, nem a sem-raz?úo pode ver-se exclu?¡da. Esse

tra?ºo da ci?¬ncia pede uma epistemologia an?írquica. A compreen- s?úo de que a ci?¬ncia n?úo ?® sacrossanta e de que o debate entre ci- ?¬ncia e mito se encerrou sem vit??ria para qualquer dos lados em- presta maior for?ºa ao anarquismo.

XVI P?ígina 283 Tamb?®m n?úo escapa a essa conclus?úo a engenhosa tentativa de Lakatos, feita no sentido de erigir metodologia que (a) n?úo emite ordens mas (b) coloca restri?º?Áes a nossas atividades ampliadoras de conhecimento. De fato, a filosofia de Lakatos s?? se afigura li- beral porque ?® um anarquismo disfar?ºado. E seus padr?Áes, abstra?¡dos a partir da ci?¬ncia moderna, n?úo podem ser vistos como ?írbitros imparciais na pend?¬ncia entre a ci?¬ncia moderna e a ci?¬ncia aristo- t?®lica, o mito, a m?ígica, a religi?úo, etc.

Ap?¬ndice III P?ígina 333 Ap?¬ndice IV P?ígina 343 XVII P?ígina 347 Al?®m disso, tais padr?Áes, que envolvem uma compara?º?úo entre classes de conte??do, nem sempre s?úo aplic?íveis. As classes de con- te??do de certas teorias s?úo insuscet?¡veis de compara?º?úo, no senti- do de que nenhuma das rela?º?Áes l??gicas habituais (inclus?úo, exclu- s?úo, superposi?º?úo) vige entre elas. Ocorre isso quando compara- mos os mitos ?á ci?¬ncia. Ocorre, ainda, nas mais desenvolvidas, mais gerais e, portanto, mais mitol??gicas partes da pr??pria ci?¬ncia.

Ap?¬ndice V P?ígina 441 XVIII P?ígina 447 Dessa forma, a ci?¬ncia se aproxima do mito, muito mais do que uma filosofia cient?¡fica se inclinaria a admitir. A ci?¬ncia ?® uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo homem e n?úo necessariamente a melhor. Chama a aten?º?úo, ?® ruidosa e impuden- te, mas s?? inerentemente superior aos olhos daqueles que j?í se ha- jam decidido favoravelmente a certa ideologia ou que j?í a tenham aceito, sem sequer examinar suas conveni?¬ncias e limita?º?Áes. Co- mo a aceita?º?úo e a rejei?º?úo de ideologias devem caber ao indiv?¡- duo, segue-se que a separa?º?úo entre o Estado e a Igreja h?í de ser complementada por uma separa?º?úo entre o Estado e a ci?¬ncia, a Tal separa?º?úo ser?í, talvez, a ??nica forma de alcan?ºarmos a huma- nidade de que somos capazes, mas que jamais concretizamos.

Introdu?º?úo Ordnung ist heutzutage meistens dort, wo BRECHT A ci?¬ncia ?® um empreendimento essencialmente an?írquico: o anarquismo teor?®tico ?® mais humanit?írio e mais suscet?¡vel de estimular o progresso do que suas alternativas representadas por ordem e lei.

Este ensaio ?® escrito com a convic?º?úo de que o anarquismo, embora n?úo constituindo, talvez, a mais atraente filosofia pol?¡tica, ?®, por certo, excelente rem?®dio para a epistemologia e para a filo- `A Hist??ria, de modo geral, e a hist??ria das revolu?º?Áes, em particular, ?® sempre de conte??do mais rico, mais variada, mais multiforme, mais viva e sutil do que’ o melhor historiador e o me- lhor metodologista poderiam imaginar1. A Hist??ria est?í repleta de `acidentes e conjunturas e curiosas justaposi?º?Áes de eventos’2 e pa- tenteia a nossos olhos a `complexidade das mudan?ºas humanas e o car?íter imprevis?¡vel das conseq???¬ncias ??ltimas de qualquer ato ou decis?úo do homem’3. Devemos realmente acreditar que as regras ing?¬nuas e simplistas que os metodologistas adotam como guia s?úo capazes de explicar esse `labirinto de intera?º?Áes’4? N?úo ?® claro que, em se tratando de um processo dessa esp?®cie, s?? pode ter participa?º?úo bem sucedida um oportunista brutal que n?úo se prenda a filosofia alguma e que adote a diretriz que a ocasi?úo pa- re?ºa indicar?

Tal ?®, sem d??vida, a conclus?úo a que t?¬m chegado observa- dores inteligentes e ponderados. `Duas importantes conclus?Áes pr?íticas decorrem da?¡ [do car?íter do processo hist??rico]’, escreve Lenine5, na continua?º?úo da passagem mencionada acima. `Em primeiro lugar, a de que, para cumprir sua tarefa, a classe revolu- cion?íria [isto ?®, a classe daqueles que desejam alterar seja uma par- te da sociedade, como a ci?¬ncia, seja a sociedade em seu todo] de- ve estar em condi?º?Áes de dominar, sem exce?º?úo, todas as formas ou aspectos de atividade social [deve compreender e saber aplicar n?úo apenas uma particular metodologia, mas qualquer metodolo- gia e qualquer de suas varia?º?Áes imagin?íveis]…; e, em segundo lu- gar, deve estar preparada para saltar de uma ?á outra, da maneira a mais r?ípida e mais inesperada.’ `As condi?º?Áes externas’, escreve Einstein6, `que os fatos da experi?¬ncia colocam [diante do cientista] n?úo lhe permitem, ao e- rigir seu mundo conceptual, que ele se prenda em demasia a um dado sistema epistemol??gico. Em conseq???¬ncia, o cientista apare- cer?í, aos olhos do epistemologista que se prende a um sistema, como um oportunista inescrupuloso…’ Um meio complexo, onde h?í elementos surpreendentes e imprevistos, reclama procedimen- tos complexos e desafia uma an?ílise apoiada em regras que foram estabelecidas de antem?úo e sem levar em conta as sempre cambi- ?ë poss?¡vel, naturalmente, simplificar o meio em que o ci- Afinal de contas, a hist??ria da ci?¬ncia n?úo consiste apenas de fatos e de conclus?Áes retiradas dos fatos. Cont?®m, a par disso, id?®ias, interpreta?º?Áes de fatos, problemas criados por interpre- ta?º?Áes conflitantes, erros, e assim por diante. An?ílise mais pro- funda mostra que a ci?¬ncia n?úo conhece `fatos nus’, pois os fa- tos de que tomamos conhecimento j?í s?úo vistos sob certo ?ón- gulo, sendo, em conseq???¬ncia, essencialmente ideativos. Se as- sim ?®, a hist??ria da ci?¬ncia ser?í t?úo complexa, ca??tica, permeada de enganos e diversificada quanto o sejam as id?®ias que encerra;

e essas id?®ias, por sua por sua vez, ser?úo t?úo ca??ticas permeadas de enganos e diversificadas quanto as mentes dos que as inventa- ram. Inversamente, uma pequena lavagem cerebral muito far?í no sentido de tornar a hist??ria da ci?¬ncia mais ins?¡pida, mais simples, mais uniforme, mais `objetiva’ e mais facilmente access?¡vel a tra- A educa?º?úo cient?¡fica, tal como hoje a conhecemos, tem precisamente esse objetivo. Simplifica a ci?¬ncia, simplificando seus elementos: antes de tudo, define-se um campo de pesquisa; esse campo ?® desligado do resto da Hist??ria (a F?¡sica, por exemplo, ?® separada da Metaf?¡sica e da Teologia) e recebe uma `l??gica’ pr??- pria. Um treinamento completo, nesse tipo de `l??gica’, leva ao condicionamento dos que trabalham no campo delimitado; isso torna mais uniformes as a?º?Áes de tais pessoas, ao mesmo tempo em que congela grandes por?º?Áes do procedimento hist??rico. `Fa- tos’ est?íveis surgem e se mant?¬m, a despeito das vicissitudes da Hist??ria. Parte essencial do treinamento, que faz com que fatos dessa esp?®cie apare?ºam, consiste na tentativa de inibir intui?º?Áes que possam implicar confus?úo de fronteiras. A religi?úo da pessoa, por exemplo, ou sua metaf?¡sica ou seu senso de humor (seu senso de humor natural e n?úo a jocosidade posti?ºa e sempre desagrad?í- vel que encontramos em profiss?Áes especializadas) devem manter- se inteiramente ?á parte de sua atividade cient?¡fica. Sua imagina?º?úo v?¬-se restringida e at?® sua linguagem deixa de ser pr??pria7. E isso penetra a natureza dos `fatos’ cient?¡ficos, que passam a ser vistos como independentes de opini?úo, de cren?ºa ou de forma?º?úo cultu- ?ë poss?¡vel, assim, criar uma tradi?º?úo que se mant?®m una, ou intacta, gra?ºas ?á observ?óncia de regras estritas, e que, at?® certo ponto, alcan?ºa ?¬xito. Mas ser?í desej?ível dar apoio a essa tradi- ?º?úo, em detrimento de tudo mais? Devemos conceder-lhe direi- tos exclusivos de manipular o conhecimento, de tal modo que quaisquer resultados obtidos por outros m?®todos sejam, de i- mediato, ignorados? Essa ?® a indaga?º?úo a que pretendo dar

todo cient?¡fico, ou o que um particular autor julga serem as leis cient?¡ficas, chegam a integrar-se ao pr??prio anarquismo. `O anar- quismo ?® um conceito geral, baseado em uma explica?º?úo mec?ónica de todos os fen??menos’, escreve Kropotkin10: `Seu m?®todo de in- vestiga?º?úo ?® o das ci?¬ncias naturais exatas…, o m?®todo de indu?º?úo e dedu?º?úo’. `N?úo parece t?úo claro’, escreve um moderno professor `radical’ de Col??mbia11, `que a pesquisa cient?¡fica exija absoluta li- berdade de express?úo e debates. A evid?¬ncia sugere, antes, que certos tipos de restri?º?úo n?úo colocam empecilhos no caminho da ci?¬ncia…’ H?í, certamente, pessoas para as quais isso `n?úo parece t?úo claro’. Comecemos, portanto, com uma apresenta?º?úo geral da me- N?úo h?í por que temer que a decrescente preocupa?º?úo com lei e ordem na ci?¬ncia e na sociedade ÔÇö que ?® caracter?¡stica desse tipo de anarquismo ÔÇö venha a conduzir ao caos. O sistema nervoso humano ?® demasiado bem organizado para que isso venha a ocor- rer13. Poder?í, ?® claro, vir tempo em que se fa?ºa necess?írio conce- der ?á raz?úo uma vantagem tempor?íria e que ser?í avisado defender suas regras, afastando tudo o mais. N?úo creio, por?®m, que esteja- mos vivendo esse tempo.

NOTAS 1. `A Hist??ria como um todo e, em particular, a hist??ria das revolu?º?Áes ?® sempre mais rica de conte??do, mais variada, multiforme, viva e cheia de engenho do que chegam a imaginar os grupos em que h?í maior refinamento e as mais conscientes vanguardas das mais avan?ºadas classes’ (V. I. Lenine, `Left-Wing Communism ÔÇö An Infan- tile Disorder’, Selected Works, vol. 3, Londres, 967, p. 401).

Lenine dirigia-se a partidos e vanguardas revolucion?írias e n?úo 2. Herbert Butterfield, The Whig Interpretation of History, Nova I- 4. Ibid. p. 25, cf. Hegel, Philosophie der Geschichte, Werke, vol. 9, ed. Edward Gans, Berlim, 1837, p. 9: `Mas o que a experi?¬ncia e a Hist??ria nos ensinam ?® que as na?º?Áes e os governos jamais aprenderam qualquer coisa na Hist??ria e jamais agiram de a- cordo com regras que dela poderiam ter derivado. Cada per?¡- odo apresenta caracter?¡sticas t?úo peculiares, atravessa condi- ?º?Áes t?úo espec?¡ficas que decis?Áes ter?úo de ser tomadas, mas somente poder?úo ser tomadas no per?¡odo e a partir dele’. `Muito sagaz'; `penetrante e muito sagaz'; `NB’, escreve Lenine em anota?º?Áes marginais a esse trecho. (Collected Works, vol. 38, Londres, 1961, p. 307.) 5. Ibid. Vemos aqui, de maneira clara, como algumas altera?º?Áes podem transformar uma li?º?úo de filosofia pol?¡tica em li?º?úo de metodologia. Isso n?úo surpreende. Metodologia e pol?¡tica s?úo, ambas, meios de passar de um a outro est?ígio hist??rico. A ??- nica diferen?ºa est?í em que as metodologias-padr?úo deixam de ter em conta o fato de que a Hist??ria apresenta, constante- mente, fei?º?Áes novas. Vemos, tamb?®m, que uma pessoa como Lenine, que n?úo se intimida diante de fronteiras tradicionais e cujo pensamento n?úo se prende ?á ideologia de uma profiss?úo, pode fazer advert?¬ncias ??teis a todos, inclusive aos fil??sofos 6. Albert Einstein, Albert Einstein: Philosopher Scientist, ed. P. A. 7. Quanto ?á deteriora?º?úo de linguagem que acompanha cada aumento de profissionalismo, cf. meu ensaio `Experts in a Free Society’, The Critic, novembro /dezembro 1970.

10. Peter Alexeivich Kropotkin, `Modern Science and Anar- chism’, Kropotkin’s Revolutionary Pamphlets, ed. R. W. Baldwin, Nova Iorque, 1970, pp. 150-2. `Uma das grandes caracter?¡sti- cas de Ibsen ?® a de que, para ele, nada valia, exceto a ci?¬ncia.’ B. Shaw, Back to Methuselah, Nova Iorque, 1921, xcvii. Comen- tando esses fen??menos e fen??menos similares, Strindberg es- creve (Antibarbarus): `Uma gera?º?úo que teve a coragem de li- bertar-se de Deus, de esmagar o Estado e a Igreja, de subme- ter a sociedade e a moralidade, continuava, por?®m, a curvar-se diante da Ci?¬ncia, onde se imp?Áe que a liberdade reine, a ordem 11. R. P. Wolff, The Poverty of Liberalism, Boston, 1968, p. 15. Para cr?¡tica pormenorizada de Wolff, ver nota 52 de meu ensaio `Against Method’, in Minnesota Studies in the Philosophy of Science, 12. Ao escolher o termo `anarquismo’, simplesmente acompanhei uso geral. Contudo, o anarquismo ÔÇö tal como praticado no passado e como vem sendo hoje posto em pr?ítica por cres- cente n??mero de pessoas ÔÇö apresenta caracter?¡sticas que n?úo me disponho a apoiar. Pouco se preocupa com as vidas hu- manas e com a felicidade humana (salvo as vidas e a felicidade dos que pertencem a algum grupo especial); e encerra preci- samente o tipo de seriedade e dedica?º?úo puritanas que eu de- testo. (H?í algumas encantadoras exce?º?Áes, como a de Cohn- Bendit, mas s?úo minorias). Por essas raz?Áes, eu prefiro recor- rer, agora, ?á palavra Dada?¡smo. Um dada?¡sta n?úo feriria um in- seto j?í para n?úo falar em um ser humano. Um dada?¡sta n?úo se deixa absolutamente impressionar por qualquer tarefa s?®ria e percebe o instante em que as pessoas se det?¬m a sorrir e

assumem aquela atitude e aquelas express?Áes faciais indicado- ras de que algo importante est?í para ser dito. Um dada?¡sta est?í convencido de que uma vida mais digna s?? ser?í poss?¡vel quando come?ºarmos a considerar as coisas com leveza e quando afastarmos de nossa linguagem as express?Áes enraiza- das, mas j?í apodrecidas, que nela se acumularam ao longo dos s?®culos (`busca da verdade'; `defesa da justi?ºa'; `preocupa?º?úo apaixonada'; etc., etc.). Um dada?¡sta est?í preparado para dar in?¡cio a alegres experimentos at?® mesmo em situa?º?Áes onde o alterar e o ensaiar parecem estar fora de quest?úo (exemplo: as fun?º?Áes b?ísicas da linguagem). Espero que, tendo conhecido o panfleto, o leitor lembre-se de mim como um dada?¡sta irre- 13. Mesmo em situa?º?Áes amb?¡guas nebulosas, logo se consegue uniformidade de a?º?úo e a ela se adere tenazmente. Ver Mazu- fare Sherif, The Psychology of Social Norms, Nova Iorque, 1964.

I Isso ?® demonstrado seja pelo exame de epis??dios hist??ricos, seja pela an?ílise da rela?º?úo entre id?®ia e a?º?úo. O ??nico prin- c?¡pio que n?úo inibe o progresso ?®: tudo vale.

A id?®ia de conduzir os neg??cios da ci?¬ncia com o aux?¡lio de um m?®todo, que encerre princ?¡pios firmes, imut?íveis e incondi- cionalmente obrigat??rios v?¬-se diante de consider?ível dificuldade, quando posta em confronto com os resultados da pesquisa hist??- rica. Verificamos, fazendo um confronto, que n?úo h?í uma s?? re- gra, embora plaus?¡vel e bem fundada na epistemologia, que deixe de ser violada em algum momento. Torna-se claro que tais viola- ?º?Áes n?úo s?úo eventos acidentais, n?úo s?úo o resultado de conheci- Percebemos, ao contr?írio, que as viola?º?Áes s?úo necess?írias para o progresso. Com efeito, um dos not?íveis, tra?ºos dos recentes deba- tes travados em torno da hist??ria e da filosofia da ci?¬ncia ?® a com- preens?úo de que acontecimentos e desenvolvimentos tais como a inven?º?úo do atomismo na Antig??idade, a revolu?º?úo copernicana, o surgimento do moderno atomismo (teoria cin?®tica; teoria da dis- pers?úo; estereoqu?¡mica; teoria qu?óntica), o aparecimento gradual da teoria ondulat??ria da luz s?? ocorreram porque alguns pensado- res decidiram n?úo se deixar limitar por certas regras metodol??gicas `??bvias’ ou porque involuntariamente as violaram.

Essa maneira liberal de agir n?úo ?®, repito, apenas um fato da hist??ria da ci?¬ncia. g algo razo?ível e absolutamente necess?írio para que se desenvolva o conhecimento. De maneira mais espec?¡fica, ?® pos- s?¡vel evidenciar o seguinte: dada uma regra qualquer, por `funda- mental’ e `necess?íria’ que se afigure para a ci?¬ncia, sempre haver?í circunst?óncias em que se torna conveniente n?úo apenas ignor?í-la como adotar a regra oposta. Exemplificando: h?í circunst?óncias em que ?® aconselh?ível introduzir. elaborar e defender hip??teses ad hoc, ou hip??teses que se colocam em contradi?º?úo com resultados expe- rimentais bem estabelecidos e aceitos, ou hip??teses de conte??do mais reduzido que o da existente e empiricamente adequada alter- H?í circunst?óncias ÔÇö que ocorrem com apreci?ível freq???¬n- cia ÔÇö em que a argumenta?º?úo (ou o debate) perde sua caracter?¡stica antecipadora para tornar-se obst?ículo ao progresso. Ningu?®m sus- tentar?í que ensinar crian?ºas ?® puramente uma quest?úo de debate (embora a argumenta?º?úo possa fazer parte do ensino e dele deves- se fazer parte em maior extens?úo do que a habitual) e quase todos hoje admitem que um aparente resultado da raz?úo ÔÇö o dom?¡nio de uma linguagem, a exist?¬ncia de um mundo percept?¡vel ricamen- te articulado, a capacidade l??gica ÔÇö ?® devido, em parte, ?á doutri- na?º?úo, e, em parte, a um processo de desenvolvimento que atua com a for?ºa de uma lei natural. E quando os argumentos parecem produzir efeito, isto se deve mais ?á repeti?º?úo f?¡sica do que ao seu Tendo admitido isso, tamb?®m devemos conceder que e- xiste a possibilidade de desenvolvimento n?úo argumentativo, as- sim no adulto como nas (partes teor?®ticas das) institui?º?Áes, tais como a ci?¬ncia, a religi?úo, a prostitui?º?úo e assim por diante. N?úo cabe, ao certo, dar como assentado que o poss?¡vel para uma crian?ºa ÔÇö adquirir, ao menos est?¡mulo, novos modos e com- portamento, adot?í-las sem esfor?ºo vis?¡vel ÔÇö est?í para al?®m do alcance de pessoas mais velhas. Antes, caberia esperar que alte- ra?º?Áes catastr??ficas do ambiente e f?¡sico, guerras, desmorona-

em verdade, regras e formas de pensamento falso e a?º?úo err??nea ÔÇö falso e err??nea, entenda-se, do ponto de vista do senso comum (cient?¡fico)2 Dessa maneira, o pensamento dial?®tico surge como uma forma de pensamento que `reduz ao nada as pormenorizadas de- (De passagem, importa assinalar que o freq??ente uso de pa- lavras como `progresso’, `avan?ºo’, `aperfei?ºoamento’, etc. n?úo sig- nifica afirme eu estar de posse de um conhecimento especial acer- ca do que seja bom e do que seja mau nas ci?¬ncias, nem significa pretenda eu impor esse conhecimento aos leitores. Cada qual ler?í as Assim, para um empirista, `progresso’ significar?í transi?º?úo para uma teoria capaz de permitir que a maioria de seus pressupostos b?ísicos seja objeto de testes emp?¡ricos diretos. Alguns acreditam que a essa esp?®cie pertence a teoria qu?óntica. Aos olhos de outros, `progresso’ poder?í significar unifica?º?úo e harmonia, talvez at?® mesmo ?ás expensas da adequa?º?úo emp?¡rica. Dessa maneira enca- rava Einstein a teoria geral da relatividade. E minha tese ?® a de que o anarquismo favorece a concretiza?º?úo do progresso em qualquer dos sentidos que a ele se decida emprestar. Mesmo uma ci?¬ncia que se paute pelo bem ordenado s?? alcan?ºar?í resultados se admitir, ocasionalmente, procedimentos an?írquicos.) ?ë claro, portanto, que a id?®ia de um m?®todo est?ítico ou de uma teoria est?ítica de racionalidade funda-se em uma concep?º?úo demasiado ing?¬nua do homem e de sua circunst?óncia social. Os que tomam do rico material da hist??ria, sem a preocupa?º?úo de empobrec?¬-lo para agradar a seus baixos instintos, a seu anseio de seguran?ºa intelectual (que se manifesta como desejo de clareza, precis?úo, `objetividade’, `verdade’), esses v?¬em claro que s?? h?í um princ?¡pio que pode ser defendido em todas as circunst?óncias e em todos os est?ígios do desenvolvimento humano. ?ë o princ?¡pio: tudo vale.

?ë preciso, agora, passar a examinar e a explicar esse princ?¡- pio abstrato, analisando-o em ternos pormenorizados e concretos.

NOTAS 1. Um dos poucos pensadores a compreender esse tra?ºo do e- volver do conhecimento foi Niels Bohr: `… ele nunca tentar?í esbo?ºar um quadro completo, mas acompanhar?í paciente- mente todas as fases de desenvolvimento de um problema, a partir de algum paradoxo manifesto, para gradualmente che- gar a sua elucida?º?úo. Em verdade, jamais encarar?í os resulta- dos obtidos como outra coisa que n?úo pontos de partida de outros estudos. Especulando acerca das perspectivas de uma linha de investiga?º?úo, afastar?í as habituais considera?º?Áes de simplicidade, eleg?óncia e mesmo de coer?¬ncia, observando que tais qualidades somente podem ser adequadamente ap??s (grifo meu) o evento…’ L. Rosenfeld, in Niels Bohr. His Life and Work as seen by his Friends and Colleagues, ed. S. Rosental, Nova Iorque, 1967, p. 117. Ora a ci?¬ncia jamais ?® um processo completo; est?í, portanto, sempre `antes’ do even- to.Conseq??entemente, a simplicidade, a eleg?óncia ou a coe- r?¬ncia jamais constituem condi?º?Áes necess?írias da pr?ítica (ci- 3. Hegel, Wissenschaft der Logik, vol. I, Meiner, Hamburgo, 1965, p. 6.

II Cabe, por exemplo, recorrer a hip??teses que contradizem te- orias confirmadas e/ou resultados experimentais bem esta- belecidos. ?ë poss?¡vel fazer avan?ºar a ci?¬ncia, procedendo contra-indutivamente.

Examinar o princ?¡pio em pormenor concreto significa tra- ?ºar as conseq???¬ncias das contra-regras que se op?Áem a algumas regras comuns do empreendimento cient?¡fico. Para ter id?®ia dessa forma de opera?º?úo, consideremos a regra segundo a qual ?® a ` ex- peri?¬ncia’ ou s?úo os ` fatos’ ou s?úo os ` resultados experimentais’ que medem o ?¬xito de nossas teorias, a regra segundo a qual uma concord?óncia entre a teoria e os ` dados’ favorece a teoria (ou n?úo modifica a situa?º?úo), ao passo que uma discord?óncia amea?ºa a teo- ria e nos for?ºa, por vezes, a elimin?í-la. Essa regra ?® elemento im- portante de todas as teorias da confirma?º?úo e da corrobora?º?úo. ?ë a ess?¬ncia do empirismo. A ` contra-regra’ a ela oposta aconselha- nos a introduzir e elaborar hip??teses que n?úo se ajustam a teorias firmadas ou a fatos bem estabelecidos. Aconselha-nos a proceder O procedimento contra-indutivo d?í surgimento ?ás seguin- tes indaga?º?Áes: ?ë a contra-indu?º?úo mais razo?ível do que a indu- ?º?úo? H?í circunst?óncias que lhe favore?ºam o uso? Quais os argu- mentos em seu favor? Quais os argumentos a ela contr?írios? Ser?í, talvez, cab?¡vel preferir sempre a indu?º?úo e n?úo a contraindu?º?úo? E assim por diante.

mos de um mundo imagin?írio para descobrir os tra?ºos do mundo real que supomos habitar (e que, talvez, em realidade n?úo passe de outro mundo imagin?írio). A primeira fase da cr?¡tica que dirigiremos contra os conceitos e processos comuns, o primeiro passo na cr?¡tica aos ` fatos’ h?í de consistir, portanto, em uma tentativa de romper o c?¡rculo vicioso. Temos de inventar um sistema concep- tual novo que ponha em causa os resultados de observa?º?úo mais cuidadosamente obtidos ou com eles entre em conflito, que frus- tre os mais plaus?¡veis te??ricos e que introduza percep?º?Áes que n?úo integrem o existente mundo percept?¡vel2. Esse passo ?® tam- b?®m de car?íter contra-indutivo. A contra-indu?º?úo, portanto, ?® sempre razo?ível e abre sempre uma possibilidade de ?¬xito.

como um agente secreto que participa do jogo da Raz?úo para so- lapar a autoridade da Raz?úo (Verdade, Honestidade, Justi?ºa e as- sim por diante)4.

NOTAS 1. Para esclarecer o papel de Pimandro na Revolu?º?úo Coperni- 2. `Entre em conflito’ ou `ponha em causa’ t?¬m o prop??sito de ser mais gerais do que `contradiz’. Afirmo que um conjunto de id?®ias ou a?º?Áes `conflita’ com um sistema conceptual se ?® incompat?¡vel com ele ou se faz o sistema parecer absurdo. Pa- 3. Dessa maneira, o Professor Ernan McMullin interpretou al- guns de meus primeiros artigos. Ver `A Taxonomy of the Re- lations between History and Philosophy of Science’, Minnesota 4. `Dada’, diz Hans Richter (in Dada: Art and Anti-Art) `n?úo se Isso n?úo exclui a habilidosa defesa dos programas, para mos- trar o car?íter quim?®rico de todas as defesas, ainda que `racio- nais’ . Cf., tamb?®m, cap?¡tulo XVI, texto correspondente ?ás no- tas 21, 22, 23. (De id?¬ntica maneira, um ator ou teatr??logo poderia apresentar todas as manifesta?º?Áes externas de `pro- fundo amor’ para desmascarar a impostura do `amor profun- do’. Exemplo: Pirandello.) Espero que essas observa?º?Áes afas- tem o temor que a senhorita Koertge manifesta de que eu a- penas pretendia iniciar um novo movimento, onde os lemas `proliferem’ ou `tudo vale’ substituam os lemas do falseamen- to, do indutivismo ou da programa?º?úo de pesquisas.

III A condi?º?úo de coer?¬ncia, por for?ºa da qual se exige que as hip??teses novas se ajustem a teorias aceitas, ?® desarrazoada, pois preserva a teoria mais antiga e n?úo a melhor. Hip??teses que contradizem teorias bem assentadas proporcionam-nos evid?¬ncia imposs?¡vel de obter por outra forma. A prolifera- ?º?úo de teorias ?® ben?®fica para a ci?¬ncia, ao passo que a uni- formidade lhe debilita o poder cr?¡tico. A uniformidade, al?®m disso, amea?ºa o livre desenvolvimento do indiv?¡duo.

No presente cap?¡tulo, oferecerei argumentos pormenoriza- dos, em prol da `contra-regra’ que nos impele a introduzir hip??te- ses incompat?¡veis com teorias bem assentadas. Os argumentos ser?úo indiretos. Levantar-se-?úo mediante cr?¡tica da exig?¬ncia de que as hip??teses novas devam ajustar-se ?áquelas teorias. A essa exig?¬ncia Prima facie, a condi?º?úo de coer?¬ncia pode ser apresentada em poucas palavras. ?ë sabido (e foi minuciosamente demonstrado por Duhem) que a teoria de Newton ?® incongruente com a lei da queda dos corpos, de Galileu, e com as leis de Kepler; que a termodin?ómi- ca estat?¡stica ?® inconsistente com a segunda lei da teoria fenomeno- l??gica; que a ??tica ondulat??ria ?® incompat?¡vel com a ??tica geom?®tri- ca; e assim por diante2. Note-se que estamos falando de incoer?¬ncia l??gica, podendo ocorrer que as diferen?ºas de previs?úo se mostrem muito pequenas para que um experimento as possa apontar. Note- se tamb?®m que estamos asseverando n?úo a incoer?¬ncia de, digamos, a teoria de Newton e a lei de Galileu, mas, antes, a incoer?¬ncia de al- gumas conseq???¬ncias da teoria de Newton, no dom?¡nio de validez da lei de Galileu com a lei de Galileu. Neste ??ltimo caso, a

situa?º?úo ?® particularmente clara. A lei de Galileu afirma que a ace- lera?º?úo dos corpos em queda livre ?® uma constante, enquanto a aplica?º?úo da lei de Newton ?á superf?¡cie da Terra indica uma acele- ra?º?úo que n?úo ?® constante, mas que decresce (embora impercepti- velmente) quando aumenta a dist?óncia em rela?º?úo ao centro da Mais abstratamente: consideremos uma teoria T’ que descre- ve adequadamente a situa?º?úo que se apresenta no dom?¡nio D’. T’ est?í em concord?óncia com um n??mero finito de observa?º?Áes (de classe, digamos, F) e em concord?óncia com essas observa?º?Áes den- tro da margem de erro M. Qualquer alternativa que se ponha em contradi?º?úo com T’, fora de F e dentro dos limites M, encontrar?í apoio naquelas mesmas observa?º?Áes e ser?í, portanto, aceit?ível, se T’ se mostrou aceit?ível. (Admitirei que F s?úo as ??nicas observa?º?Áes feitas.) A condi?º?úo de coer?¬ncia ?® muito menos tolerante. Elimina uma teoria ou uma hip??tese n?úo porque esteja em desacordo com os fatos; elimina-a quando ela se p?Áe em desacordo com outra teo- ria, com uma teoria, acentuemos, de cujas inst?óncias confirmadoras partilha. E dessa maneira transforma em medida de validade uma parte da teoria existente que ainda n?úo foi submetida a teste. A ??ni- ca diferen?ºa entre essa medida e uma teoria mais recente ?® apenas o tempo de exist?¬ncia e o contato maior que temos com a teoria usa- da como ponto de refer?¬ncia. Se a teoria mais recente fosse a mais antiga, a condi?º?úo de coer?¬ncia operaria em seu favor. `A primeira teoria adequada tem o direito de prioridade sobre teorias posterio- res igualmente adequadas’3. Sob esse aspecto, o efeito da condi?º?úo de coer?¬ncia ?® similar ao efeito dos mais tradicionais m?®todos de dedu?º?úo transcendental, de an?ílise de ess?¬ncias, de an?ílise fenome- nol??gica, de an?ílise ling???¡stica. Contribui para a preserva?º?úo do que ?® antigo e familiar, n?úo porque seja portador de qualquer inerente vantagem ÔÇö n?úo porque esteja melhor fundamentado na observa- ?º?úo do que a alternativa de sugest?úo recente ou porque seja mais elegante ÔÇö mas apenas por ser mais antigo e familiar. Essa n?úo

?® a ??nica situa?º?úo em que, a mais aprofundado exame, surge sur- preendente semelhan?ºa entre o empirismo de nossos dias e algu- Ora, parece-me que essas breves considera?º?Áes ÔÇö embora levem a uma interessante cr?¡tica t?ítica da condi?º?úo de coer?¬ncia e aos primeiros fragment?írios elementos de apoio ?á contra- indu?º?úo ÔÇö n?úo chegam, ainda, ao cerne da quest?úo. Mostram que uma alternativa para o ponto de vista aceito, alternativa que apresente os mesmos casos corroboradores, n?úo pode ser elimi- nada atrav?®s de arrazoado factual. N?úo demonstram que a alter- ?ë lament?ível, diria um defensor da condi?º?úo de coer?¬ncia, que o Acrescentar teorias novas de car?íter igualmente insatisfat??rio n?úo melhorar?í a situa?º?úo; nem h?í muito sentido no tentar substituir A substitui?º?úo n?úo se operar?í com facilidade. Talvez imponha dom?¡nio de um formalismo novo e talvez exija que problemas familiares sejam acomodados a pautas novas. Manuais ter?úo de ser reescritos, precisar?úo sofrer revis?Áes os curr?¡culos universit?í- rios e os resultados experimentais ser?úo reinterpretados. E qual o resultado de tal esfor?ºo? Outra teoria que, do ponto de vista emp?¡rico, n?úo oferece qualquer vantagem em rela?º?úo ?á que subs- tituiu. O ??nico aprimoramento real, continuaria o defensor da Esses fatos novos ou corroborar?úo as teorias em vigor ou nos for?ºar?úo a modific?í-las, indicando, com precis?úo, os pontos em que apresentam defici?¬ncias. Em ambos os casos, dar?úo lugar a progresso real e n?úo a altera?º?Áes arbitr?írias. O procedimento conveniente h?í de ser, portanto, o de confrontar a concep?º?úo aceita com tantos fatos relevantes quanto poss?¡vel. A exclus?úo de alternativas torna-se, pois, simples quest?úo de oportuni- dade: invent?í-las n?úo traz qualquer ajuda e chega a ser prejudicial ao progresso, pois absorve tempo e aten?º?úo que

poderiam ser devotados a prop??sitos melhores. A condi?º?úo de co- er?¬ncia afasta essas discuss?Áes est?®reis e for?ºa o cientista a concen- trar-se em fatos que, ao final, s?úo os ??nicos reconhecidos ju?¡zes de uma teoria. ?ë assim que o cientista militante justifica o apego a uma ??nica teoria, com exclus?úo das alternativas empiricamente Vale a pena voltar a real?ºar o n??cleo razo?ível desse argu- mento. As teorias n?úo devem ser modificadas, a menos que haja raz?Áes prementes para a modifica?º?úo. A ??nica raz?úo premente pa- ra alterar uma teoria ?® a discord?óncia com fatos. O exame de fatos incompat?¡veis com a teoria conduz, portanto, a progresso. Exame de hip??teses incompat?¡veis n?úo leva ao mesmo resultado. Conse- q??entemente, conv?®m agir de forma a fazer crescer o n??mero de fatos relevantes. N?úo conv?®m agir de maneira a fazer crescer o n??mero de alternativas factualmente adequadas, mas incompat?¡- veis. Talvez se desejasse acrescentar que o aperfei?ºoamento for- mal, traduzido em maior eleg?óncia, simplicidade, generalidade e coer?¬ncia, n?úo deve ser exclu?¡do. Mas, uma vez ocorridos esses aperfei?ºoamentos, parece que somente resta ao cientista a coleta E assim ?® ÔÇö contanto que os fatos existam e a eles se possa chegar, independentemente de se ter ou n?úo em conta alternativas da teoria a ser submetida a teste. A esse pressuposto, do qual depende, de ma- neira decisiva, a validez do argumento precedente, denominarei pressuposto da autonomia relativa dos fatos, ou princ?¡pio da autono- mia. N?úo assevera esse princ?¡pio que a descoberta e a descri?º?úo de fatos sejam independentes de todo teorizar. Assevera, por?®m, que ?® poss?¡vel chegar aos fatos integrados ao conte??do emp?¡rico de uma teoria, sejam ou n?úo consideradas as alternativas dessa teoria. N?úo me consta que esse important?¡ssimo pressuposto haja sido formula- do, explicitamente, como um postulado do m?®todo emp?¡rico. To- davia, ele est?í claramente presente em todas as investiga?º?Áes relati- vas a quest?Áes de confirma?º?úo e testes. Todas as investiga?º?Áes dessa

ordem utilizam modelo em que uma ??nica teoria ?® confrontada com uma classe de fatos (ou enunciados de observa?º?úo) que se presumem, de alguma forma, `dados’. Penso que esse retrato sim- plifica em demasia a situa?º?úo real. Os fatos e as teorias est?úo mui- to mais intimamente ligados do que o admite o princ?¡pio da auto- nomia. N?úo apenas ocorre que a descri?º?úo de cada fato singular depende de alguma teoria (que, naturalmente, pode diferir da teoria a ser submetida a teste), como tamb?®m ocorre existirem fatos que s?úo desvelados apenas com o aux?¡lio de alternativas da teoria a ser submetida a teste e que se tornam inacess?¡veis t?úo logo essas alter- nativas se v?¬em exclu?¡das. E isso leva a sugerir que a unidade me- todol6gica a que devemos referir-nos, ao discutir quest?Áes relati- vas a testes e a conte??do emp?¡rico, se constitui de todo um conjunto de teorias, parcialmente superpostas, factualmente adequadas, mas mutuamen- te inconsistentes. No presente cap?¡tulo, s?? apresentaremos um breve esbo?ºo desse modelo de teste. Antes de faz?¬-lo, entretanto, desejo examinar um exemplo que mostra claramente a fun?º?úo das alter- Sabe-se, hoje, que a part?¡cula browniana ?® m?íquina de mo- vimento perp?®tuo de segunda esp?®cie e que sua exist?¬ncia refuta a segunda lei fenomenol??gica. O movimento browniano coloca-se, pois, no dom?¡nio dos fatos relevantes para a lei. Ora, poderia essa rela?º?úo entre o movimento browniano e a lei ter sido descoberta de maneira direta, isto ?®, poderia ter sido descoberta por meio de exame das conseq???¬ncias observacionais da teoria fenomenol??gica que n?úo fizesse uso de uma teoria alternativa do calor? Essa inda- ga?º?úo abre-se, de imediato, em duas: (1) poderia a relev?óncia da par- t?¡cula browniana ter sido descoberta dessa maneira? (2) poderia ter A resposta ?á primeira pergunta ?®: n?úo o sabemos. ?ë im- poss?¡vel dizer o que teria ocorrido se a teoria cin?®tica n?úo fosse introduzida no debate. Suponho, entretanto, que, em tal caso, a part?¡cula browniana teria sido encarada como algo extra-

vagante ÔÇö muito ?á semelhan?ºa de como foram considerados ex- travagantes os surpreendentes efeitos relatados pelo falecido pro- fessor Ehrenhaft5 ÔÇö e n?úo lhe teria sido atribu?¡da a posi?º?úo deci- siva que lhe est?í reservada na doutrina contempor?ónea. A resposta ?á segunda pergunta ?® simplesmente: N?úo. Consideremos o que se tornaria necess?írio fazer, em face da descoberta de inconsist?¬ncia entre o fen??meno do movimento browniano e a segunda lei. Im- por-se-ia: (a) medida do movimento exato da part?¡cula para determi- nar a altera?º?úo de sua energia cin?®tica plus a energia despendida para vencer a resist?¬ncia do fluido; e (b) medida precisa de tempe- ratura e de transfer?¬ncia de calor no meio circundante, para asse- gurar que toda perda ocorrida se v?¬, de fato, compensada pelo a- cr?®scimo de energia da part?¡cula em movimento e pelo trabalho executado contra o fluido. Essas medi?º?Áes colocam-se fora das possibilidades experimentais6: nem a transfer?¬ncia de calor nem a Conseq??entemente, ?® imposs?¡vel uma refuta?º?úo ` direta’ da segun- da lei, refuta?º?úo que t?úo-somente levaria em conta a teoria feno- menol??gica e os fatos concernentes ao movimento browniano. ?ë imposs?¡vel a refuta?º?úo em virtude da estrutura do mundo em que vivemos e das leis v?ílidas nesse mundo. Ali?ís, como se sabe, a real refuta?º?úo surgiu por caminho muito diverso. Surgiu via teoria ci- n?®tica e a partir do uso que dela fez Einstein para calcular as pro- priedades estat?¡sticas do movimento browniano. Ao longo desse procedimento, a teoria fenomenol??gica (T’) viu-se incorporada ao contexto mais amplo da f?¡sica estat?¡stica (T) de modo a violar-se a condi?º?úo de coer?¬ncia; depois disso, preparou-se um experimento Parece-me que esse ?® exemplo t?¡pico da rela?º?úo que se estabeleceu entre as teorias ou os pontos de vista muito gerais e os `fatos’. A relev?óncia e o car?íter refutador dos fatos deci- sivos s?? podem ser verificados com o aux?¡lio de outras teorias que, embora factualmente adequadas8, n?úo est?úo em concor- d?óncia com a concep?º?úo a ser submetida a teste. Assim sendo,

a inven?º?úo e articula?º?úo de alternativas talvez tenham de preceder a apresenta?º?úo dos fatos refutadores. O empirismo, pelo menos em algumas de suas mais sofisticadas vers?Áes, exige que o conte??- do emp?¡rico de todo conhecimento por n??s conseguido seja au- mentado o quanto poss?¡vel. Conseq??entemente, a inven?º?úo de alternati- vas para a concep?º?úo que est?í em debate constitui parte essencial do m?®todo emp?¡rico. Inversamente, a circunst?óncia de a condi?º?úo de coer?¬ncia eliminar alternativas mostra, agora, que ela est?í em discord?óncia Afastando testes valiosos, reduz o conte??do emp?¡rico das teorias autorizadas a permanecer (e estas, como acima referi, ser?úo, ge- ralmente, as teorias que primeiro se viram formuladas); e, em es- pecial, reduz o n??mero de fatos que evidenciariam as limita?º?Áes daquelas teorias. Este ??ltimo resultado de determinada aplica?º?úo da condi?º?úo de coer?¬ncia ?® de interesse muito restrito. Pode muito bem ocorrer que a refuta?º?úo das incertezas, em mec?ónica qu?óntica, pressuponha exatamente uma incorpora?º?úo da atual teoria em um contexto mais amplo que n?úo esteja em concord?óncia com a id?®ia de complementaridade e. que, portanto, sugira experimentos no- vos e decisivos. E pode tamb?®m ocorrer, se bem sucedida, que, a insist?¬ncia, por parte da maioria dos f?¡sicos de hoje, em defender as condi?º?Áes de coer?¬ncia, impe?ºa, para sempre, as incertezas de se verem refutadas. Dessa maneira, a condi?º?úo, ao final, dar?í mar- gem a uma situa?º?úo em que certo ponto de vista se petrifique em dogma, sendo posto, em nome da experi?¬ncia, em posi?º?úo intei- Vale a pena examinar, com maior min??cia, essa defesa, apa- rentemente `emp?¡rica’, de um ponto de vista dogm?ítico. Admita- mos que os f?¡sicos hajam acolhido, consciente ou inconscien- temente, a id?®ia da singularidade da complementaridade e que se recusem a examinar alternativas. De in?¡cio, ?® poss?¡vel que esse procedimento se mostre inofensivo. Afinal de contas, um homem e mesmo uma escola influente s?? podem fazer umas

auxiliares, destinadas a abranger casos especiais, de sorte que fa- cilmente alcan?ºa alto grau de confirma?º?úo baseado em observa- ?º?Áes. O mito foi ensinado por longo tempo; seu conte??do recebe o refor?ºo do medo, do preconceito e da ignor?óncia, ao mesmo tempo que de um exerc?¡cio clerical zeloso e cruel. Suas id?®ias pe- netram o idioma comum; infeccionam todas as formas de pensa- mento e atingem muitas decis?Áes de relevante significa?º?úo para a vida humana. O mito proporciona modelos para a explica?º?úo de qualquer conceb?¡vel evento ÔÇö conceb?¡vel, entenda-se, para os que aceitaram o mito 11. Assim sendo, seus termos-chave ver-se-?úo fi- xados de maneira clara; e a id?®ia (que talvez tenha, originalmente, levado a esse procedimento) de que s?úo c??pias de entidades isen- tas de altera?º?Áes e que a altera?º?úo de significado, se ocorrer, se de- ver?í a erro humano ÔÇö essa id?®ia passar?í a apresentar-se como plaus?¡vel. Essa plausibilidade fala em favor de todas as manobras utilizadas para a preserva?º?úo do mito (inclusive a elimina?º?úo de oponentes). O aparelhamento conceptual da teoria e as emo?º?Áes ligadas ?á sua aplica?º?úo, insinuando-se em todos os meios de co- munica?º?úo, em todas as a?º?Áes e, afinal, em toda a vida da comuni- dade, passam a garantir o ?¬xito de m?®todos tais como o da dedu- ?º?úo transcendental, da an?ílise de uso, da an?ílise fenomenol??gica ÔÇö meios de emprestar maior solidez ao mito (o que mostra, assi- nalemos de passagem, que todos esses m?®todos, caracter?¡sticos de escolas filos??ficas antigas e modernas, apresentam um tra?ºo co- mum: tendem a preservar o status quo da vida intelectual). Tamb?®m os resultados de observa?º?úo falar?úo em favor da teoria, de vez que formulados com observ?óncia de seus termos. E surge a impress?úo de se haver, finalmente, alcan?ºado a verdade. Torna-se evidente, ao mesmo tempo, que se perdeu todo contato com o mundo e que a estabilidade atingida, a apar?¬ncia de verdade absoluta, n?úo passa do resultado de um conformismo absoluto12. Com efeito, como ser?í poss?¡vel submeter a teste ou aprimorar a verdade de uma teoria, se ela ?® elaborada de maneira tal que qualquer acontecimento conceb?¡vel

pode ser descrito e explicado nos termos de seus princ?¡pios? A ??- nica maneira de estudar esses princ?¡pios que a tudo abrangem seria compar?í-los com um conjunto de outros princ?¡pios igualmente abran- gentes ÔÇö mas a possibilidade desse procedimento est?í, desde o in?¡- cio, afastada. O mito n?úo tem, pois, relev?óncia objetiva; continua a existir apenas como resultado do esfor?ºo da comunidade de cren- tes e de seus orientadores, sejam estes sacerdotes ou vencedores do Pr?¬mio Nobel. Esse ?®, a meu ver, o mais forte argumento con- tra qualquer m?®todo que estimule a uniformidade, quer seja esse m?®todo emp?¡rico ou n?úo. Cada m?®todo dessa esp?®cie ?®, em ??ltima an?ílise, um m?®todo decepcionante. D?í for?ºas a um conformismo sombrio e fala de verdade; leva ?á deteriora?º?úo das capacidades in- destr??i o mais precioso dom da juventude ÔÇö o enorme poder de Resumindo: Unanimidade de opini?úo pode ser adequada para uma igreja, para as v?¡timas temerosas ou ambiciosas de algum mito (antigo ou moderno) ou para os fracos e conformados segui- dores de algum tirano. A variedade de opini?Áes ?® necess?íria para o conhecimento objetivo. E um m?®todo que estimule a variedade ?® a ??nico m?®todo compat?¡vel com a concep?º?úo humanitarista. (Na medida em que a condi?º?úo de coer?¬ncia restringe a variedade, ela encerra um elemento teol??gico, elemento que se traduz na adora- ?º?úo dos “fatos”, que ?® um tra?ºo caracter?¡stico de quase todo empi- rismo13.)

NOTAS 1. A condi?º?úo de coer?¬ncia remonta pelo menos a Arist??te- les. Desempenha papel importante na filosofia de Newton

(embora Newton a violasse constantemente). ?ë acolhida pela 2. Pierre Duhem, La Th?®orie Physique: Son objet, Sa Structure, Paris, 1914, cap?¡tulo IX e X. Em seu Objective Knowledge. Oxford, 1972, pp. 204-5, Karl Popper cita-me para apoiar a afirma?º?úo de que foi dele, originalmente, a id?®ia `segundo a qual as teori- as podem corrigir uma lei relativa a ÔÇ£observa?º?ÁesÔÇØ ou a ÔÇ£fen??- menosÔÇØ que elas, supostamente, devem explicar’ . Comete ele dois equ?¡vocos. O primeiro consiste em admitir que as refe- r?¬ncias que a ele fa?ºo constituem prova hist??rica de sua prio- O segundo equ?¡voco est?í em olvidar que a id?®ia referida j?í ocorre em Duhem, em Einstein e, especialmente, em Boltz- mann, que antecipou todas as observa?º?Áes filos??ficas de ` The Com respeito a Boltzmann, cf. meu artigo na Encyclopaedia of Philosophy, ed. Paul Edwards. Com respeito a Duhem, cf. Objec- 3. C. Truesdell, `A Program Toward Rediscovering the Rational Mechanics of the Age of Reason’, Archives for the History of 4. Evid?¬ncia mais minuciosa a prop??sito da exist?¬ncia dessa atitude e de sua influ?¬ncia sobre o desenvolvimento das ci- ?¬ncias encontra-se em Thomas Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, Chicago, 1962. A atitude ?® extremamente comum no campo da teoria qu?óntica. `Tiremos vantagem das teorias bem sucedidas de que dispomos e n?úo percamos tempo a imaginar o que ocorreria se utiliz?íssemos outras teorias’ pa- rece constituir a diretriz orientadora de quase todos os f?¡si- cos de nossa ?®poca (cf., por exemplo, W. Heisenberg, Physics and Philosophy, Nova Iorque, 1958, pp. 56 e 144) e dos fil??so- fos `cient?¡ficos’ (p. ex., N. R. Hanson, `Five Cautions for the Copenhagen Critics’, Philosophy of Science, n??.. 26, 1959, pp. 325

ss.). A atitude se manifesta nos artigos e nas catas de Newton (endere?ºadas a Hooke, Pardies e outros) acerca da teoria das cores e se manifesta, ainda, em sua metodologia geral (cf. mi- nhas refer?¬ncias em `Classical Empiricism’. The Methodological 5. Tendo, em variadas condi?º?Áes, testemunhado esses fen??me- nos, reluto muito mais do que a comunidade cient?¡fica atual em afast?í-los, em d?í-los como simples Dreckeffekt. Cf. tradu- ?º?úo que fiz de confer?¬ncias pronunciadas por Ehrenhaft, em Viena, no ano 1947, e que me disponho a fornecer mediante solicita?º?úo postal. Era melhor professor que a maioria dos ou- tros e deu a seus alunos muito melhor id?®ia acerca do car?íter prec?írio do conhecimento f?¡sico. Ainda recordo qu?úo interes- sadamente estudamos a teoria de Maxwell (no manual de A- braham-Becker, em Heaviside, freq??entemente mencionado nas exposi?º?Áes de Ehrenhaft, e nos trabalhos originais do pr??prio Maxwell) e a teoria da relatividade, com o objetivo de refutar sua assevera?º?úo segundo a qual a F?¡sica te??rica era desprovida de sentido; e qu?úo surpresos e desapontados nos sentimos ao descobrir que n?úo havia cadeia dedutiva direta a conduzir da teoria ao experimento e que muitas dedu?º?Áes ofe- recidas eram assaz arbitr?írias. Demo-nos conta, ainda, de que quase todas as teorias ap??iam sua solidez em um reduzido n??mero de casos paradigm?íticos, sendo necess?írio compro- meter-lhes a estrutura para que passem a abranger os casos restantes. ?ë lament?ível que os fil??sofos da ci?¬ncia s?? rara- mente se ocupem de casos de fronteira, como faziam Ehre- nhaft ou Velikovsky, preferindo ver-se reconhecidos pelos donos da ci?¬ncia (e na pr??pria ?írea de naufr?ígio) a alcan?ºar 6. Para min??cias, ver Zs. Physik, vol. 81 (1933), pp. 143 ss.

do artigo de Elie Zahar, `Why Did Einstein’ s Programme su- persede Lorentz’s?’, British Journal for the Philosophy of Science, ju- 10. L. Rosenfeld, `Misunderstandings about the Foundations of the Quantum Theory’ , Observation and lnterpretation, ed. Kor- 11. Para descri?º?Áes minuciosas, cf. Ch. H. Lea, Materials for a His- tory of Witchcraft, Nova Iorque, 1957, bem como H. Trevor- Roper, The European Witch Craze, Nova Iorque, 1969, onde h?í 12. A an?ílise do uso, para considerar apenas um exemplo, pres- sup?Áe a exist?¬ncia de certas regularidades concernentes ao u- so. Quanto mais as pessoas diferem, no que concerne a id?®ias fundamentais, mais dif?¡cil se torna desvelar essas regularida- des. Conseq??entemente, a an?ílise do uso operar?í melhor em uma sociedade fechada, que se mantenha unida gra?ºas a um poderoso mito como se deu com a sociedade dos fil??sofos de Oxford, que existia h?í cerca de vinte anos. Os esquizofr?¬nicos sustentam, muito freq??entemente, cren?ºas t?úo r?¡gidas, amplas e desligadas da realidade quanto as melhores filosofias dogm?í- ticas. Note-se, contudo, que essas cren?ºas lhes ocorrem natu- ralmente, ao passo que por vezes, um fil??sofo `cr?¡tico’ dedica toda sua vida ?á tentativa de encontrar argumentos que criem 13. ?ë interessante notar que s?úo quase id?¬nticas as trivialida- des que levaram os protestantes ?á B?¡blia e as trivialidades que levam os empiristas e outros fundamentalistas ao que lhes serve de fundamento, a saber, a experi?¬ncia. Assim, em seu Novum Organum, Bacon pede que todas as no?º?Áes preconcebidas (aforismo 36), todas as opini?Áes (aforismo 42 ss.) e mesmo as palavras (aforismo 59, 121) `sejam conjuradas e a elas se renuncie com firme e solene

resolu?º?úo e delas deve a compreens?úo libertar-se completa- mente, de sorte que o acesso ao reino do homem, reino que se fundamenta nas ci?¬ncias, possa assemelhar-se a um acesso ao reino dos c?®us, onde s?? se concede entrada ?ás crian?ºas’ (afo- rismo 68). Em ambos os casos, a `disputa’ (que ?® considera?º?úo de alternativas) se v?¬ criticada; em ambos os casos somos convidados a afast?í-la; e, em ambos os casos, nos prometem `imediata percep?º?úo’, aqui, de Deus, e l?í, da Natureza. Para in- forma?º?úo acerca do pano de fundo teor?®tico de tal similarida- de, cf. meu ensaio `Classical Empiricism’, in The Methodological Para informa?º?úo acerca dos fortes la?ºos entre o puritanismo e a ci?¬ncia moderna, ver R. T. Jones, Ancients and Moderns, Cali- f??rnia, 1965, cap?¡tulos 5-7. Exame exaustivo dos numerosos fatores que influenciaram o surgimento do moderno empiris- mo encontra-se em R. K. Merton, Science, Technology and Society in Seventeenth Century England, Nova Iorque, Howard Fertig, 1970 (vers?úo-livro do artigo de 1938).

IV Qualquer id?®ia, embora antiga e absurda, ?® capaz de aperfei- ?ºoar nosso conhecimento. A ci?¬ncia absorve toda a hist??ria do pensamento e a utiliza para o aprimoramento de cada te- oria. E n?úo se respeita a interfer?¬ncia pol?¡tica. Ocorrer?í que ela se fa?ºa necess?íria para vencer o chauvinismo da ci?¬ncia que resiste em aceitar alternativas ao status quo.

avan?ºada e aparentemente mais precisa n?úo ?® invulner?ível, po- dendo ser alterada ou inteiramente destru?¡da com o aux?¡lio de i- d?®ias que a vaidade da ignor?óncia j?í tenha lan?ºado nos cestos de res?¡duos da Hist??ria. Essa a via pela qual o conhecimento de hoje pode, amanh?ú, passar a ser visto como conto de fadas; essa a via pela qual o mito mais rid?¡culo pode vir a transformar-se na mais O pluralismo das teorias e das doutrinas metaf?¡sicas n?úo ?® apenas importante para a metodologia; tamb?®m ?® parte essencial da concep?º?úo humanit?íria. Educadores progressistas t?¬m sempre tentado desenvolver a individualidade de seus disc?¡pulos, para as- segurar que frutifiquem os talentos e convic?º?Áes particulares e, por vezes, ??nicos que uma crian?ºa possua. Contudo, uma educa- ?º?úo desse tipo tem sido vista, muitas vezes, como um f??til exerc?¡- cio, compar?ível ao de sonhar acordado. Com efeito, n?úo se faz N?úo significa isso dever ele absorver um particular conjunto de concep- ?º?Áes, com exclus?úo de tudo o mais? E, se um tra?ºo de imagina?º?úo nele permanecer, n?úo encontrar?í adequada aplica?º?úo nas artes ou em um fluido reino de sonhos que pouco tenha a ver com o mun- do em que vivemos? Ao final, n?úo levar?í esse processo a um di- v??rcio entre a realidade odiada e as deliciosas fantasias, entre a ci- ?¬ncia e as artes, entre a descri?º?úo cautelosa e a irrestrita auto- express?úo? Os argumentos em prol da pluralidade evidenciam que isso n?úo precisa acontecer. ?ë poss?¡vel conservar o que mereceria o nome de liberdade de cria?º?úo art?¡stica e us?í-la amplamente n?úo ape- nas como trilha de fuga, mas como elemento necess?írio para des- cobrir e, talvez, alterar os tra?ºos do mundo que nos rodeia. Essa coincid?¬ncia da parte (o indiv?¡duo) com o todo (o mundo em que vive), do puramente subjetivo e arbitr?írio com o objetivo e sub- misso a regras, constitui um dos mais fortes argumentos em favor da metodologia pluralista. Para maior esclarecimento, o leitor ?® convidado a consultar o magn?¡fico ensaio de Mill, On Liberty14.

cional, que deu surgimento a escolas, observat??rios, tradi?º?Áes cient?¡ficas e interessant?¡ssimas teorias. Essas teorias, que eram expressas em termos sociol??gicos e n?úo matem?íticos, deixa- ram suas marcas na sagas, nos mitos, nas lendas e podem ser reconstru?¡das de duas maneiras; avan?ºando, no presente, a partir dos resqu?¡cios da astronomia da Idade da Pedra (tais como pedras mareadas, observat??rios de pedra, etc.) ou recu- ando para o passado, a partir de vest?¡gios liter?írios que encon- Marshack, The Roots of Civilization, Nova Iorque, 1972. Exem- plo do segundo m?®todo est?í em de Santillana ÔÇö von De- chend, Hamlet’s Mill, Boston, 1969. Para um sum?írio e inter- preta?º?úo, cf. meu Einf??hrung in die Naturphilosophie, Braunschweig 8. Cf. cap?¡tulo 9 de L?®vi-Strauss, Structural Anthropology, Nova I- orque, 1967. Quanto ?á base fisiol??gica de vodu, cf. C. R. Rich- ter, `The Phenomenon of Unexplained Sudden Death’, in The Cannon, Bodily Changes in Pain, Hunger, Fear and Rage, Nova I- orque, 1915, e ` ÔÇ£VoodooÔÇØ Death’, in American Anthropologist, nova s?®rie, xliv, 1942. Minuciosas observa?º?Áes biol??gicas e meteorol??gicas feitas pelos chamados `primitivos’ s?úo apre- 9. R. C. Croizier, Traditional Medicine in Modern China, Harvard University Press, 1968. O autor oferece vers?úo equilibrada e interessant?¡ssima dos desenvolvimentos havidos, incluindo numerosas cita?º?Áes retiradas de livros, jornais, panfletos, mas, freq??entes vezes, mostra inibi?º?úo, que se prende a seu respei- 10. Chou Shao, 1933, citado por Croizier, op. cit., p. 109. Cf., tamb?®m, D. W. Y. Kwok, Scientism in Chinese Thought, New Haven, 1965.

`Experts in a Free Society’, The Critic, novembro/dezembro de 1970, e cap?¡tulo XVIII deste ensaio. Para informa?º?úo acerca das tens?Áes entre `vermelho’ e `t?®cnico’, cf. F. Schurmann, Ide- ology and Organization in Communist China, University of Califor- 12. Para informa?º?úo acerca dos resultados iniciais, cf. T. Nakaya- ma Acupuncture et M?®dicine Chinoise Verifi?®es au Japon, Paris, 1934, e F. Mann Acupuncture, Nova Iorque, 1962; edi?º?úo revis- ta, Nova Iorque, 1973. Na medicina tradicional, a verifica?º?úo de pulsa?º?úo ?® o principal m?®todo de diagn??stico, consideran- do-se 12 diferentes tipos de pulsa?º?úo. E. H. Hume, Doctors East and West, Baltimore, 1940, pp. 190-2, fortalece interessan- tes exemplos em que o diagn??stico fundado, na pulsa?º?úo e o Cf., tamb?®m, E. H. Hume, The Chinese Way of Medicine, Balti- more, 1940. Para conhecer o desenvolvimento hist??rico e ter informa?º?Áes adicionais, cf. a introdu?º?úo a The Yellow Emperor’s Classic of Internal Medicine, trad. llza Veith, Berkeley e Los An- 14. Cf. a refer?¬ncia que fa?ºo a esse ensaio na se?º?úo 3 de `Against Method’, Minnesota Studies in the Philosophy of Science, vol. 4, Minneapolis, 1970.

V Nenhuma teoria est?í em concord?óncia com todos os fatos de Os fatos se prendem a ideologias mais antigas, e um conflito entre fatos e teorias pode ser evid?¬ncia de progresso. Esse conflito corresponde, ainda, a um primeiro passo na tentati- va de identificar princ?¡pios impl?¡citos em no?º?Áes observa- cionais comuns.

creve ele em obra mais tardia3, `quando penso que Aristarco e Co- p?®rnico foram capazes de levar a raz?úo a dominar de tal modo a sensibilidade que, em detrimento desta ??ltima, a primeira se fez senhora da cren?ºa que professavam’. A teoria da gravita?º?úo, pro- posta por Newton, viu-se, desde o in?¡cio, frente a dificuldades s?®- rias, que propiciavam material para sua refuta?º?úo. Ainda hoje, no campo n?úo-relativista, `existem discrep?óncias numerosas entre a observa?º?úo e a teoria’4. O modelo at??mico de Bohr foi introduzi- do e conservado, apesar de clara e inabal?ível evid?¬ncia em contr?í- rio5. A teoria especial da relatividade manteve-se, a despeito dos transparentes resultados experimentais obtidos por Kaufmann, em 1906, e a despeito da refuta?º?úo D. C. Miller (falo de refuta?º?úo porque o experimento foi, do ponto de vista da evid?¬ncia poss?¡vel na ?®poca, pelo menos t?úo bem realizado quanto os experimentos iniciais de Michelson e Morley)6. A teoria geral da relatividade em- bora surpreendentemente bem sucedida em alguns setores (tenha- se em conta, n?úo obstante, as observa?º?Áes abaixo), falhou no ex- plicar 10ÔÇØ no movimento dos pontos nodais de V?¬nus e mais de 5ÔÇØ no movimento dos pontos nodais de Marte7; al?®m disso, en- frenta, agora, novas dificuldades, devido aos c?ílculos do movi- mento de Merc??rio, feitos por Dicke e outros8. Todos esses s?úo problemas de ordem quantitativa e podem ser resolvidos com a descoberta de um melhor conjunto de n??meros, sem for?ºar-nos a O segundo caso, das falhas qualitativas, ?® menos conhecido, mas de interesse muito maior. Nesse caso, a teoria ?® incompat?¡vel n?úo com um fato rec??ndito, que pode ser trazido ?á luz com o au- x?¡lio de equipamento complexo e s?? ?® conhecido por especialistas, mas ?® inconsistente com circunst?óncias facilmente percebidas e O primeiro e, a meu ver, o mais importante exemplo de uma inconsist?¬ncia desse tipo ?® a teoria de Parm?¬nides a prop??- sito do imut?ível e homog?¬neo, teoria contraditada por quase tu- do que ?® de n??s conhecido e de que temos experi?¬ncia. A

plo disso ?® a atitude em face da regra de Kepler, segundo a qual um objeto, visto atrav?®s de uma lente, ?® percebido no ponto de interse?º?úo dos raios que caminham da lente para o olho15. A regra implica que ser?í visto como infinitamente afastado o objeto que se situe no foco.

`Ao contr?írio, entretanto’, escreve Barrow, professor de Newton e seu predecessor em Cambridge, fazendo coment?írio em torno dessa predi?º?úo16, `a experi?¬ncia nos assegura que [um ponto situado nas vizinhan?ºas do foco] aparece a dist?óncias v?írias, na depend?¬ncia das diferentes situa?º?Áes do olho… E quase nunca pa- rece mais afastado do que estaria, se diretamente visto a olho de- sarmado; por vezes, ali?ís, parece muito mais pr??ximo. …E tudo isso d?í a impress?úo de escapar a nossos princ?¡pios’. `Em mim, po- r?®m’, continua Barrow, `nem essa, nem qualquer outra dificuldade exercer?í influ?¬ncia t?úo grande a ponto de levar-me a renunciar ?á- quilo que sei ser claramente agrad?ível ?á raz?úo.’

(E + v x B), onde Q ?® a carga da part?¡cula que se move, V ?® a sua velocidade e B ?® o campo el?®trico. Essa magnitude se reduz, em todos os casos, a QEV, a menos que estejamos dispostos a admi- tir a exist?¬ncia de p??los magn?®ticos singulares. (Em contexto ade- quado, esse resultado d?í forte apoio ?ás id?®ias e ?ás descobertas ex- perimentais do falecido Felix Ehrenhaft22.) ?ë imposs?¡vel, muitas vezes, fazer o levantamento de todas as conseq???¬ncias interessantes de uma teoria ÔÇö e assim descobrir os resultados absurdos que dela decorrem. Isso talvez se deva ?á defici?¬ncia dos m?®todos matem?íticos existentes e pode tamb?®m dever-se ?á ignor?óncia dos que defendem a teoria. Em tais circuns- t?óncias, o mais comum ?® utilizar uma teoria at?® certo ponto (fre- q??entemente arbitr?írio) e considerar uma teoria nova para c?ílculo de aspectos mais refinados. Do ponto de vista metodol??gico, esse procedimento ?® um verdadeiro pesadelo. Expliquemo-nos, usando como exemplo o c?ílculo de trajet??ria de Merc??rio, nos termos de O peri?®lio de Merc??rio se desloca a um ?¡ndice de aproxi- madamente 5.600ÔÇØ por s?®culo. Desse valor, 5.026ÔÇØ s?úo geom?®tri- cos, estando ligados ao movimento do sistema de refer?¬ncia, ao passo que 575ÔÇØ s?úo din?ómicos e devidos a perturba?º?Áes do siste- ma solar. Todas essas perturba?º?Áes, exceto os famosos 43ÔÇØ, s?úo explicados pela mec?ónica cl?íssica. E nesses termos a explica?º?úo ?® A explica?º?úo mostra que a premissa de onde derivamos os 43ÔÇØ n?úo ?® a teoria geral da relatividade aliada a convenientes con- di?º?Áes iniciais. A premissa inclui a F?¡sica al?®m dos pressupostos re- lativistas admitidos. E ocorre mais: o c?ílculo relativista, a chamada `solu?º?úo Schwarzschild’, n?úo diz respeito apenas ao sistema plane- t?írio tal como este existe no mundo real (isto ?®, em nossa gal?íxia as sim?®trica); diz respeito ao caso inteiramente fict?¡cio de um uni- verso de simetria central, encerrando uma singularidade em ponto m?®dio e nada mais. Quais as raz?Áes para recorrer a t?úo estranha combina?º?úo de premissas?

A raz?úo, nos termos da resposta costumeira, est?í em que trabalhamos com aproxima?º?Áes. As f??rmulas da F?¡sica cl?íssica n?úo aparecem porque a relatividade ?® incompleta. E o caso da si- metria central n?úo ?® invocado porque a relatividade nada oferece de melhor. Ambos os esquemas defluem da teoria geral, sob cir- cunst?óncias especiais que se manifestam em nosso sistema plane- t?írio, contanto que omitamos magnitudes demasiado reduzidas para merecer considera?º?úo. Em conseq???¬ncia, estamos usando ampla- mente a teoria da relatividade e a estamos usando de maneira a- Note-se como essa id?®ia de aproxima?º?úo difere da id?®ia le- g?¡tima. Geralmente, dispomos de uma teoria, temos como fazer os c?ílculos acerca do particular caso de nosso interesse, notamos que esses c?ílculos nos conduzem a magnitudes que se colocam abaixo do n?¡vel de precis?úo experimental, omitimos essas magnitudes e chegamos a um formalismo fortemente simplificado. No caso que nos ocupa, efetuar as aproxima?º?Áes requeridas equivaleria a calcu- lar, em bases relativistas, todos os problemas dos n-corpos (inclu- sive resson?óncias a longo termo entre as diferentes ??rbitas plane- t?írias), desprezando magnitudes inferiores ?á precis?úo da observa- ?º?úo e mostrando que a teoria, dessa maneira simplificada, coincide com a mec?ónica celeste cl?íssica, tal como corrigida por Schwarzs- child. Esse procedimento jamais foi utilizado porque o problema relativista dos n-corpos continua a resistir a uma solu?º?úo. Nem se- quer existem solu?º?Áes aproximadas para problemas importantes, como, por exemplo, o problema da estabilidade (um dos primei- ros grandes empecilhos com que se defrontou a teoria de New- ton). A parte cl?íssica do explanans n?úo ocorre, pois, t?úo-somente por for?ºa de conveni?¬ncia ÔÇö ?® absolutamente necess?íria. E as apro- xima?º?Áes feitas n?úo s?úo o resultado de c?ílculos relativistas, mas s?úo introduzidas para levar a relatividade a acomodar-se ao caso Na moderna f?¡sica matem?ítica, s?úo comuns as aproxima- ?º?Áes ad hoc. Desempenham importante papel na teoria qu?ónti-

Avancemos. N?úo apenas se d?í que fatos e teorias encon- tram-se em constante desarmonia, mas d?í-se ainda que jamais se acham t?úo nitidamente separados como todos parecem crer. As regras metodol??gicas falam de `teorias’, `observa?º?Áes’ e `resultados experimentais’ como se se tratasse de objetos claros e bem defini- dos, de propriedades f?íceis de avaliar e entendidos da mesma Todavia, o material de que o cientista realmente disp?Áe ÔÇö as leis, os resultados experimentais, as t?®cnicas matem?íticas, os pre- conceitos epistemol??gicos, a atitude frente ?ás absurdas conse- q???¬ncias das teorias que aceita ÔÇö ?®, sob muitos aspectos, inde- terminado, amb?¡guo e jamais se acha totalmente desvinculado de sua his- t??ria. Esse material sempre se acha contaminado por princ?¡pios que o cientista n?úo conhece e que, se conhecidos, dificilmente se- riam pass?¡veis de testes. Discut?¡veis concep?º?Áes acerca da cogni- ?º?úo ÔÇö como a de que os sentidos, usados em circunst?óncias nor- mais, fornecem fidedignas informa?º?Áes acerca do mundo ÔÇö inva- dem a pr??pria linguagem da observa?º?úo, passando a constituir termos observacionais, bem como a servir de base para a distin?º?úo entre apar?¬ncia ilus??ria e apar?¬ncia verdadeira. Como resultado, d?í-se que as linguagens de que se vale a observa?º?úo prendem-se a velhas camadas da especula?º?úo que afetam, dessa maneira indireta, at?® a mais progressiva metodologia. (Exemplo: a estrutura espa?ºo- tempo, da F?¡sica tradicional, codificada e consagrada por Kant.) A impress?úo sensorial, por simples que seja, sempre cont?®m um componente que traduz a rea?º?úo fisiol??gica do organismo percep- tivo, a qual n?úo tem correlato objetivo. Esse componente `subjeti- vo’ freq??entemente se combina com os demais, para formar um conjunto n?úo estruturado, que deve ser subdividido a partir do ex- terior, com aux?¡lio de procedimentos contra-indutivos. (Exemplo disso ?® a apar?¬ncia que tem uma estrela fixa vista a olho desarma- do, apar?¬ncia onde se incluem os efeitos subjetivos de irradia?º?úo, difra?º?úo, difus?úo, restritos pela inibi?º?úo lateral dos elementos adjacentes da retina.) E, por fim, surgem as premissas auxilia-

de nossas teorias. Julgamento das teorias pelos `fatos’, procedido de maneira imediatista e inapta, poder?í eliminar id?®ias, simplesmente porque eles n?úo se amoldam ao sistema de refer?¬ncia de alguma cosmologia mais antiga. Dar por certos os resultados e observa?º?Áes experimen- tais, lan?ºando o ??nus da prova sobre a teoria equivale a acolher a ideologia observacional sem t?¬-la jamais examinado. (Note-se ha- ver a suposi?º?úo de que os resultados experimentais foram obtidos com o maior cuidado poss?¡vel. Conseq??entemente, `dar por certos os resultados, etc.’ equivale a `d?í-los por certos ap??s o mais cuida- doso exame de sua fidedignidade'; com efeito, nem mesmo o mais cuidadoso exame que se fa?ºa de um enunciado de observa?º?úo chega a interferir com os conceitos que o expressam ou com a es- trutura da imagem sensorial.) Ora, como ser?í poss?¡vel examinar `algo de que nos utiliza- Como ser?í poss?¡vel criticar os termos em que habitualmente va- O primeiro passo a dar em nossa cr?¡tica dos conceitos de uso comum consistir?í em criar a medida da cr?¡tica, algo com que possam tais conceitos sofrer compara?º?úo. Claro est?í que, a- van?ºando, desejaremos saber alguma coisa mais acerca dessa medida-padr?úo; desejaremos saber, por exemplo, se ?® melhor Para que esse exame comece, h?í de existir, antes de tudo, a me- dida-padr?úo. Em conseq???¬ncia, o primeiro passo a dar, em nossa cr?¡tica dos conceitos comuns e das rea?º?Áes habituais, ser?í o de saltar para fora do c?¡rculo e inventar um novo sistema conceptual (inventar, por exemplo, uma nova teoria que entre em conflito com os resultados observacionais mais cuidadosa- mente colhidos e introduza o d??bio nos mais plaus?¡veis princ?¡- pios teor?®ticos), ou o de importar este sistema de fora do ?ómbi- to da ci?¬ncia: da religi?úo, da mitologia, das id?®ias dos n?úo- especialistas25 ou das palavras desconexas dos loucos. Esse passo

?®, ainda uma vez, contra-indutivo. Assim, a contra-indu?º?úo ?®, ao mesmo tempo, um fato ÔÇö sem ela a ci?¬ncia n?úo poderia existir ÔÇö e um lance leg?¡timo e necess?írio no jogo da ci?¬ncia.

medi?º?Áes n?úo s?úo compat?¡veis com o pressuposto fundamental de Lorentz e Einstein’. Rea?º?úo de Lorentz: `… parece muito poss?¡vel que devamos abandonar completamente essa id?®ia’ (Theory of Elec- trons, segunda edi?º?úo, p. 213). Ehrenfest: `Kaufmann demons- tra que o el?®tron deform?ível de Lorentz ?® rejeitado pelas me- di?º?Áes’ (`Zur Stabilit?ñtsfrage bei den Bucherer-Langevin Elek- tronen’, Phys. Zs., vol. 7, 1906, p. 302). A relut?óncia de Poinca- r?® em aceitar a `nova mec?ónica’ de Lorentz explica-se, ao me- Cf. Science and Method, Nova Iorque, 1960, Livro III, cap?¡tulo 2, se?º?úo V, onde o experimento de Kaufmann ?® examinado em pormenor, levando ?á conclus?úo de que `o princ?¡pio da re- latividade… n?úo se reveste da import?óncia fundamental que es- tamos inclinados a atribuir-lhe’. Cf., tamb?®m, St. Goldberg, `Poincar?®’s Silence and Einstein’s Relativity’, British Journal for the H?¡story of Science, vol. 5, 1970, pp. 73 ss. e a bibliografia ali apontada. Somente Einstein considerou os resultados como `improv?íveis’ porque seu pressuposto b?ísico, do qual se de- duz a massa do el?®tron em movimento, n?úo ?® sugerido por sistemas teor?®ticos que abrangem mais amplos complexos de fen??menos’ (Jahrbuch der Radioaktivit?ñt und Elektrizit?ñt, vol. 4, 1907, p. 439). A obra de Miller foi, durante muitos anos, estu- dada por Lorentz, que n?úo encontrou a falha. Somente em 1955, vinte e cinco anos depois de Miller haver terminado seus experimentos, foi que se encontrou satisfat??ria explica- ?º?úo para os resultados a que ele chegou. Cf. R. S. Shankland, `Conversations with Einstein’, Am. Journ. Phys., vol. 31, 1963, pp. 47-57, especialmente p. 51 e as notas 19 e 34; cf., tamb?®m, o debate que n?úo chegou a conclus?Áes, em `Conference on 7. Chazy, op. cit., p. 230.

de Dicke n?úo invalidam o argumento de que teorias superadas (como a da mec?ónica celeste cl?íssica) podem ser usadas para cr?¡tica das que as sucederam com melhor fado (relatividade geral). Al?®m disso, Dicke foi um perigo passageiro e isso ?® tudo 9. Herbert Feigl (Minnesota Studies, 5, 1971, p. 7) e Karl Popper (Objective Knowledge, p. 78) tentaram apresentar Einstein como um adulterador ing?¬nuo. Assim, escreve Feigl: `Se Einstein se fundava na ÔÇ£belezaÔÇØ, ÔÇ£harmoniaÔÇØ, ÔÇ£simetriaÔÇØ, ÔÇ£eleg?ónciaÔÇØ, ao construir… sua teoria geral de relatividade, imp?Áe-se, n?úo obs- tante, lembrar que ele tamb?®m disse (em uma confer?¬ncia pronunciada na cidade de Praga, no ano de 1920 ÔÇö ?á qual eu, jovem estudante, estive presente): ÔÇ£Se as observa?º?Áes relativas ao desvio para o vermelho nos espectros das grandes estrelas n?úo se mostrarem quantitativamente de acordo com os prin- c?¡pios da relatividade geral, minha teoria estar?í reduzida a p?? e cinzasÔÇØ `. Popper registra: `Einstein … disse que se o efeito do desvio para o vermelho… n?úo fosse observado, no caso das estrelas an?ús brancas, sua teoria da relatividade geral estaria re- Popper n?úo cita a fonte de sua afirma?º?úo, sendo de crer que se apoiou em Feigl. Entretanto, o relato de Feigl e a repeti?º?úo de Popper colocam-se em conflito com as nu- merosas ocasi?Áes em que Einstein acentua o `car?íter racio- nal da quest?úo’ (`die Vernunft der Sache’) que se p?Áe acima da `verifica?º?úo com base em pequenos efeitos’ ÔÇö e isso n?úo apenas em observa?º?Áes casuais ou durante uma palestra, mas por escrito. Cf. a cita?º?úo em nota 6 acima, que se re- fere ?ás dificuldades de que se rodeia a teoria especial da relatividade e ?® anterior ?á reuni?úo a que Feigl esteve pre- sente. Cf., tamb?®m, as cartas a M. Besso e a K. Seelig, ci- tadas em G. Holton, `Influences on Einstein’s Early Work’, Organon, n??. 3, 1966, p. 242, e K. Seelig, Albert

Einstein, Zurique, 1960, p. 271. Em 1952, Born escreve o se- 190, com respeito ?á an?ílise que Freundlich fez da flex?úo da luz nas vizinhan?ºas do Sol e do desvio para o vermelho): `Re- almente parece que sua f??rmula n?úo ?® de todo correta. E pa- rece que o ?® menos ainda no caso do desvio para o vermelho [o caso crucial a que se referem Feigl e Popper]; leva a um va- lor muito menor do que o valor te??rico, quando caminhamos no sentido do centro do disco solar e a um valor muito supe- Seria isso um ind?¡cio de n?úo-linearidade?’ Einstein (carta de 12 de maio de 1952, op. cit., p. 192) responde: `Freundlich… n?úo me abala de maneira alguma. Ainda que a deflex?úo da luz, o movimento do peri?®lio ou o desvio fossem desconhecidos, as equa?º?Áes da gravita?º?úo continuariam a ser convincentes, pois evitariam o sistema inercial (fantasma que a tudo afeta e por nada ?® afetado). ?ë realmente estranho que os seres humanos se mos- trem geralmente surdos aos mais fortes argumentos, enquanto se inclinam a superestimar precis?Áes de medida (grifo meu). Como explicar esse conflito (entre o testemunho de Feigl e os escritos de Einste- in)? N?úo ?® poss?¡vel explic?í-lo por uma altera?º?úo da atitude de Einstein. Sua atitude irreverente para com a observa?º?úo e o experimento existiu desde o in?¡cio, como vimos. A explica?º?úo estar?í, talvez, em um equ?¡voco por parte de Feigl ou em ser 10. Para uma defesa dos processos de Parm?¬nides, cf. meu `In Defence of Classical Physics’, loc. cit. Cf., tamb?®m, a parte de- 11. W. Heisenberg, `Der gegenw?ñrtige Stand der Theorie der Elementarteilchen’, Naturwissenchaften, n??. 42, 1955, pp.

a New Theory of Vision, Obras, vol. I, ed. Frazer, Londres, 17. Admitindo que M ?® a observada massa da part?¡cula carregada, o valor de sua acelera?º?úo, no tempo t, vem expresso por

Para esta particular dificuldade, cf., tamb?®m, H. R. Post, `Cor- respondence, Invariance and Heuristics’, in Studies in the History and Philosophy of Science, novembro de 1971, nota 14. A asser- ?º?úo de Post, segundo a qual a F?¡sica `?® notavelmente malsuce- dida…’ como ci?¬ncia, p. 219, e segundo a qual, em compara- ?º?úo, `a bot?ónica tem bom poder preditivo em seu campo de aplica?º?úo’, nota 14, concorda com a opini?úo que professo e mostra que a ci?¬ncia aristot?®lica, globalmente considerada, tal- vez tenha sido mais adequada que suas sucessoras altamente abstratas. Post e eu discordamos, entretanto, quanto a muitos outros pontos. O leitor ?® convidado a ler o brilhante ensaio que ele escreveu para servir de ant?¡doto parcial contra o ponto 18. Cf. W. Heitler, The Quantum Theory of Radiation, Oxford, 1954, Cf. o debate na 12?¬ Confer?¬ncia Solvay, The Quantum Theory of Fields, Nova Iorque, 1962, especialmente as co- munica?º?Áes de Heitler e Feynman. Hoje (1971) a situa- ?º?úo ?®, em ess?¬ncia, a mesma, cf. Brodsky e Drell, `The Present Status of Quantum Electrodynamics’, Annual Re- Todos os exemplos oferecidos nas notas 3-16 podem

ser usados como base para estudos do tipo daquele que se de- senvolver?í nos cap?¡tulos VI-XII (Galileu e a Revolu?º?úo Co- pernicana). Isso mostra que o caso de Galileu n?úo ?® `uma exce- ?º?úo, caracterizadora do in?¡cio da chamada revolu?º?úo cient?¡fica’ (G. Radnitzky, `Theorienpluralismus Theorienmonismus’ in Diemer Meisenheim, 1971, p. 164), mas, ao contr?írio, t?¡pica da mudan?ºa cient?¡fica em todos os tempos. Sem embargo, concordo com Radnitzky, ao dizer ele que `hoje’, ou seja, na F?¡sica de 1960/70, a situa?º?úo talvez seja um tanto diversa. A raz?úo est?í em que a F?¡sica vem experimentando um per?¡odo de estagna?º?úo ÔÇö enorme crescimento de seu porte esconde a surpreendente pobreza de novas id?®ias fundamentais. (Essa estagna?º?úo liga-se ao fato de que a F?¡sica est?í se transforman- do de ci?¬ncia em neg??cio e de que os f?¡sicos mais jovens dei- xaram de usar a Hist??ria e a Filosofia como instrumentos de pesquisa.) 21. Essa dificuldade foi apontada por Bohr em sua tese de douto- ramento,cf. Niels Bohr, Collected Works, vol. I, Amsterd?ú, 1972, pp. 158, 381. Assinalou ele que altera?º?Áes de velocidade, devidas a altera?º?Áes do campo externo, se equilibrariam de- pois de definido o campo, de sorte que n?úo poderiam surgir efeitos magn?®ticos. Cf., tamb?®m, Heilbron e T. S. Kuhn, `The Genesis of the Bohr Atam’, Historical Studies in the Physical Sci- ences, n??. 1, 1969, p. 221. O argumento referido no texto foi colhido em The F eynman Lectures, vol. 2, Calif??rnia e Londres, 23. A obra de von Neumann no campo da mec?ónica qu?óntica ?® exemplo especialmente esclarecedor desse procedimento.

Para conseguir satisfat??ria demonstra?º?úo do teorema da ex- pans?úo no espa?ºo de Hilbert, von Neumann substitui as qua- se-intuitivas no?º?Áes de Dirac (e Bohr) por concep?º?Áes pr??- prias e mais complexas. As rela?º?Áes teor?®ticas entre essas no- ?º?Áes s?úo suscet?¡veis de tratamento mais rigoroso que as rela- ?º?Áes teor?®ticas entre as no?º?Áes que as precederam (`mais rigo- D?í-se coisa diversa no que respeita ?ás rela?º?Áes entre elas e os procedimentos experimentais. N?úo h?í como especificar ins- trumentos para a grande maioria de observ?íveis (Wigner, A- merican Journal of Physics, vol. 31, 1963, p. 14) e, onde a especifi- ca?º?úo ?® poss?¡vel, torna-se necess?írio modificar, de maneira arbitr?íria, leis bem conhecidas e n?úo refutadas ou ent?úo admi- tir que problemas triviais de mec?ónica qu?óntica, tal como o problema de espalhamento, n?úo t?¬m solu?º?úo (J. M. Cook, Journal of Mathematical Physics, vol. 36, 1957). Nesses termos, a teoria transforma-se em um verdadeiro monstro de precis?úo e rigor, enquanto sua rela?º?úo para com a pr?ítica se torna mais obscura do que nunca. ?ë interessante notar que desenvolvi- mentos semelhantes ocorrem no `pensamento primitivo’. `O tra?ºo mais surpreendente da profecia de Nupe, que se faz a- trav?®s do uso da areia’, escreve S. F. Nader em Nupe Religion, 1954, p. 63, `?® o contraste entre sua pretensiosa estrutura te??- rica e sua primitiva e canhestra aplica?º?úo na pr?ítica’. N?úo ?® necess?írio dispor da ci?¬ncia para produzir os pesadelos de 24. A exist?¬ncia de dificuldades qualitativas ou `bols?Áes de resis- t?¬ncia’ (Santo Agostinho, Contra Julianum, V, xiv, 51 ÔÇö Migne, vol. 44) foi usada por padres da Igreja para afastar obje?º?Áes que a ci?¬ncia do tempo levantava contra certos aspectos da f?® crist?ú, como, por exemplo, a ressurrei?º?úo de Cristo (que Porf?¡- rio havia considerado incompat?¡vel com a F?¡sica).

d?¬ncia trazida pelos sentidos, pondo a terra em movimento, era um n?úo-matem?ítico perturbador. Esse `perturbador teve a coragem, que n?úo tiveram grandes observadores e cientistas conhecedores de Matem?ítica, de afastar a informa?º?úo dos sentidos, para permanecer fiel a princ?¡pios em que firmemente acreditava’. K. von Fritz, Grundprobleme der Geschichte der Anti- ken Wissenschaft, Berlim-Nova Iorque, 1971, p. 165. `N?úo sur- preende, portanto, que o passo seguinte, em tal caminho, haja sido dado por um homem cujos escritos, tanto quanto os co- nhecemos, mostram-no como estilista e divulgador talentoso a quem, ocasionalmente, ocorriam id?®ias, e n?úo por um pen- cit., p. 184. Os perturbadores e os intelectuais sem profundi- dade avan?ºam, enquanto os pensadores `s?®rios’ descem ?ás re- gi?Áes mais sombrias do status quo ou, para diz?¬-lo de outra maneira, ficam presos ?á lama.

VI Como exemplo dessa tentativa, trago ?á baila o argumento da torre, de que os aristot?®licos se valiam para refutar o movi- mento da Terra. O argumento envolve interpreta?º?Áes natu- rais ÔÇö id?®ias t?úo estreitamente ligadas a observa?º?Áes, que se faz necess?írio especial esfor?ºo para perceber-lhes a exist?¬n- cia e determinar-lhes o conte??do. Galileu identifica as inter- preta?º?Áes naturais que se mostram inconsistentes com a doutrina de Cop?®rnico e as substitui por outras.

Parece-me que (Galileu) incide muito em digress?Áes cont?¡nuas e que n?úo se det?®m para explicar tudo quanto ?® relevante em cada ponto; mostra isso que n?úo examinou os pontos ordenadamente e que simplesmente buscou raz?Áes para alcan?ºar particulares efeitos, sem ter considerado… as primeiras causas…; e, dessa maneira, construiu sem alicerces.

e inven?º?Áes n?úo est?í no que ?® necess?írio ÔÇö embora, de outra forma, passasse a corresponder a um grande equ?¡voco ÔÇö mas no que n?úo o ?®…

GALILEU Entretanto, quando o bom senso cr?¬ que sofistas raciona- lizadores t?¬m a inten?º?úo de abalar o fundamento mesmo do bem- estar geral, passa a ser n?úo apenas procedente, mas permiss?¡vel e at?® mesmo louv?ível ajudar a boa causa com pretensas raz?Áes antes que permitir que a vantagem passe… ao oponente.

que disciplinam o emprego do conceito sob investiga?º?úo. Nunca apreendemos inteiramente esse conceito, pois sempre utilizamos parte dele na tentativa de determinar-lhe os elementos constituti- vos. S?? h?í um meio de fugir ao c?¡rculo vicioso: consiste em usar medida externa de compara?º?úo, inclusive maneiras novas de relacionar conceitos e dados de percep?º?úo. Retirada do dom?¡nio do discurso natural e afastada de todos os princ?¡pios, h?íbitos e atitudes que constituem sua forma de vida, essa medida externa se afigurar?í, sem d??vida, estranha. Isso, entretanto, n?úo ?® argumento contra sua utiliza?º?úo. Pelo contr?írio, a impress?úo de estranheza revela que as interpreta?º?Áes naturais est?úo operando e constitui um pri- meiro passo no sentido de que venham a ser descobertas. Expli- O exemplo pretende evidenciar que a concep?º?úo coperni- cana foge a um acordo com `os fatos’. Do ponto de vista desses fatos, a id?®ia de movimento da Terra ?® bizarra, absurda e obvia- mente falsa ÔÇö para repetir apenas algumas das express?Áes fre- q??entemente usadas naquela ?®poca e ainda ouvidas sempre que profissionais mais apegados ?ás tradi?º?Áes se defrontam com uma teoria nova e contr?íria aos fatos. Isso leva-nos a suspeitar que a concep?º?úo copernicana ?® um padr?úo de medida externa, exata- Podemos, agora, passar a contemplar a outra face do argu- mento, utilizando-o como dispositivo identificador, capaz de auxiliar- nos a descobrir as interpreta?º?Áes naturais que excluem o movi- mento da Terra. Fazendo o argumento girar sobre si mesmo, par- timos da assevera?º?úo de que a Terra se move e, a seguir, indagamos quais as altera?º?Áes que se fazem necess?írias para afastar a contra- di?º?úo. Essa investiga?º?úo poder?í exigir tempo consider?ível e seria procedente afirmar que ela at?® hoje n?úo chegou ao fim. ?ë poss?¡vel, portanto, que tenhamos de continuar a conviver com a contradi- ?º?úo por d?®cadas ou por s?®culos. Ainda assim, ela deve ser defen- dida at?® que tenhamos terminado a investiga?º?úo, pois, caso con- tr?írio, essa

investiga?º?úo, a tentativa de descobrir os componentes antediluvia- nos de nosso conhecimento, sequer poderia come?ºar. Essa, n??s o vimos, ?® uma das raz?Áes poss?¡veis de oferecer para conservar e, tal- Os ingredientes ideol??gicos de nosso conhecimento e, mais espe- cialmente, de nossas observa?º?Áes, s?úo descobertos com o aux?¡lio As teorias s?úo submetidas a teste e, eventualmente, refutadas pelos fatos. Os fatos encerram componentes ideol??gicos, concep?º?Áes antigas que foram perdidas de vista ou que jamais chegaram a ser explicitamente formuladas. Esses componentes s?úo altamente suspeitos. Em primeiro lugar, devido ?á sua idade e obscura ori- gem: n?úo sabemos como e por que surgiram; em segundo lugar, porque a sua pr??pria natureza os protege e sempre os protegeu de exame cr?¡tico. No caso de contradi?º?úo entre uma teoria nova e in- teressante e uma cole?º?úo de fatos firmemente estabelecidos, a me- lhor maneira de agir consistir?í, portanto, em n?úo abandonar a teo- ria, mas utiliz?í-la para descobrir os princ?¡pios ocultos que sejam respons?íveis pela contradi?º?úo. A contra-indu?º?úo ?® parte essencial desse processo de descoberta. (Excelente exemplo hist??rico: os argumentos contra o movimento e o atomismo, desenvolvidos por Zen?úo e Parm?¬nides. Di??genes, o c?¡nico, enveredou pelo ca- minho simples, que seria trilhado por muitos cientistas contempo- r?óneos e por todos os fil??sofos de nosso tempo: refutou os argu- mentos, com o levantar-se e caminhar de um lado para outro. O caminho oposto, aqui recomendado, levou a resultados muito mais interessantes, como ?® testemunhado pela hist??ria do inciden- te. N?úo devemos apoiar-nos demasiado em Di??genes, pois conta- se tamb?®m que ele bateu em um disc?¡pulo que se mostrou satisfei- to com sua refuta?º?úo, dizendo haver oferecido raz?Áes que o disc?¡- pulo n?úo deveria aceitar sem a elas acrescentar raz?Áes pr??prias9.)

Tendo descoberto uma particular interpreta?º?úo natural, como poderemos examin?í-la e submet?¬-la a teste? ?ë claro que n?úo podere- mos agir da maneira habitual, isto ?®, dela derivar predi?º?Áes e com- par?í-las com os `resultados de observa?º?úo’. Desses resultados n?úo mais dispomos. A id?®ia de que os sentidos, usados em circunst?ón- cias normais, levam a retratos corretos dos eventos reais ÔÇö por exemplo, ao retrato do movimento real dos corpos f?¡sicos ÔÇö foi afastada de todos os enunciados de observa?º?úo. (Recorde-se ter sido verificado que essa no?º?úo constitui parte essencial do argu- mento anticop?®rnico.) Todavia, afastada aquela id?®ia, nossas rea- ?º?Áes sensoriais deixam de ser relevantes para os testes. Essa con- clus?úo foi generalizada por alguns racionalistas mais antigos, que decidiram alicer?ºar sua ci?¬ncia exclusivamente na raz?úo e atribu?¡- ram ?á observa?º?úo uma fun?º?úo auxiliar insignificante. Galileu n?úo Se uma interpreta?º?úo natural perturba uma concep?º?úo que ?® atraente e se a elimina?º?úo dessa interpreta?º?úo retira a concep?º?úo do dom?¡nio do observ?ível, o ??nico procedimento cab?¡vel ?® o de re- A interpreta?º?úo de que se vale Galileu rep?Áe os sentidos na posi- ?º?úo de instrumentos de explora?º?úo, mas t?úo-somente com respeito ?á realidade do movimento relativo. O movimento `em meio a coisas que o t?¬m em comum’ ?® `n?úo-operativo’, ou seja, `?® insens?¡vel, ?® im- percept?¡vel e sem qualquer efeito’10. O primeiro passo dado por Galileu, ao examinar, em conjunto, a doutrina copernicana e a in- terpreta?º?úo natural comum, mas n?úo expl?¡cita, consiste, portanto, em substituir esta ??ltima por outra interpreta?º?úo. Dito de maneira dife- Trata-se, naturalmente, de um recurso inteiramente leg?¡- timo. De modo geral, a linguagem de observa?º?úo, presente em Considerando, de um lado, a estrutura de express?Áes comuns e, de outra parte, a estrutura da filosofia aristot?®lica, nem aquele

uso nem aquela familiaridade podem ser vistos como um teste dos princ?¡pios subjacentes. Esses princ?¡pios, essas interpreta?º?Áes natu- rais, ocorrem em todas as descri?º?Áes. Casos extraordin?írios, que poderiam criar dificuldades, s?úo afastados com o aux?¡lio de `ex- press?Áes de ajustamento’11, como a `semelhan?ºa de’ ou `an?ílogo a’ que removem as dificuldades, permitindo que a ontologia b?ísica permane?ºa incontestada. Um teste, entretanto, se faz de urgente necessidade. De urgente necessidade especialmente nos casos em que os princ?¡pios parecem amea?ºar a teoria nova. Torna-se, ent?úo, razo?ível introduzir linguagens alternativas de observa?º?úo, con- frontando-as tanto com o idioma original quanto com a teoria sob exame. Procedendo dessa maneira, devemos assegurar-nos de que o confronto se faz em termos justos, isto ?®, n?úo devemos criticar um idioma que deva funcionar como linguagem de observa?º?úo devido a n?úo ser ele ainda bem conhecido e estar, portanto, menos for- temente relacionado com nossas rea?º?Áes sensoriais e ser menos plaus?¡vel do que um outro idioma `comum’. Cr?¡ticas superficiais dessa esp?®cie, elevadas ?á condi?º?úo de `filosofia’ inteiramente no- va,. s?úo abundantes em meio ?ás discuss?Áes em torno do problema esp?¡rito-corpo. Os fil??sofos que desejam introduzir e submeter a teste concep?º?Áes novas v?¬em-se, dessa forma, postos diante n?úo de argumentos, que poderiam, provavelmente, contestar, mas de uma impenetr?ível muralha de rea?º?Áes solidamente estabelecidas. A situa?º?úo n?úo difere muito da situa?º?úo de pessoas ignorantes de l?¡nguas estrangeiras, para as quais certa cor ?® muito melhor tradu- zida pela palavra `vermelho’ do que pela palavra `rosso’. Em opo- si?º?úo a essas tentativas de convers?úo por apelo ao que ?® familiar (`Sei o que ?® a dor e sei, tamb?®m, por introspec?º?úo, que ela nada tem a ver com processos materiais!’), importa acentuar que um ju- ?¡zo comparativo acerca das linguagens de observa?º?úo ÔÇö lingua- gens de observa?º?úo materialistas, fenomenalistas, objetivo- idealistas, teol??gicas, etc. ÔÇö s?? pode come?ºar quando todas elas s?úo dominadas com igual flu?¬ncia.

entretanto, nem mesmo isso ?® certo, enquanto n?úo houver si- do provado que a Terra est?í em repouso’ (p. 19). Ora, se ad- mitirmos (2), as partes livres dos sistemas que se movem em linha reta h?úo de tender a percorrer trajet??rias circulares, as- sim contradizendo (1). Foi essa incoer?¬ncia que me disp??s a dividir o argumento de Galileu em duas fases, uma concer- nente ?á relatividade do movimento (s?? o movimento relativo ?® notado), a outra concernente ?ás leis de in?®rcia (e s?? o movimen- to inercial preserva a rela?º?úo entre as partes de um sistema ÔÇö admiti- do, ?® claro, que movimentos inerciais vizinhos s?úo aproxima- damente paralelos). Para conhecer as duas fases do argumen- to, ver o cap?¡tulo seguinte. Devemos tamb?®m dar-nos conta de que aceitar a relatividade do movimento, mesmo para traje- t??rias inerciais, significa abandonar a teoria do impetus. Isso Galileu parece j?í ter feito a esta altura, pois seu argumento a favor da exist?¬ncia de movimentos `cont?¡nuos’ ou `perp?®tuos’, que ele esbo?ºa nas pp. 147 ss. do Dialogue invoca movimentos que s?úo neutros, isto ?®, nem naturais nem provocados, e que 11. J. L. Austin, Sense and Sensibilia, Nova Iorque, 1964, p. 74. Ex- press?Áes do ajustamento desempenham importante papel na filosofia aristot?®lica.

VII As novas interpreta?º?Áes naturais constituem linguagem de observa?º?úo original e altamente abstrata. S?úo introduzidas e ocultadas, de sorte que n?úo se percebe a modifica?º?úo havida (m?®todo da anamnese). Encerram a id?®ia da relatividade de todo movimento e a lei da in?®rcia circular.

lhes prestemos aten?º?úo para que eles venham a aparecer como a Galileu `lembra-nos’ de que h?í situa?º?Áes onde o car?íter n?úo-operativo do movimento que envolve mais de um corpo ?® t?úo evidente e t?úo firmemente acreditado quanto, em outras circuns- t?óncias, o ?® a id?®ia do car?íter operativo do todo movimento. (Esta ??ltima id?®ia n?úo constitui, entretanto, a ??nica interpreta?º?úo natural do movimento.) As situa?º?Áes s?úo: acontecimentos ocorridos em um barco, em uma carruagem que se desloca suavemente e em ou- tros sistemas em que est?í presente um observador ao qual ?® per- `Sagredo: Lembrei-me de certa fantasia que me cruzou a i- magina?º?úo certo dia, ÔÇö quando eu viajava para Alepo, onde ia e- xercer as fun?º?Áes de c??nsul de nosso pa?¡s… Se, durante toda a via- gem, de Veneza a Alexandreta, a ponta de uma pena acompanhas- se o navio e tivesse a propriedade de deixar sinais vis?¡veis ÔÇö que Simpl?¡cio: Teria deixado uma linha a estender-se de Veneza at?® l?í; n?úo perfeitamente reta ÔÇö ou, antes, n?úo acompanhando um perfeito arco de c?¡rculo ÔÇö por?®m mais ou menos ondulante, con- forme o jogo que aqui e ali houvesse o navio sofrido. Contudo, esta oscila?º?úo de um metro ou dois para a esquerda ou para a di- reita, neste ou naquele ponto, em pouco teria alterado a extens?úo completa da linha que se estenderia por muitas centenas de qui- l??metros. Essas oscila?º?Áes mal seriam percept?¡veis e, sem erro de maior import?óncia, poder?¡amos considerar a linha como parte de Sagredo: Assim, se desconsider?íssemos a agita?º?úo das on- das e o movimento do navio se fizesse calmo e tranq??ilo, o preciso e perfeito movimento daquela ponta de pena correspon- deria a um arco de c?¡rculo perfeito. Ora, se eu tivesse continua- mente conservado essa pena em minha m?úo e s?? algumas vezes

a houvesse movido dessa ou daquela maneira, que altera?º?Áes in- Simpl?¡cio: Menores que as introduzidas em uma linha reta de mil metros de comprimento que aqui e ali se desviasse por um mi- Sagredo: Ent?úo, se, ao deixarmos o porto, um artista come- ?ºasse a fazer desenhos com aquela pena em uma folha de papel e continuasse a desenhar durante toda a viagem at?® Alexandreta, ele teria podido fazer surgirem, do movimento da pena, toda uma co- le?º?úo de muitas figuras tra?ºadas e esbo?ºadas em milhares de dire- ?º?Áes, com paisagens, edif?¡cios, animais e outras coisas. E, n?úo obs- tante, o movimento real e essencial da ponta da pena teria sido apenas uma reta; longa, sem d??vida, por?®m muito simples. Quan- to ?ás a?º?Áes do artista, elas teriam sido conduzidas exatamente co- mo se o navio estivera parado. A raz?úo por que, do longo movi- mento da pena, tra?ºo algum restaria, exceto as marcas registradas no papel, est?í em que o movimento de Veneza a Alexandreta era comum ao papel, ?á pena e a tudo mais que se encontrava no navi- o. Contudo, os pequenos movimentos para frente e para tr?ís, para a direita e para a esquerda, comunicados pelos dedos do artista ?á pena, mas n?úo ao papel, e dizendo respeito apenas ?á primeira, pu- deram deixar tra?ºo sobre o papel que permanecia estacion?írio com respeito ?áqueles movimentos.’1

movimento, que ?® comum ?á pedra, ?á torre e a n??s pr??prios, per- manece impercept?¡vel, sendo como se n?úo existisse. S?? se torna observ?ível aquela parte de que nem a torre, nem n??s participa- mos; em outras palavras, aquela parte com que a pedra, ao cair, E o segundo paradigma precede a exorta?º?úo no sentido de `transferir esse movimento para o girar da Terra e para a pedra co- locada no topo da torre, cujo movimento voc?¬ n?úo pode discernir porque tal como a pedra, voc?¬ recebe da Terra o movimento que se faz necess?írio para acompanhar a torre ÔÇö n?úo sendo necess?í- rio mover os olhos. Em seguida, voc?¬ comunica ?á pedra um mo- vimento de cima para baixo, que ?® peculiar a ela, de que voc?¬ n?úo compartilhe, e que se combina esse movimento circular, a por?º?úo circular do movimento, que ?® comum ?á pedra e ao olho e conti- nua impercept?¡vel. S?? o movimento retil?¡neo ?® sens?¡vel, pois, para segui-lo, voc?¬ precisa mover os olhos para baixo’4.

Cedendo a essa persuas?úo, come?ºamos, invisivelmente, a Essa a ess?¬ncia do artif?¡cio de Galileu. Como conseq???¬ncia o con- flito entre Cop?®rnico e `as condi?º?Áes que nos afetam e atingem a esfera acima de n??s’5 dissolve-se no ar e, finalmente, nos damos conta de que `todos os eventos terrestres, a partir dos quais habi- tualmente se afirma que a Terra est?í im??vel, enquanto o Sol e as estrelas fixas se movem, teriam para n??s, a mesma apar?¬ncia, caso a Terra se movesse e os demais corpos celestes se conservassem im??veis’6.

vimento como um processo absoluto que sempre tem efeitos, que se manifestam, inclusive, sobre nossos sentidos. Talvez que se te- nha, at?® certo ponto, idealizado a descri?º?úo desse sistema concep- tual aqui oferecida; mas os argumentos dos opositores de Cop?®r- nico, citados pelo pr??prio Galileu e por ele refutados `muito plau- s?¡veis’7 mostram que havia larga tend?¬ncia de pensar segundo a- queles argumentos e que essa tend?¬ncia tomava-se um s?®rio obs- t?ículo para o exame de id?®ias diferentes. Vez por outra, defronta- mo-nos com maneiras de pensar ainda mais primitivas, onde con- ceitos como `acima’ e `abaixo’ s?úo usados de modo absoluto. E- xemplos: a asser?º?úo de que `a Terra ?® demasiado pesada para as- cender acima do Sol e, em seguida, voltar para uma posi?º?úo abaixo dele’8 ou a asser?º?úo de que `ap??s breve lapso de tempo, as monta- nhas, projetadas para baixo, em raz?úo da rota?º?úo do globo terres- tre, ocupariam posi?º?úo tal que, se, umas poucas horas antes, teria sido necess?írio percorrer acentuado aclive para alcan?ºar-lhes os picos, umas poucas horas depois, seria necess?írio percorrer decli- ve acentuado para l?í chegar’9. Esses argumentos, Galileu, em no- tas marginais, considera `raz?Áes totalmente infantis [que] s?úo sufi- cientes para fazer com que os imbecis continuem a acreditar na imobilidade da Terra’10 e julga desnecess?írio `preocupar-se com Contudo, ?® indiscut?¡vel que a id?®ia absoluta de movimento estava bem `enraizada’ e que a tentativa de substitu?¡-la encontraria forte resist?¬ncia12: O segundo sistema conceptual se erige em torno da relati- vidade do movimento e est?í igualmente bem enraizado em seu campo de aplica?º?úo. Galileu pretende substituir o primeiro sistema pelo segundo, em todos os casos, assim concernentes ?á Terra, co- mo concernentes aos c?®us. O realismo ing?¬nuo, com respeito ao movimento, deve ser completamente afastado.

PARADIGMA I: Movimento PARADIGMA II: movimento de objetos compactos em de objetos em navios, ambiente amplo, est?ível (o carruagens e outros sistemas alce observado pelo ca?ºador). em movimento.

Interpreta?º?úo natural: Interpreta?º?úo natural: Todo movimento ?® operativo. Somente o movimento relativo tem car?íter operativo.

metaf?¡sicos. Por meio dessa experi?¬ncia ?® que se realiza a transi?º?úo da cosmologia geost?ítica para o ponto de vista de Cop?®rnico e Kepler,

NOTAS 2. Ibid., pp. 249 ss. Que os fen??menos do movimento visto de- pendem do movimento relativo ?® algo asseverado por Euclides 50 recorre ao exemplo da embarca?º?úo que deixa o porto: Hei- berg, vii, 283. O exemplo ?® repetido por Cop?®rnico no Livro I, cap?¡tulo viii, de De Revol. Foi lugar comum na ??tica medie- 6. Dialogue, p. 416; cf. os Dialogues Concerning Two New Sciences, 164: `O mesmo experimento que, ?á primeira vista, parecia evi- denciar uma coisa, assegura-nos, quando sob mais cuidadoso exame, do contr?írio’. O Prof. McMullin, criticando essa ma- neira de ver as coisas, pede melhor `justifica?º?úo l??gica e bio- gr?ífica’ de que Galileu n?úo apenas argumentou, mas tamb?®m induziu a engano [`A Taxonomy of the Relation between His- tory and Philosophy of Science’, Minnesota Studies, vol. 5, Min- neapolis, 1971, p. 39] e objeta ?á maneira como eu indico haver Galileu introduzido o relativismo din?ómico. Segundo o Prof.

altos para o ch?úo, como, por exemplo, uma pedra lan?ºada do topo de uma torre, n?úo cairiam junto ao p?® dessa torre, pois durante o tempo que a pedra, caminhando retilinea- mente para o ch?úo, percorre o ar, a Terra, movendo-se para o leste, receberia a pedra em ponto bem afastado do p?® da torre, exatamente como se d?í com uma pedra que, tombando do mastro de um navio em r?ípido movimento, n?úo cai junto ao p?® desse mastro, por?®m mais para o lado da popa’ (p. 224). A parte grifa- da, referente ao comportamento de pedras em navios, volta a ser usada no Dialogue (p. 126), quando os argumentos pto- `Parece ocasi?úo apropriada’, diz Salviati (ibid., p. 180) `para fazer notar que h?í certa generosidade dos copernicanos pa- ra com seus advers?írios, ao admitirem aqueles como corre- tos e verdadeiras numerosas experi?¬ncias que esses adver- s?írios jamais realizaram. Tal, por exemplo, a experi?¬ncia do corpo a tombar do mastro de um navio em movimento. . .’ Anteriormente (p. 154), deixa-se mais impl?¡cito do que ob- servado que a pedra cair?í ao p?® do mastro, ainda que o na- vio se encontre em movimento; e um experimento poss?¡vel ?® examinado na p. 186. Bruno (La Cena de le Ceneri, Opere ltaliane, I, ed. Giovanni Gentile, Bari, 1907, p. 83) d?í por admitido que a pedra cair?í ao p?® do mastro. Note-se que o problema n?úo se presta facilmente a uma solu?º?úo expe- rimental. Experimentos foram feitos, mas ficaram longe de ser concludentes. Cf. A. Armitage, `The Deviation of Falling Bodies’, Annals of Science, 5, 1941-7, pp. 342 ss., e A. Koyr?®, Metaphysics and Measurement, Cambridge, 1968, pp. 89 ss. O argumento da torre encontra-se em Arist??- teles, De Coelo, 296b 22, e Ptolomeu, Syntaxis, i, 8. Co- p?®rnico discute-o no mesmo cap?¡tulo de De Revol., mas procura afast?í-lo no cap?¡tulo seguinte (cf. nota 12 ao ca-

p?¡tulo VIII do presente ensaio). O papel do argumento na I- dade M?®dia ?® examinado em M. Clagett, The Science of Mechanics in the Middle Ages. Madison, 1959, cap?¡tulo 10.

VIII Dificuldades iniciais provocadas pela altera?º?úo v?¬em-se afas- tadas por hip??teses ad hoc que, assim, desempenham, ocasi- onalmente, uma fun?º?úo positiva; asseguram ?ás novas teorias espa?ºo para se desenvolverem e indicam o sentido da pes- quisa futura.

Popper: As teorias novas apresentam e t?¬m de apresentar ex- cesso de conte??do, que ?®, mas n?úo deveria ser, a pouco e pouco, O excesso de conte??do ?® e deve ser desenvolvido aos poucos, a- trav?®s de sua extens?úo gradual a fatos e dom?¡nios novos.

a rela?º?úo entre a for?ºa das. intelig?¬ncias motoras e a resist?¬ncia o- ferecida7. Tal asser?º?úo, ao ver de Galileu, aplica-se a uma esfera exc?¬ntrica. Acrescentar um peso a uma esfera exc?¬ntrica poder?í, ocasionalmente, implicar ver esse peso afastar-se do centro e ele- var-se a n?¡vel mais alto: Entretanto, `ningu?®m diria que uma esfera conc?¬ntrica ver-se-?í afetada pelo peso, uma vez que, ao longo da trajet??ria circular, esse peso nem se aproximar?í nem se afastar?í do centro’8; Note-se que a rota?º?úo original ?®, neste caso, atribu?¡da a `intelig?¬ncias’ ÔÇö n?úo se presume que esteja ocorrendo por si mesma. Isso est?í em perfeito acordo com a teoria geral do movi- mento, proposta por Arist??teles, onde se postula um motor para Galileu parece aceitar essa parte da teoria, assim quando admite que esferas ,em rota?º?úo acabam por deter-se, como quando acolhe `a for?ºa das intelig?¬ncias’. Aceita, ainda, a teoria do ?¡mpeto, que atribui qualquer movimento a uma for?ºa interna, semelhante ?á for?ºa do som que permanece em um sino longo tempo depois de ele ter sido golpeado10 e que se reconhece `diminuir gradualmen- Atrav?®s desses. poucos exemplos, vemos que Galileu colo- ca em posi?º?úo especial os movimentos que n?úo s?úo nem naturais, nem for?ºados. Podem esses movimentos durar por tempo consi- Entretanto, eles n?úo persistem para sempre e requerem uma for?ºa impulsora Ora, se quisermos afastar os argumentos din?ómicos que se p?Áem contra o movimento da Terra (e estamos pensando antes na rota?º?úo do que no movimento em torno do Sol), importar?í re- ver os dois princ?¡pios mencionados. Impor-se-?í admitir que os movimentos `neutros’, discutidos por Galileu em seus primeiros trabalhos concernentes ?á din?ómica, podem perdurar para sempre ou, pelo menos, podem ser de dura?º?úo compar?ível ?á das idades hist??ricas. Impor-se-?í encar?í-los como `naturais’, no sentido in- teiramente novo e revolucion?írio de que, para que se mante-

Galileu merece aplausos por ter-se inclinado a dar guarida a uma hip??tese interessante e n?úo a uma hip??tese ch?úo

NOTAS 1. Cf. Lakatos, in Criticism and the Growth of Knowledge, Cambridge, 1970. O uso de hip??teses ad hoc no campo das ci?¬ncias identi- fica-se ao que os antropologistas denominaram `elabora?º?Áes secund?írias’. (Ver R. Horton, `African Traditional Thought and Western Science’, in Witchcraft and Sorcery, ed. N. Marwick, Londres, 1970, p. 35.) As elabora?º?Áes secund?írias s?úo consi- As considera?º?Áes que fazemos no texto (e no cap?¡tulo XII, a- diante) refutam essa maneira de ver e mostram que as diferen- 2. Galileu Galilei, De Motu. Citado de Galileo Galilei on Motion and 5. Citado de Mechanics in Sixteenth Century Italy, ed. Drake e Drab- kin, Madison,1960, p. 338. Em nota 10, na mesma p?ígina, Drake comenta que `Galileu, quando escreveu esse trecho, 10. De Motu, op. cit., p. 79.

Ele torna o mundo semelhante a um organismo onde o movi- mento circular coexiste com o movimento retil?¡neo assim co- mo o organismo coexiste com suas doen?ºas. (Todo o proble- ma da rela?º?úo entre movimento circular e movimento retil?¡- neo ?® extensamente examinado em First Day, no Dialogue de Galileu.) A Terra, entretanto, `concebe do sol e se torna gr?ívi- da, dando a luz anualmente’ (cap?¡tulo X). Para um exame das rea?º?Áes diante das dificuldades f?¡sicas oferecidas pelo movi- mento da Terra, cf. cap?¡tulo 1 do vol. III de A. Koyr?®, ?ëtudes 15. Segundo Anneliese Maier (Die Vorlaufer Galileis im 14 Iah- rhundert, Roma, 1949, pp. 151 ss.), Galileu substituiu o ?¡m- peto pela in?®rcia com o fim de explicar o `fato’ de movi- mentos `neutros’ persistirem sempre. Antes de tudo, esse `fato’ n?úo existiu. Em segundo lugar, Galileu, de in?¡cio, n?úo acreditou, e acertadamente, que ocorresse tal fato. Foi o que acabamos de ver. Conseq??entemente, ele n?úo tinha ne- cessidade de `explicar certos fen??menos h?í pouco percebi- dos’ (p. 151). A necessidade era apenas teor?®tica: ajustar, `salvar’ n?úo um fen??meno, mas uma nova concep?º?úo do nota 19 do cap?¡tulo anterior. Stillman Drake afirmou, em um ensaio interessant?¡ssimo e muito provocador, que `Gali- leu, na condi?º?úo de f?¡sico, tratou os movimentos inerciais como retil?¡neos. N?úo obstante, Galileu, na condi?º?úo de propagandista, ao escrever o Dialogue, assinalou que o mo- vimento retil?¡neo n?úo pode ser perp?®tuo, enquanto pode s?¬-lo o circular… Por isso mesmo, quando no Dialogue, leio o elogio metaf?¡sico dos c?¡rculos, n?úo concluo, com a mai- oria dos historiadores, que o autor foi incapaz de fu- gir ao sortil?®gio das antigas tradi?º?Áes; antes, suspeito

fortemente de que, nessas passagens, haja um prop??sito ??lti- mo’ (Galileo Studies, Ann Arbor, 1970, p. 253). Para fundamen- tar a asser?º?úo, o autor oferece grande n??mero de convincentes argumentos. Tudo isso, como ?® claro, ajusta-se muito bem ?á ideologia do presente ensaio.

IX Al?®m de alterar as interpreta?º?Áes naturais, Galileu alterou tamb?®m as sensa?º?Áes que parecem amea?ºar Cop?®rnico. Admite que tais sensa?º?Áes existam, louva Cop?®rnico por n?úo hav?¬- las considerado e afirma t?¬-las afastado com o aux?¡lio do seu telesc??pio. Contudo, n?úo oferece raz?Áes te??ricas acerca do por qu?¬ procederia esperar que o telesc??pio tra?ºasse dos c?®us um quadro verdadeiro.

mando-se de n??s do equivalente ao di?ómetro do c?¡rculo que des- creve. Assim, quando est?í aqu?®m do Sol e muito pr??xima de n??s, seu disco deveria parecer-nos pouco menos de quarenta vezes maior do que quando aquele planeta se encontra para al?®m do Sol, pr??ximo do ponto de conjun?º?úo. Sem embargo, a diferen?ºa ?® qua- se impercept?¡vel.’7 Em ensaio anterior, The Assayer, Galileu expressou-se de maneira ainda mais contundente. Respondendo a um advers?írio que havia levantado a quest?úo do copernicanismo, observa ele que `nem Tycho, nem outros astr??nomos, nem mesmo Cop?®rnico, p??de refutar cla- ramente (Ptolomeu), tanto mais que sempre tiveram pela frente o ar- gumento que decorre do movimento de Marte e V?¬nus’. (Esse `ar- gumento’ volta a ser mencionado no Dialogue e acaba de ser referi- do.) Conclui ele que `os dois sistemas’ (o copernicano e o ptolo- Assim, novamente percebemos que a concep?º?úo de Galileu acerca da origem do copernicanismo difere acentuadamente das explana?º?Áes hist??ricas habituais. N?úo aponta ele fatos novos que ofere?ºam apoio indutivo ?á id?®ia de Terra em movimento, nem menciona quaisquer observa?º?Áes que refutariam o ponto de vista geoc?¬ntrico, mas que seriam explicadas pelo copernicanismo. Ao contr?írio, sublinha que tanto as concep?º?Áes de Ptolomeu quanto as de Cop?®rnico s?úo refutadas pelos fatos9 e elogia Aristarco e Cop?®rnico por n?úo haverem desanimado em face dessas tremen- das dificuldades. Louva-os por haverem agido contra- Realmente, embora caiba admitir haver Cop?®rnico agido simplesmente com base na f?®11, cabe dizer, tamb?®m, que Galileu se viu em posi?º?úo inteiramente diversa. Afinal de contas, Galileu inventou uma nova din?ómica. E inventou o telesc??pio. A nova din?ómica, poder-se-ladesejar assinalar, afasta a incoer?¬ncia entre o movimento da Terra e as `condi?º?Áes que afetam a n??s e aos que se acham no espa?ºo acima de n??s’12. E o telesc??pio afasta

o conflito `ainda mais claro’ entre as altera?º?Áes do brilho aparente de Marte e V?¬nus, tal como previsto no esquema copernicano e tal como percebido a olho desarmado. Notemos, de passagem, que essa tamb?®m ?® a maneira de ver de Galileu. Admite que `n?úo fosse pela exist?¬ncia de um sentido superior e mais aperfei?ºoado que o sentido natural e comum, a juntar for?ºas ?ás da raz?úo, `e ele se mostraria’ muito mais recalcitrante com respeito ao sistema co- pernicano’13. O `sentido superior e mais aperfei?ºoado’ ?®, natural- mente, o telesc??pio e sentimo-nos inclinados a observar que o pro- cedimento aparentemente contra-indutivo era, em verdade, indu- ?º?úo (ou conjectura plus refuta?º?úo plus nova conjectura); todavia, era uma indu?º?úo com apoio em experi?¬ncia aperfei?ºoada, englobando n?úo apenas interpreta?º?Áes naturais melhores, como tamb?®m n??cleo sensorial mais avan?ºado que o existente ao tempo dos aristot?®licos predecessores de Galileu14. Trata-se de assunto que importa exa- O telesc??pio ?® um `sentido superior e mais aperfei?ºoado’ que oferece evid?¬ncia nova e mais fidedigna para a avalia?º?úo de quest?Áes astron??micas. Como ?® tal hip??tese examinada e que ar- No Sidereus Nuncius15, publica?º?úo em que s?úo referidas suas primeiras observa?º?Áes telesc??picas, trabalho a contribuir para sua fama, Galileu registra que `obteve ?¬xito (na constru?º?úo do telesc??- pio) gra?ºas a profundo estudo da teoria da refra?º?úo’. Sugere isso que ele tinha raz?Áes teor?®ticas para preferir o resultado das observa- ?º?Áes por telesc??pio ao das observa?º?Áes a olho desarmado. Entre- tanto, a particular raz?úo que ele apresenta ÔÇö mais aprofundado conhecimento da teoria da refra?º?úo ÔÇö nem ?® correta nem ?® suficien- A raz?úo n?úo ?® correta por existirem s?®rias d??vidas quan- to ao conhecimento de Galileu acerca das partes da ??tica f?¡sica de seu tempo que seriam relevantes para a compreens?úo dos fen??menos telesc??picos. Em uma carta que dirigiu a Giuliano de M?®dici, no dia 19 de outubro de 161016, mais de ano e

outros objetos’24. Esses testes produziram resultados not?íveis e surpreendentes. A bibliografia da ?®poca ÔÇö livros, cartas, registros de mexericos ÔÇö d?í not?¡cia do extraordin?írio impacto que o teles- Julius Caesar Lagalla, professor de Filosofia em Roma, des- creve uma reuni?úo realizada aos 16 de abril de 1611 , ocasi?úo em que Galileu fez demonstra?º?úo de seu aparelho: `Est?ívamos no to- po do J aniculum, perto do port?úo da cidade que tem o nome de Esp?¡rito Santo, onde se diz ter sido a vila do poeta Marcial, hoje propriedade do Reverend?¡ssimo Malvasia. Atrav?®s do aparelho, vimos t?úo distintamente o pal?ício do ilustr?¡ssimo Duque Altemps, nas Colinas Toscanas, que facilmente contamos todas e cada qual de suas janelas ÔÇö e a dist?óncia ?® de dezesseis milhas italianas. Do mesmo lugar, lemos as letras esculpidas na galeria que, para as b?¬n?º?úos, Sixto erigiu no Laterano e pudemos ler t?úo claramente, a uma dist?óncia de pelo menos duas milhas, que distingu?¡amos os Outros relatos confirmam este e similares eventos. O pr??- prio Galileu acentua `o n??mero e a import?óncia dos benef?¡cios que se pode esperar sejam proporcionados pelo instrumento, quando usado em terra ou no mar’26. O ?¬xito terrestre do telesc??pio estava, portanto, assegurado. Sua aplica?º?úo ?ás estrelas era, entretanto, algo inteiramente diverso.

vezes, como n?úo-existentes, fatos que haviam dado apoio ?á filosofia anterior. Assim, todas as evid?¬ncias em favor da bruxaria, da possess?úo demon?¡aca, da exist?¬ncia do diabo, etc. foram descartadas, ao mesmo tempo em que eram descar- tadas as `supersti?º?Áes’ por elas confirmadas. O resultado foi que, `ao t?®rmino da Idade M?®dia, a ci?¬ncia viu-se for?ºada a apartar-se da psicologia humana, de sorte que at?® mesmo o grande esfor?ºo de Erasmo e de seu amigo Vives, os mais altos representantes do humanismo, n?úo bastou para pro- vocar uma reaproxima?º?úo e a psicopatologia teve de acom- panhar de longe, durante s?®culos, as tend?¬ncias desenvol- vimentistas da medicina geral e da cirurgia. Em verdade… o div??rcio entre a ci?¬ncia m?®dica e a psicopatologia foi t?úo definitivo que esta ??ltima se viu totalmente relegada ao dom?¡nio da teologia e do direito civil e can??nico ÔÇö dois dom?¡nios que, naturalmente, mais e mais se afastaram da medicina…’ G. Zilboorg, M. D., The Medical Man and the Witch, Baltimore, 1935, pp. 3 ss. e 70 ss. A astronomia a- van?ºou, mas o conhecimento acerca do homem caminhou para o est?ígio anterior e mais primitivo. Outro exemplo ?® o da astrologia. `Nos primeiros est?ígios do esp?¡rito humano’, 273-80, ed. Littr?®, Paris, 1836), `esses elos entre astronomia e biologia foram estudados de um diferente ponto de vista, mas, ao menos, foram estudados e n?úo abandonados, como ?® a tend?¬ncia comum em nosso tempo, que est?í sob a influ?¬n- Por tr?ís da fantasiosa cren?ºa que a filosofia antiga deposi- tava na influ?¬ncia fisiol??gica das estrelas, est?í a forte, em- bora confusa, convic?º?úo de que os fatos da vida s?úo, de al- guma forma, dependentes do sistema solar. ?Ç semelhan?ºa de todas as primitivas inspira?º?Áes da intelig?¬ncia do ho- mem, tal sentimento exigia retifica?º?úo, por meio da ci?¬ncia positiva ÔÇö e n?úo destrui?º?úo; embora, infelizmente, em

ci?¬ncia, tal como em pol?¡tica, ?®, com freq???¬ncia, dif?¡cil reor- 3. lbid., p. 328. Em outras ocasi?Áes, Galileu se expressa muito mais belicosa e dogmaticamente, na apar?¬ncia, ignorando as dificuldades aqui referidas. Cf. suas notas preparat??rias para a 7. Para min??cias concernentes ?á varia?º?úo das magnitudes plane- 8. The Assayer, citado com base em The Controversy on the Comets of 9. Isto se refere ao per?¡odo que antecede o fim do s?®culo XV; cf. Derek J. de S. Price, `Contra-Copernicus: A Cri- tical Re-Estimation of the Mathematical Planetary The- ory of Ptolomy, Copernicus and Kepler’, Critical Problems 197-218. Price ocupa-se apenas das dificuldades cinem?í- ticas e ??ticas enfrentadas pelas concep?º?Áes novas. (Con- sidera?º?úo das dificuldades din?ómicas refor?ºaria o ponto por ele defendido.) Assinala Price que, `nas condi?º?Áes mais favor?íveis, um sistema geost?ítico ou heliost?ítico, recorrendo a c?¡rculos exc?¬ntricos ( ou seus equivalentes) e epiciclos centrais, pode explicar os movimentos angu- lares dos planetas com acuidade superior a 6’… exceto a teoria que se faz necess?íria para explicar… Merc??rio e excetuado tamb?®m o planeta Marte que se desvia de mais de 30′, nos termos dessa teoria. [Essa acuidade] ?® certa- mente superior ?á acuidade de 10′ que o pr??prio Cop?®rni- co julgou objetivo satisfat??rio de sua pr??pria teoria’ e que era dif?¡cil de submeter a teste, especialmente em vista do fato de que a refra?º?úo (quase 10 no horizonte) n?úo era

levada em conta ao tempo de Cop?®rnico e de que a base ob- Carl Schumacher (Untersuchungen ??ber die ptolem?ñische The- orie der unteren Planeten, M??nster, 1917) verificou que as predi- ?º?Áes concernentes a Merc??rio e V?¬nus, feitas por Ptolomeu, diferem, quando muito, de 30′ das feitas por Cop?®rnico. Os desajustes encontrados entre predi?º?Áes modernas e as de Pto- lomeu (e Cop?®rnico) que, no caso de Merc??rio, chegam a 7 ??, devem-se principalmente a constantes err??neas e equivocada considera?º?úo de condi?º?Áes iniciais, inclusive a um incorreto valor atribu?¡do ?á constante de precess?úo. Quanto ?á versatilida- de do esquema ptolomaico, cf. N. R. Hanson, Isis, n??. 51, 10. Alguns enunciados de car?íter hist??rico apresentados neste e nos cap?¡tulos seguintes, at?® e inclusive o cap?¡tulo XI, bem como as infer?¬ncias delas retiradas, s?úo objeto de contesta?º?úo em recente ensaio que aparece em Studies in the History an Philo- sophy of Science, maio de 1973, pp. 11-46, ensaio preparado por P. K. Machamer, com o aux?¡lio de G. Buchdahl, L. Laudan e outros especialistas. Exame do ensaio ?® feito no Ap?¬ndice II 11. Ele assim n?úo agiu, como se pode ver da nota 12, cap?¡tulo 14. Quanto a essa concep?º?úo, cf. Ludovico Geymonat, Galileo Ga- lilei, vers?úo Stillman Drake, Nova Iorque, 1965 (1?¬ edi?º?úo itali- 15. The Sidereal Messenger of Galileo Galilei, vers?úo E. St. Carlos, Londres, 1880, nova publica?º?úo por Dawsons of Pall Mall, 16. Galileu Galilei, Opere, Ediz. Naz., x, p. 441.

todos os fil??sofos antigos, declara ele que h?í outros quatro planetas ou estrelas, que s?úo sat?®lites de J??piter a que ele de- nomina corpos dos M?®dici, bem como dois acompanhantes de Saturno. Aqui, discutiu essa opini?úo com padre Clavius, o jesu?¡ta. Na quinta-feira ?á noite, na propriedade de Monsignor Malavasia, para al?®m do port?úo de S?úo Pancr?ício, lugar amplo e aberto, foi-lhe oferecido um banquete por Frederico Cesi, Marqu?¬s de Monticelli e sobrinho do Cardeal Cesi, que se fa- zia acompanhar de seu parente, Paulo Monaldesco. Na reuni- ?úo estiveram Galileu; um flamengo chamado Terrentius; P?®r- sio, da comitiva do Cardeal Cesi; [La] Galla, professor de nos- sa Universidade; o grego, que ?® o matem?ítico do Cardeal Alguns sa?¡ram especialmente para fazer a observa?º?úo, mas embora houvessem permanecido fora at?® uma hora da manh?ú, n?úo chegaram a concordar quanto ao que viram’ (citado com 26. Sidereal Messenger, op. cit., p. ii. Segundo Berellus (De Vero Teles- copii Inventore, Haia, 1655, p. 4), o pr?¡ncipe Moritz imediata- mente compreendeu o valor militar do telesc??pio e ordenou que a inven?º?úo ÔÇö atribu?¡da por Berellus a Zacharias Jansen – fosse mantida em segredo. Assim, o telesc??pio parece ter co- me?ºado por ser arma secreta e s?? posteriormente foi usado na Astronomia. A literatura se refere a muitos predecessores do telesc??pio, que se coloca, entretanto, no dom?¡nio da m?ígica natural e a?¡ ?® usado. Um exemplo ?® o de Agrippa von Nette- sheim que, em seu livro a respeito de filosofia ocultista (escri- to em 1509, Livro II, cap?¡tulo 23) registra: `et ego novi ex illis miranda conficere et specula in quibus quis videre poterit quaecunque voluerit a longissima distantia’. `Assim o brinque- do de uma ?®poca veio a ser o precioso tesouro de outra’, Hen- 166.

A varia?º?úo das magnitudes dos planetas desempenhou, de tempos em tempos, importante papel no desenvolvimento da teo- ria planet?íria. Nos termos do De Coelo, II, 12, de Simpl?¡cio. Arist??- teles notou o fen??meno, por?®m n?úo revisou sua astronomia de esferas conc?¬ntricas. Hiparco hierarquizou as magnitudes das es- trelas fixas, distribuindo-as em escala num?®rica de 1 (as estrelas mais brilhantes) a 6 (apenas vis?¡veis), tomando por base a visibili- dade das estrelas ao amanhecer (Zinner, Entstehung und Ausbreitung der Kopernikanischen Lehre, Erlangen, 1943, p. 30); e, a partir da alte- ra?º?úo de brilho das estrelas fixas (Pl?¡nio, Hist. Nat., II, 24), e pla- netas (II, 13), inferiu o movimento radial. Ptolomeu, Syntaxis, IX, 2, define o objetivo da teoria planet?íria como sendo o de mostrar que `as anomalias manifestas surgem devido ao movimento circu- lar (de velocidade angular constante)’ e passa a tratar das duas a- nomalias de locomo?º?úo, sem jamais referir-se a brilho. `Salva’ as anomalias, no sentido de que as explica em termos de c?¡rculos percorridos com velocidade angular constante e n?úo no sentido de que chega a uma f??rmula arbitr?íria para prever os fen??me- nos. (Que este sentido de `salvar’ ?® o correto foi sustentado

por F. Krafft, Beitr?ñge zur Geschichte der Wissenschaft und Technik, n??. 5, Wiesbaden, 1955, pp. 5 ss.) De acordo com Simpl?¡cio, De Coelo, II, 12 e Prado, Hypotyposis, I, 18, os fen??menos a serem `salvos’, neste sentido, incluem o fato de que, `os pr??prios planetas alteram o brilho’ e essa altera?º?úo ?® salva `por exc?¬ntricos e epiciclos’ (Hypot., VII, 13). Posteriormente, quando o esquema do epiciclo passou a ser encarado como simples artif?¡cio de c?ílculo (cf. Duhem, To Save the Phenomena, Chicago, 1969, para refer?¬ncias), a altera?º?úo de bri- lho foi afastada do dom?¡nio dos fen??menos a serem salvos, che- gando, algumas vezes, a ser usada como argumento contra uma interpreta?º?úo literal da altera?º?úo de dist?óncia entre a Terra e o pla- neta (ver adiante, quando se fala de Osiandro). N?úo obstante, al- guns astr??nomos usaram a discrep?óncia entre a varia?º?úo de dist?ón- cia, tal como calculada segundo uma forma de entender Ptolomeu, e as reais altera?º?Áes de magnitude como argumento contra o sis- tema dos epiciclos. Exemplos: Henrique de Hesse, De improbatione concentricorum et epicyclorum (1364) e Mestre Julmann, Tractatus de re- probationibus epicyclorum et eccentricorum (1377) (par?ífrase de Zinner, pp. 81 ss.) De acordo com Henrique de Hesse, o brilho de Marte, calculado segundo as indica?º?Áes de al-Farghani, varia a uma raz?úo aproximadamente 1:100, enquanto a compara?º?úo que se faz com uma vela, colocada, inicialmente, a uma dist?óncia onde tem brilho semelhante ao brilho m?íximo de Marte e, depois, afastada do e- quivalente a dez vezes essa dist?óncia, mostra que, no seu m?¡nimo de brilho, Marte deveria ser invis?¡vel. Mestre Julmann calcula as altera?º?Áes de magnitude em 42:1 no caso de V?¬nus, 11:1 no caso de Marte, 4:1 no caso da Lua, e 3:1 no caso de J??piter, o que, a- firma ele, contradiz a observa?º?úo. Regiomontanus refere-se a im- Usando os dados de Syntaxis, X, 7, o c?ílculo, no caso de Marte, leva a uma varia?º?úo de di?ómetro de 1:8, a uma varia?º?úo do disco de aproximadamente 1:64 (o que, segundo a ??tica de

Euclides, ?® a medida correta para a varia?º?úo de brilho). A va- ria?º?úo real ?® de quatro magnitudes, isto ?®, situa-se entre 1:16 e 1:28, ou seja, difere, entre uma e quatro magnitudes, das magnitudes calculadas (o espa?ºamento se deve ao espa?ºamento de base das magnitudes). No caso de V?¬nus, a diferen?ºa ?® ainda mais cla- ra. Cop?®rnico (De Revol., cap?¡tulo 10, ??ltimo par?ígrafo) e R?®ti- cus, (Narratio Prima, in E. Rosen (ed.), Three Copernican Treati- ses, Nova Iorque, 1969, p. 137) entendem que o problema est?í resolvido ÔÇö mas n?úo est?í. No Commentariolus, os valores para Marte s?úo os seguintes: raio do `grande c?¡rculo’, 23; raio do deferente, 38; raio de primeiro epiciclo, 5 (cf. Rosen, op. cit., pp. 74, 77); em conseq???¬ncia, dist?óncia mais longa/dist?óncia mais curta ~ 50 + (38 ÔÇö 25) + 5/(38 ÔÇö 25) ÔÇö 5 ~ 8, tal como anteriormente (Galileu, op. cit., pp. 321 s., d?í o valor 1:8 para Marte e 1:6 para V?¬nus) . Se as estimativas de magnitude existentes entre os s?®culos XIV e XVII fossem suficientemen- te precisas para indicar uma discrep?óncia entre as previs?Áes de Ptolomeu e as varia?º?Áes reais ÔÇö e Henrique de Hesse, Regi- omontanus e Cop?®rnico acreditavam que fossem ÔÇö ent?úo, o problema das magnitudes planet?írias apareceria inalterado em Cop?®r- nico (e essa ?® tamb?®m a opini?úo de Derek Price, `Contra Co- pernicus’, loc. cit., 213). A situa?º?úo ?® reconhecida pelo muito caluniado Osiandro, que menciona o problema na introdu?º?úo a De Revol., apresentando-a como argumento favor?ível ?á natu- reza `hipot?®tica’, isto ?®, instrumentalista, da cosmologia co- pernicana. Escreve ele: `N?úo se faz necess?írio que tais hip??te- ses sejam verdadeiras; nem se faz necess?írio que pare?ºam verdadeiras; basta que levem a c?ílculos capazes de se colocar em conson?óncia com os resultados da observa?º?úo; exceto para algu?®m ignorante em quest?Áes de ??tica e de geometria que se incline a entender que o epiciclo de V?¬nus se assemelha ?á verdade e a admitir que tal ?® a causa de o planeta estar ora quarenta (ou mais) graus adiante do Sol, ora os mesmos graus atr?ís dele. Quem n?úo perceber?í que admitir isso implica admitir,

necessariamente, que o di?ómetro do planeta, quando pr??ximo da Terra, h?í de ser quatro vezes maior do que ao achar-se ele ?á mais afastada exist?¬ncia da Terra e seu corpo mais de sessenta vezes maior ÔÇö- fato que ?® contraditado pela experi?¬ncia de todas as idades’. (Grifo meu.) A passagem grifada, que ?® omitida tanto pelos que criticam Osiandro como pelos que o ap??iam (Duhem, p. 66, cita o trecho anterior e o posterior ?á passagem – mas n?úo a pr??pria passagem), esclarece a natureza de seu instrumentalismo. Sabemos que ele foi um instrumentalista n?úo s?? por motivos filos??ficos, mas tamb?®m por motivos t?íticos (carta a R?®ticus, datada de 20 de abril de 1541, reproduzida em K. H. Burmeister, Georg Joachim Rheticus, III, Wi- esbaden, 1968, p. 25) e porque o instrumentalismo se colocava na linha de uma poderosa tradi?º?úo no campo da Astronomia (carta a Cop?®rnico, 20 de abril de 1541, traduzida in Duhem, p. 68). Ago- ra, percebemos que sua filosofia apoiava-se, a par disso, em raz?Áes f?¡sicas, interpretado de maneira realista, Cop?®rnico se punha em incompatibilidade com fatos ??bvios. Este ponto n?úo vem men- cionado no bomb?ístico trabalho de Popper, `Three Views Con- cerning Human Knowledge’, Conjectures and Refutations, Nova Ior- que, 1962, pp. 97 ss., onde Osiandro ?® citado ÔÇö mas apenas at?® o `exceto’, que introduz as raz?Áes f?¡sicas de seu procedimento. O Osiandro de Popper ?®, assim, apresentado como um dogmatista filos??fico, enquanto ?®, de fato, um verdadeiro popperiano: toma a s?®rio as refuta?º?Áes. Cf. tamb?®m meu ensaio, `Realism and Instru- O argumento de Osiandro ?® examinado e definitivamente rejeita- do por Bruno, La Cena de le Ceneri, Opere Italiane, I, ed. Gentile, Ba- ri, 1907, p. 64. `A magnitude vis?¡vel de um objeto fulgurante n?úo nos permite inferir-lhe a magnitude real ou dist?óncia a que se en- contre.’ Isso ?® certo, mas n?úo foi aceito por Galileu, que precisa explorar a dificuldade para melhor propaganda de seu telesc??pio.

argumentum ad hominem. Assim seja: em meu ensaio, dirijo-me a se- res humanos. N?úo me dirijo a c?úes, nem a l??gicos, observa?º?Áes semelhantes s?úo aplic?íveis a muitos outros coment?írios de Ma- chamer. (De passagem: nunca aceitarei a leitura `caridosa’ que Ma- chamer faz de minhas palavras na nota 13. Como est?í, meu argu- mento ?® mais eficaz.) Em segundo lugar, Machamer freq??entemente desperta os fantasmas de artigos que escrevi h?í centenas de anos (tempo sub- jetivo!) para combater algo que escrevi mais recentemente. Nisso, ele est?í, sem d??vida, sob a influ?¬ncia de fil??sofos que, tendo feito min??scula descoberta, a ela voltam repetidamente por falta de al- guma coisa nova a dizer e que transformam essa falha ÔÇö falta de id?®ias ÔÇö na virtude suprema, a saber, a coer?¬ncia. Quando escre- vo um artigo, geralmente esque?ºo o que escrevi antes e a utiliza?º?úo Em terceiro lugar, Machamer entende mal at?® mesmo aque- las id?®ias que continuo a professar. Jamais disse, como ele sup?Áe, Disse, isto sim, que certas teorias rivais, denominadas `universais’ ou `n?úo-instanciais’, se interpretadas de certo modo, n?úo admitem compa- ra?º?úo f?ícil. Mais especificamente, nunca admiti que Ptolomeu e Voltemos ?á hist??ria. Machamer tenta demonstrar que a his- t??ria do telesc??pio se desenvolveu de maneira muito diferente de como a relatei. Para saber quem est?í certo e quem est?í errado, permitam-me repetir o que entendo seja de import?óncia. Afirmo duas coisas: (1) as teorias ??ticas existentes ?áquele tempo n?úo bas- tavam, como alicerce teor?®tico, para a constru?º?úo do telesc??pio e parte dessas teorias tornava duvidosa a confian?ºa que o telesc??pio, depois de inventado, devia merecer; (2) Galileu desconhecia as te- No que se refere a (2), Machamer assinala, com grandes mostras de erudi?º?úo, que Galileu sabia que a luz se propaga em

assimilou-as sem exame, ?á inven?º?úo de tais id?®ias, nas circunst?óncias hist??ricas por mim descritas, esteve longe de ser simples. Foi Gali- Ele n?úo as discute em suas cartas ou em seus escritos. Nas escolas, os manuais, como o de Pecham, corresponderiam a um limite su- Al?®m disso, apontavam para uma dire?º?úo equivocada. ?ë, natural- mente, poss?¡vel que Galileu, ignorando as minuciosas leis psicol??- gicas enunciadas nesses livros, recorresse ?á lei da refra?º?úo, desse por assentado que at?® em meios refratores os ?óngulos maiores sig- nificam tamanho maior e ?® poss?¡vel que prosseguisse a partir desse ponto. N?úo me parece que ele assim tenha agido; mas se o fez ÔÇö e Machamer chega muito pr??ximo de sugerir que o fez ÔÇö a posi- ?º?úo que defendo se veria ainda mais refor?ºada: Galileu conseguiu progresso afastando fatos importantes (como o fen??meno da const?óncia) solu?º?Áes sensatas (que n?úo conhecia ou n?úo compre- endia) e levando uma hip??tese falsa (falsa at?® mesmo para Pecham e por bons motivos) ao seu extremo. As freq??entes refer?¬ncias que Machamer faz a livros tradicionais seriam, neste caso, irrele- A seguir, surge a quest?úo da natureza das observa?º?Áes de Galileu. Sustento que algumas das observa?º?Áes de Galileu, com o telesc??pio, eram contradit??rias entre si, enquanto outras po- Quanto a este ??ltimo ponto, Machamer registra que `historica- mente, nenhum dos contempor?óneos de Galileu usou desse ar- gumento’ (nota 12). Incorreto e irrelevante. Kepler fez obje- ?º?Áes ?á impress?úo de suavidade do bordo da Lua e concitou Ga- lileu a `voltar a investigar a quest?úo’. E se ningu?®m mais se ma- nifestou, isso mostra apenas que as pessoas n?úo faziam obser- va?º?Áes muito cuidadosas e estavam, conseq??entemente, prontas a aceitar os novos milagres astron??micos de Galileu. De novo, a ignor?óncia ou precipita?º?úo foi uma b?¬n?º?úo. N?úo me impressio- nam absolutamente os `c?ílculos’ do professor Righini (p. 23),

sejam eles quais forem. Isso porque, para tais c?ílculos basta a dis- tribui?º?úo geral de luzes e sombras, provavelmente conhecida por Galileu. Nem me impressiona o fato de algumas pessoas reconhe- cerem algumas coisas na Lua de Galileu. O que me impressiona ?® a grande diferen?ºa que vai da Lua de Galileu ?áquela que todos po- dem ver a olho desarmado. Se a diferen?ºa se deve ?á tentativa que fez Galileu de acentuar certos aspectos da Lua que tinha por essen- ciais ÔÇö- como pensa Machamer ÔÇö estamos de volta ?á minha tese de que Galileu freq??entemente se afasta do fato para defender seu ponto de vista. ?ë o que temos, em decorr?¬ncia dos coment?írios O que Machamer deixa de mencionar s?úo os aspectos para- doxais das observa?º?Áes de Galileu, como, por exemplo, o fato de que a Lua parece ter o interior enrugado, mas as bordas perfeita- mente lisas ou o fato de que os planetas ganham, enquanto as es- trelas fixas perdem em tamanho. Ningu?®m, exceto Kepler, deu a- ten?º?úo a essas peculiaridades, o que demonstra, mais uma vez, qu?úo pouco se refletiu acerca das observa?º?Áes. (Foi essa falta de re- flex?úo de seus contempor?óneos que capacitou Galileu a avan?ºar t?úo bem como avan?ºou.) Machamer levanta grande celeuma (dedica-lhe mais de tr?¬s p?íginas) em torno de dez linhas por mim escritas a prop??sito da diferen?ºa entre observa?º?Áes terrestres e celestes. Nessas dez li- Machamer fala acerca das primeiras, mas n?úo das ??ltimas. Afirma, corretamente, que, desde o come?ºo os argumentos cosmol??gicos se basearam em triangula?º?Áes interplanet?írias, tendo o pr??prio A- rist??teles admitido que a luz obedece ?ás mesmas leis nos c?®us e na Procurava dizer que, sendo a luz uma `entidade interdepartamen- tal’, apresentava propriedades especiais e sujeitava-se a condi?º?Áes diferen- tes em um e outro daqueles dom?¡nios. Simples olhar ?á hist??ria das teorias a respeito da luz, de Parm?¬nides a Einstein, confirma a primeira parte de minha asser?º?úo. A segunda parte ?® muito menos

evidente, ningu?®m lhe deu maior aten?º?úo e os que o fizeram em uma oportunidade deixaram de faz?¬-la em outras. As estrelas eram consideradas como pontos de condensa?º?úo nas esferas celestes (Arist??teles, De Coelo, 289 a 11 e ss.; Simpl?¡cio; v?írios autores me- dievais); havia altera?º?úo de material, que passava de ar a fogo e a ?®ter; mas parece que ningu?®m notou os problemas de refra?º?úo que da?¡ se originam. Os debates se iniciaram ao tempo de Tycho, em suas discuss?Áes com Rothmann, e tais discuss?Áes mereceram per- tinentes coment?írios de Kepler. Chega este a elaborar alguns pres- supostos a respeito da `ess?¬ncia celeste’, uma das raz?Áes que teve para n?úo construir o telesc??pio. `Voc?¬’, escreve ele, em sua r?®plica ao Nuncius de Galileu (ed. Rosen, p. 18), `afastando todos os im- Assim, ?® certo que os especialistas em ??tica ignoravam as diferen- ?ºas afirmadas pelos cosmologistas e triangulavam ousadamente no espa?ºo. Assim agindo, mostravam neglig?¬ncia grave, ignor?óncia ou completo alheamento aos requisitos de coer?¬ncia (a que n?úo me prendo, mas a que se prende at?® o menos qualificado metodolo- gista). N?úo obstante, os ??ticos alcan?ºaram ?¬xito. Uma vez mais a ignor?óncia, a superficialidade, a falta de senso revelaram-se uma b?¬n?º?úo. Machamer, que n?úo d?í aten?º?úo ao todo da situa?º?úo hist??- rica, mas apenas ?á parte que o favorece, n?úo chega a aperceber-se dessa frut?¡fera fuga a regras. N?úo surpreende, portanto, que ele (Importa real?ºar que Kepler discute as ess?¬ncias celestes a despei- to da obra de Tycho a prop??sito dos cometas e a prop??sito da Nova de 1572 e de que, ainda em 1630, Galileu defendia a nature- za atmosf?®rica dos cometas. Mostra isso que a `distin?º?úo aristot?®li- ca’ entre a esfera celeste e a esfera terrestre n?úo pode ter, como insinua Machamer, `entrado em completo colapso’ por volta de 1577 (p. 21). Entrou em colapso para alguns, mas n?úo entrou em Aqui, tal como em outros pontos, Machamer apressa-se a gene-

ralizar a partir de id?®ias daqueles com que mant?®m afinidade.) E baste isso quanto aos problemas f?¡sicos relacionados com as ob- Coisa diferente se d?í com os problemas psicol??gicos pro- vocados pelas observa?º?Áes telesc??picas. Esses problemas foram percebidos por Pecham e outros (como, por exemplo, Roger Ba- con) e continuam a existir (ilus?Áes quanto ?á Lua). Ao tempo de Galileu, os problemas psicol??gicos eram enormes e explicam mui- Esses problemas eram compar?íveis aos de algu?®m que, sem ter jamais visto uma lente, usasse, pela primeira vez, um mau micros- c??pio. N?úo sabendo o que esperar (afinal de contas, n?úo encon- tramos, pelas ruas, pulgas do tamanho de homens), a pessoa ?® in- capaz de distinguir entre as propriedades do objeto e as `ilus?Áes’ criadas pelo instrumento (distor?º?Áes, faixas coloridas, descolora- ?º?úo, etc.) e os objetos deixam de ter nexo. Na superf?¡cie da Terra ÔÇö com edif?¡cios, navios, etc. ÔÇö o telesc??pio operar?í bem: trata-se de coisas familiares e o conhecimento que delas temos elimina a maior parte das distor?º?Áes, assim como o conhecimento que te- mos de uma voz e de uma l?¡ngua elimina as distor?º?Áes provocadas pelo aparelho telef??nico. O procedimento compensat??rio n?úo se aplica ao que ocorre no c?®u, como os primeiros observadores logo notaram e registraram. Assim, ?® certo que o telesc??pio provoca ilus?Áes, seja nos casos de observa?º?úo celeste seja nos de observa- ?º?úo terrestre (p. 20), mas apenas os primeiros casos, pela raz?úo mencionada, constitu?¡am problema. ?ë interessante notar que o combinado efeito da diferen?ºa f?¡sica e fator psicol??gico foi perce- bido por Pecham, para quem `os tamanhos das estrelas n?úo s?úo perfeitamente conhecidos, pois o c?®u ?® mat?®ria mais sutil que o ar Machamer conclui seu ensaio com a seguinte advert?¬ncia: “A hist??ria’, diz ele, `deve estar conclu?¡da, inteiramente con- clu?¡da, antes que sejam consideradas as implica?º?Áes filos??ficas’

(p. 46). A recomenda?º?úo ?® excelente ÔÇö por que ter?í ele pr??prio ignorado? Eu acrescentaria que se deve refletir, e refletir bem, an- tes de avan?ºar considera?º?úo at?® mesmo a respeito do mais simples dos fatos hist??ricos.

X Nem a experi?¬ncia inicial com o telesc??pio oferece essas ra- z?Áes. As primeiras observa?º?Áes do c?®u feitas atrav?®s de te- lesc??pio s?úo vagas, imprecisas, contradit??rias e p?Áem-se em conflito com o que todos podem ver a olho desarmado. E a ??nica teoria que teria levado a distinguir entre as ilus?Áes pro- vocadas pelo telesc??pio e os fen??menos reais foi refutada por testes simples.

Para come?ºar, h?í o problema da vis?úo atrav?®s do telesc??- pio. Esse problema ?® diverso, conforme se tenha em conta obje- tos celestes ou terrestres; e imaginou-se que ele diferiria de um para Imaginou-se que diferiria dada a exist?¬ncia da id?®ia de que objetos terrestres e celestes seriam feitos de material diferente, o- bedecendo a leis diferentes. Essa id?®ia acarreta a conseq???¬ncia de que o resultado de uma intera?º?úo da luz (que liga os dois dom?¡nios e tem propriedades especiais) com objetos terrestres n?úo pode, sem maior exame, ser estendido ao que no c?®u ocorre. A essa id?®ia f?¡sica acrescentou-se, de inteiro acordo com a teoria aristot?®lica do conhecimento2 (e com as atuais concep?º?Áes acerca da mat?®ria), a id?®ia de que os sentidos est?úo familiarizados com a apar?¬ncia dos objetos terrestres e capacitados, portanto, a perceb?¬-los distinta- mente, ainda que a imagem telesc??pica sofresse forte distor?º?úo ou fosse desfigurada por franjas coloridas. N?úo conhecemos as estre- las de perto. Conseq??entemente, n?úo podemos recorrer ?á mem??ria, que delas tenhamos, para separar o que prov?®m do telesc??pio daquilo que prov?®m do objeto mesmo3. Al?®m disso, todas as indica?º?Áes

comuns (tais como sentido de profundidade, superposi?º?úo, co- nhecimento de tamanho, etc.) que possibilitam e auxiliam nossa vis?úo, na face da Terra, est?úo ausentes quando nos voltamos para o c?®u, sendo de esperar a ocorr?¬ncia de fen??menos novos e sur- preendentes4. T?úo-somente uma nova teoria da vis?úo ÔÇö abran- gendo hip??teses concernentes ao comportamento da luz no teles- c??pio e hip??teses relativas ?á rea?º?úo do olho em circunst?óncias ex- cepcionais ÔÇö poderia vencer a dist?óncia que separa os c?®us da Terra e que era, e continua a ser, fato ??bvio em F?¡sica e nas obser- va?º?Áes astron??micas5. Dentro em pouco, teremos oportunidade de tecer coment?írio em torno de teorias existentes ?áquela ?®poca e veremos que n?úo tinham como desempenhar esse papel e que se viram refutadas por simples e ??bvios fatos. Por ora, desejo con- centrar-me nas observa?º?Áes mesmas e assinalar as contradi?º?Áes, e dificuldades que surgem quando se tenta admitir, sem maior exa- me, os resultados das observa?º?Áes celestes feitas por meio do te- lesc??pio, aceitando-as como indicadoras de propriedades est?íveis Algumas dessas dificuldades j?í se anunciam em um relato acerca dos Avvisi6 do tempo, a cujo t?®rmino se observa que `em- bora eles (os participantes da reuni?úo descrita) sa?¡ssem com o ob- jetivo de realizar essa observa?º?úo (de ÔÇ£mais quatro estrelas ou pla- netas que s?úo sat?®lites de J??piter… bem como de dois acompa- nhantes de SaturnoÔÇØ7) e permanecessem fora at?® uma hora da ma- Outro encontro que se tomou c?®lebre em toda a Europa p?Áe a situa?º?úo ainda mais clara. Cerca de um ano antes, nos dias 24 e 25 de abril de 1610, Galileu transportou seu telesc??pio at?® a casa de um opositor, Magini, em Bolonha, para mostr?í-lo a vinte e quatro professores de todas as faculdades. Horky, exaltad?¡ssi- mo disc?¡pulo de Kepler, escreveu nessa ocasi?úo8: `N?úo dormi em 24 e 25 de abril, nem de dia e nem de noi- te, mas experimentei de mil maneiras o instrumento9,

dirigindo-o a coisas aqui de baixo e coisas l?í de cima. Aqui, ele fun- ciona magnificamente; nos c?®us, decepciona, pois algumas estrelas fi- xas [Spica Virginis, por exemplo, ?® mencionada, bem como um resplendor terrestre] s?úo vistas duplicadamente10. Tenho como testemunhas homens excelsos e nobres doutores… e todos admiti- ram que o instrumento causa decep?º?úo… Isso levou Galileu ao si- l?¬ncio e, no dia 26, ele tristemente nos deixou, saindo de manh?ú- zinha… sem sequer agradecer Magini pelo espl?¬ndido banquete…’ Magini escreveu a Kepler no dia 26 de maio: `Ele nada conseguiu e estavam presentes mais de vinte ilustrados homens ÔÇö ningu?®m viu distintamente os novos planetas (nemo perfecte vidit); dificilmente ele afirmar?í que existem’11. Poucos meses depois (em carta assina- da por Ruffini) repete ele: `Somente alguns de vis?úo agu?ºada se mostraram, at?® certo ponto, convencidos’12. Depois que esses e outros relatos negativos lhe chegaram de todos os lados, ?á seme- lhan?ºa de uma avalanche de papel, Kepler pediu testemunhos a Galileu13: `N?úo desejo esconder-lhe que v?írios italianos enviaram cartas a Praga, afirmando que n?úo chegaram a ver aquelas estrelas [as luas de J??piter] em seu telesc??pio. Pergunto-me como pode ocorrer que tantos neguem o fen??meno, inclusive aqueles que u- sam um telesc??pio. Ora, levando em conta o que por vezes acon- tece comigo, n?úo considero imposs?¡vel que uma pessoa possa ver o que milhares s?úo incapazes de ver…14 N?úo obstante, lamento que tarde tanto a confirma?º?úo por parte de outros… Rogo-lhe, portan- to, Galileu, que me envie testemunhos t?úo cedo quanto poss?¡vel…’ Galileu, em resposta datada de 19 de agosto, refere-se a si pr??prio, ao Duque da Toscana e Giuliano de M?®dici `e a muitos outros em Pisa, Floren?ºa, Bolonha, Veneza e P?ídua, que, n?úo obstante, guar- dam sil?¬ncio e hesitam. A maior parte deles ?® inteiramente incapaz de identificar J??piter ou Marte ou mesmo a Lua como um plane- ta…’15 ÔÇö o que, para dizer o menos, n?úo retrata um estado de coi- sas muito confortador.

Hoje, percebemos um pouco melhor por que o apelo direto ?á vis?úo atrav?®s do telesc??pio estava fadado a conduzir ao desapon- tamento, especialmente nos est?ígios iniciais. A principal raz?úo, j?í antevista por Arist??teles, era a de que os sentidos usados em con- Alguns historiadores mais antigos vislumbraram o que ocorria, mas falam em termos negativos, tentando explicar a aus?¬ncia de relatos observacionais satisfat??rios ou a pobreza do que ?® visto pelo teles- c??pio16. N?úo se d?úo conta da possibilidade de que os observadores se deixam tamb?®m perturbar por fortes ilus?Áes positivas. S?? recente- mente se percebeu o grau dessas ilus?Áes, o que se deu principal- mente gra?ºas ?á obra de Ronchi e de sua escola17. As maiores varia- ?º?Áes s?úo apontadas na posi?º?úo da imagem telesc??pica e, correspon- dentemente, na amplia?º?úo observada. Alguns observadores colocam a imagem no interior do telesc??pio, levando-a a alterar sua posi?º?úo lateral com a posi?º?úo lateral do olho, exatamente como se daria com uma p??s-imagem ou com um reflexo no interior do telesc??- pio ÔÇö excelente prova de que se deve estar diante de uma ‘ilu- s?úo’18. Outros situam a imagem de maneira que n?úo se produz qualquer amplia?º?úo, embora coubesse esperar uma amplia?º?úo line- ar superior a trinta19. Mesmo a duplica?º?úo de imagens pode ser explicada pela focaliza?º?úo inadequada20. Acrescentando as muitas imperfei?º?Áes dos telesc??pios da ?®poca a essas dificuldades psico- l??gicas21, entende-se a escassez de relatos satisfat??rios e experi- menta-se surpresa diante da rapidez com que a realidade dos no- vos fen??menos foi aceita e, como era costume, publicamente re- conhecida22. A aceita?º?úo causa perplexidade ainda maior, se tiver- mos em conta que muitos relatos, mesmo de bons observadores, ou eram claramente falsos (e suscet?¡veis de serem demonstrados Assim, Galileu aponta rugosidades, `vastas protuber?ón- cias, profundos recortes e sinuosidades’23 nos limites internos da parte clara da Lua, ao passo que o limite externo `n?úo parece

que era visto a olho desarmado. Isto ?® obviamente de import?óncia para avaliarmos a atitude que podemos adotar, hoje, acerca dos relatos Que a apar?¬ncia das estrelas e da Lua haja sido, em algum tempo, muito mais indefinida do que nos dias atuais, foi algo a mim sugerido pelo fato de existirem, acerca da Lua, v?írias teorias que s?úo incompat?¡veis com o que todos podem claramente ver com os pr??prios olhos. A teoria da parada parcial, elaborada por Anaximandro (ao pretender explicar as fases da Lua), o fato de Xen??fanes crer na exist?¬ncia de diferentes s??is e diferentes luas em diferentes zonas da Terra, a circunst?óncia de Her?íclito admitir que eclipses e fases se deviam ao girar das bacias que, para ele, re- presentavam o Sol e a Lua36 ÔÇö todas essas concep?º?Áes se levan- tam ao arrepio da exist?¬ncia de uma superf?¡cie est?ível e claramen- te vis?¡vel, uma `face’, como a que `sabemos’ que a Lua possui. O mesmo se diga da teoria de Berossos, que se manifesta ?á ?®poca de Ora, esse descaso por fen??menos que, para n??s, s?úo ??bvios, pode-se dever a certa indiferen?ºa para com a evid?¬ncia existente, que era, por?®m, t?úo clara e circunstanciada quanto ?® hoje, ou pode dever-se a uma diferen?ºa na pr??pria evid?¬ncia. N?úo ?® f?ícil escolher entre essas alternativas. Influenciado por Wittgenstein, Hanson e ou- tros, inclinei-me, durante algum tempo, pela segunda vers?úo; hoje, contudo, parece-me que ela ?® negada pela fisiologia (psicologia)38 e pela informa?º?úo hist??rica. Basta lembrar como Cop?®rnico afastou as dificuldades que nasciam das varia?º?Áes do brilho de Marte e de V?¬nus, varia?º?Áes bem conhecidas naquele tempo39. E, quanto ?á face da Lua, Arist??teles a ela se refere muito naturalmente ao ob- servar que `as estrelas n?úo giram. Com efeito, o girar envolve rota- ?º?úo, mas a ÔÇ£faceÔÇØ da Lua, como se diz, ?® sempre vista’40. Cabe in- ferir, portanto, que o ocasional descaso pela estabilidade da face da Lua n?úo se deveu ?á aus?¬ncia de impress?Áes claras, mas a algu- mas concep?º?Áes amplamente disseminadas e relativas ?á falibilidade

dos sentidos. Essa infer?¬ncia encontra apoio na forma de Plutarco discutir o assunto, discuss?úo que n?úo se refere ao que ?® visto (exce- to como evid?¬ncia pr?? ou contra algumas concep?º?Áes) mas a cer- tas explica?º?Áes de fen??menos que, por outros aspectos, se admite se- rem bem conhecidos41: `Para come?ºar’, diz ele, `?® absurdo afirmar que a figura vista na Lua ?® atribu?¡vel a uma afec?º?úo da vis?úo… a uma condi?º?úo a que denominamos ofuscamento (fulgor). Quem faz essa assevera?º?úo deixa de notar que esse fen??meno deveria, antes, ocorrer com o Sol, pois o Sol sobre n??s lan?ºa luz penetrante e vio- lenta; al?®m disso, n?úo explica porque olhos embotados e fracos n?úo chegam a perceber varia?º?úo de forma na Lua, cujo disco apre- senta, para eles, brilho igual e forte, ao passo que os dotados de vis?úo agu?ºada e vigorosa percebem mais definida e distintamente o padr?úo dos tra?ºos da face da Lua e mais facilmente se d?úo conta das varia?º?Áes’. `A desigualdade tamb?®m refuta completamente a hip??tese’, continua Plutarco42, `pois a sombra que se v?¬, se n?úo ?® cont?¡nua e confusa, ?® bem retratada pelas palavras de Agesianax: ÔÇ£Brilha rodeada de fogo, mas no interior/Mais azul que l?ípis lazuli Em verdade, as franjas negras somem por detr?ís das brilhantes, que as circundam… e se entrela?ºam inteiramente umas com as ou- Posteriormente, a estabilidade da face vem a ser usada como ar- gumento contra teorias que dizem ser a Lua constitu?¡da de fogo ou de ar, pois `o ar ?® sutil e sem configura?º?úo e, assim, move-se naturalmente e n?úo permanece no lugar’43. A apar?¬ncia da Lua se afigurava ser, ent?úo, fen??meno conhecido e claro. Em quest?úo es- Podemos, com seguran?ºa, admitir que o mesmo era verda- Mas deveremos, ent?úo, admitir que as observa?º?Áes de Galileu estavam sujeitas a uma verifica?º?úo a olho desarmado e poderiam, dessa maneira, ser tachadas de enganadoras.

Assim, o monstro circular, abaixo do centro do disco da Lua46, situa-se em limite bem superior ao da observa?º?úo a olho de- sarmado (seu di?ómetro supera 3?¢ minutos de arco), e um simples olhar nos convence de que a face da Lua n?úo ?®, em lugar algum, desfigurada por uma imperfei?º?úo desse tipo. Seria interessante ve- rificar o que os contempor?óneos tiveram a dizer a respeito do as- Galileu tinha reduzid?¡ssimo conhecimento da teoria ??tica de seu tempo. Seu telesc??pio alcan?ºou resultados surpreendentes na Terra e esses resultados foram procedentemente exaltados. Difi- culdades logo surgiram: o telesc??pio fez emergirem fen??menos esp??rios e contradit??rios e alguns dos resultados a que levou po- deriam ser refutados por um simples lan?ºar de olhos desajudados de qualquer aux?¡lio. Somente uma nova teoria da vis?úo telesc??pica poderia trazer ordem ao caos (que havia de ser ainda maior, devi- do aos diferentes fen??menos percebidos ?áquele tempo, mesmo a olho desarmado), distinguindo a apar?¬ncia da realidade. Essa teo- ria foi elaborada por Kepler, inicialmente em 1604 e novamente Segundo Kepler, fixa-se o lugar da imagem de um objeto punctiforme atrav?®s do tra?ºado da trajet??ria dos raios que emer- gem do objeto, com observ?óncia das leis de (reflex?úo e) refra?º?úo at?® o momento em que eles alcancem o olho; em seguida, aplica- se o princ?¡pio (ainda hoje ensinado) segundo o qual `a imagem se- r?í vista no ponto determinado pela intersec?º?úo interna dos raios de vis?úo de ambos os olhos’49 ou, no caso de vis?úo monocular, dos dois lados da pupila50. Essa regra, derivada do pressuposto de que `a imagem ?® produto do ato de vis?úo’ envolve um aspecto emp?¡rico e um aspecto geom?®trico51. Ap??ia a posi?º?úo da imagem em um `tri?óngulo m?®trico’52 ou `tri?óngulo telem?®trico’ ÔÇö tal como Ronchi o denomina 53 -, constru?¡do com os raios que chegam ao olho e utilizado pelo olho e pela mente para colocar a imagem a uma

adequada dist?óncia. Qualquer que seja o sistema ??tico, qualquer que seja a trajet??ria total dos raios que v?úo do objeto ao observa- dor, a mente desse observador utiliza t?úo-somente a por?º?úo final des- Claro est?í que essa regra representou consider?ível avan?ºo, para al?®m de todo o pensamento anterior. N?úo obstante, basta um minuto para a demonstra?º?úo de que ?® inteiramente falsa: tome-se um vidro de aumento, determine-se o seu foco e contemple-se um objeto que lhe esteja pr??ximo. O tri?óngulo telem?®trico alcan?ºa, para al?®m do objeto, o infinito. Ligeira altera?º?úo de dist?óncia traz a imagem kepleriana do infinito para muito pr??ximo e a faz retornar ao infinito. Jamais se observa fen??meno desse tipo. Vemos a ima- gem, ligeiramente ampliada, a uma dist?óncia que ?®, na maioria das vezes, id?¬ntica ?á dist?óncia real entre o objeto e a lente. A dist?óncia visual da imagem permanece constante, por mais que varie a dis- t?óncia entre a lente e o objeto e at?® mesmo quando a imagem so- Essa era, portanto, a verdadeira situa?º?úo em 1610, quando Galileu deu a conhecer as descobertas feitas com o aux?¡lio do te- lesc??pio. Como reagiu Galileu diante de tal situa?º?úo? A resposta j?í foi dada: elevou o telesc??pio ao estado de um `sentido superior e mais aperfei?ºoado’55. Que raz?Áes tinha para assim proceder? Essa indaga?º?úo leva-me de volta aos problemas provocados pela evi- d?¬ncia (contra Cop?®rnico), apontada e debatida no cap?¡tulo IX.

NOTAS 1. Disso dificilmente se d?úo conta os que sustentam (acompa- nhando K?ñstner, op. cit., p. 33) que `n?úo se percebe

como um telesc??pio pode ser digno de cr?®dito e ??til na Terra e decepcionar no que se refere aos c?®us’. O coment?írio de K?ñstner ?® feito em oposi?º?úo a Horky. Ver, abaixo, texto cor- respondente ?ás notas 9-16 deste cap?¡tulo.

2. Para essa teoria, cf. G. E. L. Owen, `TI?ENAI TA ?AINOMENA’, Aristote et les Probl?¿mes de la M?®thode, Louvain, 1961, pp. 83-103. Para o desenvolvimento do pensamento a- ristot?®lico durante a Idade M?®dia, cf. A. C. Crombie, Robert Grosseteste and the Origins of Experimental Science, Oxford, 1953, bem como Clemens Baumker, `Witelo, ein Philosoph und Na- turforscher des 13. Jahrhunderts’, Beitr?ñge zur Geschichte der Phi- losophie des Mittelalters, vol. III, M??nster, 1908. As obras de A- rist??te1es a consultar s?úo Anal. Post., De Anima, De Sensu. Com respeito ao movimento da Terra, cf. De Coelo, 293 a 28 s.: `H?í, entretanto, muitos outros que concordariam em dizer que ?® errado atribuir posi?º?úo central ?á Terra, buscando confirmar antes a teoria de que os fatos de observa?º?úo’ (grifo meu). Como vimos no cap?¡tulo VII, foi precisamente assim que Galileu introduziu a teoria copernicana: alterando a experi?¬ncia de modo a lev?í-la a adequar-se ?á doutrina que preferia. Que os sentidos est?úo fa- miliarizados com a circunst?óncia cotidiana, mas s?úo suscet?¡veis de fornecer informa?º?úo enganosa acerca de objetos que esca- pam ?áquela circunst?óncia ?® algo que, de imediato, encontra prova na apar?¬ncia da Lua. Na Terra, em condi?º?Áes comuns, objetos grandes e distanciados, como, por exemplo, as mon- tanhas, s?úo vistos como se fossem de largas propor?º?Áes e es- tivessem afastados. A apar?¬ncia da Lua fornece, entretanto, id?®ia inteiramente falsa da dist?óncia a que se encontra e de seu tamanho.

telesc??pio. Problemas desse tipo n?úo surgem no caso de obje- tos terrestres, cujas imagens s?úo regularmente colocadas `no 19. Para a amplia?º?úo conseguida no telesc??pio de Galileu, cf. The Sidereal Messenger, op. cit., p. 11; cf., tamb?®m, A. Sonnefeld, `Die Optischen Daten der Himmelsfernrohre von Galileo Galilei’, Jenaer Rundschau, vol. 7, 1962, pp. 207 ss. A antiga regra `se- gundo a qual o tamanho, a posi?º?úo e a disposi?º?úo com que uma coisa ?® vista depende da abertura do ?óngulo com que ?® vista’ (R. Grosseteste, De Iride, citado de Crombie, Robert Grosseteste, Oxford, 1953, p. 120), que remonta a Euclides, ?® quase sempre err??nea. Ainda recordo o desapontamento que senti quando, tendo constru?¡do um refletor com suposta am- plia?º?úo linear de aproximadamente 150, vi uma Lua aumenta- da de apenas cinco vezes e colocada muito pr??xima da ocular 20. A imagem permanece n?¡tida e inalterada por consider?ível pe- r?¡odo de tempo ÔÇö a m?í focaliza?º?úo pode, entretanto, verifi- 21. O primeiro telesc??pio recebido por Kepler do Eleitor Ernst de K?Âln (que, por sua vez, o havia recebido de Galileu) e no qual baseou sua Narratio de observatis a se quartuor Jovis satelli- bus, Frankfurt, 1611, mostrava ?ás estrelas quadradas e inten- samente coloridas (Ges. Werke, IV, 461). O pr??prio Ernst von K?Âln foi incapaz de perceber qualquer coisa pelo telesc??pio e pediu que Clavius lhe enviasse um instrumento melhor Francesco Fontana, que, a partir de 1643, observou as fases de V?¬nus, nota um desequil?¡brio na extremidade (e infere a exist?¬ncia de montanhas); cf. R. Wolf, Geschichte der Astrono- mie, Munique, 1877, p. 398. Para as peculiaridades dos teles- c??pios do tempo e literatura descritiva, cf. Ernst Zinner, Deutsche und Niederl?ñndische Astronomische Instrumente

des 11. bis 18. Jahrhunderts, Munique, 1956, pp. 216-21. Consul- 22. O padre Clavius (carta de 17 de dezembro de 1610, Opere, X, p. 485), astr??nomo do poderoso Collegium Romanum, dos Jesu?¡tas, exalta Galileu como o primeiro a ter observado as lu- as de J??piter e lhes reconhece a realidade. Magini, Grienberger e outros logo o acompanharam. Assim fazendo, n?úo procede- ram de acordo com sua pr??pria filosofia ou, ent?úo, foram muito descuidados na investiga?º?úo do assunto. O professor McMullin (op. cit., nota 32) acentua essa pronta aceita?º?úo das observa?º?Áes telesc??picas de Galileu: `Os per?¡odos regulares observados com rela?º?úo aos sat?®lites e ?ás fases de V?¬nus indi- cavam fortemente que n?úo se tratava de produtos da fisiologia ou da ??tica. Por certo que n?úo se faziam necess?írias ÔÇ£ci?¬ncias auxiliaresÔÇØ…’ ÔÇö `N?úo se faziam necess?írias ci?¬ncias auxiliares’, escreve McMullin, embora ele pr??prio recorra ao uso da n?úo examinada hip??tese auxiliar segundo a qual os eventos astro- n??micos se distinguem dos eventos fisiol??gicos por sua regu- laridade e intersubjetividade. Essa hip??tese ?®, contudo, falsa, como o demonstram a ilus?úo provocada pela Lua, o fen??me- no de fata morgana, o arco-?¡ris, os halos e muitas ilus?Áes provo- cadas pela vis?úo ao microsc??pio, t?úo vividamente descritas por Tolansky, pelos fen??menos da feiti?ºaria (todas as mulheres relataram que o ?¡ncubo tinha o membro gelado) e por nume- rosos outros fen??menos. A hip??tese era tamb?®m reconhecida como falsa por Pecham, Witelo e outros s?íbios medievais que haviam estudado as `ilus?Áes’ comuns e intersubjetivas, provo- cadas por lentes, espelhos e outros dispositivos ??ticos. Na Antig??idade, o fato de ser falsa a hip??tese de McMullin era not??rio. Galileu explicitamente a discute e repudia em seu li- vro a respeito dos cometas. Assim, fazia-se necess?íria uma nova teoria da vis?úo, n?úo

apenas para que fossem aceitas as observa?º?Áes de Galileu, mas tamb?®m para oferecer argumentos em prol de sua realidade astron??mica. Clavius, ?® claro, pode n?úo se ter dado conta des- sa necessidade. O que de modo algum surpreende. Afinal de contas, alguns de seus refinados sucessores do s?®culo XX, tal como o Professor McMullin, tamb?®m n?úo percebem essa ne- cessidade. Al?®m disso, importa assinalar que os `per?¡odos re- gulares’ das luas de J??piter n?úo eram t?úo bem conhecidos quanto McMullin d?í a entender. Durante toda a sua vida, Ga- lileu tentou determinar esses per?¡odos para chegar a melhores Posteriormente, o mesmo problema ressurgiu sob aspecto di- verso: foi quando a tentativa de determinar a velocidade da luz, recorrendo a mais de uma lua, conduziu a resultados in- congruentes (Cassini). Quanto ?á atitude de Clavius e dos cien- tistas do Collegium Romanum, cf. o interessant?¡ssimo livro Galileo in China, de Pasquale M. d’Elia, S. J., Harvard Univer- sity Press, 1960. As primeiras observa?º?Áes dos astr??nomos do Collegium est?úo registradas no `Nuncius Sidereus’ por eles 24. Op. cit., p. 24. ÔÇö cf. a figura I, adiante, retirada da publi- ca?º?úo de Galileu. Kepler, em sua Optics, de 1604, escreve (com base em observa?º?Áes feitas a olho desarmado): `Pa- recia como que estivesse faltando algo na circularidade da periferia ??ltima’ (Werke, vol. II, p. 219). Volta a essa as- ser?º?úo em sua Conversation (op. cit., pp. 28 ss.), criticando os resultados das observa?º?Áes telesc??picas de Galileu, com base no que ele pr??prio havia podido observar sem o aux?¡lio de qualquer aparelho: `Voc?¬ pergunta por que o c?¡rculo exterior da Lua n?úo aparece tamb?®m como irregu- lar. N?úo sei qu?úo cuidadosamente voc?¬ refletiu a pro- p??sito do assunto e talvez sua pergunta, como ?® pro-

ao editar Kleomedes, Die Kreisbewegung der Gestime (Leipzig, 1927, p. 90), comentando o decr?®scimo do di?ómetro aparente de to- das as estrelas, com a ??nica exce?º?úo do Sol e da Lua. Posteri- ormente, a diferente amplia?º?úo que sofrem os planetas (ou cometas) foi usada como forma de identific?í-los. `Com base na experi?¬ncia, eu sei’, escreve Herschel, no artigo em que re- lata sua primeira observa?º?úo de Urano (Phil. Trans., 71, 1781, pp. 493 ss. ÔÇö a?¡ se diz que o planeta ?® um cometa) `que os di- ?ómetros das estrelas fixas n?úo sofrem aumento proporcional ao uso de recursos mais potentes, tal como se d?í no caso dos planetas; por isso mesmo, agora uso as pot?¬ncias de 460 e 932 e verifico ter o di?ómetro do cometa aumentado proporcio- nalmente, como era de esperar…’ Note-se que a regra n?úo se Assim, aludindo a `um cometa visto em novembro de 1618, Hor?ício Grassi (`On the Three Comets of 1618′ in The Contro- versy of the Comets of 1618, op. cit., p. 17) assinala: `quando o co- meta foi observado atrav?®s de telesc??pio n?úo chegou a sofrer aumento’ e infere, em perfeita concord?óncia com a `experi?¬n- cia’ de Herschel, que `ter?í de ser dito encontrar-se ele mais a- fastado de n??s do que a Lua…’. Em seu Astronomical Balance (i- bid., p. 80) repete que, segundo a experi?¬ncia comum de `ilus- tres astr??nomos de v?írios pontos da Europa’, `o cometa ob- servado com um longo telesc??pio n?úo chegou a receber qual- quer incremento…’ Galileu (ibid., p. 177) aceita isso como um fato, s?? criticando as conclus?Áes que Grassi da?¡ pretende reti- rar. Todos esses fen??menos refutam a assevera?º?úo de Galileu (Assayer, op. cit., p. 204) segundo o qual `o telesc??pio opera sempre da mesma forma’. Contradizem tamb?®m a teoria da ir- 26. Kopal, op. cit., p. 207.

de dos desenhos da Lua feitos por Galileu (`… seine Abbil- dung des Mondes kann man… kaum… Karte nennen’), en- quanto Zinner (Geschichte der Sternkunde, Berlim, 1931, p. 473) diz que as observa?º?Áes da Lua e de V?¬nus, relatadas por Gali- leu, `s?úo observa?º?Áes t?¡picas de um principiante’. O retrato que pinta da Lua, segundo Zinner, `n?úo tem semelhan?ºa com a Lua’ (ibid., p. 472). Zinner menciona tamb?®m a melhor qua- lidade das quase simult?óneas observa?º?Áes feitas pelos Jesu?¡tas (ibid., p. 473) e indaga finalmente se as observa?º?Áes que Gali- leu fez da Lua e de V?¬nus n?úo seriam o resultado antes de um der Wunsch der Vater der Beobachtung gewesen sein?’) ÔÇö pergunta cab?¡vel, particularmente se tivermos em conta os fe- n??menos rapidamente mencionados em nota 33 deste cap?¡tu- 28. A descoberta e identifica?º?úo das luas de J??piter n?úo foram realiza?º?Áes insignificantes, especialmente porque ainda n?úo e- 29. A raz?úo, entre outras, ?® a grande varia?º?úo do que diferentes observadores v?¬em pelo telesc??pio; cf. Ronchi, op. cit., cap?¡tu- 30. Para uma vis?úo geral e para obter bibliografia b?ísica, ver Gre- gory, op. cit., cap?¡tulo II. Para exame e bibliografia pormenori- zados, cf. K. W. Smith e W. M. Smith, Perception and Motion, Filad?®lfia, 1962, parcialmente reproduzido em M. D. Vernon, op. cit. O leitor dever?í tamb?®m consultar o artigo de Ames, `Aniseikonic Glasses’, Explorations in Transactional Psychology, que se ocupa da altera?º?úo da vis?úo normal provocada por condi?º?Áes ??ticas por vezes apenas ligeiramente anormais. Es- tudo amplo ?® feito por I. Rock, The Nature of Perceptual Adapta- tion, Nova Iorque, 1966.

na segunda ilustra?º?úo j?í dada a conhecer. Quanto ?á apar?¬ncia, no que respeita a efeitos de luz e sombra, tem a mesma que na Terra teria a Bo?¬mia, se fosse fechada, de todos os lados, por montanhas alt?¡ssimas, dispostas ao longo da circunfer?¬ncia de um c?¡rculo perfeito; a por?º?úo da Lua ?® cercada por picos t?úo altos que o lado mais afastado, adjacente ?á por?º?úo sombria da Lua, ?® visto batido de luz solar antes que a fronteira entre luz cit., pp. 21 ss.). Essa descri?º?úo, penso eu, refuta definitivamen- ?ë interessante notar a diferen?ºa que existe entre as xilogravu- ras do Nuncius (figura 1, neste cap?¡tulo) e o desenho original de Galileu. A xilogravura corresponde, muito proximamente, ?á descri?º?úo, ao passo que o desenho original, com seus tra?ºos impressionistas (`Kaum eine Karte’, diz Wolf) , ?® suficiente- mente vago para poder fugir ?á acusa?º?úo de s?®rio erro de ob- 47. `N?úo posso deixar de pensar no significado daquela grande cavidade circular, da parte que usualmente denomino canto esquerdo da boca’, diz Kepler (Conversation, op. cit., p. 28), e passa a formular conjecturas quanto a sua origem (conside- 48. N?úo considerei, aqui, a obra de della Porta (De Refractione) e a de Maurolicus, ambos, em certos aspectos, precursores de Kepler (o que ?®, por este, devidamente mencionado). Mauro- licus toma a importante decis?úo [Photismi de Lumine, vers?úo de Henry Crew, Nova Iorque, 1940, p. 45 (a prop??sito de espe- lhos) e p. 74 (a prop??sito de lentes)] de considerar apenas o ?ípice da c?íustica; mas n?úo ?® estabelecida rela?º?úo com o que se v?¬ por vis?úo direta. As dificuldades foram removidas pela hi- p??tese simples e engenhosa de Kepler; cf. Ronchi, Histoire de la Lumi?¿re, op. cit., cap?¡tulo III.

dificuldade… me levar?í a renunciar ?áquilo que sei ser manifes- tamente agrad?ível ?á raz?úo’. Foi essa a atitude respons?ível pelo moroso avan?ºo da teoria das lentes e da ??tica em geral. `A ra- z?úo desse peculiar fen??meno’, escreve Moritz von Rohr (Das Brillenglas als optisches Instrument, Berlim, 1934, p. 1), `h?í de ser procurada na estreita rela?º?úo entre as lentes e o olho, sendo imposs?¡vel oferecer aceit?ível teoria das lentes sem compreen- der o processo da vis?úo…’ O tri?óngulo telem?®trico omite pre- cisamente esse processo ou, melhor, dele proporciona uma explica?º?úo simplista e falsa. O estado da ??tica, ao in?¡cio do s?®- culo XX, ?® bem descrito por A. Gullstrand em `Ap?¬ndices ?á Parte I’ do Treatise on Physiological Optics, de Helmholtz, vers?úo Southall, Nova Iorque, 1962, pp. 261 ss. Damo-nos conta, a?¡, de como um retorno ao processo psicofisiol??gico habilitou os f?¡sicos a chegarem a uma explica?º?úo mais razo?ível da f?¡sica das imagens ??ticas: `A raz?úo por que as leis da imagem ??tica real foram, por assim dizer, chamadas ?á vida pelas exig?¬ncias da ??tica fisiol??gica est?í em parte no fato de que, por meio de c?ílculos trigonom?®tricos, sem d??vida enfadonhos, mas f?íceis de realizar, tornou-se poss?¡vel que o engenheiro ??tico mais se aproximasse das realidades de seu problema. Assim, gra?ºas ao trabalho de homens como Abb?® e seus seguidores, a ??tica t?®cnica atingiu o espl?¬ndido desenvolvimento atual, enquanto, com os recursos cient?¡ficos existentes, tem sido imposs?¡vel a- preens?úo ampla das intricadas rela?º?Áes no caso da forma?º?úo 55. `?ô, Nicolau Cop?®rnico, que prazer teria sentido voc?¬, caso visse parte de seu sistema confirmada por t?úo claro experi- mento!’, escreve Galileu, deixando impl?¡cito que os novos fe- n??menos telesc??picos forneciam apoio adicional a Cop?®rnico (Dialogue, op. cit., p. 339). A diferen?ºa de aspecto entre planetas e estrelas fixas (cf. nota 27 deste cap?¡tulo) ?® por ele explicada atrav?®s da formula?º?úo da

hip??tese de que `o pr??prio instrumento de ver [o olho] intro- duz uma obstru?º?úo que ?® dele mesmo (ibid., p. 335), obstru?º?úo que o telesc??pio remove, a saber, a irradia?º?úo, permitindo que o olho veja as estrelas e os planetas como realmente s?úo. (Ma- rio Giuducci, seguidor de Galileu, atribuiu a irradia?º?úo ?á refra- ?º?úo devida ?á umidade da superf?¡cie do olho, Discourse on the Comets of 1618,., p. 47.) Essa explica?º?úo, embora possa parecer plaus?¡vel (especialmente diante da tentativa feita por Galileu para mostrar que a irradia?º?úo pode ser afastada por meios ou- tros que n?úo o telesc??pio), n?úo ?® t?úo conveniente quanto se poderia desejar. Gullstrand (op. cit., p. 426) diz que `devido ?ás propriedades da ondulada superf?¡cie do feixe de raios refrata- dos pelo olho… h?í impossibilidade matem?ítica de uma se?º?úo transversal cortar a superf?¡cie c?íustica em curva suave, na forma de um c?¡rculo conc?¬ntrico ao da pupila’. Outros auto- res apontam para a `falta de homogeneidade dos v?írios humo- res e, acima de tudo, dos humores do cristalino’ (Ronchi, Op- tics, op. cit., p. 104). Kepler d?í a seguinte explica?º?úo (Conversati- on, op. cit., pp. 33 ss.): `Os pontos que s?úo fontes de luz trans- mitem seus cones ao cristalino. A?¡ tem lugar a refra?º?úo e, por tr?ís do cristalino, os raios voltam a contrair-se para se trans- Conseq??entemente, a luz se dispersa uma vez mais e se espa- lha por uma pequena ?írea da retina, quando deveria incidir em um ponto. Assim, o telesc??pio, dando causa a uma outra re- fra?º?úo, faz com que esse ponto coincida com a retina…’ Pol- yak, em sua obra cl?íssica, The Retina, atribui a irradia?º?úo par- cialmente a `defeitos dos meios di??ptricos e a imperfeita a- comoda?º?úo’, mas `principalmente’ ?á `peculiar constitui?º?úo es- trutural da pr??pria retina’ (p. 176), acrescentando que pode tratar-se tamb?®m de uma fun?º?úo do c?®rebro (p. 429). Ne- nhuma dessas hip??teses abarca todos os fatos conhecidos acerca de irradia?º?úo.

Gullstrand, Ronchi e Polyak (se omitirmos a refer?¬ncia ao c?®- rebro, que pode explicar tudo o que quisermos) n?úo sabem Kepler, Gullstrand e Ronchi tamb?®m falham ao oferecer uma explica?º?úo para o fato, que foi enfatizado pelo pr??prio Ron- chi, de que grandes objetos n?úo apresentam irradia?º?úo nas bordas (`Quem procure explicar o fen??meno da irradia?º?úo h?í de admitir que se contemplamos uma l?ómpada el?®trica de lon- ge, de modo que ela se reduza a um ponto, esse algu?®m a v?¬ rodeada por imensa coroa de raios, ao passo que, de perto, nada v?¬ em torno dela’, Optics, op. cit., p. 105). Sabemos, hoje, que grandes objetos se tornam definidos pela intera?º?úo lateral inibit??ria dos elementos da retina (intera?º?úo que ?® aumentada por fun?º?úo cerebral), cf. Ratliff, Ma?ºh. Bands, p. 146, mas ainda n?úo foi esclarecido o fen??meno que se passa com o di?ómetro do objeto, sob condi?º?Áes de vis?úo telesc??pica. A hip??tese de Galileu recebeu apoio principalmente por estar em concor- d?óncia com o ponto de vista copernicano e era, portanto, em grande parte, ad hoc.

XI De outra parte, h?í alguns fen??menos telesc??picos tipicamen- te copernicanos. Galileu apresenta esses fen??menos como prova aut??noma em prol de Cop?®rnico, mas a situa?º?úo ?® an- tes a de que uma concep?º?úo refutada ÔÇö a doutrina coperni- cana tem certa semelhan?ºa com fen??menos que emergem de outra concep?º?úo refutada ÔÇö a id?®ia de que os fen??menos telesc??picos retratam fielmente o c?®u. Galileu domina em raz?úo de seu estilo e de suas mais aperfei?ºoadas t?®cnicas de persuas?úo, porque escreve em italiano e n?úo em latim e por- que recorre a pessoas hostis, por temperamento, ?ás velhas id?®ias e aos padr?Áes de aprendizagem a elas relacionados.

De acordo com a teoria copernicana, Marte e V?¬nus apro- ximam-se e afastam-se da Terra segundo os ?¡ndices 1:6 e 1:8, res- pectivamente. (Trata-se de n??meros aproximados.) A altera?º?úo de brilho que sofrem deveria ser de 1:40 e 1:60, respectivamente (s?úo esses os valores apontados por Galileu). N?úo obstante, Marte pouco se altera e a varia?º?úo do brilho de V?¬nus `?® quase impercep- t?¡vel’l. Essas experi?¬ncias `op?Áem-se claramente ao movimento anual [da Terra)’2. O telesc??pio, de outro lado, provoca novos e estranhos fen??menos, alguns deles ilus??rios, como se pode verificar atrav?®s de observa?º?úo a olho desarmado, alguns contradit??rios en- tre si, alguns chegando a ter a apar?¬ncia de ilus??rios ÔÇö e a ??nica teoria capaz de colocar ordem nesse caos, a teoria da vis?úo, devida a Kepler, ?® refutada por evid?¬ncias da mais clara esp?®cie. Todavia ÔÇö e com isto chego ao que reputo o tra?ºo principal do procedi- mento de Galileu ÔÇö, h?í fen??menos telesc??picos, a saber, a varia?º?úo te- lesc??pica do brilho dos planetas, que se colocam em mais estreita concor- d?óncia com a teoria copernicana do que com os resultados da observa?º?úo a olho desarmado. Visto ao telesc??pio, Marte sofre a altera?º?úo que caberia esperar, segundo Cop?®rnico.

Posta em confronto com os resultados gerais da observa?º?úo T?úo perturbadora quanto a teoria copernicana, quando posta em Sem embargo, a altera?º?úo est?í em harmonia com as previs?Áes de Cop?®rnico. ?ë essa harmonia, e n?úo um profundo conhecimento de ??tica e de cosmologia, que, ao ver de Galileu, corrobora Cop?®rnico e a veracidade do telesc??pio, no que se refere a fatos terrestres, assim co- mo a fatos celestes. E ?® sobre essa harmonia que ele constr??i uma concep?º?úo inteiramente nova do universo. `Galileu’, escreve Lu- dovico Geymonat, referindo-se a esse aspecto da quest?úo, `n?úo foi o primeiro a apontar o telesc??pio para o c?®u, mas… foi o primeiro a aperceber-se do enorme interesse das coisas dessa maneira vis- tas. E compreendeu, de imediato, que os fen??menos amoldavam- se perfeitamente ?á teoria copernicana e contradiziam a astronomia antiga. Galileu acreditava, havia muito tempo, na verdade da dou- trina de Cop?®rnico, por?®m nunca pudera demonstr?í-la, a despeito das declara?º?Áes extremamente otimistas feitas a amigos e colegas [n?úo conseguiu, como vimos, e como ele pr??prio o diz, afastar os exemplos refutadores]. N?úo deveria a prova direta [n?úo deveria a simples harmonia com a evid?¬ncia] ser, afinal, a?¡ buscada? Quanto mais essa convic?º?úo se enraizava em seu esp?¡rito, mais clara se tornava, para ele, a import?óncia do instrumento novo. No esp?¡rito de Galileu, a confian?ºa na fidedignidade do telesc??pio e o reco- nhecimento de sua import?óncia n?úo foram dois atos distintos, mas, antes, dois aspectos do mesmo processo’. Pode a aus?¬ncia de comprova- ?º?úo aut??noma ser expressa de modo mais patente? `O Nuncius’, escreve Franz Hammer, expondo a quest?úo na mais concisa forma de que tenho conhecimento4 `cont?®m duas inc??gnitas, sendo uma determinada com o aux?¡lio da outra’. Isso ?® inteiramente correto, exceto pela circunst?óncia de que as `inc??gnitas’ n?úo eram desco- nhecidas, mas reconhecidas como falsas ÔÇö assim o diz o pr??- prio Galileu. ?ë essa peculiar?¡ssima situa?º?úo ÔÇö concord?óncia

entre duas id?®ias interessantes, mas refutadas ÔÇö que Galileu ex- E recorre exatamente ao mesmo processo para preservar sua nova din?ómica. Vimos que tamb?®m esta ci?¬ncia foi amea?ºada por eventos pass?¡veis de observa?º?úo. Para conjurar o perigo, Gali- leu introduz o atrito e outros elementos perturbadores e, recor- rendo a hip??teses ad hoc, trata-os como tend?¬ncias definidas antes pela discrep?óncia ??bvia entre fato e teoria do que como eventos f?¡sicos explicados por uma teoria do atrito, a favor da qual provas (Essa teoria s?? surgiu muito mais tarde, no s?®culo XVIII.) Nesses termos, a concord?óncia entre a nova din?ómica e a id?®ia de movi- mento da Terra, concord?óncia que se v?¬ acentuada por Galileu, gra?ºas a seu m?®todo de anamnese, faz com que ambas se afigurem O leitor compreender?í que o pormenorizado estudo de fe- n??menos hist??ricos, semelhantes aos de que nos ocupamos, cria consider?íveis dificuldades para a concep?º?úo segundo a qual a tran- si?º?úo da cosmologia pr?®-copernicana para a do s?®culo XVII con- sistiu na substitui?º?úo de teorias refutadas por conjecturas mais amplas que explicavam os exemplos refutadores, faziam previs?Áes novas e eram corroboradas por observa?º?Áes realizadas com o prop??sito de submeter a teste as novas previs?Áes. E o leitor per- ceber?í, talvez, os m?®ritos de uma concep?º?úo diferente, assevera- dora de que, se a astronomia pr?®-copernicana enfrentava dificuldades (via-se diante de uma s?®rie de contra-exemplos e implausibilida- des), a teoria copernicana enfrentava dificuldades maiores (via-se diante de contra-exemplos e implausibilidades mais s?®rios); entretanto, por colocar-se em harmonia com teorias ainda mais inadequadas ga- nhou for?ºa, manteve-se, sendo as refuta?º?Áes afastadas por hip??te- ses ad hoc e h?íbeis t?®cnicas de persuas?úo. Esse parece quadro muito mais fiel das ocorr?¬ncias havidas ao tempo de Galileu

do que a descri?º?úo oferecida por quase todas as vers?Áes alternati- Interromperei, agora, a narrativa hist??rica, para demonstrar que o quadro n?úo ?® apenas factualmente adequado, mas ?® tamb?®m per- feitamente razo?ível, e que qualquer tentativa de impor algumas das metodologias mais comuns no s?®culo XX ÔÇö tal como, por exem- plo, o m?®todo das conjecturas e refuta?º?Áes ÔÇö teria acarretado conseq???¬ncias desastrosas.

NOTAS 1. As reais varia?º?Áes de V?¬nus e Marte s?úo de uma e quatro magnitudes, respectivamente.

Kepler (Conversation, op. cit., p. 14) fala de `provas mutua- mente corroboradoras’. Lembre-se, todavia, que `mutuamente corroboradoras’ eram duas hip??teses refutadas (ou duas hip??- teses que talvez fossem incomensur?íveis com os enunciados b?ísicos existentes). Em carta endere?ºada a Herwarth, datada de 26 de mar?ºo de 1598, Kepler fala das `muitas raz?Áes’ que deseja aduzir em prol do movimento da Terra e acrescenta: `cada qual dessas raz?Áes, de per si considerada, s?? mereceria reduzida cren?ºa’ (Caspar-Dyck, Johannes Kepler in seinen Briefen, vol. I, Munique, 1930, p. 68).

XII Esses m?®todos `irracionais’ de fundamenta?º?úo tornam-se ne- cess?írios devido ao `desenvolvimento desigual’ (Marx, Leni- ne) dos diferentes ramos da ci?¬ncia. A teoria copernicana e outros elementos essenciais da ci?¬ncia moderna puderam sobreviver t?úo-somente porque, no passado, a raz?úo foi fre- q??entemente posta de lado.

Tend?¬ncia dominante em discuss?Áes a prop??sito de meto- dologia ?® a de focalizar o problema do conhecimento sub specie ae- ternitatis, por assim dizer. Comparam-se enunciados uns com ou- tros, esquecendo-lhes a hist??ria e sem levar em conta a circuns- t?óncia de poderem provir de estratos hist??ricos diferentes. Indaga- se, por exemplo: dados certo conhecimento pr?®vio, algumas con- di?º?Áes iniciais, certos princ?¡pios b?ísicos, v?írias observa?º?Áes reco- nhecidas ÔÇö que conclus?Áes ser?í l?¡cito retirar com respeito a uma hip??tese rec?®m-sugerida? As respostas variam muito. Afirmam al- gumas que ?® poss?¡vel determinar graus de confirma?º?úo e que estes permitem a avalia?º?úo de uma hip??tese. Outras afastam a id?®ia de existir uma l??gica da confirma?º?úo e julgam a hip??tese por seu con- te??do e pelos falseamentos que hajam efetivamente ocorrido. Mas quase todas d?úo por admitido que as observa?º?Áes precisas, os princ?¡pios claros e as teorias corroboradas j?í s?úo decisivos; que po- dem e devem ser utilizados aqui e agora, seja para eliminar a hip??te- se sugerida, seja para tom?í-la aceit?ível ou, talvez, at?® mesmo para confirm?í-la!1

Esse procedimento s?? se reveste de sentido se pudermos admitir que os elementos do conhecimento ÔÇö as teorias, as ob- serva?º?Áes, os princ?¡pios de nossa argumenta?º?úo ÔÇö s?úo entidades atemporais que partilham do mesmo grau de perfei?º?úo, s?úo igual- mente acess?¡veis e se relacionam entre si independentemente dos eventos que os produziram. Trata-se de um pressuposto muito comum. ?ë acolhido, sem discuss?úo, por todos os l??gicos; est?í sub- jacente ?á usual distin?º?úo que se faz entre um contexto de desco- berta e um contexto de justifica?º?úo; e expressa-se, com freq???¬ncia, atrav?®s da afirmativa de que a ci?¬ncia lida com proposi?º?Áes e n?úo com enunciados ou senten?ºas. Sem embargo, esse procedimento esquece que a ci?¬ncia ?® um processo hist??rico heterog?¬neo e comple- xo, que encerra vagas e incoerentes antecipa?º?Áes de futuras ideo- logias e, a par delas, cont?®m sistemas teor?®ticos altamente refina- dos e antigas e petrificadas formas de pensamento. Alguns de seus elementos se apresentam sob a forma de enunciados claramente redigidos, ao passo que outros se mant?¬m ?á sombra e s?? se tor- nam conhecidos por contraste, por serem postos ao lado de con- cep?º?Áes novas e fora do comum. (Assim foi que o argumento da torre invertida auxiliou Galileu a descobrir as interpreta?º?Áes natu- rais hostis a Cop?®rnico. E assim foi tamb?®m que Einstein desco- briu certos pressupostos que jaziam nas profundezas do solo da mec?ónica cl?íssica, pressupostos como, por exemplo, o da exist?¬n- ??ltimo par?ígrafo do cap?¡tulo V.) Muitos dos conflitos e contradi- ?º?Áes que se manifestam na ci?¬ncia devem-se a essa heterogeneida- de do material, a essa `desigualdade’ de desenvolvimento hist??rico, tal como diria um marxista, e n?úo t?¬m significa?º?úo teor?®tica imedi- ata2. T?¬m eles muito em comum com os problemas que surgem quando se faz necess?írio instalar urna esta?º?úo el?®trica junto a uma catedral g??tica. Ocasionalmente, s?úo levados em conta aqueles tra- ?ºos; tal se d?í, por exemplo, quando se afirma que as leis f?¡sicas (enunci- ados) e as leis biol??gicas (enunciados) pertencem a dom?¡nios concep-

Contudo, na maioria dos casos e, especialmente, no caso observa- ?º?úo versus teoria, nossas metodologias projetam todos os v?írios e- lementos da ci?¬ncia e os diferentes estratos hist??ricos por eles o- cupados sobre um s?? e o mesmo plano, e passam, desde logo, a emitir ju?¡zos comparativos. Isso equivale a promover uma luta en- tre um menino e um homem feito e anunciar, triunfantemente, o que j?í ?® ??bvio, isto ?®, a vit??ria do homem (a hist??ria da teoria ci- n?®tica e a mais recente hist??ria das teorias das vari?íveis ocultas, em mec?ónica qu?óntica, est?úo repletas de infundadas cr?¡ticas dessa esp?®cie, o mesmo acontecendo com a hist??ria da psican?ílise e do marxismo). Ao examinar as hip??teses novas, devemos, como ?® claro, considerar a situa?º?úo hist??rica. Vejamos como isso afetar?í nosso julgamento! A hip??tese geoc?¬ntrica e a teoria de Arist??teles, relativa ao A percep?º?úo d?í apoio ?á teoria da locomo?º?úo, que acarreta uma Terra im??vel, e constitui, por sua vez, caso especial de uma ampla concep?º?úo de movimento, onde se inclui locomo?º?úo, acr?®scimo e decr?®scimo, altera?º?úo qualitativa, gera?º?úo e corrup?º?úo. Essa con- cep?º?úo ampla define o movimento como transi?º?úo de uma forma, de agente para paciente, que se encerra quando o paciente assume a forma que, de in?¡cio, caracterizava o agente da intera?º?úo. Nos mesmos termos, a percep?º?úo ?® processo em que a forma do obje- to penetra o ser perceptivo sob exatamente a mesma forma que caracterizava o objeto, de sorte que, em certo sentido, o ser per- Uma tal teoria da percep?º?úo (que se poderia encarar co- mo refinada vers?úo do realismo ing?¬nuo) n?úo admite qualquer `Que no mundo existam coisas inacess?¡veis ao homem, n?úo a- penas agora e no futuro pr??ximo, mas em princ?¡pio e por cau- sa das caracter?¡sticas naturais do homem, coisas que, por-

tanto, jamais ser?úo por ele vistas ÔÇö isso era algo inconceb?¡vel ao fim da Idade Antiga e durante a Idade M?®dia.’3 E a teoria n?úo es- timula o uso de instrumentos, pois que estes interferem com os processos que se desenvolvem no meio. Esses processos s?? pro- As interfer?¬ncias criam formas que n?úo s?úo id?¬nticas aos formatos dos objetos percebidos ÔÇö criam ilus?Áes. Essas ilus?Áes s?úo facil- mente percebidas atrav?®s do exame de imagens produzidas por espelhos curvos ou de lentes n?úo-polidas (e lembremos que as len- tes utilizadas por Galileu estavam longe do n?¡vel de perfei?º?úo hoje alcan?ºado). S?úo distorcidas, e as imagens vistas por meio das len- tes apresentam franjas coloridas e podem surgir em ponto diverso daquele em que se encontra o objeto. Astronomia, f?¡sica, psicolo- gia, epistemologia ÔÇö todas essas disciplinas colaboram, na filoso- fia aristot?®lica, para criar um sistema que ?® coerente e racional e que se coloca em harmonia com os resultados da observa?º?úo, tal como se nota a partir de um exame da doutrina de Arist??teles sob a forma como a desenvolveram alguns fil??sofos medievais. (An?íli- se desse tipo evidencia o poder interno do sistema aristot?®lico.) Arist??teles ?® um empirista. Os ataques por ele dirigidos contra uma abordagem excessivamente teor?®tica s?úo t?úo v?ílidos quanto os dos empiristas `cient?¡ficos’ dos s?®culos XVII e XVIII. Todavia, enquanto estes dispensam de exame o conte??do e a verdade do empirismo, Arist??teles esclarece (1) a natureza da experi?¬ncia e (2) por que ela ?® importante. Experi?¬ncia ?® aquilo que um observador normal (observador cujos sentidos se encontram em boas condi- ?º?Áes, que n?úo est?í embriagado, nem sonolento, etc.) percebe em condi?º?Áes normais (dia claro, ausente a interfer?¬ncia com o meio) e descreve em linguagem que se adapta aos fatos e pode ser por todos entendida. A experi?¬ncia ?® de import?óncia para o conhecimento porque, em circunst?óncias normais, as percep?º?Áes do observador cont?¬m formas id?¬nticas ?ás que residem no objeto. Essas explica- ?º?Áes

n?úo s?úo ad hoc. S?úo conseq???¬ncia direta da teoria geral do movi- mento, elaborada por Arist??teles, quando posta em conjuga?º?úo com a id?®ia fisiol??gica de que as sensa?º?Áes obedecem ?ás mesmas leis f?¡sicas a que est?í sujeito o resto do universo; e s?úo confirma- das pela evid?¬ncia corroboradora de qualquer dessas duas concep- ?º?Áes (sendo parte da evid?¬ncia o fato de existirem imagens distor- cidas pelas lentes). Hoje compreendemos um pouco melhor a ra- z?úo por que uma teoria do movimento e da percep?º?úo agora con- siderada falsa p??de alcan?ºar tanto ?¬xito (explica?º?úo evolucion?íria da adapta?º?úo de organismos; movimento nos v?írios meios). Per- manece o fato de que nenhum decisivo argumento emp?¡rico pode- ria ser levantado contra ela (embora n?úo deixasse de enfrentar di- Essa harmonia entre a percep?º?úo humana e a cosmologia aristot?®lica ?® tida como ilus??ria pelos que defendem a exist?¬ncia do movimento da Terra. Ao ver dos seguidores de Cop?®rnico, e- xistem processos de largas propor?º?Áes, que envolvem vastas mas- Conseq??entemente, as observa?º?Áes feitas n?úo mais podem ser vis- tas como testes das novas leis fundamentais que est?úo sendo pro- postas. N?úo se ligam diretamente a essas leis e podem estar delas inteiramente separadas. Hoje, depois que o ?¬xito da ci?¬ncia moderna levou-nos a compreender que a rela?º?úo entre o homem e o uni- verso n?úo ?® t?úo simples quanto supunha o realismo ing?¬nuo, cabe dizer que aquela foi uma antecipa?º?úo correta, que o observador est?í, de fato, desligado das leis do mundo, em raz?úo das especiais condi?º?Áes f?¡sicas de sua plataforma de observa?º?úo, a Terra m??vel (efeitos gravitacionais; lei da in?®rcia; for?ºas de Coriolis; influ?¬ncia da atmosfera sobre as observa?º?Áes ??ticas; aberra?º?úo; paralaxe este- lar; e assim por diante), pelas idiossincrasias de seu instrumento fundamental de observa?º?úo, o olho humano (irradia?º?úo; p??s- imagens; m??tua inibi?º?úo dos elementos adjacentes da retina; e as- sim por diante), bem como pelas concep?º?Áes mais antigas que, invadindo a linguagem de observa?º?úo, provocam o uso da

linguagem do realismo ing?¬nuo (interpreta?º?Áes naturais). As ob- serva?º?Áes talvez encerrem algo que ?® pr??prio da coisa observada, mas esse acr?®scimo ?®, via de regra, obscurecido por outros efeitos (alguns dos quais acabamos de mencionar) e ocorrer?úo casos em que seja por eles totalmente eliminado. Consideremos a imagem de uma estrela fixa, tal como vista ao telesc??pio. Essa imagem ?® deslocada por efeitos de refra?º?úo, de aberra?º?úo e, possivelmente, de gravita?º?úo. Cont?®m o espectro da estrela n?úo como ela ?® agora, mas como era h?í algum tempo (no caso das supernovas extragal?í- ticas, a diferen?ºa pode ser de milh?Áes de anos), distorcido pelo e- feito Doppler, mat?®ria gal?ítica interposta, etc. Al?®m disso, a ex- tens?úo e a estrutura interna da imagem s?úo inteiramente determi- nadas pelo telesc??pio e pelos olhos do observador: ?® o telesc??pio que decide qu?úo amplos ser?úo os discos de difra?º?úo e ?® o olho humano que decide que. parte da estrutura desses discos ser?í vis- ta. Fazem-se necess?írias habilidade consider?ível e muita teoria para isolar a contribui?º?úo provinda da causa original, a estrela, e para us?í-la para fins de teste, significando isso que as cosmologias n?úo- aristot?®licas s?? podem ser submetidas a teste depois de havermos separado observa?º?Áes de leis, valendo-nos, para isso, da ajuda de ci?¬ncias auxiliares capazes de descrever os complexos processos que ocorrem entre o olho e o objeto e os processos ainda mais complexos que se registram entre a c??rnea e o c?®rebro. No caso de Cop?®rnico, faz-se indispens?ível uma nova meteorologia (no velho sentido da palavra: ocupa?º?úo com coisas que se p?Áem abaixo da Lua), uma nova ci?¬ncia da ??tica fisiol??gica, voltada para os aspectos subjetivos (esp?¡rito) e objetivo (luz, meio, lente, estrutura do olho) da vis?úo, bem como uma nova din?ómica, esclarecedora de como o movimento da Terra poderia agir sobre os processos f?¡sicos regis- trados em sua superf?¡cie. As observa?º?Áes s?? se tornam relevantes ap??s os processos descritos por essas novas disciplinas se haverem colocado entre o mundo e o olho. A linguagem em que damos express?úo a nossas observa?º?Áes talvez deva tamb?®m ser revista,

de sorte que ?á nova cosmologia seja dada justa oportunidade e ela n?úo se veja amea?ºada por uma despercebida colabora?º?úo de sen- sa?º?Áes e de antigas id?®ias. Em resumo: o que se faz necess?írio para submeter a teoria de Cop?®rnico a teste ?® uma concep?º?úo do mundo inteiramente nova, onde se registre nova concep?º?úo do homem e de suas capacidades de co- Obviamente, essa nova concep?º?úo do mundo demandar?í tempo longo para aparecer e talvez nunca cheguemos a formul?í-la em sua totalidade. ?ë extremamente improv?ível que a id?®ia de mo- vimento da Terra se acompanhe imediatamente, do surgimento, em pleno esplendor formal, de todas as ci?¬ncias que hoje dizemos constitu?¡rem o corpo da `F?¡sica cl?íssica’. Adotando posi?º?úo um pouco mais realista, uma tal seq???¬ncia de eventos n?úo seria apenas extremamente improv?ível, mas seria, em princ?¡pio, imposs?¡vel, diante da natureza do homem e das complexidades do mundo que habi- ta. T?úo-somente ap??s haverem surgido aquelas ci?¬ncias, toma-se Essa necessidade de aguardar e de ignorar grande massa de observa?º?Áes e de medi?º?Áes cr?¡ticas raramente ?® objeto de exame em nossas metodologias. Descartando a possibilidade de uma no- va F?¡sica ou nova Astronomia terem de ser julgadas ?á luz de uma nova teoria do conhecimento, podendo requerer testes inteira- mente novos, os cientistas confrontam aquela F?¡sica, de imediato, com o status quo e anunciam triunfantemente que ela `n?úo est?í em concord?óncia com fatos e princ?¡pios assentados’. Os cientistas t?¬m isso porque, em um est?ígio inicial de desenvolvimento, a contra- di?º?úo indica apenas que o antigo e o novo s?úo diferentes e est?úo de- Ju?¡zo dessa esp?®cie pressup?Áe que os contendores se defrontam em termos de igualdade. Como proceder para chegar a uma justa compara?º?úo?

O primeiro passo ?® claro: devemos conservar a nova cosmo- logia at?® que haja sido complementada pelas ci?¬ncias auxiliares ne- cess?írias. Importa conserv?í-la diante de fatos refutadores certos e patentes. Podemos, naturalmente, tentar explicar nossa maneira de agir, dizendo que as observa?º?Áes cr?¡ticas n?úo s?úo relevantes ou que s?úo enganadoras, mas n?úo podemos encontrar, para essa explica- ?º?úo, uma ??nica raz?úo objetiva. Seja qual for a explica?º?úo que der- mos, ela n?úo passar?í de um gesto verbal, gentil convite para partici- par do desenvolvimento de uma filosofia nova. Nem podemos, agindo razoavelmente, afastar a teoria da percep?º?úo j?í aceita, que afirma serem relevantes as observa?º?Áes, que d?í as raz?Áes em favor Assim, a nova concep?º?úo ?® arbitrariamente apartada de dados que deram apoio a sua predecessora e tornada mais `metaf?¡sica': um novo per?¡odo da hist??ria da ci?¬ncia come?ºa com um movimento de recuo, que nos leva de volta ao est?ígio anterior em que as teorias eram mais flu?¡das e de mais reduzido conte??do emp?¡rico. Esse movimento de recuo n?úo ?® meramente acidental; tem fun?º?úo defi- nida; ?® essencial que desejemos atingir o status quo, pois ele nos d?í o tempo e a liberdade necess?írios para pormenorizar a concep?º?úo Esse movimento de recuo ?®, indubitavelmente, essencial mas como persuadir as pessoas a acompanharem nossa dire- triz? Como afast?í-las de um sistema bem estabelecido, refinado e empiricamente bem sucedido, levando-as a dar ades?úo a uma hip??tese incompleta e absurda? A uma hip??tese ÔÇö mais do que isso ÔÇö contraditada por observa?º?úo ap??s observa?º?úo, bastando que nos demos ao trabalho de compar?í-la com o que nossos sentidos mostram estar transparentemente ocorrendo. ?ë dif?¡cil convenc?¬-los de que o ?¬xito do status quo ?® apenas aparente e que isso poder?í ser demonstrado dentro de 500 anos ou mais ÔÇö se n?úo h?í um ??nico argumento a nosso favor. (Lembre- mos que as ilustra?º?Áes de que me vali no pen??ltimo par?ígrafo

ganham for?ºa a partir dos ?¬xitos da F?¡sica cl?íssica, mas n?úo estive- ram ao alcance dos copernicanos.)5 Claro se torna que a ades?úo ?ás novas id?®ias ter?í de ser conseguida por meios outros que n?úo ar- gumentos. Ter?í de ser conseguida por meios irracionais, como a propaganda, a emo?º?úo, as hip??teses ad hoc e os preconceitos de toda esp?®cie. Tornam-se necess?írios esses `meios irracionais’ para dar apoio ?áquilo que n?úo passa de f?® cega, at?® que disponhamos das ci?¬ncias auxiliares, de fatos, de argumentos que transformem a ?ë nesse contexto que se torna importante o aparecimento de uma nova classe secular, dotada de vis?úo nova e de acentuado desprezo pela ci?¬ncia das escolas, seus m?®todos, seus resultados e at?® sua linguagem. O latim b?írbaro falado pelos doutores (ele tem muito em comum com o n?úo menos b?írbaro `ingl?¬s ordin?írio’ fa- lado pelos fil??sofos, de Oxford), a pobreza intelectual da ci?¬ncia acad?¬mica, seu alheamento ao mundo (que logo passa a ser visto como indica?º?úo de inutilidade), sua liga?º?úo com a Igreja ÔÇö todos esses elementos s?úo acrescentados ?á cosmologia aristot?®lica e o desd?®m por eles sentido se comunica a todos os argumentos aris- tot?®licos6. Essa incrimina?º?úo-por-associa?º?úo n?úo torna os argu- mentos menos racionais ou menos conclusivos, mas lhes reduz a in- flu?¬ncia sobre os esp?¡ritos que se inclinam por seguir Cop?®rnico, pois Cop?®rnico, agora, quer dizer progresso em outras ?íreas tam- b?®m, ?® s?¡mbolo dos ideais de uma nova classe que, olhando para tr?ís, v?¬ os tempos cl?íssicos de Plat?úo e C?¡cero e, olhando para frente, contempla uma sociedade livre e pluralista. A associa?º?úo de id?®ias astron??micas e hist??ricas ?ás tend?¬ncias de classe tamb?®m n?úo produz argumentos novos. Mas engendra firme comprome- timento com a concep?º?úo helioc?¬ntrica ÔÇö e isso, como vimos, ?® tudo de que se necessita a essa altura. Vimos, igualmente, com que maestria Galileu explora a situa?º?úo e como lhe d?í mais largas di- mens?Áes atrav?®s de ilus?Áes, anedotas e non sequiturs.

Defrontamo-nos com uma situa?º?úo que teremos de analisar e compreender, se, em face do debate entre `raz?úo’ e `irracionali- dade’, quisermos adotar atitude mais razo?ível que as assumidas por escolas filos??ficas de nosso tempo. Admite a raz?úo que id?®ias por n??s introduzidas para ampliar e aperfei?ºoar nosso conheci- mento podem surgir de maneira desordenada e que a origem de um particular ponto de vista talvez esteja na depend?¬ncia de precon- ceito de classe, paix?úo, idiossincrasias pessoais, quest?Áes de estilo e at?® mesmo de puro e simples erro. Mas a raz?úo exige tamb?®m que, ao julgar essas id?®ias, obede?ºamos a certas regras bem definidas: a avalia?º?úo de id?®ias n?úo deve deixar-se penetrar por elementos irra- cionais. Ora, o que nossos exemplos hist??ricos mostram ?®, apa- rentemente, o seguinte: houve situa?º?Áes em que nossos ju?¡zos mais liberais, e as mais liberais de nossas regras teriam eliminado uma id?®ia ou um ponto de vista que, hoje, consideramos essencial para a ci?¬ncia, sem permitir que prevalecessem ÔÇö e tais situa?º?Áes se repetem com freq???¬ncia (cf. quanto a este ponto, os exemplos do cap?¡tulo V). As id?®ias sobreviveram e agora podemos dizer que est?úo em harmonia com a raz?úo. Sobreviveram gra?ºas ao precon- ceito, ?á paix?úo, ?á presun?º?úo, aos erros, ?á pura teimosia; em suma, gra?ºas ao fato de todos os elementos que caracterizam o contexto da descoberta se haverem oposto aos ditames da raz?úo e gra?ºas ao tato de se haver permitido que esses elementos irracionais atuassem. Em outras pala- vras: a teoria copernicana e outras concep?º?Áes `racionais’ s?? existem hoje por- que, em seu passado, a raz?úo, em algumas ocasi?Áes, foi posta em segundo pla- no. (A rec?¡proca tamb?®m ?® verdadeira: a feiti?ºaria e outras concep- ?º?Áes `irracionais’ s?? deixaram de exercer influ?¬ncia porque, em seu passado, a raz?úo, em algumas ocasi?Áes, foi posta em segundo pla- no.)7

Ora, admitindo que a teoria copernicana ?® uma Boa Coi- sa, teremos de admitir tamb?®m que sua sobreviv?¬ncia ?® uma Boa Coisa. E, tendo em conta as condi?º?Áes de tal sobreviv?¬ncia, teremos de admitir, ainda, que foi uma Boa Coisa a raz?úo haver

sido posta em segundo plano durante os s?®culos XVI, XVII e mesmo XVIII. Al?®m disso, os cosmologistas dos s?®culos XVI e XVII n?úo dispunham do conhecimento que hoje temos e n?úo sa- biam que a doutrina de Cop?®rnico tem como dar nascimento a um sistema cient?¡fico aceit?ível do ponto de vista do `m?®todo cient?¡fi- co’. N?úo sabiam qual das diversas concep?º?Áes ent?úo existentes conduziria ?á raz?úo futura, se defendida de modo `irracional’. Pri- vados dessa orienta?º?úo, s?? lhes restava conjecturar e, ao fazer con- jecturas, haviam, como vimos, de seguir suas inclina?º?Áes. Conv?®m, conseq??entemente, permitir que, em quaisquer circunst?óncias, as incli- na?º?Áes se contraponham ?á raz?úo, pois isso pode beneficiar a ci?¬n- Esse argumento, que aconselha a n?úo permitir que a raz?úo predomine sobre nossas inclina?º?Áes e ocasionalmente (ou fre- q??entemente ÔÇö examinar, de novo, o material do cap?¡tulo V) a- conselha a afastar por completo a raz?úo, n?úo depende, ?® claro, dos elementos hist??ricos por mim apresentados. Se ?® historicamente acertada a apresenta?º?úo que fa?ºo de Galileu, o argumento se man- t?®m, exatamente como foi formulado. Se a apresenta?º?úo n?úo cor- responde ?á realidade e ?® simples vers?úo imagin?íria, ent?úo essa ver- s?úo imagin?íria estar?í mostrando que ?® poss?¡vel o conflito entre a raz?úo e as pr?®-condi?º?Áes do progresso, estar?í indicando como es- se conflito pode surgir e estar?í impondo a conclus?úo de que as possibilidades de progresso podem ver-se bloqueadas por nosso de- sejo de agir racionalmente. Note-se que o progresso ?® aqui defini- do como o definiria um racionalista amante da ci?¬ncia, isto ?®, co- mo acarretando ser Cop?®rnico superior a Arist??teles e Einstein superior a Newton.o ?ë claro que n?úo h?í obrigatoriedade de aceitar essa defini?º?úo que, por certo, ?® muito acanhada. Dela s?? nos utili- zamos para mostrar que a id?®ia de raz?úo, aceita pela maioria dos racionalistas (inclusive todos os racionalistas cr?¡ticos), ?® suscet?¡vel de impedir o progresso, tal como esse progresso ?® definido por essa pr??pria maioria. Volto, agora, ao exame de alguns pormeno- res da transi?º?úo que levou de Arist??teles a Cop?®rnico.

O primeiro passo dado no sentido de uma nova cosmologi- a, foi, como deixei dito, um passo para tr?ís: evid?¬ncia aparente- mente relevante ?® descartada, novos dados s?úo introduzidos por liga?º?Áes ad hoc, o conte??do emp?¡rico da ci?¬ncia ?® drasticamente re- duzido9. Ora, a cosmologia que, por acaso, est?í ocupando o cen- tro das aten?º?Áes e cuja ado?º?úo nos leva a promover as altera?º?Áes descritas difere das outras concep?º?Áes sob um ??nico aspecto: pos- sui tra?ºos que, ?áquela ?®poca, parecem atraentes aos olhos de al- guns. Dificilmente, entretanto, h?í uma id?®ia que seja totalmente destitu?¡da de m?®rito e que n?úo possa tornar-se o ponto de partida de um concentrado esfor?ºo. Nenhuma inven?º?úo surge no isola- mento e nenhuma id?®ia est?í completamente privada de fundamen- to (abstrato ou emp?¡rico). Ora, se apoio parcial aliado a plausibili- dade parcial basta para dar come?ºo a uma tend?¬ncia nova ÔÇö e su- geri que sim ÔÇö, se dar in?¡cio a uma tend?¬ncia nova equivale a dar um passo que nos afasta da evid?¬ncia, se qualquer id?®ia pode apre- sentar-se como plaus?¡vel e receber apoio parcial, ent?úo o passo a- tr?ís ?®, em verdade, um passo ?á frente, a romper com a tirania de sistemas teor?®ticos bem coligados, altamente corroborados e dese- legantemente apresentados. Precisamente acerca deste ponto, es- creve Bacon10: `Erro diferente ?® a… dogm?ítica redu?º?úo da ci?¬ncia a artes e m?®todos, est?ígio a partir do qual as ci?¬ncias raramente conseguem aperfei?ºoamento; assim como os jovens raramente crescem de estatura ap??s o corpo e os membros se haverem de- senvolvido completamente, assim o conhecimento, enquanto resi- mas, uma vez reduzido a m?®todos, embora possa aprimorar-se, explicar, adaptar-se a uso, n?úo mais se desenvolver?í em volume e A similaridade com as artes, tantas vezes asseverada, ma- nifesta-se exatamente nesse ponto. Uma vez percebido que o estreito ajustamento ao emp?¡rico n?úo ?® virtude e que deve ser visto com toler?óncia em tempos de mudan?ºa, passam a ser tra- ?ºos importantes de nosso conhecimento o estilo, a eleg?óncia

da express?úo, a simplicidade de apresenta?º?úo, o interesse do ar- gumento e da narrativa, e a sedu?º?úo do conte??do. D?úo vida ao que ?® dito e nos auxiliam a vencer a resist?¬ncia do material de observa- ?º?úo11. Criam e fazem com que se mantenha o interesse por uma teoria que se afastou parcialmente do plano observacional e que seria inferior a suas rivais, caso julgada ?á luz dos padr?Áes costu- meiros. ?ë nesse contexto que muito da obra de Galileu deve ser colocado. Essa obra tem sido, freq??entes vezes, comparada ?á pro- paganda12 ÔÇö e por certo que ?® propaganda. Contudo, a propagan- da dessa esp?®cie n?úo ?® uma atividade marginal que pode ser ou n?úo ser acrescentada a meios de defesa supostamente mais efica- zes e que deveria, talvez, ser evitada pelo `cientista profissional- mente honesto’. Nas circunst?óncias por n??s ora consideradas, a propaganda ?® fundamental. ?ë fundamental porque se faz preciso des- pertar o interesse quando se vive um tempo em que as prescri?º?Áes metodol??gicas habituais n?úo oferecem flanco ao ataque; e, por causa disso, o interesse deve ser mantido, talvez por s?®culos, at?® que surjam novas raz?Áes. Claro tamb?®m que tais raz?Áes, isto ?®, as ci?¬ncias auxiliares apropriadas, n?úo precisam surgir de um para ou- tro instante e em completo esplendor formal. Talvez que, de in?¡- cio, se mostrem desarticuladas e se ponham em conflito com a e- vid?¬ncia existente. De come?ºo, tudo quanto se exige ?® conson?ón- cia, pelos menos parcial, com a cosmologia. A conson?óncia mostra que aquelas ci?¬ncias s?úo, no m?¡nimo, relevantes e que, possivelmen- te, produzir?úo, algum dia, evid?¬ncia completa e positiva. Assim, a id?®ia de que o telesc??pio mostra o mundo tal como ele realmente ?® defronta-se com muitos obst?ículos. Mas o apoio que d?í a Co- p?®rnico e dele recebe constitui indica?º?úo de que talvez estejamos a Encontramos aqui rela?º?úo extremamente interessante en- tre uma concep?º?úo de ordem geral e a hip??tese particular que ?® sua evid?¬ncia. Admite-se, via de regra, que concep?º?Áes de ordem geral n?úo significam muito, a menos que a evid?¬ncia relevante

possa ser inteiramente especificada. Carnap, por exemplo, asseve- ra que `N?úo h?í interpreta?º?úo independente para [a linguagem em cujos termos ?® formulada uma teoria ou concep?º?úo do mundo]. O sistema T [os axiomas da teoria e as regras de deriva?º?úo] ?®, por si mesmo, um sistema de postulados n?úo interpretado. [Seus] termos recebem apenas interpreta?º?Áes indireta e incompleta, devido ao fato de que alguns deles se ligam a termos observacionais por meio de regras de correspond?¬ncia13. `N?úo h?í interpreta?º?úo inde- pendente’, diz Carnap, e, n?úo obstante, uma id?®ia como a do mo- vimento da Terra, que ?® inconsistente (e talvez incomensur?ível) com a evid?¬ncia existente na ?®poca, que se sustenta gra?ºas a decla- rar que essa evid?¬ncia ?® irrelevante e que est?í, portanto, desligada dos mais importantes fatos da astronomia do tempo, consegue transformar-se em n??cleo, em ponto de cristaliza?º?úo, passando a congregar outras concep?º?Áes inadequadas que, gradualmente, v?úo- se articulando e, finalmente, fundem-se para constituir uma cos- mologia nova que acolhe novos tipos de evid?¬ncia. N?úo h?í melhor vers?úo desse processo do que a descri?º?úo que nos faz John Stuart Mill das vicissitudes de sua educa?º?úo. Referindo explica?º?Áes dadas por seu pai a respeito de assuntos de l??gica, ele diz: `No momen- to, as explica?º?Áes de modo algum tornaram claro o assunto; mas n?úo foram in??teis; permaneceram como pontos de refer?¬ncia, em torno dos quais se foram cristalizando minhas observa?º?Áes e re- flex?Áes e alcance de suas pondera?º?Áes de ordem geral foram se esclarecendo, na medida em que eu, posteriormente, encontrava e- xemplos particulares’14. De maneira exatamente an?íloga, a con- cep?º?úo copernicana (embora despida de conte??do cognitivo, do ponto de vista de um empirismo estrito, ou mesmo refutada) fazi- a-se necess?íria para a constru?º?úo das ci?¬ncias complementares mesmo antes de se haver tornado suscet?¡vel de teste gra?ºas ao aux?¡lio de tais ci?¬ncias e mesmo antes de que, por sua vez, lhes fornecesse evid?¬ncia corroboradora da esp?®cie a mais convincente. N?úo ?® cla- ro que, nas circunst?óncias, diretriz extremamente inconveniente haveria

sido ditada por nossas belas e brilhantes metodologias que de n??s pedem que nos concentremos em teorias de elevado conte??do emp?¡rico e que tomemos a s?®rio os riscos e as refuta?º?Áes e compa- remos enunciados pertencentes a camadas hist??ricas diversas, co- mo se todos fossem id?®ias plat??nicas igualmente perfeitas? (O conselho de que submetesse a teste suas teorias teria sido in??til para Galileu: ele se via diante de embara?ºosa quantidade de exemplos prima fade refutadores e, n?úo tendo como explic?í-los, pois carecia do conhecimento necess?írio [embora n?úo carecesse das necess?írias intui?º?Áes], devia, portanto, afast?í-los, de modo a salvar de prematu- ra extin?º?úo uma hip??tese potencialmente valiosa.) N?úo ?® claro tamb?®m que nos devemos tornar mais realistas, que devemos dei- xar de embasbacar-nos diante das formas imagin?írias de um c?®u filos??fico ideal (um `terceiro mundo’, como Popper o denomina agora) e passar a ter em conta o que possa ajudar-nos neste mun- do material, considerada a nossa intelig?¬ncia pass?¡vel de erros, nos- sos imperfeitos instrumentos de medida e nossas teorias falhas? ?ë surpreendente a relut?óncia com que fil??sofos e cientistas adaptam suas concep?º?Áes gerais a uma atividade em que j?í est?úo presentes aquelas teorias falhas (e que, se perguntados, n?úo desejariam a- bandonar). Essa relut?óncia, essa resist?¬ncia psicol??gica ?® que faz necess?írio combinar o argumento abstrato com o malho da hist??- ria. O argumento abstrato ?® imprescind?¡vel porque imprime sentido a nossa reflex?úo. A hist??ria, entretanto, ?® tamb?®m imprescind?¡vel, ao menos no atual est?ígio da filosofia, porque d?í for?ºa a nossos argumentos. E isso explica a longa digress?úo que fiz acerca da F?¡- sica e da Astronomia do s?®culo XVII.

Resumamos o conte??do dos seis ??ltimos cap?¡tulos: Quando a `id?®ia pitag??rica’ de movimento da Terra foi re- vivida por Cop?®rnico, enfrentou dificuldades que excediam as

quase todos os outros de fazerem a cr?¡tica filos??fica de seu esfor- ?ºo (ainda hoje, d?í-se ?¬nfase ?á matem?ítica de Galileu, a seus supos- tos experimentos, ?á sua freq??ente invoca?º?úo da `verdade’, olvi- dando-se completamente seus lances de propaganda). Entendo que dessa maneira construiu uma nova concep?º?úo do mundo, frouxamente (se ?® que mesmo frouxamente) relacionada com a, cosmologia anterior (a?¡ inclu?¡da a experi?¬ncia cotidiana); que esta- beleceu falsas conex?Áes entre os elementos perceptivos de sua cosmologia, conex?Áes que s?? agora passam a ser substitu?¡das por genu?¡nas teorias (??tica fisiol??gica, teoria dos cont?¡nuos); e que, em todas as situa?º?Áes que o admitiam, substituiu velhos fatos por um novo tipo de experi?¬ncia, simplesmente inventado, com o prop??- sito de dar apoio a Cop?®rnico. Lembremos, de passagem, que o procedimento de Galileu reduz drasticamente o conte??do da di- n?ómica: a din?ómica aristot?®lica era uma teoria geral da mudan?ºa, A din?ómica de Galileu e de seus seguidores s?? se ocupa da loco- mo?º?úo, afastando outras esp?®cies de movimento com a insinua?º?úo esperan?ºosa (devida a Dem??crito) de que a locomo?º?úo vir?í, afinal, a ser capaz de abranger todos os movimentos. Desse modo, uma teoria do movimento, de car?íter emp?¡rico e geral, ?® substitu?¡da por uma teoria de alcance muito menor, que se faz acompanhar de metaf?¡sica do movimento, nos mesmos termos em que uma expe- ri?¬ncia `emp?¡rica’ cede passo a uma experi?¬ncia onde se cont?¬m elementos especulativos. Esse, a meu ver, o verdadeiro modo co- mo Galileu agiu. Assim agindo, evidenciou estilo, senso de humor, plasticidade e eleg?óncia, percep?º?úo do valor das falhas do intelecto humano ÔÇö de maneira que jamais foi igualada na hist??ria da ci?¬n- cia. Temos aqui fonte quase inexaur?¡vel de material para especula- ?º?Áes metodol??gicas e, o que ?® muito mais importante, para recu- pera?º?úo daqueles tra?ºos do conhecimento que n?úo s?? nos informa como tamb?®m nos encanta.

NOTAS 1. Em uma s?®rie de artigos interessantes e provocadores, o pro- fessor Kurt Huebner, da Universidade de Kiel, criticou o car?í- ter `abstrato’ das metodologias contempor?óneas e sustentou que `a fonte do progresso cient?¡fico n?úo reside em regras abs- tratas de falseamento ou em infer?¬ncias indutivas ou proce- dimentos semelhantes, mas no todo da situa?º?úo espiritual e hist??rica, em que o cientista vem a encontrar-se. ?ë a partir de tal situa?º?úo que ele re??ne seus pressupostos e ?® sobre tal situ- a?º?úo que sua atividade vem a repercutir… A fraqueza b?ísica da contempor?ónea filosofia da ci?¬ncia reside, a meu ver, no se- guinte: a despeito da grande variedade de escolas e de pensa- dores, continua a proceder a-historicamente. Procura resolver seus problemas fundamentais ÔÇö o car?íter dos m?®todos a se- rem aplicados e a justifica?º?úo dos enunciados obtidos atrav?®s deles ÔÇö por meio da simples reflex?úo, ficando o pensamento, ao que parece, entregue a si mesmo e a seus refinamentos. . .’ (`Was zeigt Kepler’s “Astronomia Nova” der modernen Wis- 267 ss.). Huebner tamb?®m estuda o estranho caminho que le- va de pensadores de orienta?º?úo hist??rica, tais como Duhem, Mach, Poincar?®, Meyerson e outros, ?á atitude seca, a-hist??rica e, portanto, essencialmente n?úo-cient?¡fica, hoje dominante (Phil. Nat., n??. 13, 1971, pp. 81-97), e est?í elaborando uma te- oria da ci?¬ncia que toma em conta a Hist??ria, oferecendo um 24, 1971, pp. 851-64, especialmente pp. 858 ss.). Essa a trilha que h?í de ser seguida se quisermos vencer a esterilidade da a- tual filosofia da ci?¬ncia.

jur?¡dicas podem colocar-se adiante da produ?º?úo material e pas- sar a arrast?í-la: cf. The Poverty of Philosophy e, especialmente, In- troduction to the Critique of Political Economy, Chicago, 1918, p. 309: `A desigual rela?º?úo entre, por exemplo, o desenvolvimento da produ?º?úo material e o da arte. De modo geral, o conceito de progresso n?úo deve ser tomado no sentido da abstra?º?úo costu- meira. No caso da arte, etc. n?úo ?® t?úo importante e dif?¡cil com- preender essa despropor?º?úo como o ?® no caso das rela?º?Áes so- ciais pr?íticas, p. ex. a rela?º?úo entre a educa?º?úo nos Estados U- nidos da Am?®rica e na Europa. O ponto realmente dif?¡cil, a ser discutido aqui, ?® o do desigual desenvolvimento das rela?º?Áes de produ?º?úo como rela?º?Áes jur?¡dicas’. Trotsky descreve a mesma situa?º?úo: `O ponto central da quest?úo est?í em que os diferentes aspectos do progresso hist??rico ÔÇö economia, pol?¡tica, Estado, emerg?¬ncia da classe trabalhadora ÔÇö n?úo se desenvolveu si- multaneamente, ao longo de linhas paralelas’ (`The School of Revolutionary Strategy’, discurso pronunciado no encontro ge- ral de membros do partido da Organiza?º?úo de Moscou de julho de 1921, publicado em The First Five Years of the Communist In- ternational, vol. II, Nova Iorque, 1953, p. 5). Ver tamb?®m Le- nine, Left-W?¡ng Communism ÔÇö an Infantile Disorder (op. cit., p. 59) no que respeita ao fato de as m??ltiplas causas de um evento poderem estar fora de fase e s?? terem efeito quando ocorrem simultaneamente. Sob diferente forma, a tese do `desenvolvi- mento desigual’ diz respeito ao fato de o capitalismo haver al- can?ºado est?ígios diferentes em diferentes pa?¡ses e mesmo em diferentes regi?Áes do mesmo pa?¡s. Este segundo tipo de de- senvolvimento pode conduzir a uma invers?úo das rela?º?Áes en- tre as ideologias associadas, de sorte que a efici?¬ncia da pro- du?º?úo e as id?®ias pol?¡ticas radicais se desenvolvem em propor?º?Áes inversas.

`Na Europa civilizada, com sua ind??stria altamente desenvol- vida, sua cultura rica e multiforme e suas constitui?º?Áes, alcan- ?ºou-se um ponto da hist??ria em que a burguesia dominante, receando o aumento e crescente for?ºa do proletariado, acorre Mas, por toda a jovem ?üsia, estende-se poderoso movimento democr?ítico, a crescer e ganhar fortaleza’ (Lenine, `Backward Europe and Advanced Asia’, Collected Works, vol. 19, op. cit., pp. 99 ss.). Quanto a essa interessant?¡ssima situa?º?úo, que me- Meyer, Leninism, cap?¡tulo 12, Cambridge, 1957, e L. Althusser, For Marx, Londres e Nova Iorque, 1970, cap?¡tulos 3 e 6. O pano de fundo filos??fico ?® esplendidamente apresentado no ensaio de Mao Tse-tung, On Contradiction (Selected Readings, Pe- quim, 1970, P’ 70, especialmente sec?º?úo IV).

3. F. Blumenberg, Galileo Galilei, Sidereus Nuncius, Nachricht von neuen Sternen, vol. I, Frankfurt, 1965, p. 13. O pr??prio Arist??te- les era de esp?¡rito mais aberto: `A evid?¬ncia (concernente aos fen??menos celestes) s?? ?® reduzidamente alcan?ºada pelas sen- sa?º?Áes, ao passo que no concernente a plantas e animais pere- c?¡veis dispomos de informa?º?úo abundante, j?í que convivemos com eles…’, De Parto Amim. 644 b 26 ss. No que ?® dito a se- guir, apresenta-se vis?úo altamente idealizada do ??ltimo per?¡o- do do aristotelismo. A n?úo ser quando se afirme o contr?írio, a palavra `Arist??teles’ refere-se a essa idealiza?º?úo. Quanto ?ás di- ficuldades para compor um quadro coerente do pr??prio Arist??- teles, cf. During, Aristoteles, Heidelberg, 1966. Quanto a algu- mas diferen?ºas entre Arist??teles e seus seguidores da ?®poca medieval, cf. Wolfgang Wieland, Die Aristotelische Physik, G?Âttingen, 1970.

teresse pelo esquema dos epiciclos, tal como desenvolvido em De Revol. Para admir?ível exposi?º?úo racional dessa passagem, cf. a palestra de Imre Lakatos `A Philosopher looks at the Co- pernican Revolution’, Leeds, 6 de janeiro de 1973. (Tenho c??- pia datilografada, a mim gentilmente enviada pelo professor Lakatos.) 5. Estavam ao dispor dos c?®ticos, especialmente Aenesidemus que assinala, acompanhando Filo, que nenhum objeto aparece tal como ?®, por?®m modificado, em raz?úo de combinar-se com ar, luz, umidade, calor, etc.; cf. Diogenes Laertius, IX, 84. Afigu- ra-se, entretanto, que a concep?º?úo c?®tica s?? teve reduzida in- flu?¬ncia sobre o desenvolvimento da astronomia moderna e isso ?® compreens?¡vel: n?úo se inicia um movimento a partir do 6. Quanto a essas press?Áes sociais, cf. , a magn?¡fica Geschichte der neusprachlichen wissensehaltlichen Literatur, de Olschki. Quanto ao papel do puritanismo, cf. R. F. Jones, op. cit., cap?¡tulos V e VI.

7. Essas considera?º?Áes refutam J. Dorling que, no British Journal for the Philosophy of Science, vol. 23, 1972, 189 s., apresenta meu `irracionalismo’ como pressuposto e n?úo como resultado de minha pesquisa. Continua ele `. . . imaginar-se-ia que o fil??so- fo da ci?¬ncia estivesse mais interessado em recolher e analisar pormenorizadamente os argumentos cient?¡ficos aparentemen- te suscet?¡veis de reconstru?º?úo racional’. Imaginar-se-ia que o fil??sofo da ci?¬ncia estivesse mais interessado em recolher e analisar pormenorizadamente os movimentos que se fazem necess?írios para o avan?ºo da ci?¬ncia. Esses movimentos, bus- quei mostrar, op?Áem-se ?á reconstru?º?úo racional.

8. `Raz?úo’ abrange, neste caso, a racionalidade mais liberalizada 9. Interessante notar que isso ?® exatamente o que ocorre no caso da teoria qu?óntica e da teoria da relatividade. Cf.

meu ensaio `Problems of Empiricism, Part II’, Pittsburgh Studi- 10. Advancement of Learning (edi?º?úo de 1605), Nova Iorque, 1944, p. 21. Cf., tamb?®m, o Novum Organum, Aforismos 79, 86, bem como o pequeno e espl?¬ndido livro de J. W. N. Watkins, Hob- 11. `O que restitui vida ao fen??meno cient?¡fico ?® a arte’ (The Di- 12. Cf. A. Koyr?®, ?ëtudes Galil?®ennes, vol. III, Paris, 1939, pp. 53 ss. 13. `The Methodological Character of Theoretical Concepts’, Minnesota Studies in the Philosophy of Science, vol. I, Minneapolis, 14. Autobiography, citada com base em Essential Works of John Stuart Mill, ed. Lerner, Nova Iorque, 1965, p. 21.

Galileu realizou progresso alterando as liga?º?Áes comuns en- tre palavras e palavras (introduziu conceitos novos), entre palavras e impress?Áes (introduziu novas interpreta?º?Áes naturais) , atrav?®s do uso de princ?¡pios novos e incomuns (como a lei da in?®rcia e o princ?¡pio da relatividade universal) e atrav?®s da modifica?º?úo do n??cleo sensorial de seus enunciados de observa?º?úo. Era movido pelo desejo de provocar a aceita?º?úo do ponto de vista copernica- no. A doutrina de Cop?®rnico choca-se contra alguns fatos ??bvios, ?® incompat?¡vel com princ?¡pios plaus?¡veis e aparentemente bem- estabelecidos e n?úo se acomoda ?á `gram?ítica’ de um idioma co- mumente falado. N?úo se acomoda ?á `forma de vida’ em que se cont?¬m esses fatos, princ?¡pios e regras de gram?ítica. Contudo, nem as regras, nem os princ?¡pios e nem mesmo os fatos s?úo sa- crossantos. O erro pode residir neles e n?úo na id?®ia de que a Terra se move. Cabe, portanto, modific?í-los, criar novos fatos e novas regras de gram?ítica, para verificar o que ocorrer?í uma vez que essas regras estejam ?á m?úo e se hajam tornado familiares. Essa tentativa exigir?í, talvez, consider?ível tempo e, sob certo aspecto, a aventura de Galileu n?úo chegou ainda a seu termo. J?í podemos, entretanto,

perceber que as altera?º?Áes foram s?íbias e que teria sido tolice Frente ao problema esp?¡rito/corpo, a situa?º?úo ?® exatamente a mesma. De novo, temos `observa?º?Áes, conceitos, regras de gra- m?ítica e princ?¡pios gerais que, em conjunto, constituem uma `forma de vida’ que, aparentemente, d?í apoio a certas concep?º?Áes, (Digo `aparentemente’, porque a situa?º?úo ?®, aqui, muito menos clara do que foi no caso da astronomia.) E, de novo, podemos agir ?á maneira galileana, buscando novas interpreta?º?Áes naturais, fatos novos, novas regras de gram?ítica, novos princ?¡pios a que o mate- rialismo possa acomodar-se e, ent?úo, comparar os sistemas totais ÔÇö o materialismo e os novos fatos, regras, interpreta?º?Áes naturais e princ?¡pios, de uma parte; o dualismo e as velhas `formas de vida’, de outra parte. Assim, n?úo h?í necessidade de tentar demonstrar, como Smart, que o materialismo ?® compat?¡vel com a ideologia do senso comum. Nem ?® o procedimento sugerido t?úo `desesperado’ (Armstrong) quanto deve parecer aos n?úo-familiarizados com a altera?º?úo conceptual. O procedimento era comum na Antig??idade e ocorre sempre que pesquisadores imaginosos se lan?ºam em no- vas dire?º?Áes (Einstein e Bohr s?úo exemplos recentes)1.

NOTAS 1. Para pormenorizado exame desse ponto, indico ao leitor os cap?¡tulos 9-15 de meu ensaio `Problems of Empiricism’, Be- yond the Edge of Certainty, ed. Colodny, Nova Iorque, 1965, pre- ferivelmente na vers?úo aperfei?ºoada e publicada em italiano I problemi dell’Empirismo, Mil?úo, 1971, pp. 31-69.

XIV Os resultados at?® agora conseguidos trazem em seu bojo a sugest?úo de abolir a distin?º?úo entre contexto da descoberta e contexto da justifica?º?úo e de p??r de parte a distin?º?úo correla- ta entre termos observacionais e termos teor?®ticos. Nenhu- ma dessas distin?º?Áes tem papel a desempenhar na pr?ítica ci- ent?¡fica. Tentativas de dar-lhes for?ºa trariam conseq???¬ncias desastrosas.

Usemos, agora, o material das se?º?Áes precedentes para es- clarecer as seguintes caracter?¡sticas do empirismo contempor?óneo: (1) distin?º?úo entre contexto da descoberta e contexto da justifica- (3) problema da incomensurabilidade. Esta ??ltima quest?úo nos conduzir?í de volta ao problema da racionalidade e da ordem ver- sus anarquismo, que ?® o tra?ºo principal deste ensaio.

Uma das obje?º?Áes levantadas contra minha tentativa de retirar conclus?Áes metodol??gicas a partir de exemplos hist??ricos ?® a de que se faz confus?úo de dois contextos essencialmente distintos, a saber, um contexto de descoberta e um contexto de justifica?º?úo. A descoberta pode ser irracional, n?úo se impondo que atenda a qualquer m?®todo reconhecido. A justifica?º?úo, de outra parte, ou ÔÇö para recorrer ?á Pala- vra Sagrada de uma escola diferente ÔÇö a cr?¡tica s?? tem come?ºo ap??s a ocorr?¬ncia das descobertas e se desenvolve ordenadamente. `Uma coisa ?®’, escreve Herbert Feigl, `reconstituir as origens hist??ricas, a g?¬nese e o desenvolvimento psicol??gicos, as condi?º?Áes s??cio- pol?¡tico-econ??micas para aceita?º?úo ou rejei?º?úo de teorias cient?¡ficas; e

coisa muito diferente ?® efetuar reconstru?º?úo l??gica da estrutura Com efeito, trata-se de coisas diferentes, especialmente por se- rem executadas por duas diferentes disciplinas (hist??ria da ci?¬ncia e filosofia da ci?¬ncia) extremamente zelosas da respectiva indepen- d?¬ncia. A quest?úo n?úo est?í, contudo, em saber que distin?º?Áes um esp?¡rito f?®rtil ?® capaz de imaginar ao se ver diante de um processo complexo ou em saber como certo material homog?¬neo pode ser subdividido por acidentes de Hist??ria; a quest?úo est?í em saber at?® que ponto a distin?º?úo reflete uma diferen?ºa real e em saber se a ci?¬ncia pode avan?ºar sem forte intera?º?úo entre os dom?¡nios distin- guidos. (Um rio pode ver-se dividido por fronteiras nacionais, mas isso n?úo faz dele uma entidade descont?¡nua.) Ora, h?í, naturalmen- te, percept?¡vel diferen?ºa entre as regras de teste, nos termos em que `reconstru?¡das’ por fil??sofos da ci?¬ncia e os procedimentos de que se valem os cientistas na pesquisa efetivamente realizada. Essa diferen?ºa revela-se ao mais superficial exame. De outra parte, o mais superficial exame revela tamb?®m que determinada aplica?º?úo dos m?®todos de cr?¡tica e prova, que se diz pertencerem ao contex- to da justifica?º?úo, eliminaria a ci?¬ncia tal como a conhecemos ÔÇö e jamais teriam permitido que ela surgisse2. Entretanto, o fato de a ci?¬ncia existir prova que esses m?®todos foram, freq??entemente, postos de lado. Postos de lado exatamente em fun?º?úo de procedi- Em outras palavras: na hist??ria da ci?¬ncia, padr?Áes de justifica?º?úo pro?¡bem, freq??entes vezes, formas de agir provocadas por condi- ?º?Áes psicol??gicas, s??cio-econ??mico-pol?¡ticas e outras de car?íter `ex- terno’ ÔÇö e a ci?¬ncia t?úo-somente sobrevive porque se permite que essas formas de agir prevale?ºam. Assim, a tentativa de `reconstituir as origens hist??ricas, a g?¬nese e o desenvolvimento psicol??gicos e as condi?º?Áes s??cio-pol?¡tico-econ??micas para aceita?º?úo ou rejei?º?úo de teorias cient?¡ficas’, longe de ser empreendimento completamen- te diverso da considera?º?úo de testes, leva, em verdade, a uma

cr?¡tica de tais considera?º?Áes ÔÇö contanto que os dois dom?¡nios, o da pesquisa hist??rica e o do exame dos processos de teste, n?úo se- Em artigo recente, Feigl repete seus argumentos e acrescen- ta alguns pontos. Acha `surpreendente o fato de que… estudiosos como N. R. Hanson, Thomas Kuhn, Michael Polanyi, Paul Feye- rabend, Sigmund Koch et al. tenham a distin?º?úo por n?úo-v?ílida ou, quando menos, por enganosa’3. E assinala que nem a psicologia da inven?º?úo, nem qualquer similaridade, por maior que seja, entre a Quanto a esse aspecto, ele est?í, sem d??vida, com a raz?úo. Nem mesmo os mais surpreendentes relatos acerca de como os cientis- tas chegam a suas teorias podem excluir a possibilidade de que e- les procedam de modo inteiramente diverso, uma vez que a elas tenham chegado. Contudo, essa possibilidade jamais se concretiza. Inven- tando teorias e contemplando-as de maneira descansada e `art?¡sti- ca’, adotamos, muitas vezes, modos de agir que as regras metodo- l??gicas pro?¡bem. Exemplificando: interpretamos a evid?¬ncia de sorte a amold?í-la a nossas caprichosas id?®ias, eliminamos dificul- dades atrav?®s de recurso a procedimentos ad hoc, afastamos essas Conseq??entemente, as atividades que, segundo Feigl, pertencem ao contexto de descoberta n?úo s?úo apenas diferentes do que se passa no contexto da justifica?º?úo, mas colocam-se em conflito com este. Os dois contextos n?úo caminham lado a lado; entram, freq??entemen- te, em choque. Vemo-nos, pois, diante do problema de saber a que contexto dar tratamento preferencial. Esta ?® a primeira parte do argumento. Ora, vimos que, em caso de conflito, os cientistas ocasionalmente se inclinam pelos modos de agir recomendados pelo contexto de justifica?º?úo, mas podem tamb?®m escolher mo- dos de agir que pertencem ao contexto da descoberta e, muitas ve- zes, t?¬m excelente raz?úo para assim proceder. Com efeito, a ci?¬ncia, tal como a conhecemos hoje, n?úo poderia existir sem constante-

mente esquecermos o contexto da justifica?º?úo. Esta ?® a segunda parte do argumento. A conclus?úo ?® transparente. A primeira parte mostra que n?úo estamos apenas diante de uma diferen?ºa, mas di- ante de uma alternativa. A segunda parte real?ºa que ambas as op- ?º?Áes postas pela alternativa s?úo igualmente importantes para a ci- ?¬ncia e devem receber igual peso. N?úo estamos, portanto, lidando com uma alternativa, mas com um dom?¡nio ??nico e uniforme de procedimentos, sendo todos igualmente importantes para o de- Argumento semelhante aplica-se ?á ritual distin?º?úo entre pres- cri?º?Áes metodol??gicas e descri?º?Áes hist??ricas. Segundo se diz, a meto- dologia concerne ao que deve ser feito e n?úo pode ser criticada a- trav?®s de refer?¬ncia, ao que ?® feito. Importa, por?®m, estarmos segu- ros de que nossas prescri?º?Áes disp?Áem de um ponto de ataque no material hist??rico e importa estarmos tamb?®m seguros de que a aplica?º?úo daquelas prescri?º?Áes h?í de conduzir a resultados desej?í- veis. Alcan?ºamos a seguran?ºa, tendo em conta leis e tend?¬ncias (his- t??ricas, sociol??gicas, f?¡sicas, psicol??gicas, etc.) que nos esclarecem acerca do que ?® e do que n?úo ?® poss?¡vel em circunst?óncias dadas e, assim, apartam as prescri?º?Áes pratic?íveis daquelas que levariam a situa?º?Áes sem solu?º?úo. O progresso, repitamos, s?? ser?í alcan?ºado se a distin?º?úo entre o ser e o dever ser for `encarada como recurso Distin?º?úo que talvez haja tido alguma significa?º?úo hoje, de- finitivamente perdida ÔÇö ?® a que se fez entre termos observacionais e termos teor?®ticos. Em nossos dias, admite-se, de modo geral, que essa distin?º?úo n?úo ?® t?úo n?¡tida quanto se julgou h?í algu- mas poucas d?®cadas. Tamb?®m se admite, em completa con- cord?óncia com as primeiras concep?º?Áes de Neurath, que tan- to as teorias quanto as observa?º?Áes podem ser abandonadas: teorias podem ser abandonadas em virtude de observa?º?Áes conflitantes; observa?º?Áes podem ser afastadas devido a ra- z?Áes teor?®ticas. Enfim, descobrimos que o aprendizado n?úo

se desenvolve da observa?º?úo para a teoria, mas sempre envolve ambos esses elementos. A experi?¬ncia aparece acompanhada de pres- supostos te??ricos e n?úo antes deles; e a experi?¬ncia sem teoria ?® t?úo incompreens?¡vel quanto, (supostamente) a teoria sem experi- ?¬ncia: eliminemos parte do conhecimento teor?®tico de um ser senciente e teremos pessoa completamente desorientada e incapaz de realizar a mais simples das a?º?Áes. Eliminemos maior por?º?úo de conhecimento e o mundo sensorial dessa pessoa (sua `linguagem de observa?º?úo’) come?ºar?í a desintegrar-se, desaparecer?úo a sensa- ?º?úo de cor e outras sensa?º?Áes simples, at?® que a pessoa venha a achar-se em est?ígio mais primitivo que o de um beb?¬. Uma crian- ?ºa, por outro lado, n?úo possui um mundo perceptual est?ível que possa usar para emprestar sentido ?ás teorias que lhe s?úo ofereci- das. Muito ao contr?írio, atravessa v?írios est?ígios de percep?º?úo que s?? frouxamente se relacionam entre si (est?ígios anteriores de- saparecem quando est?ígios novos se instalam ÔÇö ver cap?¡tulo XVII) que abrangem todo o conhecimento teor?®tico existente na ocasi- ?úo. Mais ainda: todo o processo s?? se inicia porque a crian?ºa reage adequadamente aos sinais, interpreta-os corretamente, porque disp?Áe de meios de interpreta?º?úo mesmo antes de haver experimentado Todas essas descobertas clamam por uma nova terminolo- gia que n?úo mais. separe o que se acha t?úo intimamente ligado, se- ja no desenvolvimento do indiv?¡duo, seja no da ci?¬ncia. Contudo, a distin?º?úo entre observa?º?úo e teoria continua a ser sustentada e defendida por quase todos os fil??sofos da ci?¬ncia. Com que senti- do? Ningu?®m negar?í que as senten?ºas cient?¡ficas podem ser classi- ficadas em senten?ºas longas e senten?ºas breves ou que os enunci- ados cient?¡ficos admitem classifica?º?úo em enunciados intuitiva- mente ??bvios e n?úo-intuitivamente ??bvios. Ningu?®m negar?í que tais distin?º?Áes podem ser feitas. Mas ningu?®m lhes dar?í grande valor ou chegar?í sequer a mencion?í-las, porque n?úo desempenham, hoje, qual- quer papel decisivo no cen?írio da ci?¬ncia. (Nem sempre foi assim. J?í se

julgou, por exemplo, que a plausibilidade intuitiva fosse importan- te guia para a verdade; mas desapareceu do campo da metodologi- a, no momento mesmo em que a intui?º?úo foi substitu?¡da pela ex- peri?¬ncia e por considera?º?Áes formais.) Desempenha a experi?¬ncia esse papel? N?úo o desempenha, tal como vimos. Entretanto, a conclus?úo de que deixou de ser relevante a distin?º?úo entre obser- va?º?úo e teoria ou n?úo se manifesta ou ?® rejeitada4. Demos um pas- so avante e abandonemos esse ??ltimo tra?ºo de dogmatismo em ci?¬ncia.

NOTAS 1. `The Orthodox View of Theories’, Analyses of Theories and Me- thods of Physics and Psychology, ed. Radner e Winokur, Minneapo- 4. `Neurath deixa de oferecer… regras [que distingam os enunci- ados emp?¡ricos dos demais] e, assim, indevidamente, p?Áe de parte o empirismo’, K. R. Popper, The Logic of Scientific Disco- very, Nova Iorque e Londres, 1959, p. 97. Para exposi?º?úo mais meu ensaio `Die Wissenschaftstheorie ÔÇö eine bisher unbe- kannte Form des Irrsinns?’, Proceedings of the German Conference of Philosophy, Kiel, 1972, Felix Meiner, Hamburgo, 1973. `Flui- dez de contornos’, diz Giedymin, `parece ser a obje?º?úo co- mumente levantada contra as distin?º?Áes anal?¡tico-sint?®tico, ob- servacional-teor?®tico’, British Journal for the Philosophy of Science, agosto de 1970, p. 261. A obje?º?úo ?® aceita por muitos autores, mas, certamente, n?úo por mim. Ver as considera?º?Áes no texto

acima, `Science without Experience’, Journal of Philosophy of Sci- ence, 1969 (observacional-teor?®tico) bem como os coment?írios feitos durante o debate, no vol. I dos Salzburg Studies in the Phi- losophy of Science, Salzburg, 1967 (anal?¡tico-sint?®tico). Minha ob- je?º?úo principal ?® a de que as distin?º?Áes, embora agrad?íveis aos esp?¡ritos simples, s?úo irrelevantes para o processo da ci?¬ncia e de que a tentativa de emprestar-lhes for?ºa pode ser empecilho ao progresso.

XV Enfim, a exposi?º?úo feita nos cap?¡tulos VI-XIII atesta que a vers?úo do pluralismo de Mill, dada por Popper, n?úo est?í em concord?óncia com a pr?ítica cient?¡fica e destruiria a ci?¬ncia, tal como a conhecemos. Existindo a ci?¬ncia, a raz?úo n?úo po- de reinar universalmente, nem a sem-raz?úo pode ver-se ex- clu?¡da. Esse tra?ºo da ci?¬ncia pede uma epistemologia an?ír- quica. A compreens?úo de que a ci?¬ncia n?úo ?® sacrossanta e de que o debate entre ci?¬ncia e mito se encerrou sem vit??ria para qualquer dos lados empresta maior for?ºa ao anarquis- mo.

A incomensurabilidade, que examinarei em seguida, rela- De fato, uma das mais comuns obje?º?Áes n?úo apenas do uso das teorias incomensur?íveis, mas at?® mesmo ?á id?®ia de que existem teo- rias incomensur?íveis na hist??ria da ci?¬ncia, ?® o temor de que elas restrinjam fortemente a efic?ícia do argumento tradicional, n?úo- dial?®tico. Examinemos, pois, um pouco mais atentamente os pa- dr?Áes cr?¡ticos que, ao ver de alguns, constituem o conte??do de um argumento `racional’. De maneira particular, examinemos os pa- dr?Áes da escola de Popper, cuja raciomania, aqui, mais de perto nos interessa. Isso nos preparar?í para o est?ígio final do debate da quest?úo que p?Áe, na ci?¬ncia, de um lado, as metodologias que se O racionalismo cr?¡tico, a metodologia positivista mais li- beral hoje existente, ou ?® uma id?®ia penetrada de significado ou n?úo passa de uma cole?º?úo de frases feitas (como `verdade’, `inte- gridade profissional’, `honestidade intelectual’, e assim por dian- Quem teria coragem ou mesmo perspic?ícia para declarar que

talvez a `verdade’ n?úo seja importante e talvez chegue a ser indese- j?ível? No primeiro caso, h?í de ser poss?¡vel apresentar regras, pa- dr?Áes, restri?º?Áes que nos permitam distinguir o comportamento cr?¡tico (pensar, cantar, escrever pe?ºas) de outros tipos de compor- tamento, de modo a dispormos de meios para descobrir as a?º?Áes ir- racionais e corrigi-las com o aux?¡lio de sugest?Áes concretas. N?úo ?® dif?¡cil apresentar os padr?Áes de racionalidade defendidos pela es- Esses padr?Áes s?úo padr?Áes de cr?¡tica: o debate racional con- siste em tentativa de criticar e n?úo em tentativa de demonstrar ou de tornar prov?ível. Cada passo dado no sentido de proteger da cr?¡tica certa concep?º?úo, de faz?¬-la segura ou `bem fundada’, ?® pas- so que afasta da racionalidade. Cada passo que a torne vulner?ível ?® passo desej?ível. Al?®m disso, recomenda-se abandonar id?®ias que hajam sido consideradas vazias e ?® proibido conserv?í-las em face da cr?¡tica severa e bem sucedida, a menos que se possa encontrar contra-argumentos adequados. Desenvolva suas id?®ias de maneira que elas possam ser criticadas; ataque-as impiedosamente; n?úo ten- te proteg?¬-las e sim exibir seus pontos fracos; elimine-as t?úo logo esses pontos fracos se hajam posto manifestos ÔÇö s?úo essas algu- Essas regras se tornam definidas e pormenorizadas quando nos voltamos para o campo da filosofia da ci?¬ncia e, especialmen- No dom?¡nio das ci?¬ncias naturais, a cr?¡tica associa-se ao ex- perimento e ?á observa?º?úo. O conte??do de uma teoria ?® a soma to- tal dos enunciados b?ísicos que a contradizem; ?® a classe de seus falseadores potenciais. Maior conte??do equivale a maior vulnera- bilidade e, conseq??entemente, as teorias de amplo conte??do s?úo de preferir ?ás teorias de conte??do reduzido. ?ë desej?ível o au- mento de conte??do, cabendo evitar o decr?®scimo desse conte??do. Uma teoria q ue contrarie um enunciado b?ísico a- ceito deve ser abandonada. Pro?¡bem-se as hip??teses ad hoc ÔÇö e

assim por diante. Uma ci?¬ncia que aceita as regras de um empiris- mo cr?¡tico dessa esp?®cie desenvolver-se-?í da maneira a seguir ex- Parte-se de um problema, como o problema dos planetas, ao tempo de Plat?úo. Esse problema (que ser?í examinado de forma algo idealizada) n?úo ?® fruto de curiosidade, mas ?® um resultado teor?®- tico. Deve-se ao fato de n?úo se terem concretizado certas expectati- vas: de um lado, parece claro que as estrelas s?úo divinas e, portan- to, cabe esperar que se comportem de maneira ordenada e obedi- ente a regras; de outra parte, n?úo ?® f?ícil descobrir, no comporta- mento das estrelas, uma regularidade discern?¡vel. Os planetas, tan- to quanto se pode perceber, movem-se de maneira ca??tica. De que modo conciliar esse fato com a expectativa e com os princ?¡- pios sobre que essa expectativa se ap??ia? Ser?í a expectativa desca- Importa assinalar que os elementos do problema n?úo s?úo simplesmente dados. O `fato’ da irregularidade, por exemplo, n?úo ?® percept?¡vel sem mais. Para descobri-la n?úo basta que a pessoa te- nha olhos normais ÔÇö esp?¡rito agudo. Ele s?? se torna objeto de aten?º?úo em virtude de certa expectativa. Mais precisamente: existe o fato da irregularidade porque havia uma expectativa de regulari- dade. Afinal de contas, o termo `irregularidade’ s?? adquire sentido em face de uma regra. No caso em pauta, a regra (que ?® a mais es- pec?¡fica parte da expectativa) afirma o movimento circular com velocidade angular constante. As estrelas fixas amoldam-se a essa regra e a ela tamb?®m se acomoda o Sol, se tra?ºarmos a sua trajet??- ria com rela?º?úo ?ás estrelas fixas. Os planetas n?úo se curvam ?á re- gra, nem diretamente, com respeito ?á Terra, nem indiretamente, (No caso do problema em exame, a regra ?® formulada ex- plicitamente e pode ser discutida. Nem sempre assim ocorre. Re- conhecer uma cor como vermelho ?® algo que se torna poss?¡vel

Fatos, em crescente n??mero, s?úo descobertos (ou constru?¡dos N?úo h?í garantia de que o homem venha a resolver todos os pro- blemas e a substituir cada teoria refutada por sucessora capaz de satisfazer as condi?º?Áes formais. A inven?º?úo de teorias depende de nosso talento e de outras circunst?óncias fortuitas, como, digamos, uma equilibrada vida sexual. Contudo, enquanto esses talentos se manifestarem, o esquema referido fornece correta vers?úo do cres- cer de um conhecimento que satisfaz as regras do racionalismo Ora, a esta altura, cabe levantar duas indaga?º?Áes: 1. ?ë desej?ível viver de acordo com as regras de um raciona- 2. ?ë poss?¡vel ter, ao mesmo tempo, a ci?¬ncia tal como a co- No que me toca, entendo ser a primeira quest?úo mui- to mais importante que a segunda. Certo ?® que a ci?¬ncia e outras

institui?º?Áes que se mostram crescentemente frustradoras e aca- nhadas desempenham importante papel em nossa cultura e ocu- pam o centro de interesse de muitos fil??sofos (a maioria dos fil??- sofos ?® oportunista). Assim, as id?®ias da escola de Popper surgi- ram com a generaliza?º?úo das solu?º?Áes propostas para problemas epistemol??gicos e metodol??gicos. O racionalismo cr?¡tico nasceu da tentativa de solver o problema de Hume e de compreender a revolu?º?úo einsteiniana, sendo, depois, estendido para o campo da pol?¡tica e at?® mesmo para o da conduta na vida privada. (Parece, portanto, justificada a posi?º?úo de Habermas e outros, que v?¬em Popper como um positivista.) Esse procedimento poder?í satisfa- zer um fil??sofo de escola, que olha a vida atrav?®s das lentes de seus pr??prios problemas t?®cnicos e s?? reconhece o ??dio, o amor, a feli- Contudo, se considerarmos os interesses do homem e, acima de tu- do, a quest?úo de sua liberta?º?úo (liberta?º?úo da fome, do desespero, da tirania de emperrados sistemas de pensamento e n?úo a acad?¬mi- ca `liberdade do querer’), ent?úo, estaremos procedendo da pior Com efeito, n?úo ?® admiss?¡vel que a ci?¬ncia tal como a co- nhecemos, ou a `busca da verdade’, no estilo da filosofia tradicio- nal, venha a criar um monstro? N?úo ?® admiss?¡vel que prejudique o homem, transformando-o em m?íquina miser?ível, hostil, ego?¡sta, desprovida de encanto e de humor? `N?úo ?® poss?¡vel’, pergunta Ki- erkegaard, `que minha atividade como observador objetivo [ou cr?¡- tico-racionaI] da natureza diminua minha fortaleza de ser huma- no?l Suspeito que a resposta a todas essas indaga?º?Áes deva ser a- firmativa e creio que se faz urgentemente necess?íria uma reforma das ci?¬ncias que as torne mais an?írquicas e mais subjetivas (no N?úo s?úo esses, por?®m, os problemas que desejo agora exa- minar. No presente ensaio, limitar-me-ei ?á segunda pergunta e in- dagarei: ?® poss?¡vel ter, ao mesmo tempo, a ci?¬ncia tal como a conhecemos e as regras de um racionalismo cr?¡tico tal como

o descrito? A essa pergunta a resposta parece ser um firme e sono- Para come?ºar, vimos, embora de passagem, que, freq??en- temente, o real desenvolvimento das institui?º?Áes, id?®ias, pr?íticas e assim por diante n?úo ocorre a partir de um problema, por?®m a partir de uma atividade sem import?óncia ÔÇö a do jogo, por exemplo ÔÇö que, como efeito colateral, conduz a desenvolvimentos posteriormente Caber?í excluir esses desenvolvimentos? Se os excluirmos, isso n?úo reduzir?í consideravelmente o n??mero de nossas rea?º?Áes de adap- Em segundo lugar, tamb?®m vimos, nos cap?¡tulos VIII-XII, que um princ?¡pio estrito de falseamento ou um `falsear ing?¬nuo’, como o denomina Lakatos3, eliminaria a ci?¬ncia tal como a conhecemos e As teorias que destroem um ponto de vista amplo e bem enraiza- do e passam a dominar, restringem-se, inicialmente, a uma aca- nhada esfera de fatos, a uma s?®rie de fen??menos paradigm?íticos nota 1 ao cap?¡tulo IX) e, em termos gerais, ?® plaus?¡vel: buscando elaborar uma teoria nova, precisamos, de in?¡cio, dar um passo atr?ís em rela?º?úo ?á evid?¬ncia e reconsiderar o problema da observa?º?úo (o ponto foi discutido no cap?¡tulo XII). Posteriormente, a teoria ?® estendida a outros dom?¡nios, mas a forma de extens?úo raramente ?® determinada pelos elementos que constituem o conte??do de suas predecessoras. O aparato conceptual da teoria, que emerge lentamente, logo come?ºa a definir seus pr??prios problemas, sendo esquecidos ou postos de lado como irrelevantes os proble- mas, os fatos e as observa?º?Áes anteriores (cf. os dois exem- plos em nota 1 ao cap?¡tulo IX e a exposi?º?úo que se faz na parte final do pr??ximo cap?¡tulo). Trata-se de um desenvol-

vimento inteiramente natural e contra ele n?úo h?í obje?º?Áes. Com efeito, por que haver?í uma ideologia de sentir-se restringida por problemas antigos que, de qualquer modo, s?? faziam sentido no contexto abandonado e agora se afiguram tolos e artificiais? Por que ir?í a ideologia sequer considerar os `fatos’ que originaram problemas dessa esp?®cie ou desempenharam papel em sua solu- ?º?úo? Por que n?úo proceder?í ?á sua pr??pria maneira, delineando su- as tarefas e compondo seu pr??prio dom?¡nio de `fatos’? Afinal, su- p?Áe-se que uma teoria abrangente envolva tamb?®m uma ontologia com o prop??sito de delimitar o que existe e assim delimitar o ?óm- bito de fatos poss?¡veis e poss?¡veis interroga?º?Áes. O desenvolvi- Concep?º?Áes novas logo enveredam por novas dire?º?Áes e encaram com desagrado os problemas anteriores (Sobre que base se ap??ia a Terra? Qual o peso espec?¡fico do flog?¡stico? Qual a velocidade ab- soluta da Terra?) e os anteriores fatos (a maior parte dos fatos des- critos no Malleus Maleficarum ÔÇö cap?¡tulo 9, nota 1 ÔÇö os fatos do vodu ÔÇö- cap?¡tulo 4, nota 8 – as propriedades do flog?¡stico ou do ?®ter), que tanto ocuparam o esp?¡rito de pensadores de outras ?®po- cas. E quando prestam aten?º?úo a teorias precedentes, as concep- ?º?Áes novas tentam dispor-lhes o n??cleo factual da maneira j?í des- crita, recorrendo ?á ajuda de hip??teses ad hoc; aproxima?º?Áes ad hoc, redefini?º?úo de termos ou simplesmente afirmando, sem mais apro- fundado exame da quest?úo, que o n??cleo `decorre’ de novos prin- c?¡pios b?ísicos4. S?úo `enxertados em velhos programas com os O resultado de todos esses procedimentos ?® uma interes- sante ilus?úo epistemol??gica: o imaginado conte??do das teorias anterio- res (que ?® a interse?º?úo das lembradas conseq???¬ncias daquelas te- orias com o dom?¡nio de problemas e fatos recentemente re- conhecidos) diminui e pode reduzir-se at?® o ponto de se tor- nar menor que o imaginado conte??do das novas ideologias (que s?úo as conseq???¬ncias reais dessas ideologias, plus todos

aqueles `fatos’, leis, princ?¡pios que a elas se ligam por hip??teses ad hoc, aproxima?º?Áes ad hoc ou pela afirma?º?úo sentenciosa de algum influente f?¡sico ou fil??sofo da ci?¬ncia – e que propriamente per- tencem ?á concep?º?úo anterior). Comparando o velho ao novo, pode- r?í parecer que a rela?º?úo de conte??dos emp?¡ricos semelha-se ao se- guinte

ou talvez ao seguinte quando, em verdade, muito mais se assemelha ao seguinte

representando D o dom?¡nio de problemas e fatos pr??prios da an- tiga teoria, ainda lembrados, mas que foram distorcidos de manei- ra a se acomodarem ?ás novas linhas dominantes. Essa ilus?úo ?® a respons?ível por teimosamente persistir a exig?¬ncia de conte??do maior6.

nista’, quando posto em paralelo com tais leis, tem important?¡ssi- ma fun?º?úo no desenvolvimento daquelas mesmas teorias que hoje encaramos como partes essenciais de nosso conhecimento acerca da natureza. Esses `desvios’, esses `erros’ s?úo pr?®-condi?º?Áes de progresso. Permitem que o conhecimento sobreviva no complexo e dif?¡cil mundo que habitamos, permitem que nos mantenhamos como Sem freq??ente ren??ncia ?á raz?úo, n?úo h?í progresso. Id?®ias que hoje constituem a base da ci?¬ncia s?? existem porque houve coisas co- mo o preconceito, a vaidade, a paix?úo; porque essas coisas se op?Áem ?á raz?úo; e porque foi permitido que tivessem tr?ónsito. Temos, por- tanto, de concluir que, mesmo no campo da ci?¬ncia, n?úo se deve e n?úo se pode permitir que a raz?úo seja exclusiva, devendo ela, freq??en- tes vezes, ser posta de parte ou eliminada em prol de outras enti- dades. N?úo h?í uma s?? regra que seja v?ílida em todas as circuns- t?óncias, nem uma inst?óncia a que se possa apelar em todas as situ- Importa lembrar, agora, que essa conclus?úo foi retirada sob condi?º?úo de que a ci?¬ncia, tal como a conhecemos, permane?ºa inal- terada e que se permita sejam os processos por ela usados os de- terminadores de seu desenvolvimento futuro. Dada a ci?¬ncia, a ra- z?úo n?úo pode ser universal e a sem-raz?úo n?úo pode ver-se exclu?¡- da. Essa peculiar caracter?¡stica do desenvolvimento da ci?¬ncia em- presta forte apoio a uma epistemologia an?írquica. A ci?¬ncia n?úo ?® sacrossanta. As restri?º?Áes que imp?Áe (e s?úo muitas essas restri?º?Áes, embora n?úo seja f?ícil relacion?í-las) n?úo s?úo necess?írias para que venhamos a alcan?ºar gerais, coerentes e frut?¡feras concep?º?Áes do mundo. H?í mitos, h?í dogmas de teologia, h?í metaf?¡sica e h?í mui- tas outras maneiras de elaborar uma cosmovis?úo. Faz-se claro que uma conveniente intera?º?úo entre a ci?¬ncia e essas cosmovis?Áes `n?úo cient?¡ficas’ necessitar?í do anarquismo ainda mais que a pr??- pria ci?¬ncia. E, assim, o anarquismo n?úo ?® apenas poss?¡vel, por?®m necess?írio, tanto para o progresso interno da ci?¬ncia, quanto para o desenvolvimento de nossa cultura como um todo. E a raz?úo, por fim,

re??ne-se a todos aqueles outros monstros abstratos, como Obri- ga?º?úo, Dever, Moralidade, Verdade e seus antecessores mais con- cretos, os Deuses, que j?í foram usados para intimidar o homem e restringir-lhe o livre e feliz desenvolvimento ÔÇö e se vai desvane- cendo…

recer uma explica?º?úo relativista da cl?íssica teoria da perturba- ?º?úo, com o grau de aproxima?º?úo alcan?ºado por Laplace e Po- incar?®, enquanto as implica?º?Áes de id?®ias de Lorentz sobre o que se passa a n?¡vel at??mico (teoria do el?®tron dos metais) tamb?®m n?úo foram explicadas, mas viram-se gradualmente substitu?¡das pela teoria qu?óntica: Lorentz foi `superado’ n?úo por um, mas por pelo menos dois diferentes programas mu- tuamente incomensur?íveis. Lakatos, na espl?¬ndida reconstru- ?º?úo que faz do programa de pesquisa de Cop?®rnico ÔÇö do Commentariolus ao De Revol. ÔÇô nota progressivas altera?º?Áes, mas tal s?? ocorre porque ele omite os problemas din?ómico e ??tico para se concentrar na cinem?ítica pura e simples. Pouco sur- preende que tanto Zahar quanto Lakatos guardem a impres- s?úo de que a condi?º?úo de conte??do continua satisfeita. Cf., tamb?®m, minha breve nota `Zahar on Einstein’, in the British 7. Cf. `Problems of Empiricism’, Parte II, op. cit., se?º?Áes 9 e 10.

XVI Weil er uns sonst niederhaut (Do coro introdut??rio de Judite e Holofernes, de Nestroy.) Tamb?®m n?úo escapa a essa conclus?úo a engenhosa tentativa de Lakatos, feita no sentido de erigir metodologia que (a) n?úo emite ordens, mas (b) coloca restri?º?Áes a nossas ativida- des ampliadoras de conhecimento. De fato, a filosofia de Lakatos s?? se afigura liberal porque ?® um anarquismo disfar?ºa- do. E seus padr?Áes, abstra?¡dos a partir da ci?¬ncia moderna, n?úo podem ser vistos como ?írbitros imparciais na pend?¬ncia entre a ci?¬ncia moderna e a ci?¬ncia aristot?®lica, mito, a m?ígi- ca, a religi?úo, etc.

Eu teria encerrado, a esta altura, meu ensaio em defesa de um anarquismo epistemol??gico, n?úo fosse o fato de n?úo se notar redu?º?úo no empenho com que, em ci?¬ncia e filosofia, se busca o legal e o ordenado e n?úo tivesse tal empenho ganho um novo e h?íbil defensor na pessoa de Imre Lakatos. A tarefa que Lakatos se prop?Áe ÔÇö fazer crescer o n??mero dos Amigos da Raz?úo e restituir confian?ºa a racionalistas hesitantes e apreensivos ÔÇö ?® tarefa que, sob certo prisma, n?úo se rodeia de dificuldades. Bastam, com efei- to, umas poucas frases bem torneadas para despertar o temor do Caos na mais esclarecida audi?¬ncia e lev?í-la a desejar ardentemen- te regras simples e dogmas simples que lhe seja dado seguir sem a necessidade de, a todo instante, reconsiderar as quest?Áes. Alguns dos mais declarados anarquistas confiam, como vimos, na raz?úo, na ci?¬ncia e at?® mesmo na indu?º?úol. E a gera?º?úo mais jovem, que em t?úo altos brados proclama seu desprezo pela autoridade, n?úo es- t?í preparada para viver sem a autoridade da Raz?úo. Devo confessar que esse quase universal anseio por diretriz `objetiva’ ?®, para mim, fonte de perplexidade. N?úo me surpreende quando especialistas a- van?ºados em anos, com uma reputa?º?úo a manter (ou a ganhar ra-

pidamente, antes que morram) e muito naturalmente confundindo o conhecimento com o rigor mortis mental, olham com m?í vontade para tentativas de afrouxamento da ci?¬ncia ou para tentativas de demonstrar que a grande ci?¬ncia (que n?úo ?® a ci?¬ncia das escolas, nem a ci?¬ncia da Rand Corporation, e certamente n?úo ?® a ci?¬ncia de Fallowfield ou da London School of Economics) ?® uma aven- tura intelectual que n?úo conhece limites e n?úo reconhece regras, nem mesmo as regras da l??gica. Perturba-me um pouco, entretan- to, ver o fervor com que estudantes e outros n?úo-iniciados se ape- gam a frases envelhecidas e princ?¡pios decr?®pitos, como se lhes fosse insuport?ível uma situa?º?úo em que sobre eles pesa responsa- bilidade por toda a?º?úo e em que s?úo causa original de toda regulari- dade de esp?¡rito. Considerar essa atitude como um apelo ?á raz?úo ?® algo que leva a encontrar uma audi?¬ncia atenta, ainda que essa mesma audi?¬ncia seja inteiramente desprovida de raz?úo. Isso ?® o que pretendo significar, ao dizer que a tarefa a si mesmo proposta por Lakatos n?úo ?®, sob certos aspectos, dif?¡cil. Sob outro ?óngulo, entretanto, a tarefa ?® assaz dif?¡cil: muito dif?¡cil ?® vencer os obst?í- culos que a pesquisa recente descobriu estarem colocados diante da raz?úo e elaborar uma forma de racionalismo capaz de medir-se com eles. E, n?úo obstante, ?® exatamente isso que Lakatos procura Lakatos critica as metodologias existentes e chega a resulta- do quase id?¬ntico ao que alcancei. Considerando o modo como s?úo eliminadas as teorias, eis o que escreve: `Se contemplarmos a hist??ria da ci?¬ncia, se tentarmos perceber como alguns dos mais not??rios falseamentos ocorreram, teremos de chegar ?á conclus?úo de que alguns deles s?úo claramente irracionais ou de que se ap??i- am em princ?¡pios de racionalidades diversos dos que acabamos de examinar’2. Os `princ?¡pios de racionalidade que acabamos de examinar’ s?úo os princ?¡pios do racionalismo cr?¡tico, tal co- mo esbo?ºado na se?º?úo anterior, mas Lakatos estava prepa- rado para estender suas observa?º?Áes a metodologias outras e a outros eventos que n?úo o falseamento3. ?ë ele um dos pou-

cada por meio de argumentos quase id?¬nticos aos que levaram a inicialmente `assegurar-lhe espa?ºo livre': se ?® desavisado rejeitar teorias err??neas no momento em que surgem, de vez que podem desenvolver-se e aperfei?ºoar-se, tamb?®m desavisado ?® rejeitar pro- gramas de pesquisa que revelam tend?¬ncia de deteriora?º?úo, pois que podem recuperar-se e atingir imprevisto esplendor (a borbole- ta nasce quando a lagarta atingiu o est?ígio extremo de degenera- ?º?úo). Conseq??entemente, n?úo se pode racionalmente criticar um ci- entista que se apega a um programa em degeneresc?¬ncia e n?úo h?í Lakatos aceita este ponto. Acentua que ?® poss?¡vel algu?®m `apegar-se racionalmente a um programa em degenera?º?úo at?® que este seja dominado por um rival e mesmo posteriormente’10, e que `programas podem libertar-se da fossa da degenera?º?úo’11. ?ë certo que a ret??rica de Lakatos freq??entemente o leva para al?®m do es- perado, mostrando que ele ainda n?úo se acomodou a suas pr??prias inclina?º?Áes liberais12. Todavia, quando a quest?úo se coloca de forma expl?¡cita, a resposta ?® clara: a metodologia dos programas de pesquisa oferece padr?Áes que auxiliam o cientista na avalia?º?úo da situa?º?úo hist??rica em que ele toma decis?Áes; n?úo cont?®m regras Assim, a metodologia dos programas de pesquisa dife- re radicalmente do indutivismo, do falseamentismo e de ou- tras filosofias ainda mais paternalistas. O indutivismo exige o abandono das teorias a que falta suporte emp?¡rico. O falseamen- tismo exige o abandono de teorias que deixem de apresentar maior conte??do emp?¡rico do que suas predecessoras. Todos exigem o abandono de teorias incoerentes ou de baixo conte??- do emp?¡rico. A metodologia dos programas de pesquisa, como vimos, n?úo inclui essas exig?¬ncias, nem pode inclu?¡-las. Seu rationale ÔÇö `proporcionar espa?ºo livre’ ÔÇö e os argumentos que es- tabelecem a necessidade de padr?Áes mais liberais tornam imposs?¡- vel especificar as condi?º?Áes em que um programa de pesquisa deve ser abandonado ou em que se torna irracional continuar a dar-lhe

apoio. Qualquer op?º?úo do cientista ser?í racional, porque ?® compa- t?¡vel com os padr?Áes. A `raz?úo’ deixa de exercer influ?¬ncia sobre as a?º?Áes do cientista. (Fornece, entretanto, a terminologia para a descri?º?úo dos resultados dessas a?º?Áes.) Permitam-me rememorar os passos que levam a esse resul- tado surpreendente. O primeiro passo corresponde ?á defini?º?úo de raz?úo (`teoria da racionalidade’), que ?® aceita por Lakatos. Coloca- se nos padr?Áes que ele prop?Áe para aferi?º?úo comparativa dos pro- gramas de pesquisa. O segundo passo corresponde ?á anota?º?úo14 de que os padr?Áes, considerados em si mesmos, n?úo t?¬m for?ºa no campo da heur?¡stica. A raz?úo, tal como a define Lakatos, n?úo ori- enta diretamente as a?º?Áes do cientista. Dada a raz?úo e nada mais, `tudo vale’. Segue-se da?¡ que n?úo h?í diferen?ºa `racionalmente’ per- cept?¡vel entre a posi?º?úo de Lakatos e a minha, sempre consideran- Contudo, h?í, por certo, grande diferen?ºa na ret??rica e diferimos tamb?®m quanto a nossa atitude em face da `liberdade’ de pesqui- sa15, que emerge de nossos `padr?Áes’. Passo a examinar mais de A caracter?¡stica distintiva do anarquismo pol?¡tico ?® sua oposi- ?º?úo ?á ordem de coisas estabelecidas: o Estado, as institui- ?º?Áes, as ideologias que fundamentam e glorificam essas ins- titui?º?Áes. A ordem estabelecida h?í de ser destru?¡da, de sor- te a que a espontaneidade humana encontre campo aberto e possa exercitar seu direito de iniciar livremente a a?º?úo, de escolher livremente o que lhe pare?ºa melhor. Por vezes, al- gu?®m deseja superar n?úo apenas algumas circunst?óncias so- ciais, mas todo o mundo f?¡sico, visto como corrompido, ir- real, ef?¬mero e vazio de import?óncia. Esse anarquismo religi- oso ou escatol??gico nega n?úo apenas as leis sociais, mas as leis morais, f?¡sicas e perceptivas, e delineia um modo de exist?¬ncia que n?úo mais se prenda ao corpo, a suas rea?º?Áes e necessidades. A viol?¬ncia, sob forma pol?¡tica ou espiritual, desempenha importante papel em quase todas as formas de anarquismo. A viol?¬ncia ?® necess?íria para

de permanente para com qualquer institui?º?úo, nem permanente avers?úo contra ela. Como o dada?¡sta, a quem se assemelha muito mais do que se assemelha ao anarquista pol?¡tico, o anarquista epis- temol??gico `n?úo apenas n?úo tem programa [como ?®] contra todos os programas’18, embora, por vezes, se mostre o mais exaltado de- fensor do status quo ou de seus opositores: `para ser um verdadeiro dada?¡sta h?í que ser tamb?®m um antidada?¡sta’. Seus objetivos man- t?¬m-se os mesmos ou se alteram na depend?¬ncia do argumento, do t?®dio, de uma experi?¬ncia de convers?úo, do desejo de impres- sionar a amante ou de outros fatores dessa ordem. Dado um obje- tivo qualquer, o anarquista epistemol??gico talvez tente atingi-lo com o aux?¡lio de grupos organizados, talvez sozinho; talvez recor- ra ?á raz?úo, ?á emo?º?úo, ao rid?¡culo, a uma `atitude de s?®ria preocupa- ?º?úo’ ou a quaisquer outros. meios inventados pelos humanos para obter o que h?í de melhor em seus semelhantes. Seu passatempo favorito ?® o de perturbar os racionalistas, descobrindo raz?Áes for- tes para fundamentar doutrinas desarrazoadas. N?úo h?í concep?º?úo `absurda’ ou `imoral’ que ele se recuse a examinar ou acompanhar e m?®todo algum ?® visto como indispens?ível. Aquilo a que se op?Áe de maneira decidida e absoluta s?úo os padr?Áes universais, as leis universais, as id?®ias universais, como `Verdade’, `Raz?úo’, `Justi?ºa’, `Amor’, e o comportamento que essas id?®ias acarretam, conquanto n?úo deixe de admitir que, freq??entes vezes, ?® de boa pol?¡tica agir como se tais leis (tais padr?Áes, tais id?®ias) existissem e como se lhes desse cr?®dito. Talvez que o anarquista epistemol??gico se ligue ao anarquista religioso na oposi?º?úo ?á ci?¬ncia e ao mundo material e talvez que supere qualquer vencedor de Pr?¬mio Nobel na defesa vi- gorosa da pureza cient?¡fica. N?úo tem ele obje?º?úo a ver, na textura do mundo, tal como descrito pela ci?¬ncia e revelado por seus pr??prios sentidos, uma quimera, por detr?ís da qual se oculta uma realidade mais profunda e, talvez, espiritual, ou simples teia de sonhos, que na- da revela e nada esconde. Devota grande interesse a procedimentos, fen??menos e experi?¬ncias do tipo dos relatados por Carlos Cas-

ta??eda19, indicadores de que as percep?º?Áes podem ser dispostas de maneira fora do comum e que a escolha de uma particular dispo- si?º?úo `correspondente ?á realidade’, embora n?úo sendo arbitr?íria (depende, quase sempre da tradi?º?úo), certamente n?úo ?® mais `ra- cional’ ou mais `objetiva’ do que a escolha de outra disposi?º?úo qualquer: Rabbi Akiba que, em transe ext?ítico, passa de uma a ou- tra esfera celestial e, continuando a ascender, v?¬-se, finalmente, face a face com Deus em todo seu esplendor20, faz observa?º?Áes genu?¡- nas, dependendo de aceitarmos sua maneira de vida como forma de medir a realidade; e seu esp?¡rito ?® t?úo independente de seu cor- po quanto o asseveram as observa?º?Áes escolhidas21. Aplicando es- se ponto de vista a um assunto, espec?¡fico, tal como a ci?¬ncia, o anarquista epistemol??gico vem a constatar que o seu desenvolvi- mento, dado como aceito (p. ex., do Mundo Fechado para o `Uni- verso Infinito’), s?? ocorreu porque os militantes da ci?¬ncia inad- vertidamente usaram a filosofia an?írquica no interior das frontei- ras de sua esfera profissional ÔÇö alcan?ºaram ?¬xito porque n?úo ad- mitiram ver-se limitados por `leis da raz?úo’, `padr?Áes de racionali- dade’ ou `imut?íveis leis da natureza’. Sob todos esses desmandos, coloca-se a convic?º?úo do anarquista, segundo a qual o homem s?? deixar?í de ser escravo para ganhar uma dignidade que ?® mais do que exerc?¡cio de cauteloso conformismo quando se tornar capaz de escapar de categorias e convic?º?Áes fundamentais, inclusive da- quelas que, supostamente, o fazem humano. `A compreens?úo de que raz?úo e anti-raz?úo, sentido e sem sentido, inten?º?úo e acaso, consci?¬ncia e n?úo-consci?¬ncia [e, acrescentaria eu, humanitarismo e anti-humanitarismo] s?úo, em conjunto, partes necess?írias de um O anarquista epistemol??gico aceita esse ponto, embora n?úo se expresse de forma t?úo contida. N?úo h?í como, neste ensaio, a- companhar todas as implica?º?Áes dessa radical concep?º?úo, que ?® racional no sentido de que toda a?º?úo por ela recomendada po- de ser defendida com recurso aos mais primorosos argumen- tos (afinal, a raz?úo ?® escrava das paix?Áes). Eu, diferentemente,

procurarei mostrar como um anarquista epistemol??gico pode atu- ar em espec?¡ficas situa?º?Áes-problema, admitido que ele se haja temporariamente inclinado por escolher certo objetivo e por acei- Imaginemos que esse anarquista esteja vivendo ao in?¡cio do s?®culo XVII e que h?í pouco passou a conhecer a obra principal de A que procedimento se opor?í? Que dir?í? O que ele diga estar?í na depend?¬ncia de seus interesses, das `leis sociais’, da filosofia social, das opini?Áes referentes ao quadro contempor?óneo que ele resol- veu aceitar, no momento. H?í in??meras maneiras de ele justificar es- sas leis, essas opini?Áes, essa filosofia, em face dos que solicitem uma justifica?º?úo ou, quando menos, um argumento. N?úo h?í, de Admitamos, ainda, que nosso anarquista n?úo tenha a aten- ?º?úo voltada apenas para desenvolvimentos t?®cnicos, mas tamb?®m para a paz social e d?¬-se conta de que a paz social pode ser pertur- bada por desenvolvimentos ocorridos em rec??nditos campos (no- te-se que as express?Áes `tenha a aten?º?úo voltada’ e `d?¬-se conta’ e o que mais consta como descri?º?úo de sua atividade s?úo descri?º?Áes apoiadas no senso comum, que acarretam atitude metodol??gica de que o anarquista n?úo partilha: ele ?® como um agente secreto du- plo, que atua em favor de um e outro dos lados hostis). Passar?í ele, ent?úo, a estudar o potencial ideol??gico da doutrina coper- nicana, considerada a exist?¬ncia de classes novas e algo agitadas que podem ver em Cop?®rnico um defensor de seus interesses, mas classes que tamb?®m podem ser atingidas e domadas por meio de argumentos. Convencido da `racionalidade’ de seus opo- nentes (contanto que as raz?Áes n?úo sejam dadas em lingua- gem seca e acad?¬mica), ele preparar?í divertidos folhetos (`divertidos’ do ponto de vista dos leitores) acentuando os pontos fracos da teoria copernicana e reunir?í os intelectu- ais mais ativos para que essa tarefa mais eficientemente se complete. Talvez que ele alcance ?¬xito, embora `seja muito

dif?¡cil fazer ruir um programa de pesquisa apoiado por cientistas cheios de talento e imagina?º?úo’22: `se dois grupos que defendem diferentes programas de pesquisa entram em competi?º?úo, aquele que disponha de maior talento criador [e, importa acrescentar, maior vis?úo das condi?º?Áes sociais e da psique dos oponentes] ter?í mais probabilidade de vencer … o caminho da ci?¬ncia ?® tra?ºado antes de tudo pela imagina?º?úo criadora e n?úo pelo universo de fa- tos, que nos cerca’23. Talvez que ele aja mais diretamente, defen- dendo o ideal de estabilidade que inspira o ponto de vista aristot?®li- co, ainda aceito por grandes grupos da popula?º?úo total. Dessa maneira, acompanhando o jogo de alguns racionalistas e utilizando as leis sociais como tempor?írias alavancas, o anarquista destr??i ra- cionalmente a ?ónsia de progresso experimentada por outros racio- Interessante assinalar que o cardeal Belarmino, embora es- tivesse longe de ser um anarquista, agiu guiado por considera?º?Áes muito semelhantes ?ás agora esbo?ºadas: ele deseja a paz social. `Ga- lileu n?úo mostrou muita preocupa?º?úo com o povo comum e igno- rante, com o ÔÇ£rebanhoÔÇØ como dizia ele, em sua esnobe atitude pa- ra com todos que n?úo eram grandes matem?íticos e experimenta- dores de sua estirpe. Ainda que, tal como sugeria, o povo perdesse a f?®, caso viesse a saber que a Terra se move em torno do Sol a uma velocidade de 29 quil??metros por segundo, continuaria a doutrina copernicana a dever ser louvada, com prop??sito ou sem prop??sito. O homem comum … era caro ao cora?º?úo de Belarmino e ele n?úo podia compreender a precipita?º?úo impetuosa de Galileu, a for?ºar um ponto que poderia perturbar a f?® dos simples, sendo- lhe poss?¡vel reservar suas intui?º?Áes ÔÇö como o fazem os cientistas de hoje ÔÇö para debate e tranq??ilo estudo entre colegas. Belarmino tinha, indubitavelmente, o direito de reclamar alguma prova mais s??lida que as luas de J??piter, as fases de V?¬nus, as manchas do Sol, uma vez que tudo isso muito bem se acomodava ao sistema de Tycho Brahe, permitindo que a Terra continuasse im??vel … Essa era a orienta?º?úo adotada pelos astr??nomos jesu?¡tas’… 24

(Infelizmente [ou felizmente?] esses astr??nomos contentavam-se n?úo compreendiam o valor publicit?írio das previs?Áes e dos espe- t?ículos dram?íticos, nem recorriam aos poderes intelectuais e soci- ais das novas classes que emergiam. Perderam por omiss?úo.) Admitamos de outra parte, que nosso anarquista deteste as peias emocionais, intelectuais, sociais, a que seus contempor?óneos est?úo presos; que as encare como obst?ículo e n?úo como pressu- posto de uma vida feliz e realizada; e que, sendo um intelectual e n?úo um general ou um bispo, ele prefira alterar a situa?º?úo, sem sair de seu gabinete. Em tal hip??tese, ele buscar?í pontos de vista que se oponham a alguns pressupostos fundamentais da ideologia or- todoxa e que seja poss?¡vel usar como alavancas para subverter essa ideologia. Ele compreender?í que id?®ias abstratas s?? podem con- verter-se em alavancas desse tipo se forem elementos de uma pr?í- tica, de uma `forma de vida’ que (a) possa associ?í-las a eventos de influ?¬ncia e (b) tenha, ela pr??pria, alguma influ?¬ncia social. Se isso n?úo acontecer, as id?®ias ser?úo descartadas ou ridicularizadas como sinais de abstra?º?úo e sofistica?º?úo intelectual. H?í de existir uma tradi?º?úo capaz de absorver as id?®ias novas, us?í-las, elabor?í-las e essa tradi?º?úo h?í de merecer o respeito de pessoas influentes, clas- ses poderosas, etc. Talvez que nosso anarquista decida ser o ponto de vista copernicano uma alavanca potencial da esp?®cie que ele deseja e talvez que busque, em torno de si, meios de torn?í-la mais eficaz. A primeira mat?®ria ou `forma de vida’ que encontra nessa busca ?®, naturalmente, a astronomia e, no campo da astronomia, a exig?¬ncia de tabelas novas, de mais precisos valores para as cons- tantes, de melhores meios de estabelecer o calend?írio. Avan?ºos em tal sentido robusteceriam a doutrina copernicana e lhe refor?ºa- riam a alavanca. Entretanto, o maior dos ?¬xitos de previs?úo ?®, de imediato, anulado por uma teoria conhecida, que tamb?®m faz parte da astronomia e que parece gozar do favor do pr??- prio Cop?®rnico, o grande25: as teorias astron??micas s?úo instru-

mentos de previs?úo; o ?¬xito que alcancem nada nos diz acerca da real estrutura do universo; problemas dessa ordem s?úo resolvidos pela F?¡sica, apoiando-se em observa?º?Áes simples. Essa `concep?º?úo instrumentalista’ n?úo ?® apenas parte da tradi?º?úo que ele deseja uti- lizar, mas pode tamb?®m contar com o apoio de observa?º?Áes di- versas daquelas que fundamentam a F?¡sica: contemplem V?¬nus ou Marte e ver?úo que esses planetas t?¬m as propor?º?Áes aumentadas ou diminu?¡das de maneira muito diversa de como deveriam au- mentar ou diminuir nos termos em que a doutrina de Cop?®rnico lhes estabelece as trajet??rias26. Mostra isso que se fazem precisos meios adicionais para fortalecer a concep?º?úo que destruir?í o status quo. Meios que n?úo poder?úo ser t?úo facilmente interpretados ?á fei- ?º?úo instrumentalista. E, assim, nosso anarquista altera seu m?®todo de agir. Deixa de parte as complexidades da astronomia planet?í- ria27, admite que os planetas se desloquem segundo c?¡rculos sim- ples e tenta encontrar sinais mais claros da verdade da teoria de Um golpe de sorte o levou a ouvir falar do telesc??pio. Este se afigura importante aux?¡lio para a arte da guerra, atraiu a aten?º?úo do p??blico, rodeia-se de mist?®rio, h?í disposi?º?úo de nele acreditar ou, melhor, os art?¡fices, cuja estreita familiaridade com as lentes lhes d?í alguma experi?¬ncia pr?ítica de aparelhos desta esp?®cie, est?úo inclinados a nele confiar. Promovem-se exibi?º?Áes p??blicas. S?úo vistas coisas imposs?¡veis de ser vistas a olho desarmado e cuja na- tureza ?® conhecida ÔÇö torres, muralhas, navios, etc. Ningu?®m du- O palco est?í preparado. E agora o telesc??pio ?® apontado para o c?®u. Observam-se numerosos fen??menos perturbadores, alguns absurdos, alguns contradit??rios, alguns diretamente favorecendo a posi- ?º?úo copernicana. Nem o mais sofisticado argumento de natureza ??tica ?® capaz de deter a crescente convic?º?úo de que se abriu uma nova idade para o conhecimento e de que velhas f?íbulas a respeito dos c?®us n?úo passam disso ÔÇö de f?íbulas. Essa convic?º?úo ?® particularmente forte entre os que t?¬m avan?ºado conhecimento de cunho pr?ítico,

despido de terminologia complexa e que est?úo convencidos de ser a F?¡sica praticada na Universidade antes uma cole?º?úo de palavras do que um conhecimento de coisas (lembrar o desprezo puritano pelas especula?º?Áes in??teis). Solicitado a oferecer uma justifica?º?úo teor?®tica, nosso anarquista, recordando a lei do desenvolvimento desigual, usar?í farrapos de argumentos, sem pejo de lhes empres- tar fei?º?úo de propaganda. Com grande freq???¬ncia, o entusiasmo pelas novas concep?º?Áes ?® t?úo acentuado que se torna desnecess?í- rio propaganda adicional: `Afortunadamente para esses homens, suas simpatias lhes obscureceram, algumas vezes, a vis?úo cr?¡tica’, escreve Albert Schweitzer a prop??sito de circunst?óncias an?ílogas no campo da Cristologia28. E, desse modo, a alavanca se robustece ainda mais, at?® desalojar toda a concep?º?úo ortodoxa, inclusive suas implica?º?Áes no que respeita ?á posi?º?úo do homem no universo ma- Como terceiro exemplo, tomemos um anarquista interessa- do t?úo-somente no aperfei?ºoamento da astronomia cient?¡fica e en- tendendo que o aumento de conte??do ?® condi?º?úo necess?íria para aquele aperfei?ºoamento. Talvez ele haja convencido a si pr??prio de que o aumento de conte??do s?? pode ser conseguido por meio de observa?º?Áes de tipo inteiramente novo e talvez ele inicie o mo- vimento afirmando estar de posse dessas observa?º?Áes, embora i- nexista argumento em favor desta afirma?º?úo. Pondo o aumento de conte??do na depend?¬ncia exclusiva de novas observa?º?Áes, ele tem de afastar as observa?º?Áes antigas e as destr??i sem jamais explicar por que n?úo devem ser usadas, criando, assim, a `ilus?úo epistemo- l??gica’, descrita no cap?¡tulo XV. As novas raz?Áes s?úo aceitas, as velhas s?úo esquecidas e jamais se d?í qualquer raz?úo para justificar a troca: as raz?Áes n?úo existem no momento em que a permuta o- Dessa maneira, o aumento de conte??do ?® manufaturado pelo simul- t?óneo recurso ao entusiasmo, ?á capacidade de esquecer e ?á mu- dan?ºa hist??rica.

Os dois ??ltimos exemplos, que s?úo vers?Áes apenas ligeira- mente simplificadas de desenvolvimentos hist??ricos reais30, fir- mam um ponto (j?í acentuado no cap?¡tulo 1): dado um objetivo qualquer, embora o mais acanhadamente `cient?¡fico’, o procedi- mento a-met??dico do anarquista tem maior possibilidade de al- can?ºar ?¬xito do que um bem-definido conjunto de padr?Áes, regras e prescri?º?Áes31. (Somente no interior das linhas de uma concep?º?úo do mundo largamente abrangente ?® que regras especiais podem ser justificadas e adquirir possibilidade de ?¬xito.) O primeiro e- xemplo torna plaus?¡vel a hip??tese de que argumentos, judiciosa- mente utilizados, poderiam ter impedido o surgimento da ci?¬ncia moderna. Argumentos podem ser causa de atraso da ci?¬ncia, ao passo que a decep?º?úo ?® necess?íria para que ela avance. Acrescen- temos a isso o que aprendemos acerca dos princ?¡pios ordenadores do mito, do entusiasmo religioso, das experi?¬ncias paranormais e nos inclinaremos decididamente a acreditar que s?úo muitos os modos de abordar a natureza e a sociedade e muitos os modos de avaliar os resultados de uma particular abordagem, que ?® preciso escolher e que n?úo h?í condi?º?Áes objetivas a nos guiar. At?® aqui, fi- zemos breve e muito incompleto esbo?ºo da ideologia do anar- Imre Lakatos, de outro lado, deseja que a ci?¬ncia e, em ver- dade, o todo da vida intelectual se conforme a certos padr?Áes fi- xos, quer faz?¬-la: `racional’. O que significa duas coisas: (a) os pa- se o conhecimento ou a ci?¬ncia h?í de ser parte de um contexto mais amplo, isso n?úo deve afetar-lhe a natureza; a ci?¬ncia, em es- pecial deve conservar sua `integridade’. (b) Os padr?Áes tamb?®m ser?úo dotados de for?ºa heur?¡stica, ou seja, a atividade por eles re- J?í tivemos ocasi?úo de notar que os particulares padr?Áes escolhidos por Lakatos n?úo emitem ordens abstratas (como `eliminar teorias incompat?¡veis com enunciados b?ísicos aceitos’)

e n?úo encerram ju?¡zos gerais concernentes ?á racionalidade ou irra- cionalidade de uma via de a?º?úo (como `?® irracional insistir em uma teoria que se p?Áe contra enunciados b?ísicos aceitos’). Ordens e ju?¡zos desse g?¬nero permitiram decis?Áes concretas em complexas situa?º?Áes hist??ricas. Se o esquema que encerra os padr?Áes deve diferir do `caos’ do anarquismo, ?® preciso propiciar meio de essas decis?Áes ocorrerem com certa regularidade. Os padr?Áes, por si mesmos, n?úo po- dem, como vimos, assegurar que assim aconte?ºa. Contudo, pres- Assim, imaginemos que institui?º?Áes dedicadas a tornar p??- blicas a obra e os resultados alcan?ºados pelo cientista, institui?º?Áes que lhe concedem amparo intelectual e o levam a sentir-se respei- tado e seguro, institui?º?Áes que, em raz?úo de sua relev?óncia e de sua for?ºa (intelectual, financeira, pol?¡tica), podem faz?¬-lo sentir-se im- portante, adotem, com respeito aos padr?Áes, uma atitude conservado- ra, recusando-se a dar apoio a programas de pesquisa ex??ticos, ne- gando-lhes fundo, ridicularizando-lhes os defensores, furtando-se a publicar-lhes os resultados, fazendo, por todos os modos poss?¡- veis, com que o cientista se sinta deslocado. A conseq???¬ncia pode ser facilmente antecipada: especialmente hoje em dia, quando a ci?¬ncia deixou de ser aventura filos??fica para tornar-se neg??cio, os cientistas, t?úo necessitados (como quaisquer outros) de apoio e- mocional e financeiro rever?úo suas `decis?Áes’ e tender?úo a rejeitar Ora, a atitude conservadora adotada pelas institui?º?Áes n?úo ?® irracional, pois n?úo conflita com os padr?Áes. ?ë o resultado de diretrizes coletivas, do tipo estimulado pelos padr?Áes. A atitude do cientista que prontamente se adapta ?ás press?Áes tamb?®m n?úo ?® irracional, pois que ele decide segundo linha que ?® justificada pelos mesmos padr?Áes. Chegamos, portanto, ao legal e ordena- do, sem reduzir o liberalismo de nossa metodologia. E at?® ?á Com efeito, embora os padr?Áes n?úo prescrevam ou proscrevam

Quem tenha feito essa op?º?úo e esteja consciente das implica?º?Áes do tipo de racionalidade rec?®m-adotado sempre estar?í capacitado a replicar: `Meu caro amigo, voc?¬ argumenta bem, mas n?úo est?í atualizado no que diz respeito ?á sua teoria da racionalidade. Voc?¬ pensa poder convencer-me com seus argumentos, mas eu sei, gra- ?ºas ao sentido que dou a ÔÇ£racionalÔÇØ que algu?®m pode racional- mente prender-se a um programa de pesquisa que se ache em de- genera?º?úo at?® que ele seja dominado por um programa rival e mes- mo posteriormente33. Talvez, ?® claro, voc?¬ tenha a impress?úo de que, al?®m de, haver aceito os padr?Áes de Lakatos, adotei, com rela?º?úo a eles, uma atitude conservadora. Fosse esse o caso e seu argumento me atingiria muito justamente, pois eu teria tomado uma decis?úo, sem a ela me ater. Entretanto, n?úo sou e jamais fui conservador e, assim, ?® poss?¡vel que voc?¬ me expulse do jogo, mas n?úo poder?í Resumindo: a metodologia do programa de pesquisa, na medida em que ?® racional, n?úo difere do anarquismo. Na medida em que difere do anarquismo, n?úo ?® `racional’. A completa e pac?¡- fica aceita?º?úo dessa metodologia n?úo gera qualquer dificuldade pa- ra o anarquista que, por certo, n?úo se furta a admitir que as regras metodol??gicas possam ser e usualmente sejam impostas por ame- a?ºas, intimida?º?úo, impostura. Essa, afinal de contas, uma das ra- z?Áes por que o anarquista mobiliza (n?úo contra-argumentos mas) Claro, ainda, que Lakatos n?úo foi bem sucedido no de- monstrar `mudan?ºa racional’ onde `Kuhn e Feyerabend en- tendem haver mudan?ºa irracional’34. Minha pr??pria posi?º?úo j?í foi exposta. Quanto a Kuhn, basta lembrar que ocorre uma re- volu?º?úo sempre que o novo programa de pesquisa haja acumulado suficiente n??mero de ?¬xitos e o programa ortodoxo tenha sofrido suficiente n??mero de fracassos, de modo a poderem ser vistos como rivais s?®rios, importando ainda que os protagonistas do

programa novo proclamem o desaparecimento da concep?º?úo or- todoxa. Do ponto de vista da metodologia dos programas de pes- quisa, assim agem n?úo apenas em raz?úo de seus padr?Áes, mas por Os ortodoxos, que a eles se op?Áem, tomam o que se poderia de- nominar atitude `liberal’, estando preparados para tolerar margem maior de degenera?º?úo do que os conservadores. Os padr?Áes per- mitem ambas as atitudes. Como vimos, nada t?¬m a dizer quanto ?á `racionalidade’ ou `irracionalidade’ dessas atitudes, da?¡ decorrendo que o embate entre conservadores e liberais, com a vit??ria final dos primeiros, n?úo ?® `mudan?ºa racional’35, mas pura e simples `luta pelo poder’ permeada de `s??rdida controv?®rsia pessoal’36. N?úo ?® um t??pico de metodologia ou de teoria da racionalidade, mas de A falha de Lakatos, no manter seu prop??sito e apontar o trabalho da raz?úo onde outros apenas divisam press?Áes que levam a avan?ºos e recuos, ?® falha que se oculta por detr?ís de uma termi- nologia amb?¡gua. De uma parte, diz-nos ele que a clara irracionali- dade de muitos importantes avan?ºos cient?¡ficos se deveu a id?®ia desnecessariamente acanhada do que deve ser entendido como racional. Se t?úo-somente ?® racional a aceita?º?úo de teorias comprova- das, se ?® irracional conservar teorias que se ponham em conflito Assim, Lakatos elabora novos padr?Áes. Esses novos padr?Áes, que tamb?®m s?úo medidas de racionalidade, n?úo mais pro?¡bem o que concorre para o aperfei?ºoamento da ci?¬ncia. Mas n?úo pro?¡- E n?úo podem ser fortalecidos pelo acr?®scimo de outros padr?Áes, isto ?®, tornando mais r?¡gida a raz?úo. Mas podem adquirir for?ºa pr?í- tica, se transformados em n??cleo de institui?º?Áes conservadoras. Afe- rido pelos padr?Áes da metodologia dos programas de pesquisa, esse conservadorismo n?úo ?® racional, nem irracional. ?ë, por?®m, emi- nentemente racional segundo outros padr?Áes, como, por exemplo, segundo os padr?Áes do senso comum38. Dessa riqueza de significados da

palavra `racional’ Lakatos tira efeito m?íximo. Em seus argumentos contra o falseamentismo ing?¬nuo, acentua o novo `racionalismo’ de seus padr?Áes, dizendo que ele permite a sobreviv?¬ncia do saber cient?¡fico. Em seus argumentos contra Kuhn e contra o anarquis- mo, Lakatos enfatiza a `racionalidade’ inteiramente diversa, pr??- pria do senso comum, mas deixa de informar seus leitores acerca da mudan?ºa, de maneira que pode ficar com o bolo ÔÇö padr?Áes mais liberais ÔÇö e pode tamb?®m com?¬-lo ÔÇö fazer com que sejam usados conservadoramente; Lakatos pode at?® mesmo esperar, em ambos os casos, ser considerado um racionalista. H?í, sem d??vida, grande semelhan?ºa entre Lakatos e os primeiros Padres da Igreja, que introduziram doutrinas revolucion?írias sob o disfarce de ora- ?º?Áes comuns (que eram o bom senso da ?®poca) e assim, aos pou- Esse grande talento para a agress?úo amb?¡gua torna Lakatos um aliado bem-vindo, na luta contra a Raz?úo. Com efeito, uma concep?º?úo que se afigure `racional’, em qualquer sentido dessa palavra carregada de emotividade, tem, hoje, maior possibilidade de se ver a- ceita do que uma concep?º?úo que abertamente rejeite a autoridade da Raz?úo. A filosofia de Lakatos, seu disfar?ºado anarquismo, ?® um espl?¬ndido cavalo de Tr??ia, capaz de infiltrar o anarquismo real, direto, `honesto’ (palavra muito apreciada por Lakatos) nos esp?¡ri- tos de nossos mais encarni?ºados racionalistas. Descobrindo que assim ocorreu, eles relutar?úo muito menos em admitir que a ideo- logia do racionalismo n?úo tem conveni?¬ncia intr?¡nseca, perceber?úo que at?® mesmo no campo da ci?¬ncia a pessoa ?® dominada pela propaganda e envolvida em luta entre for?ºas conflitantes, e con- cordar?úo com que o argumento n?úo passa de meio sutil e eficien- At?® agora, dei por admitidos os padr?Áes de Lakatos, com- parei-os com outros padr?Áes, indaguei como influenciam o com- portamento (indaguei, por exemplo, como uma pr?ítica orientada pela metodologia dos programas de pesquisa difere de uma pr?í-

tica an?írquica) e examinei as conseq???¬ncias que os padr?Áes trazem para a teoria da racionalidade. P?Áe-se, agora, a quest?úo de saber por que devemos considerar os padr?Áes, de saber por que deve- mos preferi-los a outros padr?Áes cient?¡ficos (tais como os do induti- vismo) ou a padr?Áes n?úo-cient?¡ficos (tais como os dos fundamentalis- tas religiosos). Lakatos d?í resposta ?á primeira quest?úo, mas n?úo ?á segunda, embora consiga produzir a impress?úo de que a ambas respondeu. Aqui, tal como antes, ele usa o senso comum e a apre- cia?º?úo geral pela ci?¬ncia para atravessar abismos sobre os quais n?úo consegue lan?ºar a ponte dos argumentos. Vejamos como pro- Deixei dito que Lakatos e eu aferimos o valor das metodo- logias colocando-as frente a dados hist??ricos. Os dados hist??ricos que Lakatos utiliza s?úo `avalia?º?Áes ÔÇ£b?ísicasÔÇØ da elite cient?¡fica’41 ou `ju?¡zos b?ísicos de valor’42, que s?úo ju?¡zos de valor a prop??sito de es- pec?¡ficas realiza?º?Áes da ci?¬ncia. Exemplo: `A teoria da relatividade de Einstein, de 1919, ?® superior ?á mec?ónica celeste de Newton, na forma em que a apresenta Laplace’. Para Lakatos, esses ju?¡zos de valor (que, em conjunto, formam o que ele denomina `saber cient?¡fico geral’) constituem adequada base para debates metodo- l??gicos por serem aceitos pela grande maioria dos cientistas: `Embora haja reduzida margem de concord?óncia no que diz res- peito a um crit?®rio universal acerca do car?íter cient?¡fico das teori- as, tem havido, nos dois ??ltimos s?®culos, consider?ível coes?úo de vistas no que concerne a realiza?º?Áes isoladas’43. Ju?¡zos b?ísicos de valor podem, portanto, ser usados para avaliar teorias relativas ?á ci?¬ncia ou a reconstru?º?Áes racionais da ci?¬ncia, muito ?á semelhan?ºa de como enunciados `b?ísicos’ s?úo utilizados para avaliar teorias acerca do mundo. Os modos de avalia?º?úo dependem, naturalmente, da particular metodologia que se decidiu adotar: um falseamentista rejeitar?í regras metodol??gicas incongruentes com ju?¡zos b?ísicos de valor44; um seguidor de Lakatos aceitar?í programas metodol??gicos de pesquisa que `representem progressiva altera?º?úo na seq???¬ncia dos programas de pesquisa de reconstru?º?Áes racionais: `… o

progresso na teoria da racionalidade cient?¡fica ?® marcado pela des- coberta de fatos hist??ricos desconhecidos, pela reconstru?º?úo de crescente por?º?úo de hist??ria, impregnada de valor, que se p?Áe co- mo racional’45. O padr?úo de cr?¡tica metodol??gica reve-la-se, dessa maneira, o melhor programa metodol??gico de pesquisa de que se pode dispor em determinada ?®poca. At?® aqui, temos uma primeira De uma parte, os ju?¡zos b?ísicos de valor n?úo s?úo t?úo uniformes quanto se admitiu. A ci?¬ncia abre-se em numerosas disciplinas, cada qual delas podendo assumir diferente atitude frente a uma teoria dada e as disciplinas singulares se abrem, por sua vez, em escolas. Os ju?¡zos b?ísicos de valor aceitos por um experimentalista diferir?úo dos aceitos por um te??rico (basta ler o que escreveram Rutherford, Michelson ou Ehrenhaft a prop??sito de Einstein); um bi??logo e um cosmologista olhar?úo diferentemente para a mesma teoria; o seguidor fiel de Bohr ver?í a introdu?º?úo de modifica?º?Áes na teoria qu?óntica atrav?®s de prisma diferente de como os ver?í o adepto de Einstein. E a uniformidade que permane?ºa desaparecer?í durante as revolu?º?Áes, quando todos os princ?¡pios s?úo postos em causa e todos os m?®todos s?úo violados. Mesmo os cientistas indi- vidualmente considerados formam ju?¡zos diversos acerca de uma teoria proposta: Lorentz, Poincar?® e Ehrenfest julgaram que os experimentos de Kaufmann haviam refutado a teoria especial da relatividade e prepararam-se para abandonar o princ?¡pio da relati- vidade na forma sugerida por Einstein, enquanto o pr??prio Eins- tein era de parecer diferente46. Em segundo lugar, os ju?¡zos b?ísi- cos de valor raramente se prendem a boas raz?Áes. Todos admitem que a hip??tese de Cop?®rnico representou um grande passo avante, mas ?® dif?¡cil que algu?®m seja capaz de oferecer, a respeito daquela hi- p??tese, uma satisfat??ria explica?º?úo, ainda que parcial47, j?í para n?úo falar em enumera?º?úo das raz?Áes de sua excel?¬ncia. A teoria de Newton (da gravita?º?úo) foi `altamente apreciada pelos maiores cientistas’48, grande parte dos quais n?úo tinha consci?¬ncia

das dificuldades que encerrava, alguns deles acreditando que a teo- ria seria dedut?¡vel a partir das leis de Kepler49. A teoria dos quanta, que se p?Áe em discord?óncia quantitativa e qualitativa com a evi- d?¬ncia50 e se mostra insatisfat??ria em certos pontos, ?® aceita n?úo a despeito de suas dificuldades, em consciente viola?º?úo do falseamentismo, dire?º?úo… [de que] todos os processos que envolvem… intera?º?Áes desconhecidas se conformam ?á lei qu?óntica fundamental’51. E as- sim por diante. Tais s?úo as raz?Áes que fazem surgir os ju?¡zos b?ísi- cos de valor, a cujo `saber cient?¡fico geral’ Lakatos ocasionalmente atribui grande peso52. Acrescentemos a isso o fato de que a maio- ria dos cientistas aceita confiantemente os ju?¡zos de valor, sem e- xamin?í-los, mas simplesmente curvando-se ?á autoridade dos cole- gas especialistas, e veremos que `o saber cient?¡fico geral’ n?úo ?® muito ge- Lakatos est?í consciente da dificuldade. D?í-se conta de que os ju?¡zos b?ísicos de valor nem sempre s?úo razo?íveis53 e admite que `o ju?¡zo dos cientistas ?® por vezes falho’54. Em tais casos, diz ele, o ju?¡zo h?í de ser equilibrado e talvez superado pelo `estatuto do fil??sofo’ 55. A `reconstru?º?úo racional da ci?¬ncia’ que Lakatos emprega para avalia?º?úo do m?®todo n?úo ?®, pois, apenas a soma de todos os ju?¡zos b?ísicos de valor, nem ?® o melhor o programa de pesquisa que procure absorv?¬-los. ?ë um `sistema pluralista de au- toridades’56, no qual os ju?¡zos b?ísicos de valor s?úo a influ?¬ncia dominante, enquanto se mostram uniformes e razo?íveis. Se desa- parece a uniformidade ou se `a tradi?º?úo degenera’57, press?Áes filo- s??ficas de ordem geral se manifestam e imp?Áem (restauram) a ra- Ora, suspeito que Lakatos subestima largamente o n??mero de ocasi?Áes em que isto se dar?í. Acredita que a uniformidade dos ju?¡zos b?ísicos de valor haja prevalecido `nos dois ??ltimos s?®cu- No caso de se registrarem, entretanto, suas `reconstru?º?Áes racionais’ s?úo dominadas pelo senso comum59 ou por padr?Áes

abstratos e press?Áes concretas da metodologia dos programas de pesquisa. Al?®m disso, Lakatos s?? admite uniformidade se n?úo houver muito afastamento em rela?º?úo a seus padr?Áes: `Quando uma escola cient?¡fica degenera em pseudoci?¬ncia, convir?í, talvez, for?ºar o debate metodol??gico’60. Significa isso que os ju?¡zos t?úo facilmente formulados por Lakatos nem s?úo resultados de pesqui- sas, nem por?º?Áes da `pr?ítica cient?¡fica'; s?úo partes de uma ideologia que ele tenta impor-nos sob o disfarce de um `saber cient?¡fico ÔÇ£ge- ralÔÇØ ‘. Pela segunda vez, nota-se interessant?¡ssima diferen?ºa entre a formula?º?úo das proposi?º?Áes de Lakatos e seu valor nominal. Vimos que a metodologia dos programas de pesquisa foi introduzida com o prop??sito de servir de aux?¡lio ao racionalismo. Sem embargo, ela n?úo tem como dizer que uma a?º?úo qualquer seja `irracional’. Sem- pre que Lakatos enuncia tal ju?¡zo ÔÇö e ele o faz com freq???¬ncia ÔÇö ap??ia-se em entidades `externas’, ap??ia-se, por exemplo, em suas pr??prias inclina?º?Áes conservadoras ou no conservadorismo ine- rente ao senso comum. Descobrimos, assim, que suas `reconstru- ?º?Áes’ est?úo muito pr??ximas das metodologias gerais que ele pro- clama vir examinando e com estas se confundem nos tempos de crise. A despeito da diferen?ºa da ret??rica (`N?úo ser?í arrog?óncia tentar impor uma a priori filosofia da ci?¬ncia ?ás mais avan?ºadas ci- ?¬ncias? … Penso que sim’61), a despeito da decis?úo de prender-se ao concreto (`tem havido consider?ível concord?óncia… no que concerne a conquistas particulares’62), Lakatos n?úo difere, em ver- dade, dos epistemologistas tradicionais; muito ao contr?írio, a eles oferece novo e poderoso instrumento de propaganda: associa os princ?¡pios que defende ?áquilo que, ?á primeira vista, se afigura substancial volume de senso comum cient?¡fico independente, mas tal volume nem ?® substancial, nem ?® independente. ?ë lan?ºado e constitu?¡do de acordo com os princ?¡pios abstratos que Lakatos Olhemos o assunto de um diferente ponto de vista. Uma `reconstru?º?úo racional’, como a entende Lakatos, compreende ju?¡zos concretos acerca de resultados em certo dom?¡nio e pa-

dr?Áes gerais. ?ë `racional’ no sentido de que reflete o que se acredita ser valiosa realiza?º?úo no dom?¡nio em pauta. Reflete o que se poderia denominar ideologia profissional daquele dom?¡nio. Ora, ainda que es- sa ideologia consistisse apenas de massa uniforme de ju?¡zos b?ísi- cos de valor, ainda que n?úo inclu?¡sse quaisquer ingredientes abstra- tos, ainda assim n?úo garantiria que o campo correspondente produzisse re- sultados compensadores ou que os resultados n?úo fossem ilus??rios. Todos os paj?®s procedem de acordo com regras complexas e comparam seus resultados e estratagemas com os resultados e estratagemas de outros paj?®s da mesma tribo, passando a dispor de rica e coe- rente ideologia profissional ÔÇö e, apesar disso, racionalista algum se inclinaria a tom?í-los a s?®rio. A medicina astrol??gica emprega padr?Áes estritos e cont?®m ju?¡zos b?ísicos de valor aceitavelmente uniformes e, sem embargo, os racionalistas lhe rejeitam a totalida- de da ideologia profissional, dando-a como `irracional’. Aquela medicina est?í longe de mostrar-se preparada para examinar at?® mesmo o `ju?¡zo b?ísico de valor’ segundo o qual o m?®todo tropical de preparar um mapa ?® prefer?¡vel ao m?®todo sideral (ou vice- versa63). Essa possibilidade de rejeitar padr?Áes profissionais tout court mostra que as `reconstru?º?Áes racionais’, isoladamente, n?úo podem resolver o problema do m?®todo. Para determinar o m?®to- do correto, ?® necess?írio reconstruir a disciplina correta. Mas qual ?® a Lakatos n?úo examina esse ponto ÔÇö e n?úo sente necessi- dade de examin?í-lo, pois apenas deseja informar-se do que se d?í na ci?¬ncia p??s-s?®culo XVII e admite que o empreendimento cient?¡fico se ap??ie em uma ideologia profissional coerente e u- Tendo terminado sua `reconstru?º?úo’ da ci?¬ncia moderna, volta- a contra outros setores, como se j?í houvesse estabelecido que a ci?¬n- cia moderna ?® superior ?á m?ígica ou ?á ci?¬ncia aristot?®lica e que n?úo produz resultados ilus??rios. N?úo h?í, entretanto, sombra de argumento. dessa esp?®cie. As `reconstru?º?Áes racionais’ d?úo por bom o `saber cient?¡fico geral’, n?úo demonstram que ele seja

melhor que o `saber fundamental’ de feiticeiros e bruxos. Nin- gu?®m demonstrou que a ci?¬ncia (dos `dois ??ltimos s?®culos’64) al- can?ºa resultados que se conformam a seu pr??prio `saber’, ao passo que outros dom?¡nios deixam de apresentar resultados desse g?¬ne- ro. Demonstrado foi, por estudos antropol??gicos mais recentes, que todos os tipos de ideologia e de institui?º?Áes conexas produzem, e t?¬m produzido, resultados que se conformam com seus padr?Áes e resultados que n?úo se conformam com seus padr?Áes. A ci?¬ncia aristot?®lica, por exemplo, conseguiu dar acomoda?º?úo a numerosos fatos, sem alterar suas no?º?Áes b?ísicas e seus princ?¡pios fundamen- Fazem-se necess?írias, obviamente, considera?º?Áes adicionais para Exatamente o mesmo problema surge no caso de regras metodol??gicas particulares. Pouco satisfaz a rejei?º?úo do falseamen- tismo ing?¬nuo por conflitar ele com alguns ju?¡zos b?ísicos de valor emitidos por cientistas eminentes. A maioria desses eminentes ci- entistas se apega a teorias refutadas n?úo porque tenha alguma vi- s?úo dos limites do falseamentismo ing?¬nuo, mas porque n?úo per- cebe que as teorias est?úo refutadas (cf. exemplos no texto corres- pondente ?ás notas 46-50 deste cap?¡tulo). Al?®m disso nem mesmo pr?ítica mais `razo?ível’ seria suficiente para rejeitar a regra: a tole- r?óncia universal para com teorias refutadas talvez n?úo seja mais que um erro. ?ë certamente erro em um mundo que cont?®m esp?®- cies bem definidas que s?? raramente s?úo mal interpretadas pelos sentidos. Em tal mundo, as leis b?ísicas s?úo manifestas e as recalci- trantes observa?º?Áes s?úo corretamente vistas como indicador as de um erro em nossas teorias e n?úo em nossa metodologia. A situa?º?úo se altera quando as perturba?º?Áes se tornam mais freq??entes e assumem o aspecto de uma quest?úo que todos os dias se repete. Uma descoberta cosmol??- gica dessa ordem for?ºa-nos a optar: conservaremos o falseamentismo ing?¬nuo, concluindo que o conhecimento ?® imposs?¡vel, ou nos inclinaremos por uma id?®ia mais rec??ndita e abstrata de conhe-

cimento e, correspondentemente, por um tipo de metodologia mais liberal (e menos emp?¡rico)? Os cientistas, em sua maioria, in- conscientes do pano de fundo cosmol??gico-nomol??gico apresen- tado pelo problema e at?® mesmo do pr??prio problema, conservam teorias incompat?¡veis com observa?º?Áes e experimentos feitos e as louvam por sua excel?¬ncia. Caberia dizer que fazem a escolha cer- ta por instinto65, mas dificilmente se admitir?í que o comportamen- to resultante ?® medida decisiva do m?®todo, especialmente ?á vista O criticismo cosmol??gico, h?í pouco esbo?ºado (onipresen?ºa das pertur- O criticismo cosmol??gico66 cresce de import?óncia quando Em per?¡odos de decad?¬ncia, diz Lakatos, o estatuto do fil??sofo se manifesta e procura `opor-se ?á autoridade da corrompida lei assen- tada em casos’, defendida pelo cientista67. Exemplos de decad?¬n- cia incipiente ou retardada que ele tem em mente correspondem a certas partes da sociologia, da astrologia social68, da moderna f?¡sica das part?¡culas69, Todos esses casos contradizem a `boa metodolo- gia’70, que ?® metodologia ` “destilada” a partir da ci?¬ncia sazona- da’71; violam, em outras palavras, a ideologia profissional da ci?¬n- cia de Newton, Maxwell, Einstein (embora n?úo a de Bohr72). Con- tudo, a incessante altera?º?úo da ci?¬ncia moderna, que se anuncia com Galileu, seu el?ístico uso dos conceitos, sua recusa em aceitar normas costumeiras, seus procedimentos `n?úo-emp?¡ricos’, op??s-se ?á ideologia profissional dos aristot?®licos e foi, para eles, exemplo de incipiente decad?¬ncia. Ao formular esse ju?¡zo, os aristot?®licos fazi- am uso de sua filosofia geral, de seus desiderata (cria?º?úo de uma ordem intelectual est?ível, baseada no mesmo tipo de percep?º?úo que auxilia o homem na sua atividade cotidiana, `preserva?º?úo dos fen??menos’ com o aux?¡lio de artif?¡cios matem?íticos, etc.) e dos ju?¡zos b?ísicos de valor de sua ci?¬ncia (que punha de parte os seguidores de Ocam, assim como, hoje, Lakatos p?Áe de parte o grupo de Copenhague). E os aristot?®licos tinham

uma grande vantagem, pois os ju?¡zos b?ísicos de valor dos segui- dores do credo copernicano eram ainda mais variados e desarra- zoados do que os ju?¡zos b?ísicos de valor dos contempor?óneos f?¡- sicos que estudam as part?¡culas elementares. Al?®m disso, a filoso- fia aristot?®lica tinha o apoio da cren?ºa disseminada, que continuou presente em Newton, de que a maioria das inova?º?Áes era de im- port?óncia secund?íria e de que tudo de relevante j?í havia sido des- coberto. Claro est?í que um Lakatos do s?®culo XVII ter-se-ia posto ao lado das escolas. E, assim, tomaria as mesmas `err??neas’ decis?Áes de um indutivista do s?®culo XVII ou de um convencionalista do s?®culo XVII ou de um falseamentista do s?®culo XVII. Percebemos, de novo, que Laka- tos n?úo superou as dificuldades que desenvolvimentos catacl?¡smi- cos p?Áem diante de outras metodologias; n?úo alcan?ºou ?¬xito em sua tentativa de revelar que tais desenvolvimentos podem ser per- cebidos, em sua totalidade, atrav?®s de `??culos popperianos’73. Uma vez mais, o metodologista ?® obrigado a admitir que a querela entre Antigos e Modernos n?úo pode ser reconstru?¡da em termos racio- nais. Quando menos, essa reconstru?º?úo n?úo pode ser feita ao tempo A situa?º?úo ?®, hoje, exatamente a mesma. Torna-se poss?¡vel, naturalmente, `reconstruir’ a transi?º?úo, substituindo os b?ísicos ju?¡- zos de valor aristot?®licos (acerca de teorias aristot?®licas) por b?ísi- cos ju?¡zos de valor modernos e usar padr?Áes modernos (progres- so, com aumento de conte??do) em vez de padr?Áes aristot?®licos Mas a necessidade de tal `reconstru?º?úo’ mostraria, antes de tudo, o que Lakatos nega, ou seja que `novos paradigmas trazem… uma nova racionalidade’74. Em segundo lugar, ter-se-ia rejeitado a ideo- logia profissional dos aristot?®licos sem mostrar que ela ?® menos adequada que seu substituto: para decidir entre uma `reconstru?º?úo racional’ (no sentido de Lakatos) da ci?¬ncia aristot?®lica, que se vale do `estatuto’ da filosofia aristot?®lica, e uma `reconstru?º?úo racional’ da ci?¬ncia `moderna’ (dos `??ltimos dois s?®culos’75), baseada em

estatuto `moderno’ e em b?ísicos ju?¡zos de valor `modernos’, fa- zem-se necess?írios mais que padr?Áes `modernos’ e b?ísicos ju?¡zos de valor `modernos’. Seria preciso mostrar que, ao tempo em cau- sa, os m?®todos aristot?®licos n?úo alcan?ºavam os objetivos aristot?®- licos ou que mostravam grande dificuldade para alcan?º?í-las, ao passo que os `modernos’, empregando m?®todos modernos n?úo ou, alternativamente, seria preciso mostrar que os objetivos mo- dernos s?úo prefer?¡veis aos objetivos aristot?®licos. Ora, vimos que os `aristot?®licos’76 se estavam saindo bem, ao passo que os `mo- dernos’ se viram diante de numerosos problemas, que simples- mente ocultaram, com o aux?¡lio de artif?¡cios de propaganda77. Se desejarmos saber por que a transi?º?úo ocorreu e como p??de ela ser justificada em face de nossa predile?º?úo pelos m?®todos e resultados da ci?¬ncia contempor?ónea, teremos de identificar os motivos que levaram as pessoas a agir a despeito dos problemas78 e teremos, tamb?®m, de examinar a fun?º?úo da propaganda, do preconceito, da oculta?º?úo e de outros procedimentos `irracionais’ na gradual reso- lu?º?úo de problemas. Todos esses s?úo fatores `externos’, no esque- ma de Lakatos79. Todavia, sem eles n?úo h?í meio de compreender uma das mais importantes revolu?º?Áes do pensamento. Sem eles, s?? poderemos dizer que a ideologia profissional da f?¡sica e da as- tronomia dos s?®culos. XV e XVI foi seguida pela ideologia profis- sional da ci?¬ncia `moderna’ e que, hoje, esta reina soberana. N?úo poderemos explicar como isso ocorreu, nem teremos raz?úo algu- ma para asseverar que nossa ideologia profissional ?® superior ?á Permitam-me, agora, oferecer esbo?ºo breve, incompleto e unilateral da transi?º?úo, onde s?úo considerados fatores que reputo relevantes e que explicam a fun?º?úo desempenhada no surgimento da nova astronomia. Muitas min??cias est?úo ausentes, enquanto outras s?úo exageradas. Meu prop??sito n?úo ?®, entretanto, o de ofe- recer uma vers?úo acad?¬mica e sim o de contar um conto de fa- das que talvez se venha a transformar, algum dia, em vers?úo

acad?¬mica e que se mostra mais realista e mais completa do que o conto de fadas insinuado por Lakatos e sua m?ífia. Para pormeno- res, aconselha-se o leitor a que retome aos cap?¡tulos VI-XII deste Para come?ºar, importa admitir que novos ju?¡zos b?ísicos de valor e novo estatuto se fazem agora presentes no campo da as- tronomia. N?úo h?í t?úo-somente novas teorias, novos fatos, novos instrumentos, h?í tamb?®m uma nova ideologia profissionl80. A ideologia n?úo surge a partir do nada, mas tem seus antecedentes na Antig??i- dade (Xen??fanes e Dem??crito, por exemplo) e desempenha algum papel em of?¡cios e profiss?Áes alheios ?á esfera da f?¡sica e da astro- nomia. A crescente import?óncia das classes e grupos. empenhados nesses of?¡cios e profiss?Áes toma a ideologia importante e d?í apoio ?áqueles que desejam us?í-la no campo da astronomia. Esse apoio ?® urgentemente necess?írio, pois as muitas dificuldades teor?®ticas surgidas s?? podem encontrar solu?º?úo se houver determina?º?úo su- ficiente para prosseguir com o programa da Terra m??vel. A dife- rente maneira de as novas classes enfatizarem `Cop?®rnico’ (pro- gresso, antevis?úo, combate ao status quo) e `Arist??teles’ (regress?úo, favorecimento do status quo, hostilidade ao surgimento de novas classes) aumenta a determina?º?úo, reduz o impacto das dificuldades e toma poss?¡vel o progresso da astronomia. Essa associa?º?úo entre id?®ias astron??micas e tend?¬ncias hist??ricas (e de classe) n?úo toma os argumentos aristot?®licos menos racionais ou menos concluden- tes, mas reduz a influ?¬ncia deles sobre os esp?¡ritos daqueles que tendem a seguir Cop?®rnico. N?úo faz aparecer um ??nico argumen- to novo, mas engendra firme apego ?á id?®ia do movimento da Ter- ra ÔÇö e, a essa altura, como veremos, isso ?® tudo que se toma pre- ciso. (Vimos tamb?®m, em cap?¡tulos anteriores, qu?úo magistralmen- te Galileu explora a situa?º?úo e como, atrav?®s de artif?¡cios, anedotas e non sequiturs, lhe aumenta a dimens?úo.) E isso me leva ao segun- Nosso problema ?® o seguinte: dada a situa?º?úo hist??rica da id?®ia do movimento da Terra em, digamos, 1550, e sua situa?º?úo

hist??rica em, digamos, 1850 ÔÇö como foi poss?¡vel passar da pri- meira situa?º?úo (S’) ?á segunda (SÔÇØ)? Que condi?º?Áes psicol??gicas, hist??ricas, metodol??gicas precisam ser satisfeitas para que um grupo de pessoas, dedicado ao aperfei?ºoamento do saber e, espe- cialmente, da astronomia, possa fazer passar a ci?¬ncia ÔÇö e isto in- clui os preconceitos profissionais dos astr??nomos, assim como as condi?º?Áes alheias ?á ci?¬ncia que se fazem necess?írias para sua so- breviv?¬ncia sob particular aspecto ÔÇô de S’ para SÔÇØ? Por outro lado, quais as atitudes, cren?ºas e a?º?Áes que teriam tomado imposs?¡vel alcan?ºar SÔÇØ a partir de S’? Percebe-se, de imediato, que o apareci- mento de nova ideologia profissional era absolutamente essencial ÔÇö mas esse ?® ponto n?úo acess?¡vel a an?ílise, nos termos postos por Lakatos. Percebemos tamb?®m que a distin?º?úo entre hist??ria `inter- na’ e `externa’, t?úo importante para Lakatos, restringe as dimen- s?Áes da resposta e favorece a metodologia escolhida para servir- lhe de base. Com efeito, ?® muito poss?¡vel que uma ci?¬ncia tenha determinada hist??ria `interna’ apenas porque sua hist??ria `externa’ encerra atos compensa- dores que, a cada instante, violam a metodologia que a define. Exemplos s?úo f?íceis de dar. A ignor?óncia de Galileu acerca dos princ?¡pios b?ísicos da vis?úo telesc??pica ser?í certamente colocada na parte ex- terna da hist??ria da astronomia. Contudo, dada S’, isto ?®, dadas a ??tica e as teorias psicol??gicas do s?®culo XVI, essa ignor?óncia se `fazia necess?íria para que Galileu falasse t?úo convictamente quanto falou. N aquela situa?º?úo hist??rica, a ignor?óncia foi uma b?¬n?º?úo. A cren?ºa ainda n?úo fundamentada que ele depositava na doutrina copernicana era necess?íria para que ele desse ao que viu o valor de evid?¬ncia e, mais especificamente, de evid?¬ncia em prol da essen- cial similaridade entre coisas celestes e coisas terrestres. A exist?¬n- cia de grupos de antiaristot?®licos e de outros inimigos de fil??so- fos de escola era necess?íria para transformar esses atos sub- jetivos em fen??meno social mais amplo e, afinal, em elemen- tos de uma ci?¬ncia nova. Concentrando-nos na hist??ria in- terna da teoria de Cop?®rnico, notamos aumento de conte??do

(as observa?º?Áes de Galileu) e, assim, parece estarmos em concor- d?óncia com os princ?¡pios da nova ideologia profissional. Entretan- to, se considerarmos tamb?®m a hist??ria externa ou, como diz La- katos, se, acrescentarmos ?á nossa informa?º?úo a `psicologia das massas’, percebemos que a concord?óncia `no interior’ da ci?¬ncia ?® o resul- tado de numerosas viola?º?Áes em seu `exterior'; notaremos que essas viola- ?º?Áes se faziam necess?írias para a transi?º?úo de S’ para SÔÇØ e que, por conseguinte, pertencem ?á pr??pria ci?¬ncia e n?úo a outro dom?¡nio qualquer. Exemplificando: o aumento de conte??do, que Lakatos olha com tanto orgulho, ?® resultado da `ilus?úo epistemol??gica’ por mim an- teriormente descrita, a qual, por sua vez, s?? se manifesta porque se decidiu n?úo `registrar’ e `exibir publicamente’ os verdadeiros `resul- tados das fac?º?Áes rivais’81. Assim, mesmo um desenvolvimento que pare?ºa ordenado h?í de ser constantemente aferido, significan- do isso que a separa?º?úo entre `interno’ e `externo’ (e a correspon- dente separa?º?úo entre o Terceiro C?®u e seu confuso reflexo nos esp?¡ritos humanos82) inibe o estudo da altera?º?úo cient?¡fica. Esse ?® apenas mais um exemplo de distin?º?úo sem diferen?ºa que, se to- mada a s?®rio, far?í muita diferen?ºa para a qualidade de nossa pes- Por fim, cabe alguma d??vida quanto ao crit?®rio de aumento de conte??do, que Lakatos prop?Áe e a que atribui importante papel em seus padr?Áes, satisfazer as pr??prias condi?º?Áes de Lakatos, relati- vas a uma aceit?ível teoria da racionalidade (ver nota 12 e texto cor- respondente a notas 41 e seguintes; e assinale-se que n?úo estou con- siderando o problema da incomensurabilidade!). Tendo em conta a onipresen?ºa da `ilus?úo epistemol??gica’ e o desenvolvimento de pro- gramas de pesquisa tais como o atomismo, o da Terra m??vel, o fisi- calismo, no sentido de que o mundo obedece ?ás leis da f?¡sica, sem interfer?¬ncia divina, talvez devamos concluir que o aumento de conte??do (comparado com o conte??do de programas rivais) ?® evento extremamente raro e que o programa de pesquisa hist??rica que lhe presume a exist?¬ncia tem estado em degeneresc?¬ncia e continua

mente diverso: Lakatos n?úo mostrou que seus padr?Áes s?úo os padr?Áes da ci?¬ncia, n?úo mostrou que levam a resultados relevan- tes e sequer foi bem sucedido no emprestar-lhes for?ºa, exceto atrav?®s do uso de press?úo, intimida?º?úo, amea?ºas. N?úo refutou o anarquismo, nem chegou a estabelecer que sua metodologia cor- responde ao melhor programa hist??rico de pesquisa. Arbitraria- mente escolhe a ci?¬ncia como crit?®rio de m?®todo e conhecimen- to, sem haver examinado os m?®ritos de outras ideologias profis- sionais. Para ele, tais ideologias simplesmente n?úo existem. Des- considerando-as, ele s?? nos proporciona uma caricatura das principais convuls?Áes sociais e intelectuais; desconsiderando as influ?¬ncias `externas’, adultera a hist??ria das disciplinas, insinu- ando que o desvio em rela?º?úo aos padr?Áes n?úo era necess?írio pa- ra que progredissem. Essa a `Verdadeira Hist??ria’ de Imre Laka- tos. Entretanto, como deixei dito, essa n?úo ?® a hist??ria que exerce in- flu?¬ncia sobre o leitor. Como em outros casos, o estudioso da meto- dologia dos programas de pesquisa deixa-se influenciar pela apa- r?¬ncia, n?úo pelo n??cleo `racional’ (agora, `racional’ no sentido da teoria da racionalidade defendida por Lakatos). E como essa a- par?¬ncia corresponde a um passo enorme para al?®m da realidade de concep?º?Áes anteriores, como conduziu a interessant?¡ssimas descobertas hist??ricas e filos??ficas e como parece indicar diretriz clara e certa no labirinto da hist??ria, podemos dar-lhe apoio, sem renunciar ao anarquismo. Cabe mesmo admitir que, no presente est?ígio de consci?¬ncia filos??fica, uma teoria irracional, falsamen- te interpretada como vers?úo nova da Raz?úo, ser?í instrumento melhor para a liberta?º?úo do esp?¡rito do que um anarquismo irres- trito, suscet?¡vel de paralisar quase todos os c?®rebros. (Tendo con- clu?¡do meu ensaio, associar-me-ei a Lakatos, em vez de continuar a saudar o anarquismo expl?¡cito.) De outra parte, n?úo h?í raz?úo por que n?úo se tente antecipar o pr??ximo est?ígio, reunindo os obst?í- culos e apresentando-os de maneira t?úo impressionante quanto poss?¡vel. Lancemos, pois, um olhar ao fen??meno da incomensurabi- lidade que, a meu ver, cria problemas para todas as teorias da racio-

A metodologia dos programas de pesquisa admite que teorias ri- vais e programas de pesquisa rivais sempre podem ser compara- dos no que respeita a conte??do. O fen??meno da incomensurabili- dade parece sugerir que assim n?úo se d?í. Como pode esse fen??- meno ser identificado e quais as raz?Áes de sua exist?¬ncia?

NOTAS 2. Lakatos, `Falsification and the Methodology of Research Pro- grammes’, in Criticism and the Growth of Knowledge, Cambridge, 1970, p. 114. Refer?¬ncias posteriores ser?úo feitas a `Falsificati- 3. Cf. `Falsification’, p. 104, no que se refere a consist?¬ncia e 4. `History of Science and its Rational Reconstructions’, in Boston Studies for the Philosophy of Science, vol. VIII, p. 113. Refer?¬ncias 5. Exemplos s?úo: aus?¬ncia de conte??do ÔÇö a teoria at??mica ao longo inconsist?¬ncia ÔÇö o programa de Bohr (cf. `Falsification’, pp. 138 ss.); amplo conflito com resultados experimentais ÔÇö a id?®ia de mo- vimento da Terra, como descrita nos cap?¡tulos VI e seguintes, anteriores, a teoria de Prout, como descrita em `Falsification’, 7. R. Carnap, p. 202, tra?ºa distin?º?úo entre problemas l??gicos e metodol??gicos e adverte-nos de que os problemas de

esquema abstrato’ ?®, em verdade, a melhor forma de p??r em pr?ítica a metodologia (p. 217); sem eles, n?úo h?í como apreciar 12. `Forne?ºo regras para a ÔÇ£elimina?º?úoÔÇØ de todos os programas de pesquisa’, `History’, p. 100 ÔÇö note-se a ambig??idade introdu- zida pelas aspas. Por vezes, as restri?º?Áes s?úo introduzidas de maneira diferente, atrav?®s da nega?º?úo de `racionalidade’ de certos processos. `?ë perfeitamente racional disputar um jogo perigoso’, diz Lakatos (`History’, p. 104), `irracional ?® enganar- se a respeito do perigo': pode-se fazer o que se queira; bastan- do ocasionalmente lembrar (ou recitar?) os padr?Áes que, por fa- lar nisso, nada dizem acerca de riscos ou de dimens?úo de riscos. Fazer refer?¬ncia a riscos implica presun?º?úo cosmol??gica (s?? raramente a natureza permite que os programas de pesquisa se compor- tem como lagartas) ou presun?º?úo sociol??gica (s?? raramente as institui?º?Áes permitem que sobrevivam programas em degene- resc?¬ncia). De passagem, Lakatos (`History’, p. 101) admite a necessidade desses pressupostos adicionais: somente eles po- dem `transformar a ci?¬ncia de mero jogo em exerc?¡cio episte- mologicamente racional’. Contudo, Lakatos n?úo os discute em min??cia e os que d?í por aceitos s?úo, para dizer o menos, du- vidosos. Tomemos o pressuposto cosmol??gico a que h?í pou- co me referi. Ele ?® interessante e, por certo, merece mais pormenorizado estudo. Esse estudo, ouso sugerir, revelaria que o programa de pesquisa a ele correspondente est?í, hoje, em fase de degeneresc?¬ncia. (Para perceb?¬-lo, basta considerar anomalias tais como a revolu?º?úo copernicana, a revivesc?¬ncia da teoria at??mica, o ressurgimento do pressuposto das influ?¬n- cias celestes, bem como as adapta?º?Áes ad hoc dessas anomalias,

que se refletem na `ilus?úo epistemol??gica’ descrita no cap?¡tulo XV.) O pressuposto sociol??gico, de outra parte, ?®, sem d??vi- da, verdadeiro ÔÇö significando isso que, dado um mundo no qual o pressuposto cosmol??gico seja falso, estaremos para 14. O que ?® repetidamente sublinhado pelo pr??prio Lakatos: `His- 15. Importa lembrar que o debate s?? gira em tomo de regras me- todol??gicas e que `liberdade’ aqui significa liberdade vis-?á-vis tais regras. O cientista continua limitado pelas propriedades de seus instrumentos, recursos financeiros dispon?¡veis, inteli- g?¬ncia dos assistentes, atitude dos colegas, dos companheiros de lazer ÔÇö o cientista ?® limitado por in??meras restri?º?Áes de ordem f?¡sica, fisiol??gica, sociol??gica e hist??rica. A metodolo- gia dos programas de pesquisa (e o anarquismo epistemol??gi- 17. `O desejo de aliviar o sofrimento ?® de reduzido valor na pes- quisa’, escreve um moderno Frankenstein, Dr. Szentgyorgi, em Lancet, i, 1961, p. 1394 (palestra feita em um congresso m?®dico internacional). Essa pessoa deveria. ser aconselhada a trabalhar no campo da caridade. A pesquisa requer ego?¡stas, ego?¡stas consumados, que buscam prazer e satisfa?º?úo pr??prios e os encontram solvendo enigmas da natureza’. Quanto aos Pappworth, Human Guinea Pigs, Boston, 1965. Quanto a al- guns efeitos em psiquiatria, cf. D. L. Rosenhan, Science 179, 18. Quanto a essa e ?ás duas cita?º?Áes seguintes, cf. Hans Richter, 19. The Teachings of Don Juan, Nova Iorque, 1968. ?Ç semelhan- ?ºa de outros `experimentos’, essas experi?¬ncias foram preparadas de duas maneiras. H?í uma prepara?º?úo a longo

prazo e uma prepara?º?úo a prazo curto. A prepara?º?úo a longo prazo consiste de uma s?®rie de testes de personalidade, expli- ca?º?Áes a prop??sito dos testes e de seus resultados, estados de alucinose provocados por drogas, e ?® resumida em uma com- plexa e interessant?¡ssima teoria do conhecimento ou das fases do conhecimento (op. cit., pp. 79 ss.). A prepara?º?úo a prazo curto consiste em induzir o estado de alucinose e em particu- lares instru?º?Áes transmitidas (cf. ordem para transformar-se em um corvo, op. cit., pp. 172 ss.). As prepara?º?Áes a longo e a curto prazo, tomadas em conjunto, emprestam significado ?ás experi?¬ncias e as re??nem em um mundo ??nico e coerente que se liga mais ou menos fortemente ao mundo cotidiano, mas que dele, ocasionalmente, se separa por completo. Em um e outro caso, os crit?®rios podem diferir, mas n?úo h?í modo obje- tivo de decidir entre eles, a menos que se descubra um `su- permundo’ onde se incluam experi?¬ncias de ambas as esp?®- cies. Mesmo nesta hip??tese, necessitaremos de crit?®rios para avaliar as experi?¬ncias e teremos de optar por uma das v?írias 20. Cf. W. Bousset, `Die Himmelsreise der Seele’, Archiv f??r Reli- gionswissenschaft, Bd. 4, 1901, pp. 136 ss. Reimpress?úo, Darms- 21. Ordene ?á sua alma que se transfira para a ?ìndia, que transpo- nha o oceano; em um momento, isso estar?í feito. E se voc?¬ desejar romper a ab??bada do universo e contemplar o que es- t?í al?®m ÔÇö caso haja algo para al?®m do mundo voc?¬ poder?í faz?¬-la’. Corpus Hermeticum, XII, citado com base em Festugi?¿re, La R?®v?®lation d’Herm?¿s Trism?®giste, Paris, 1950, vol. I, 24. James Broderick, S.J., Robert Bellarmine, Saint and Scholar, Londres, 1961, pp. 366 ss.

nar pela mutila?º?úo de Osiandro’, E. Rosen, Three Copernican 27. Esse ?®, com efeito, o procedimento de Galileu, cf. cap?¡tulo 29. Nesse campo, manifestaram-se outras id?®ias e atitudes que Hans Blumenberg, Die Kopernikanische Wende, Frankfurt, 1965, e T. Seznec, The Survival of the Pagan Gods, Princeton, 1963, es- 31. Note-se que a `ilus?úo epistemol??gica’, uma causa freq??ente de progresso, n?úo ocorre segundo sup?Áe Lakatos: `Os resultados das fac?º?Áes rivais … devem ser registrados e, em todos as oca- si?Áes, publicamente exibidos’. `History’, p. 101; grifo do origi- 38. `Em tais decis?Áes’, diz Lakatos, referindo-se a decis?Áes como as que levam ao emprego conservador dos padr?Áes, `importa usar o senso comum’ ÔÇö `History’, nota 58. Correto ÔÇö contanto que reconhe?ºamos que, assim agindo, abandonamos o dom?¡nio da ra- cionalidade, tal como definido pelos padr?Áes, e passamos para um meio `externo’ ou para outros padr?Áes. Lakatos nem sempre deixa claro a mudan?ºa. Muito ao contr?írio. Em seu ataque aos oponentes, faz amplo uso da inclina?º?úo que temos de conside- rar o senso comum como inerentemente racional e de empre-

gar a palavra `racional’ de acordo com os padr?Áes do senso comum. Lakatos acusa os advers?írios de `irracionalidade’. Ins- tintivamente, concordamos com ele, esquecendo que sua pr??- pria metodologia n?úo ap??ia o julgamento, nem proporciona 39. Utilizando a autoridade psicol??gica que a confiss?úo batismal tinha sobre os elementos das primeiras igrejas crist?ús e afir- mando que a interpreta?º?úo n?úo-gn??stica era `seu conte??do e- vidente’ (H. Harnack, History of Dogma, vol. II, Nova Iorque, 1961, p. 26), Irineu conseguiu derrotar a heresia gn??stica. Uti- lizando a autoridade psicol??gica que o senso comum tem so- bre fil??sofos da ci?¬ncia e outras pessoas que se acomodam aos h?íbitos e dando a interpreta?º?úo conservadora de seus pa- dr?Áes com seu conte??do evidente, Imre Lakatos quase conse- guiu convencer-nos da racionalidade de sua filosofia da lei e da ordem e do car?íter n?úo-ornamental de seus padr?Áes: hoje, como ontem, os melhores propagandistas est?úo na Igreja e na 40. Quanto a algumas obje?º?Áes que habitualmente s?úo levantadas 46. Para bibliografia, cf. notas 32 e 33 de meu ensaio `Von der beschr?ñnkten methodologischer Regeli’, Neue Hefte f??r Philoso- phie, Hefte 2/3, G?Áttingen, 1972, e as notas 6 e 9 do cap?¡tulo 47. Cf. o breve levantamento nas pp. 139 ss. de `Von der, etc.’ e 48. `History’, p. 112.

52. `N?úo ser?í… arrog?óncia tentar impor uma filosofia da ci?¬ncia a 63. `Vice-versa’ ÔÇö esta era a opini?úo de Kepler. Cf. Norbert 65. `At?® hoje, os padr?Áes cient?¡ficos, aplicados ÔÇ£instintivamenteÔÇØ pela elite cient?¡fica a casos particulares ?® que se t?¬m constitu?¡do na principal ÔÇö embora n?úo exclusiva ÔÇö medida das leis uni- 66. `Cosmologia’ abrange, neste caso, hist??ria, sociologia, psicolo- gia e todos os outros elementos capazes de influenciar o ?¬xito de certo procedimento. A `lei’ do desenvolvimento desigual, por mim referida no cap?¡tulo XII, pertence tamb?®m ?á cosmo- 70. Ibid., nota 132.

72. Ibid., nota 130; `Falsification’, p. 145: `Quem melhor caracteri- za a posi?º?úo racional ?® Newton.’ Vemos qu?úo arbitr?íria ?® essa se- le?º?úo de padr?Áes: o solit?írio Einstein ?® aceito, as bem discipli- nadas coortes da Escola de Copenhague s?úo rejeitadas. Por certo que n?úo se faz necess?íria toda a complexa maquinaria dos enunciados b?ísicos de valor, balanceada, pelo `senso co- mum’ e por princ?¡pios filos??ficos, quando se sabe, de ante- 75. `History’, p. 111. Todos os ju?¡zos metodol??gicos de Laka- tos se ap??iam (se ?® que se ap??iam em enunciados b?ísicos ÔÇö ver texto correspondente ?ás notas 58 ss. deste cap?¡tulo) nos ju?¡zos b?ísicos de valor e no estatuto desse per?¡odo, deixando de parte os ju?¡zos b?ísicos de valor das escolas que ele n?úo aprecia. E quando os ju?¡zos b?ísicos de valor n?úo mostram a necess?íria unidade s?úo, de imediato, substi- tu?¡dos pelos padr?Áes popperianos. Pouco surpreende que Lakatos n?úo encontre sequer um tra?ºo de `conhecimento cient?¡fico’ na Idade M?®dia. Com efeito, ?áquele tempo, os pensadores procediam de maneira muito diversa. Empre- gando seus pr??prios padr?Áes, Lakatos n?úo pode afirmar que aqueles pensadores fossem menos dignos de nota ÔÇö e, assim, ele simplesmente recai na ideologia vulgar de nossa pr??pria idade `cient?¡fica’. A maioria das pesquisas concer- nentes ?á astronomia eg?¡pcia, babil??nica e da Gr?®cia Antiga orienta-se exatamente pela mesma diretriz. Interessa-se t?úo- somente por aqueles fragmentos de velhas id?®ias que se Abandonam as antigas cosmologias e os velhos objetivos que as uniam, de modo admir?ível, entre si e a outros frag- mentos. Pouco surpreende que os resultados se afigurem incoerentes e `irracionais’. Exce?º?úo isolada ?® B. L. van

a Cop?®rnico e (2) n?úo diferia significativamente da metodolo- gia dos programas de pesquisa. (Lakatos e Zahar esquecem tamb?®m as dificuldades relativas ?á din?ómica, examinadas nos anteriores cap?¡tulos VI e VII. Apor essas dificuldades ?á bem sucedida vers?úo que eles apresentam ?® transform?í-la em ver- s?úo desoladoramente fracassada.) 81. Quanto a `ilus?úo epistemol??gica’, cf. cap?¡tulo XV, texto cor- respondente ?ás notas 6 e 7. A cita?º?úo foi recolhida em `His- 83. Essa maneira de dizer equivale, naturalmente, a uma simplifi- 84. Isso ?® verdade em rela?º?úo a Popper: `Ele n?úo provoca, e n?úo falemos em responder, as indaga?º?Áes: ÔÇ£Em que circunst?óncias, vo- c?¬ abandonaria o crit?®rio da demarca?º?úo?ÔÇØ ‘, `History’, p. 110, grifo do original. N?úo se aplica a Plat?úo ou Arist??teles que estudam o conhecimento e lhe descobrem a complexidade. Cf. W. Wieland, Die Aristotelische Physik, pp. 76 ss. (Todo o espalhafato que os popperianos fazem a prop??sito de `conhecimento pr?®vio’ [background knowledge] ?® aqui antecipado com argumentos e ob- serva?º?Áes vigorosas e simples.) Mas aplica-se aos aristot?®licos 85. Um exemplo ?® apontado em meu `Classical Empiricism’, The 86. Como exemplo, cf. a rela?º?úo entre a filosofia de Descartes e sua f?¡sica, entre a metodologia de Newton e sua f?¡sica e entre a filosofia de Popper e a f?¡sica de Einstein, tal como vista por Einstein. O ??ltimo caso ?® algo obscurecido pelo fato de Popper mencionar Einstein como uma das inspi- ra?º?Áes e como a principal ilustra?º?úo de sua doutrina do falseamento. Ora, ?® muito poss?¡vel que Einstein, que pa- rece ter sido como que um oportunista epistemol??gico (ou c?¡nico ÔÇö ver texto correspondente ?á nota seis da Introdu?º?úo)

tenha, ocasionalmente, se manifestado de maneira que pode ser interpretada como favor?ível a uma epistemologia do false- amento. Entretanto, suas a?º?Áes e o conjunto de seus pronun- ciamentos escritos contam uma hist??ria diferente. Cf. cap?¡tulo 87. Cf. tamb?®m minha manifesta?º?úo na Conferencia Alem?ú de Filosofia, Kiel, outubro de 1972, a aparecer nas Atas (Felix Mainer, Hamburgo).

Tendo ouvido uma de minhas exposi?º?Áes em prol do anar- quismo, o Prof. Wigner assim se manifestou: `Tenho certeza de que voc?¬ n?úo l?¬ todos os manuscritos que lhe s?úo enviados, mas joga a maioria deles na cesta de pap?®is’. Sem d??vida que assim procedo. `Tudo vale’ n?úo significa leia eu tudo quanto se escreve ÔÇö valha-me Deus! Significa fazer eu a sele?º?úo de maneira muito individual e pr??pria, em parte porque n?úo posso dar-me ao inc??- modo de ler o que n?úo me interessa ÔÇö e meus interesses mudam de semana para semana, de dia para dia ÔÇö e, em parte, por estar convencido de que a Humanidade e mesmo a Ci?¬ncia lucrar?úo se cada um de n??s se dedicar a seu pr??prio campo. ?ë poss?¡vel que um f?¡sico prefira um artigo dif?¡cil, parcialmente incompreens?¡vel e repleto de erros a uma exposi?º?úo cristalina, porque o artigo se re- laciona com uma pesquisa, ainda mal organizada, em que est?í em- penhado e talvez ele alcance ?¬xito e esclare?ºa id?®ias muito antes de um rival que jurou jamais ler uma linha confusa (uma das qualida- des da Escola de Copenhague estava em sua habilidade de evitar a precis?úo prematura: cf. `On a Recent Critique of Complementarity, Part II’, Philosophy of Science, mar?ºo de 1969, sec. 6 ss.). Em outras

ocasi?Áes, ?® poss?¡vel que o f?¡sico procure a mais perfeita demons- tra?º?úo de um princ?¡pio que est?í em vias de utilizar, a fim de que n?úo sofra desvios o debate daquilo que ele considera os mais im- portantes resultados obtidos. H?í, naturalmente, os chamados `pensadores’ que, chova ou fa?ºa sol, subdividem a correspond?¬n- cia recebida de maneira exatamente id?¬ntica, imitando os rec?¡pro- cos princ?¡pios de escolha ÔÇö mas pouco nos inclinamos a admir?í- los pela uniformidade e, por certo, n?úo consideramos `racional’ o procedimento que adotam: a Ci?¬ncia reclama pessoas flex?¡veis e inventivas e n?úo r?¡gidos imitadores de padr?Áes de comportamento No caso de institui?º?Áes e organiza?º?Áes; como a National Science Foundation, a situa?º?úo ?® exatamente a mesma. A fisiog- nomonia de uma organiza?º?úo e sua efici?¬ncia dependem de seus membros e se aperfei?ºoam com a agilidade emocional e mental que estes revelam. At?® mesmo as grandes lojas se deram conta de que um punhado de homens servis ?® inferior, em potencial com- petitivo, a um grupo de pessoas com opini?Áes fora do comum e os neg??cios j?í encontraram meio de incorporar ?á pr??pria maqui- naria os mais surpreendentes inconformistas. Problemas especiais s?úo enfrentados por funda?º?Áes que distribuem dinheiro e desejam faz?¬-lo de maneira justa e razo?ível. A justi?ºa parece exigir que a concess?úo de aux?¡lios se fa?ºa com base em padr?Áes que n?úo vari- em de um para outro candidato e que reflitam a situa?º?úo intelectu- al nos campos a serem favorecidos. A exig?¬ncia pode ser satisfeita Pode-se, inclusive, manter a ilus?úo de que as regras escolhidas ga- rantem efici?¬ncia e n?úo s?úo simplesmente medidas oportunistas, provis??rias: qualquer livre associa?º?úo deve respeitar as ilus?Áes de seus membros e dar-lhes apoio institucional. A ilus?úo de racionali- dade torna-se especialmente forte quando uma institui?º?úo cient?¡fica se op?Áe a exig?¬ncias pol?¡ticas. Nesse caso, uma classe de padr?Áes se levanta contra outra ÔÇö o que ?® muito leg?¡timo: cada organiza- ?º?úo, cada partido, cada grupo religioso tem o direito de defender sua

Entretanto, os cientistas v?úo muito al?®m. ?Ç semelhan?ºa do que antes de- les fizeram os defensores da ?Ünica e Verdadeira Religi?úo, insinu- am que seus padr?Áes s?úo essenciais para que se alcance a Verdade ou para que se consigam Resultados e negam essa condi?º?úo ?ás e- xig?¬ncias do pol?¡tico. Op?Áem-se, especialmente, a qualquer inter- fer?¬ncia pol?¡tica e se apressam a lembrar quem os ouve ou quem Ora, vimos que a cren?ºa em um conjunto de padr?Áes que ao ?¬xito sempre conduziu e ao ?¬xito sempre conduzir?í n?úo passa de uma quimera. A autoridade teor?®tica da ci?¬ncia ?® muito menor do que se sup?Áe. Sua autoridade social, por outro lado, tornou-se, hoje, algo t?úo poderoso que a interfer?¬ncia pol?¡tica se faz necess?íria para assegurar desenvolvimento equilibrado. E, com o fim de estudar os efeitos dessa interfer?¬ncia, importa examinar mais de um caso n?úo anali- sado. Cumpre lembrar os casos em que a ci?¬ncia, deixada a si mesma, cometeu s?®rios desatinos e importa n?úo esquecer exem- plos em que a interfer?¬ncia pol?¡tica atuou para melhoria da situa?º?úo (um exemplo foi debatido no texto correspondente ?ás notas 9-13 do cap?¡tulo IV). Essa ponderada apresenta?º?úo da evid?¬ncia talvez nos conven?ºa de que ?® mais do que tempo de acrescentar a sepa- ra?º?úo EstadoÔÇôCi?¬ncia ?á separa?º?úo, hoje habitual, entre Estado e Igreja. A ci?¬ncia ?® apenas um dos muitos instrumentos inventados pelo homem para fazer face ?á circunst?óncia. N?úo ?® o ??nico, n?úo ?® infal?¡vel e tornou-se demasiado poderoso, din?ómico em demasia, Por fim, digamos uma palavra acerca da finalidade pr?ítica Lakatos preocupa-se com a polui?º?úo intelectual. Participo dessa preocupa?º?úo. Livros ch?úos e vazios inundam o mercado, pa- lavreado penetrado de termos estranhos e esot?®ricos pretende ex- pressar introvis?Áes profundas, `especialistas’, sem intelig?¬ncia e sem car?íter e sem sequer tra?ºos de ?¡ndole intelectual, estil?¡stica

e emocional, falam-nos acerca de nossa `condi?º?úo’ e dos meios de aperfei?ºo?í-la e n?úo pregam apenas para n??s, que podemos perce- ber quem s?úo, mas, deixados livres, pregam para nossos filhos e `Professores’, recorrendo aos graus e ao temor da reprova?º?úo, moldam o c?®rebro dos jovens at?® que estes percam a ??ltima dose de imagina?º?úo que hajam possu?¡do. A situa?º?úo ?® desastrosa e de corre?º?úo dif?¡cil. N?úo vejo, por?®m, de que maneira a metodologia de Lakatos poderia ajudar. Ao que julgo, o primeiro e mais pre- mente problema ?® retirar a educa?º?úo das m?úos dos `educadores profissionais’. Os constrangimentos decorrentes de notas, compe- ti?º?úo e exames regulares devem ser afastados, importando tamb?®m distinguir o processo de aprendizagem do preparo para uma particular pro- fiss?úo. Concedo que os neg??cios, as religi?Áes, as profiss?Áes especi- ais, como as da ci?¬ncia ou da prostitui?º?úo, tenham o direito de e- xigir que seus afiliados e/ou praticantes se conformem a padr?Áes que lhes parecem importantes e que possam verificar-lhes a com- pet?¬ncia. Admito, ainda, que isso implique a necessidade de tipos especiais de educa?º?úo, capazes de preparar o homem ou a mulher para os respectivos `exames’. N?úo ?® preciso que sejam `racionais’ ou `razo?íveis’, em qualquer sentido, os padr?Áes transmitidos, em- bora, normalmente, venham apresentados como tais; basta que sejam aceitos pelos grupos a que algu?®m se deseja filiar, seja o da Afinal de contas, em uma democracia, a `raz?úo’ tem tanto direito de ser ouvida e manifestar-se quanto a `n?úo-raz?úo’ especialmente em vista de ser `raz?úo’ para um homem aquilo que para outro ?® insanidade. Uma coisa, entretanto, h?í de ser evitada a qualquer cus- to: n?úo se deve permitir que os padr?Áes especiais definidores de es- peciais assuntos e de particulares profiss?Áes se infiltrem na educa?º?úo geral e deles n?úo se deve fazer a propriedade caracter?¡stica do `ho- mem bem-educado’. A educa?º?úo geral deve preparar o cidad?úo para escolher entre os padr?Áes ou para encontrar seu caminho na sociedade,

onde se incluem grupos dedicados a padr?Áes v?írios, mas ela n?úo de- ve, em condi?º?úo alguma, desvirtuar seu prop??sito, de modo a acomod?í-lo aos padr?Áes de um grupo determinado. Os padr?Áes ser?úo examinados, ser?úo debatidos, as crian?ºas ser?úo estimuladas a conseguir dom?¡nio das mat?®rias mais importantes, mas t?úo somente no sentido de algu?®m que alcan?ºa profici?¬ncia em um jogo, isto ?®, sem comprometimento s?®rio e sem roubar ao esp?¡rito a capacidade de tamb?®m entregar-se a ou- tros jogos. Preparado segundo esse esquema, o jovem poder?í de- cidir devotar o resto de sua vida a certa profiss?úo, come?ºando i- mediatamente a tom?í-la a s?®rio. Esse `comprometimento’ deve ser o resultado de uma decis?úo consciente, com base em conhecimen- to razoavelmente completo das alternativas e n?úo uma conclus?úo pre- Tudo isto significa, ?® claro, que devemos impedir que os ci- entistas assumam o controle da educa?º?úo e passem a ensinar co- mo `fato’ e `como ??nico m?®todo verdadeiro’ aquilo que por acaso esteja sendo o mito do dia. Concord?óncia com a ci?¬ncia, decis?úo de trabalhar segundo os c?ónones da ci?¬ncia h?í de ser o resultado de exame e de sele?º?úo e n?úo de uma particular maneira de criar as Parece-me que mudan?ºa dessa ordem introduzida na edu- ca?º?úo e, por conseq???¬ncia, na perspectiva, removeria grande parte da polui?º?úo intelectual deplorada por Lakatos. A altera?º?úo de perspectiva tornaria claro que h?í muitas maneiras de ordenar o mundo que nos rodeia, que as odiadas restri?º?Áes colocadas por um conjunto de padr?Áes podem ser quebradas pela aceita?º?úo livre de uma diferente esp?®cie de padr?Áes e que n?úo h?í necessidade de rejeitar qualquer ordem e de permitir que a pessoa se reduza a uma lamuriosa corrente de consci?¬ncia. Uma sociedade apoiada em um conjunto de regras restritivas e bem definidas, sociedade em que ser homem se torne sin??nimo de obedecer a essas regras, for?ºa o dissi- dente a retirar-se para uma terra-de-ningu?®m, totalmente desprovida de regras e, assim, o priva de sua raz?úo e de sua humanidade. O paradoxo do mo-

derno irracionalismo est?í em que seus defensores tacitamente i- dentificam o racionalismo ?á ordem e ao discurso articulado e, por isso, v?¬em-se for?ºados a estimular a tartamudez e o absurdo ÔÇö muitas formas de `misticismo’ e `existencialismo’ tornam-se im- poss?¡veis sem firme, por?®m despercebida, ades?úo a alguns princ?¡- pios da desdenhada ideologia (basta lembrar a `teoria’ segundo a qual a poesia n?úo passa de emo?º?Áes vividamente expressas). Re- movam-se os princ?¡pios, admita-se a possibilidade de existirem diferentes formas de vida e esses fen??menos desaparecer?úo como Meu diagn??stico e minha sugest?úo coincidem com os de Lakatos ÔÇö at?® certo ponto. Lakatos apontou os princ?¡pios de ra- cionalidade declaradamente r?¡gidos como a ponte de algumas cor- rentes do irracionalismo e concitou-nos a adotar padr?Áes novos e de maior liberalidade. Eu apontei os princ?¡pios de racionalidade declaradamente r?¡gidos e o `respeito geral pela `raz?úo’ como a fon- te de algumas formas de misticismo e irracionalismo e tamb?®m concitei ?á ado?º?úo de padr?Áes mais liberais. Mas enquanto o grande `respeito pela grande ci?¬ncia’, demonstrado por Lakatos (`History’, p. 113) o leva a procurar os padr?Áes dentro das fronteiras da ci?¬n- cia moderna `dos dois ??ltimos s?®culos’ (p. 111), eu recomendo que a ci?¬ncia seja posta em seu lugar, como forma interessante, mas de modo algum exclusiva, do conhecimento, que apresenta vantagens e desvantagens: `Embora a ci?¬ncia, vista como um todo, seja uma inconveni?¬ncia, ainda assim dela se pode aprender’ (Gottfried Benn, carta a Gert Micha Simon, datada de 11 de outubro de 1949; citada com base em Gottfried Benn, Lyrik und Prosa, Briefe und Dokumente, Wiesbaden, 1962, p. 235). Tamb?®m n?úo creio que se possa banir os charlat?úes por meio do simples recurso de tornar Charlat?úes sempre existiram e nas mais reputadas profis- 176, nota 1) parecem indicar que o problema surge devido ao excesso e n?úo ?á falta de controle (cf., tamb?®m, as observa-

?º?Áes que ele faz acerca da `falsa consci?¬ncia’, in `History’, pp. 94, 108 ss.). Isso ?® especialmente verdadeiro a prop??sito dos `revolu- cion?írios’ e da `reforma’ das universidades por eles propostas. O erro est?í em eles serem puritanos e n?úo em serem libertinos (para um exemplo mais antigo, cf. as Born-Einstein Letters, Nova Iorque, 1971, p. 150). Al?®m disso, quem esperaria que os covardes melho- rassem o clima intelectual mais rapidamente que os libertinos? (E- instein percebeu esse problema e advertiu contra o relacionar a pesquisa ?á profiss?úo: a pesquisa h?í de estar livre das press?Áes que a profiss?úo se inclina a impor ÔÇö Born-Einstein Letters, pp. 105 ss.) Imporia lembrar ainda que os raros casos em que as metodologias liberais encorajam o palavreado vazio e a reflex?úo desconexa (`des- conexa’ de um ponto de vista, embora talvez n?úo de outro) ser?úo, talvez, inevit?íveis, no sentido de que o liberalismo culp?ível ?® tam- Permitam-me, por fim, repetir que, a meu ver, o chauvi- nismo da ci?¬ncia constitui-se em problema bem mais s?®rio do que o problema da polui?º?úo intelectual. Talvez seja mesmo uma das causas principais da polui?º?úo. Os cientistas n?úo se contentam com dirigir suas id?®ias de acordo com o que entendem ser as regras do m?®todo cient?¡fico: desejam dar universalidade a essas regras, que- rem que elas se tornem parte da sociedade e valem-se de todos os meios de que disp?Áem ÔÇö argumento, propaganda, t?íticas de pres- Os comunistas chineses perceberam os perigos presentes nesse chauvinismo e passaram a agir no sentido de afast?í-lo. Ao longo desse processo, restauraram importantes partes da heran?ºa intelec- tual e emocional do povo chin?¬s e aperfei?ºoaram a pr?ítica da me- dicina (cf. texto correspondente ?ás notas 9-13 do cap?¡tulo IV). Se- ria conveniente que outros governos fizessem o mesmo.

avan?ºado programa de pesquisa que conhecem. Gatinhos que se aproximem da figura de um abismo recuam, ainda que seja essa a primeira coisa que v?¬em. O comportamento, cabe presumir, ?® ina- to. As pessoas recuam porque foram ensinadas a se manter longe das janelas e porque acreditam firmemente naquilo que para mui- tos deles n?úo passa de boato, isto ?®, narra?º?Áes acerca dos efeitos mortais da queda de grande altura. N?úo se demonstrou ainda que as teorias mec?ónicas e fisiol??gicas a que os mais prolixos n?úo- saltadores possam recorrer para justificar o pr??prio comportamen- to estejam em concord?óncia com os programas de pesquisa e du- vido que haja como remediar tal situa?º?úo. N?úo est?í o anarquista epistemol??gico, de outra parte, obrigado a comportar-se de modo contr?írio ao costumeiro. Ele admitir?í, prontamente, que ?® covar- de, que n?úo tem como controlar o medo e que esse medo o man- t?®m afastado das janelas. (Para min??cias, ver cap?¡tulo XVI, especi- almente o texto correspondente ?ás notas 38 ss.) O que ele nega ?® a possibilidade de oferecer, para aquele medo, raz?Áes que se po- nham em conson?óncia com os padr?Áes de alguma teoria da racio- nalidade, de modo a evidenciar que ele est?í efetivamente agindo em obedi?¬ncia a padr?Áes. Este ?® o ponto em causa e n?úo o que o anarquista epistemol??gico faz ou deixa de fazer.

XVII Al?®m disso, tais padr?Áes, que envolvem uma compara?º?úo en- tre classes de conte??do, nem sempre s?úo aplic?íveis. As classes de conte??do de certas teorias s?úo insuscet?¡veis de compara- ?º?úo, no sentido de que nenhuma das rela?º?Áes l??gicas habitu- ais (inclus?úo, exclus?úo, superposi?º?úo) vige entre elas. Ocorre isso quando comparamos os mitos ?á ci?¬ncia. Ocorre, ainda, nas mais desenvolvidas, mais gerais e, portanto, mais mitol??- gicas partes da pr??pria ci?¬ncia.

?á palavra ÔÇ£eleÔÇØ ou ?á palavra ÔÇ£elaÔÇØ que, entretanto, n?úo se manifesta no quadro de comportamento patente enquanto e at?® quando n?úo Classifica?º?Áes impl?¡citas (que, em raz?úo de sua natureza sub- jacente, s?úo `mais sentidas do que compreendidas ÔÇö consci?¬ncia delas envolve uma qualidade intuitiva’6 ÔÇö que `se mostram mais capazes de ser racionais do que as classifica?º?Áes expl?¡citas’7 e que talvez se revelem `muito sutis’ e desligadas `de qualquer grande di- cotomia’8) criam `resist?¬ncias padronizadas a pontos de vista am- plamente divergentes’9. Se essas resist?¬ncias se opuserem n?úo ape- nas ?á verdade das alternativas a que resistem, mas tamb?®m ?á pre- sun?º?úo de que uma alternativa haja sido apresentada, teremos, en- Creio, ainda, que as teorias cient?¡ficas, tais como a teoria do movimento, elaborada por Arist??teles, a teoria da relatividade, a teoria qu?óntica, a cosmologia cl?íssica e moderna, s?úo suficiente- mente gerais, suficientemente `profundas’ e se desenvolveram se- gundo diretrizes suficientemente complexas para poderem ser Os debates que preparam a transi?º?úo para uma nova ?®poca, no campo da f?¡sica ou da astronomia, dificilmente se restringem, algu- ma vez, aos tra?ºos patentes do ponto de vista ortodoxo. Freq??en- temente revelam id?®ias ocultas, substituem-nas por id?®ias de esp?®cie diferente e alteram tanto as classifica?º?Áes impl?¡citas quanto as expl?¡- citas. A an?ílise que Galileu fez do argumento da torre levou a uma formula?º?úo mais clara da teoria aristot?®lica acerca do espa?ºo e reve- lou, tamb?®m, a diferen?ºa entre ?¡mpeto (magnitude absoluta, ineren- te ao objeto) e momento (que depende do sistema de refer?¬ncia es- colhido). A an?ílise feita por Einstein, a prop??sito da simultaneida- de, desvelou alguns tra?ºos da cosmologia newtoniana que, embora desconhecidos, haviam influenciado todos os argumentos acerca de espa?ºo e tempo e Niels Bohr verificou, em acr?®scimo, que o mundo f?¡sico n?úo poderia ser encarado como algo independente

por completo do observador e admitiu a id?®ia de independ?¬ncia que era parte da f?¡sica cl?íssica10. Tendo em conta casos como es- ses verificamos que os argumentos cient?¡ficos podem, sem d??vida, ver-se expostos a `resist?¬ncias padronizadas’11, cabendo esperar que a incomensurabilidade tamb?®m se manifeste entre teorias.

(Como a incomensurabilidade depende de classifica?º?Áes impl?¡citas e envolve importante altera?º?Áes conceptuais, muito difi- Nem as `reconstru?º?Áes’ costumeiras conseguem esclarec?¬-la. O fen??meno h?í de ser apresentado, o leitor deve ser levado at?® ele por meio de uma confronta?º?úo com grande variedade de exem- plos e, ent?úo, julgar?í por si mesmo. Ser?í esse o m?®todo adotado no presente cap?¡tulo.) 12

Interessantes casos de incomensurabilidade ocorrem j?í no dom?¡nio da percep?º?úo. (Isso n?úo surpreender?í, se lembrarmos as considera?º?Áes expendidas no cap?¡tulo XIV, atr?ís.) Dados est?¡mu- los apropriados, mas diferentes sistemas de classifica?º?úo (diferen- tes `conjuntos mentais’), nosso aparelho perceptivo poder?í produ- zir objetos de percep?º?úo entre os quais a compara?º?úo n?úo ser?í f?í- cil13. Um ju?¡zo direto ?® imposs?¡vel. Podemos comparar as duas ati- tudes em nossa mem??ria, mas n?úo enquanto estivermos contem- plando o mesmo quadro. O primeiro dos desenhos que se encon- tram abaixo vai um passo adiante. D?í surgimento a objetos de percep?º?úo que n?úo apenas negam outros objetos de percep?º?úo ÔÇö conservando, assim, as categorias b?ísicas ÔÇö mas impedem a for- ma?º?úo de qualquer outro objeto (note-se que o cilindro intermedi- ?írio se desvanece no nada, na medida em que nos aproximamos da parte interior do est?¡mulo) provocado pelas duas partes exterio- res. Sequer a mem??ria pode, agora, oferecer-nos vis?úo completa das alternativas.

mentais’ pass?¡veis de ser alterados ?á vontade, sem recurso a dro- gas, hipnose, recondicionamento. Contudo, os conjuntos mentais podem ser paralisados pela doen?ºa, como resultado de cria?º?úo dentro de certa cultura ou em raz?úo de determinantes fisiol??gicos que escapam a nosso controle. (Nem toda altera?º?úo de linguagem se acompanha de altera?º?Áes de percep?º?úo.) Nossa atitude para com outras ra?ºas ou para com pessoas de forma?º?úo cultural dife- rente depende, freq??entes vezes, de padr?Áes `congelados’ de se- gunda esp?®cie: tendo aprendido a `ler’ fisionomias, de maneira pa- Interessante exemplo de conjuntos fisiologicamente deter- minados e que levam ?á incomensurabilidade ?® proporcionado pelo desenvolvimento da percep?º?úo humana. Como sugerido por Piaget e sua escola15, a percep?º?úo da crian?ºa atravessa diversos est?ígios antes de alcan?ºar a forma adulta, relativamente est?ível. Em um est?ígio, os objetos parecem comportar-se muito ?á semelhan?ºa de p??s- imagens e s?úo tratados como tais. A crian?ºa acompanha o objeto com os olhos at?® que ele desapare?ºa; n?úo faz a menor tentativa de recuper?í-lo, ainda que isso requeira t?úo somente m?¡nimo esfor?ºo f?¡sico (ou intelectual), esfor?ºo que, ali?ís, j?í est?í ao alcance da cri- an?ºa. N?úo h?í mesmo tend?¬ncia de procurar o objeto ÔÇö e isso ?® razo?ível, `conceptualmente’ falando. Com efeito, seria absurdo `procurar’ uma p??s-imagem. Seu `conceito’ n?úo propicia opera?º?úo O surgimento do conceito e da imagem de percep?º?úo dos objetos materiais altera dramaticamente a situa?º?úo. Ocorre dr?ís- tica reorienta?º?úo dos padr?Áes de comportamento e, cabe conjec- turar, de pensamento. P??s-imagens ou coisas a elas semelhantes continuam a existir; mas s?úo, agora, dif?¡ceis de achar e h?úo de ser descobertas. por m?®todos especiais (o mundo visual anterior de- saparece literalmente16. Esses m?®todos derivam de um novo esquema conceptual (p??s-imagens ocorrem em seres huma- nos, n?úo s?úo partes do mundo f?¡sico) e n?úo podem recon- duzir aos exatos fen??menos do est?ígio anterior. (Tais fen??me-

por Loewy em termos de mecanismos psicol??gicos: `a par das i- magens que a realidade apresenta ao olho f?¡sico, existe um mundo de imagens inteiramente diverso, imagens que vivem, ou melhor, que somente ganham vida em nosso esp?¡rito e que, embora suge- ridas pela realidade, sofrem total transforma?º?úo. Todo ato primiti- com a regularidade instintiva de uma fun?º?úo ps?¡quica’26. O estilo arcaico altera-se como conseq???¬ncia de `numerosas observa?º?Áes planejadas da natureza, observa?º?Áes que modificam as puras ima- gens mentais’27, iniciando-se o desenvolvimento em dire?º?úo ao re- alismo e, dessa forma, come?ºando a Hist??ria da Arte. Para o estilo arcaico e para a transforma?º?úo por ele sofrida s?úo dadas raz?Áes Ora, n?úo ?® claro o porqu?¬ seria mais `natural’ copiar ima- gens da mem??ria do que imagens da percep?º?úo, estas muito me- lhor definidas e muito mais permanentes28. Verifica-se, ainda, que, freq??entemente, o realismo precede mais esquem?íticas formas de apresenta?º?úo. Isso ?® verdade em rela?º?úo ?á idade da pedra lasca- da’29, da arte eg?¡pcia30, da arte geom?®trica ?ítica31. Em todos esses casos, o `estilo arcaico’ ?® antes o resultado de um esfor?ºo consciente (que pode, ?® claro, ser auxiliado ou bloqueado por tend?¬ncias in- conscientes e por leis fisiol??gicas) do que uma rea?º?úo natural a marcas internas de est?¡mulos externos32. Em vez de procurar as causas psicol??gicas de um `estilo’, devemos, portanto, dar prefe- r?¬ncia a tentar descobrir seus elementos, analisar-lhes a fun?º?úo, compar?í-los com outros fen??menos da mesma cultura (estilo lite- r?írio, constru?º?úo de senten?ºas, gram?ítica, ideologia), atingindo, assim, um esbo?ºo geral da subjacente vis?úo do mundo, incluindo uma explica?º?úo do modo como essa vis?úo do mundo influencia a per- cep?º?úo, o pensamento, a forma de argumenta?º?úo e uma explica?º?úo dos limites que imp?Áe ?ás fantasias da imagina?º?úo. Veremos que essa an?ílise das linhas gerais proporciona melhor compreens?úo do processo de altera?º?úo conceptual do que a explica?º?úo naturalista ou a explica?º?úo que deflui de uso de frases corriqueiras como `uma

discuss?úo cr?¡tica e uma compara?º?úo das … v?írias estruturas ?® sem- pre poss?¡vel’33. Claro est?í, alguma forma de compara?º?úo ?® sempre poss?¡vel (por exemplo, uma teoria f?¡sica poder?í soar mais melodi- osa do que outra, quando apresentada em voz alta, com o acom- panhamento de um viol?úo). Coloquemos, por?®m, regras espec?¡fi- cas para o processo de compara?º?úo, tais como as regras de l??gica, aplicadas ?á rela?º?úo das classes de conte??do, e depararemos com exce?º?Áes, restri?º?Áes indevidas, e seremos for?ºados, a cada momen- to, a sair do embara?ºo atrav?®s de evasivas. Muito mais interessante e instrutivo ?® examinar os tipos de coisas que podem ser ditas (re- presentadas) e os tipos de coisas que n?úo podem ser ditas (repre- sentadas), caso a compara?º?úo tenha de ocorrer dentro de uma estrutura especificada e historicamente bem assentada. Para tal exame, devemos passar al?®m das generalidades e estudar, em pormenor, as estrutu- ras. Principio com uma apresenta?º?úo de alguns exemplos de estilo As ilustra?º?Áes B e C (ver o fim deste cap?¡tulo) mostram as seguintes caracter?¡sticas da figura humana: `os homens s?úo muito altos e esguios, o tronco ?® um tri?óngulo que afila para o peito, a cabe?ºa ?® uma protuber?óncia, sendo o rosto mero pro- longamento; ao fim do per?¡odo em que o estilo domina, a ca- be?ºa ?® avivada ÔÇö a protuber?óncia ?® desenhada em suas linhas demarcadoras e um ponto representa o olho’34. Todas ou quase todas as partes aparecem em perfil e s?úo ligadas como os bra- ?ºos de uma boneca de pano ou de marionetes. N?úo s?úo `inte- gradas’ de modo a formar um todo org?ónico. Esta caracter?¡stica `aditiva’ do estilo arcaico ?® particularmente vis?¡vel no tratamento dado ao olho. O olho n?úo participa das a?º?Áes do corpo, n?úo guia o corpo, nem estabelece contato entre ele e o meio ambiente: n?úo `olha’. ?ë acrescentado ao perfil da cabe?ºa, na forma de par- te de uma nota?º?úo, como se o artista procurasse dizer: `e ao la- do de todas essas coisas, digamos as pernas, os bra?ºos, os p?®s, o homem tamb?®m possui dois olhos, que ficam na cabe?ºa, um de cada lado’ (Ilustra?º?Áes D e A cont?¬m o `olho frontal’). Analo-

gamente, estados espec?¡ficos do corpo (vivo, morto, enfermo) n?úo s?úo indicados por meio de arranjos especiais das partes, mas medi- ante coloca?º?úo do mesmo corpo-padr?úo em v?írias posi?º?Áes padro- nizadas. Assim, o corpo do homem morto, colocado no carro fu- ner?írio (Ilustra?º?úo C), articula-se precisamente como o homem que est?í em p?® ÔÇö mas com um giro de 90 graus que permite situ- ?í-lo entre a parte inferior do sud?írio e a parte superior do esqui- fe35. Tendo a forma de um homem vivo, ele ?® colocado na posi?º?úo de um homem morto. Outro exemplo ?® a figura de uma crian?ºa, que tem metade de seu corpo dentro da boca de um le?úo36. O le?úo tem aspecto feroz, mas a crian?ºa parece feliz e o ato de engolir ?® sumariamente aposto ?á representa?º?úo do que ?® um le?úo e do que ?® uma crian?ºa. (Temos o que se denomina agregado parat?íctico: os e- lementos de um agregado desse g?¬nero recebem todos o mesmo realce, a ??nica rela?º?úo que entre eles se estabelece ?® seq??encial, n?úo h?í hierarquia, nenhuma das partes ?® posta em subordina?º?úo ou ?® determinada por outras.) A pintura diz: le?úo feroz, crian?ºa A necessidade de apresentar todas as partes essenciais de uma situa?º?úo leva, com freq???¬ncia, a uma separa?º?úo de partes que Assim, o auriga da Ilustra?º?úo E aparece em p?®, acima do solo (que ?® apresentado em vista ampla) e n?úo escondido pelos aros das ro- das, de sorte que seus p?®s, o ch?úo, os raios, tudo pode ser clara- mente visto. Nenhuma dificuldade surge caso olhemos a pintura como um cat?ílogo visual das partes de um acontecimento, em vez de contempl?í-la como ilus??ria apresenta?º?úo do pr??prio aconteci- mento. (Nenhuma dificuldade surge, dizemos: seus p?®s tocavam o Contudo, essa interpreta?º?úo h?í de ser aprendida, n?úo decorre dire- A parte de aprendizado que se faz necess?íria talvez seja grande. Alguns desenhos e pinturas eg?¡pcios s?? podem ser de-

codificados com o aux?¡lio do pr??prio objeto representado ou com o aux?¡lio de representa?º?Áes tridimensionais desse objeto (estatu?í- ria, no caso de seres humanos, animais, etc.). Utilizando essa in- forma?º?úo, damo-nos conta de que a cadeira da Figura A represen- ta o objeto da Figura C e n?úo o objeto da Figura B e deve ser en- tendida como: `cadeira com encosto e quatro pernas, pernas liga- das por um suporte’, ficando claro que s?? as pernas fronteiras en- tre si e as pernas traseiras entre si ligam-se daquele modo38. A in- terpreta?º?úo de grupos ?® complexa e alguns casos n?úo foram ainda compreendidos39.

(Ser capaz de `ler’ certo estilo inclui, tamb?®m, conhecimen- to dos tra?ºos que sejam irrelevantes. Nem todos os tra?ºos de uma figura arcaica t?¬m valor representativo, assim como nem todos os tra?ºos de uma senten?ºa escrita desempenham papel no articular- lhe o conte??do. Isso foi olvidado pelos gregos que come?ºaram por inquirir das raz?Áes das `dignas posturas’ das est?ítuas eg?¡pcias (j?í Plat?úo fazia coment?írios a esse prop??sito). Essa indaga?º?úo `po- deria ter surpreendido um artista eg?¡pcio, como n??s nos surpreen- der?¡amos se algu?®m fizesse indaga?º?úo a respeito da idade ou do temperamento do rei de um jogo de xadrez’40.) At?® agora, oferecemos breve exposi?º?úo de algumas peculia- De v?írios modos se pode descrever e analisar um estilo. As descri?º?Áes j?í apresentadas concentraram aten?º?úo em tra?ºos formais: o estilo arcaico mostra faixas vis?¡veis cujas partes se disp?Áem apro- ximadamente de maneira semelhante ?á com que se apresentam na `natureza’, a n?úo ser quando esta disposi?º?úo se mostra pass?¡vel de ocultar elementos importantes. Todas as partes colocam-se ao mesmo n?¡vel, e sup?Áe-se que `leiamos’ as faixas, em vez de as `vermos’ como vers?Áes ilus??rias da situa?º?úo41. As faixas n?úo t?¬m qualquer organiza?º?úo, a n?úo ser a seq??encial, isto ?®, a forma de um elemento n?úo depende da presen?ºa de outros elementos (acrescen- tar um le?úo e o ato de devorar n?úo faz com que a crian?ºa pare?ºa infeliz; acrescentar o processo de morte n?úo faz com que um ho- mem pare?ºa fraco). As pinturas arcaicas s?úo agregados parat?ícticos, n?úo sistemas hipot?ícticos. Os elementos do agregado podem ser partes f?¡sicas, tais como cabe?ºas, bra?ºos, rodas, podem ser estados de coisas, tal como o fato de um corpo estar morto, podem ser Em vez de descrever os tra?ºos formais de um estilo, po- demos descrever os tra?ºos ontol??gicos de um mundo formado pe- los elementos representados no estilo, acomodados de ma- neira adequada, sendo poss?¡vel, ainda, descrever a impress?úo

que esse mundo provoca em quem o contempla. Esse ?® o proce- dimento do cr?¡tico de arte que aprecia insistir no comportamento peculiar dos caracteres que o artista coloca em suas telas e na `vida Hanfmann42 escreve, a prop??sito das figuras arcaicas: `Indepen- dentemente de qu?úo animados e ?ígeis possam ser os her??is arcai- cos, n?úo parecem eles mover-se por sua pr??pria vontade. Seus gestos s?úo f??rmulas explicativas, impostas aos atores, para explicar o tipo de a?º?úo que est?í ocorrendo. O obst?ículo crucial para o convincente retrato da vida interior era o curioso car?íter destaca- do do olho arcaico. Ele mostra que uma pessoa est?í viva, mas ?® incapaz de ajustar-se ?ás exig?¬ncias de uma situa?º?úo espec?¡fica. A- inda quando o artista arcaico ?® bem sucedido no denotar uma apa- r?¬ncia humor?¡stica ou tr?ígica, os fatores do gesto externado e do olhar destacado lembram a exagerada anima?º?úo de um espet?ículo de marionetes.’ Com freq???¬ncia, uma descri?º?úo ontol??gica s?? acrescenta palavreado ?á an?ílise formal; nada mais ?® do que um exerc?¡cio de `sensibilidade’ e `gra?ºa’. Contudo, n?úo devemos p??r de parte a possibilidade de que um particular estilo forne?ºa explica?º?úo precisa do mundo, como visto pelo artista e por seus contempor?óneos e de que todo tra?ºo formal corresponda a supostos (ocultos ou expl?¡citos) ine- rentes ?á subjacente cosmologia. (No caso do estilo `arcaico’, n?úo devemos desprezar a possibilidade de que o homem, na ?®poca, re- almente se sentisse como um boneco dirigido por for?ºas exteriores e que, dessa maneira, visse e tratasse os semelhantes.) Essa interpreta- ?º?úo realista de estilos e de outros meios de representa?º?úo estaria em concord?óncia com a tese de Whorff, segundo a qual as linguagens, al?®m de serem instrumentos para a descri?º?úo de eventos (que po- dem encerrar tra?ºos outros, n?úo abrangidos por qualquer descri- ?º?úo) constituem, ainda, modeladores de eventos (de modo que h?í um limite ling???¡stico para o que pode ser expresso em determi- nada linguagem e esse limite coincide com os limites da coisa

mesma)44. A interpreta?º?úo realista ?® muito plaus?¡vel. N?úo cabe, en- N?úo se deve admiti-la, pois h?í falhas t?®cnicas, prop??sitos especiais (caricatura) capazes de alterar um estilo sem alterar a cosmologia. Importa lembrar, ainda, que todos os homens t?¬m, aproximadamente, o mesmo equipamento neurofisiol??gico, de modo que a percep?º?úo n?úo pode ser adulterada numa dire?º?úo arbi- trariamente escolhida’46. Em alguns casos, podemos indubitavel- mente mostrar que desvios, em rela?º?úo a uma `fiel tradu?º?úo da Natureza’, ocorrem na presen?ºa de pormenorizado conhecimento do objeto e a par de apresenta?º?úo mais `realistas': a oficina do es- cultor Tutmosis, em Tel al-Amarna (a antiga Achet-Aton) cont?®m m?íscaras diretamente retiradas de modelos vivos, com todas as min??cias de forma?º?úo da cabe?ºa (indenta?º?Áes) e da face intacta, al?®m de cabe?ºas esculpidas a partir dessas m?íscaras. Algumas des- sas cabe?ºas preservam as min??cias, em outras elas foram elimina- das e substitu?¡das por formas simples. Exemplo extremado desse estilo ?® a cabe?ºa completamente lisa de um eg?¡pcio. Prova que `pe- lo menos alguns artistas permaneceram conscientemente alheios ?á Natureza’47. Durante o reinado de Amenotis IV (1364-1347 a.C.), o modo de representa?º?úo sofreu duas altera?º?Áes; a primeira, em dire?º?úo a um estilo mais realista, ocorreu apenas quatro anos ap??s sua ascens?úo ao trono, revelando isso que a capacidade t?®cnica, no sentido do realismo, j?í existia, estava em condi?º?Áes de ser usada, mas era deixada intencionalmente de lado. Uma infer?¬ncia que leve do estilo (ou da linguagem) para a cosmologia e os modos de percep?º?úo requer, portanto, argumento especial: n?úo pode ser feita sem maiores cuidados. (Uma observa?º?úo similar aplica-se a qualquer infer?¬ncia que, a partir de teorias comuns em ci?¬ncia, como a teoria da relatividade ou a id?®ia de movimento da Terra, conduza ?á cosmologia e a modos de per- cep?º?úo.) O argumento (que jamais ?® concludente) consiste em indi- car tra?ºos caracter?¡sticos em campos distantes. Se as idiossincra- sias de um particular estilo de pintura aparecem tamb?®m na

estatu?íria, na gram?ítica de linguagens da ?®poca (e, aqui, especial- mente em classifica?º?Áes impl?¡citas, que n?úo podem ser facilmente deturpadas); se puder ser mostrado que essas linguagens s?úo utili- zadas pelos artistas e pelo povo; se houver princ?¡pios filos??ficos, formulados nas linguagens que apontam as idiossincrasias como tra?ºos do mundo e n?úo apenas como algo artificial e que tentam explicar-lhes a origem; se o homem e a natureza apresentam esses tra?ºos n?úo s?? na pintura, mas ainda na poesia, em ditos populares, na lei n?úo escrita; se a id?®ia de que os tra?ºos s?úo parte da percep- ?º?úo normal n?úo for contraditada por coisa alguma que saibamos acerca da fisiologia ou da psicologia da percep?º?úo; se pensadores de ?®pocas seguintes atacarem as idiossincrasias, dando-as como `erros’ que resultam de uma ignor?óncia do `verdadeiro modo’ ÔÇö ent?úo poderemos admitir que n?úo estamos t?úo-somente lidando com falhas t?®cnicas e prop??sitos particulares, mas que estamos dian- te de um coerente modo de vida, cabendo admitir que as pessoas que participaram desse modo de vida viram o mundo de maneira se- Aparentemente, todas essas condi?º?Áes foram satisfeitas na Gr?®cia arcaica: a estrutura formal e a ideologia da ?®pica grega, tal como re- constru?¡das com base nos textos e em posteriores refer?¬ncias a esses mesmos textos, repetem todas as peculiaridades do estilo geom?®trico, em suas ??ltimas fases, e as peculiaridades do estilo ar- Assinalemos, de in?¡cio, que cerca de nove d?®cimos da ?®- pica de Homero consistem de f??rmulas que s?úo frases prefabri- cadas cuja extens?úo varia de uma ou duas palavras a v?írias li- nhas completas e que se repetem em locais adequados40. Um quinto dos poemas consiste de linhas inteiramente repetidas nes- te ou naquele ponto; em vinte e oito mil linhas de Homero h?í cerca de vinte e cinco mil frases repetidas. Repeti?º?Áes j?í ocorrem na poesia da corte de Micenas e podem ser observadas na poesia de cortes orientais: `T?¡tulos de deuses, reis e homens devem ser dados corretamente e, em um mundo de cortes?úos, o princ?¡pio

sonagens da Il?¡ada e da Odiss?®ia, caso seus nomes, a par de um ep?¡- teto, sejam postos na parte final do verso, ter?úo uma f??rmula no- me-ep?¡teto em nominativo, come?ºada por uma consoante sim- pies que ocupa lugar entre a censura trocaica do terceiro p?® e o fim do verso: por exemplo, ???????? ???? `????????. Em uma rela- ?º?úo de 37 personagens que disp?Áem de f??rmulas desse tipo, rela- ?º?úo na qual se incluem todos os que t?¬m alguma import?óncia nos poemas, s?úo tr?¬s apenas os nomes que admitem uma segunda forma, capaz de substituir a primeira’52. `Se tomarmos, nos 5 casos gramaticais, o singular de todas as f??rmulas nome-ep?¡teto, usadas para Aquiles, teremos 45 f??rmulas diferentes, das quais nenhuma tem, no mesmo caso, o mesmo valor m?®tricoÔÇØ. Tendo esses recur- sos ao seu dispor, o poeta hom?®rico `n?úo mostra interesse por ori- ginalidade de express?úo, ou por variedade. Utiliza ou adapta f??r- mulas herdadas’54. N?úo tem `escolha, sequer chega a pensar em termos de escolha; para dada parte do verso, qualquer que seja o caso de declina?º?úo necess?írio e qualquer que seja o assunto, o vo- cabul?írio de f??rmulas fornecia, de imediato, uma combina?º?úo de Utilizando as f??rmulas, o poeta hom?®rico oferecia uma ver- s?úo de cenas t?¡picas, nas quais objetos s?úo ?ás vezes descritos por `a- cr?®scimo de partes a uma fileira de palavras, em aposi?º?úo’56. Id?®ias que hoje considerar?¡amos logicamente subordinadas a outras s?úo enunciadas em proposi?º?Áes independentes, gramaticalmente co- ordenadas. Exemplo (Il?¡ada, 9.556 e ss.): Meleagros `deitou-se ao lado de sua esposa, a linda Cle??pa- tra, filha da Marpessa de ador?íveis tornozelos, filha de Eu- enos e de Ides, que foi o mais forte dentre os homens da Terra naquela ?®poca ÔÇö e ele ergueu o arco contra o Sr. Fe- bo Apolo, por causa da donzela de tornozelos ador?íveis. A ela ent?úo, em seus aposentos, seu pai e senhora m?úe cha- mavam pelo nome de Alcione, porque…’

do mito, sem buscar a elimina?º?úo deste ??ltimo.) N?úo h?í `morali- dade’ religiosa no sentido que damos a essa express?úo, nem s?úo os deuses abstratas encarna?º?Áes de princ?¡pios eternos’73. Nisso, v?¬m eles a transformar-se posteriormente, durante a ?®poca arcaica e, em conseq???¬ncia, `perdem [sua] humanidade’. Como decorr?¬ncia, a religi?úo voltada para o Olimpo, em sua fei?º?úo moralizadora, ten- deu a transformar-se em religi?úo do medo, tend?¬ncia que se reflete no vocabul?írio religioso. N?úo h?í palavra correspondente a `temen- te a Deus’ na Il?¡ada’74. Essa a maneira como a vida se desumaniza, por for?ºa daquilo que algumas pessoas gostam de denominar Observa?º?Áes similares cabem com respeito ?á `teoria do conhecimento’ impl?¡cita nesta vis?úo inicial do mundo. As Musas da Il?¡ada, 2.84 e ss., t?¬m conhecimento porque est?úo pr??ximas das coisas ÔÇö n?úo precisam confiar em boatos ÔÇö e porque est?úo a par de todas as muitas coisas que s?úo de interesse para o escritor, uma ap??s outra. `A quantidade e n?úo a intensidade ?® o padr?úo de julgamento de Homero’ e do conhecimento75, tal como se faz claro de express?Áes do tipo ???????? e ????????? `muita pondera- ?º?úo’, e `muita reflex?úo’, bem como de cr?¡ticas posteriores, do ti- po `aprender muitas coisas [?????????] n?úo aperfei?ºoa a intelig?¬n- cia’76. Interesse e desejo de compreender muitas coisas surpreenden- tes (terremotos, eclipses do Sol e da Lua, as paradoxais cheias e vazantes do Nilo), cada qual delas explicada de maneira particu- lar e sem recurso a princ?¡pios universais, persistem nas descri?º?Áes dos s?®culos VIII e fim do VII (que simplesmente enumeram as tri- bos, seus h?íbitos e o relevo litor?óneo, sucessivamente encontrados na viagem); at?® mesmo um pensador do porte de Tales se satisfaz com apresentar observa?º?Áes curiosas e propor explica?º?Áes v?írias, sem tentar junt?í-las de forma sistem?ítica77 (O primeiro pensador a elaborar um `sistema’ foi Anaximandro, que sucedeu Hes?¡odo.) O conhecimento assim concebido n?úo ?® alcan?ºado por meio da tentativa de apreender uma ess?¬ncia que se coloca para al?®m

das informa?º?Áes dos sentidos, mas pela tentativa de apreend?¬-la (1) colocando o observador na posi?º?úo correta, em rela?º?úo ao ob- jeto (processo, agregado), inserindo-o no lugar adequado, dentro do padr?úo complexo que constitui o mundo e (2) acrescentando os elementos que, em tais circunst?óncias, s?úo percebidos, O co- nhecimento ?® o resultado de um complicado levantamento, feito a partir de um ponto conveniente e apropriado. Pode-se p??r em d??vida um relato vago ou uma explica?º?úo de quinta m?úo, mas n?úo ?® poss?¡vel duvidar daquilo que se contempla com os pr??prios o- lhos. O objeto reproduzido ou descrito ?® o arranjo dos elementos O fato de um remo parecer quebrado, quando mergulhado em Assim como Aquiles, sentado, n?úo nos leva a duvidar que ele te- nha p?®s ligeiros ÔÇö em verdade, come?ºar?¡amos a duvidar de sua lig?®ireza se ele fosse, em princ?¡pio, incapaz de sentar-se ÔÇö, de maneira exatamente an?íioga o remo quebrado n?úo nos leva a du- vidar de que ele seja perfeitamente reto fora da ?ígua ÔÇö em verda- de, come?ºar?¡amos a duvidar de que fosse reto se n?úo parecesse quebrado dentro da ?ígua80. O remo quebrado n?úo ?® um aspecto que contradiga outro aspecto, de sorte que se frustre a nossa investiga- ?º?úo acerca da natureza dos remos; ?® uma especial parte (situa?º?úo) do remo real, n?úo apenas compat?¡vel com o fato de o remo ser reto, mas exigindo essa condi?º?úo. Conclu?¡mos: os objetos de conheci- mento t?¬m o mesmo car?íter aditivo das faixas vis?¡veis apresenta- N?úo h?í qualquer concep?º?úo uniforme de conhecimen- to81. Grande variedade de palavras ?® empregada para expressar o que, hoje em dia, consideramos formas diferentes de conhe- cimento ou maneiras diversas de adquirir conhecimento. ?????82 significa per?¡cia em certa profiss?úo (carpinteiro, cantor, general, f?¡sico, carroceiro, lutador), incluindo as artes (onde se louva o artista n?úo como criador not?ível, mas como dominador de seu

campo); ??????, literalmente equivalente a `tendo visto’, refere-se ao conhecimento ganho a partir do exame; ao ???????, especialmente na Il?¡ada, embora freq??entes vezes traduzida por `ouvir’ ou `com- preender’, ?® palavra mais vigorosa, cont?®m a id?®ia de acompanhar e obedecer, algu?®m absorve algo e atua de conformidade com esse algo (ouvir pode desempenhar um importante papel). E assim por diante. Muitas dessas express?Áes implicam atitude receptiva de parte de quem procura alcan?ºar o conhecimento, que repete, em suas a?º?Áes, o comportamento das coisas que o cercam, acompa- nha-as83, age como conv?®m a uma entidade que est?í inserida no Repetindo e concluindo: os modos de representa?º?úo, usa- dos durante o in?¡cio do per?¡odo arcaico, na Gr?®cia, n?úo s?úo meros reflexos da incompet?¬ncia ou de interesses art?¡sticos especiais, mas proporcionam fiel vers?úo do que ?® sentido, visto, pensado como tra?ºos fundamentais do mundo do homem arcaico. Esse ?® um mundo aberto. Seus elementos n?úo s?úo formados ou inter- relacionados por uma `subst?óncia subjacente’, n?úo s?úo apar?¬ncias a partir das quais aquela subst?óncia poderia ser, com dificuldade, in- ferida. Ocasionalmente, aglutinam-se para formar conjuntos. A rela?º?úo de um elemento singular para o conjunto a que pertence ?® an?ílogo ?á rela?º?úo de uma parte para um agregado de partes e n?úo semelhante ?á rela?º?úo de uma parte para um todo dominador. O agregado particular, denominado `homem’ ?® visitado e, ?ás vezes, habitado por `eventos mentais’. Tais eventos podem nele residir, como nele penetrar, vindos do exterior. ?Ç semelhan?ºa de todos os demais objetos, o homem ?® uma esta?º?úo de troca de influ?¬ncias, antes que fonte ??nica de a?º?úo, um `eu’ (o `cogito’ de Descartes n?úo tem como inserir-se nesse mundo e o argumento n?úo pode sequer come?ºar a desenvolver-se). H?í grande similaridade entre essa concep?º?úo e a cosmologia de Mach, exceto pelo fato de que os elementos do mundo arcaico s?úo formas e eventos f?¡sicos e mentais reconhec?¡veis, ao passo que os elementos utiliza- dos por Mach s?úo mais abstratos, s?úo metas de pesquisa ainda

`reconstru?º?úo l??gica’. Esse procedimento o ligaria ao que ?® co- nhecido ou preferido por certos grupos e o impediria, para sem- Completando o estudo, o antropologista ter?í conhecimento da sociedade nativa e conhecimento de seu pr??prio desenvolvi- A compara?º?úo decidir?í se a maneira nativa, de pensar pode ser re- produzida em termos europeus (admitido que haja um conjunto ??nico de `termos europeus’) ou se encerra uma `l??gica’ pr??pria, n?úo presente em qualquer linguagem ocidental. Ao longo da com- para?º?úo, o antropologista refrasear?í, talvez, certas id?®ias nativas, dando-lhes forma em uma l?¡ngua. Isso n?úo quer dizer que essa l?¡n- gua, tal como falada, independentemente da compara?º?úo, seja co- mensur?ível com o idioma nativo. Significar?í que as l?¡nguas podem orientar-se em muitas dire?º?Áes e que a compreens?úo independe de (3) O exame das id?®ias-chave atravessa est?ígios v?írios, ne- nhum dos quais leva a um esclarecimento cabal. Aqui, o pesquisa- dor deve exercer firme controle sobre seu empenho de obter cla- reza imediata e perfei?º?úo l??gica. Nunca deve procurar tomar um conceito mais claro do que o sugerido pelo material (a n?úo ser como aux?¡lio tempor?írio para pesquisa mais aprofundada). ?ë esse material e n?úo sua intui?º?úo l??gica o que decide acerca do conte??do dos conceitos. Exemplificando: os nuer, uma tribo do Nilo que foi estudada por Evans-Pritchard, t?¬m alguns interessantes conceitos acerca do espa?ºo e do tempo90. O pesquisador n?úo familiarizado com o pensamento nuer achar?í esses conceitos `obscuros e insufi- cientemente precisos’. Para melhorar as coisas, ele talvez tente ex- plic?í-los recorrendo a no?º?Áes da relatividade especial. ?ë poss?¡vel que isso gere conceitos mais claros que, entretanto, deixar?úo de ser conceitos nuer. Se, por outro lado, ele desejar atingir conceitos que sejam, a um s?? tempo, claros e nuer, dever?í conservar suas no?º?Áes-

chave vagas e incompletas at?® que a informa?º?úo correta se apresen- te, isto ?®, at?® que o estudo de campo forne?ºa os elementos faltan- tes que, em si mesmos, ser?úo t?úo obscuros quanto os elementos j?í Cada item de informa?º?úo ?® uma pedra na constru?º?úo do compreender, significando isso que cada item se esclarece com a descoberta de outras pedras, provindas da linguagem e da ideolo- gia da tribo, e n?úo com defini?º?Áes prematuras. Enunciados como `.. os nuer. . n?úo podem falar do tempo como algo presente, que passa, pelo qual se pode esperar, que ?® poss?¡vel poupar e assim por diante. N?úo creio que eles jamais tenham experimentado o sentimento de lutar contra o tempo ou de ter de coordenar ativi- dades a uma abstrata passagem do tempo, uma vez que seus pon- tos de refer?¬ncia s?úo, sobretudo, as pr??prias atividades, geralmente com car?íter de lazer.’91 ÔÇö enunciados como esse ou s?úo partes de um todo (e nesse caso o conte??do que encerram ?® incompleto e n?úo inteiramente compreendido) ou constituem tentativas preli- minares de antecipar o arranjo da totalidade das partes componen- tes. Cabe, ent?úo, submet?¬-los a teste e elucid?í-los pela descoberta de outros f atores componentes e n?úo por meio de esclarecimen- tos l??gicos. (Uma crian?ºa aprende o significado de uma palavra n?úo atrav?®s de esclarecimento l??gico, mas percebendo como ela se combina com as coisas e com outras palavras.) A aus?¬ncia de cla- reza, em um particular enunciado antropol??gico, indica antes es- cassez de material do que fluidez das intui?º?Áes l??gicas do antropo- (4) Essas mesmas observa?º?Áes aplicam-se a minha tentativa de examinar a incomensurabilidade. No campo das ci?¬ncias, a in- Um estudo da incomensurabilidade nas ci?¬ncias far?í, portanto, surgirem enunciados onde se cont?¬m termos-significado ÔÇö con- tudo, esses termos s?? ser?úo parcialmente entendidos, tal como o termo `tempo’ s?? ?® incompletamente entendido na cita?º?úo feita no par?ígrafo anterior. A observa?º?úo de que tais

enunciados s?? deveriam ser emitidos ap??s elabora?º?úo de uma clara teoria do significado’92 ?® t?úo sensata quanto a observa?º?úo de que enunciados a prop??sito do tempo dos nuer, que s?úo o material conducente a uma compreens?úo do tempo nuer, s?? deveriam ser apresentados depois que essa compreens?úo fosse alcan?ºada. Meu argumento pressup?Áe, naturalmente, que o m?®todo antropol??gico seja o m?®todo correto para estudar a estrutura da ci?¬ncia (e, no (5) ?ë poss?¡vel que os l??gicos levantem obje?º?Áes. Assinala- r?úo que um exame dos significados e da rela?º?úo entre termos ?® ta- refa de l??gica, n?úo de antropologia. Ora, por `l??gica’ pode-se en- tender pelo menos duas coisas diferentes. `L??gica’ pode significar estudo das estruturas inerentes a certo g?¬nero de discurso ou re- sultados desse estudo. E pode significar um particular sistema de l??gica ou conjunto de sistemas.

no sentido agora examinado, A quest?úo est?í em saber como de- Desejamos descobrir a estrutura do campo de discurso de que os registros fornecem incompleta informa?º?úo. Desejamos a- prender a respeito deles, sem, de qualquer forma, alter?í-los. Em nosso exemplo, n?úo estamos interessados em saber se uma aperfei- ?ºoada mec?ónica qu?óntica do futuro empregar?í AB v A ? A ou se empregar?í uma inven?º?úo nossa, se uma pequena margem de re- constru?º?úo aplicar?í o princ?¡pio que altera a teoria de maneira a ela conformar-se, a alguns princ?¡pios preconcebidos da l??gica moder- na e prontamente propiciar?í respostas. Desejamos saber se a teo- ria qu?óntica, tal como atualmente praticada pelos f?¡sicos, emprega o prin- c?¡pio. Com efeito, ?® o trabalho dos f?¡sicos e n?úo o trabalho dos reconstrutores que desejamos examinar. Talvez que esse trabalho esteja repleto de contradi?º?Áes e lacunas. Sua `l??gica’ (no sentido em que estou empregando a palavra) talvez seja `il??gica’, se julgada Ora, colocando nossa quest?úo dessa maneira, damo-nos conta de que n?úo admite qualquer resposta. Talvez n?úo exista uma teoria ??nica, uma `teoria qu?óntica’ usada nos mesmos termos por todos os f?¡sicos. A diferen?ºa que vai de Bohr a, digamos, von Newmann sugere que isso ?® mais do que uma remota possibilida- de. Para submeter a possibilidade a teste, isto ?®, para elimin?í-la ou dar-lhe forma, importar?í examinar casos concretos. Esse exame de casos concretos talvez conduza a concluir que os teorizadores qu?ónticos diferem tanto entre si quanto os cat??licos e as v?írias sei- tas de protestantes: usam o mesmo livro (embora at?® isso seja du- vidoso ÔÇö bastando comparar Dirac e von Newmann), mas por A necessidade de efetuar estudos de casos antropol??gi- cos, em um campo que parecia inicialmente dominado por uni mito ??nico, sempre o mesmo, sempre usado de modo id?¬ntico, indica poder ser fortemente deficiente nosso conhecimento

comum da ci?¬ncia. Pode ele estar inteiramente errado. (Alguns er- ros foram apontados nos cap?¡tulos anteriores.) Em tais circuns- t?óncias, a ??nica maneira segura de agir ?® confessar a ignor?óncia, abandonar as reconstru?º?Áes e come?ºar a estudar ci?¬ncia desde a base. Importar?í abord?í-la ?á semelhan?ºa de como um antropolo- gista estuda os tortuosos processos mentais dos feiticeiros de um grupo de tribos recentemente descobertas. Importa estarmos pre- parados para a constata?º?úo de que esses tortuosos processos s?úo amplamente il??gicos (se julgados do ponto de vista da l??gica for- (6) Entretanto, apenas uns poucos fil??sofos da ci?¬ncia in- terpretam `l??gica’ em tal sentido. Apenas uns poucos fil??sofos es- t?úo preparados para admitir que as estruturas b?ísicas subjacentes a um idioma h?í pouco descoberto podem diferir radical- mente das estruturas b?ísicas de mais conhecidos sistemas de l??gica formal; e absolutamente ningu?®m est?í preparado para admitir que isso tam- b?®m poderia ser verdade com respeito ?á ci?¬ncia. Na maioria das vezes, a `l??gica’ (no sentido at?® agora focalizado) de uma particular linguagem, ou de uma teoria, ?® imediatamente identificada aos tra- ?ºos de um particular sistema l??gico, sem considera?º?úo da necessi- dade de um inqu?®rito concernente ?á adequa?º?úo dessa identifica- ?º?úo. O professor Giedymin, por exemplo, entende por `l??gica’ um sistema a que d?í prefer?¬ncia e que ?® amplo, mas que nem tudo a- brange. (Por exemplo, n?úo cont?®m nem poderia ser usado para formular as id?®ias de Hegel. H?í matem?íticos que duvidam de que o sistema possa ser usado para expressar a matem?ítica usual, n?úo formalizada.) Um estudo l??gico da ci?¬ncia, tal como a entendem Giedymin e seus seguidores ?® estudo dos conjuntos de f??rmulas daquele sistema, sua estrutura, propriedades de seus integrantes ??ltimos (intens?úo, extens?úo, etc.), suas conseq???¬ncias e seus mo- delos poss?¡veis. Se estudo desse tipo n?úo repetir os tra?ºos que um antropologista apontou na ci?¬ncia, digamos, isso mos- trar?í que ou a ci?¬ncia apresenta algumas falhas ou que o antro-

pologista nada sabe de l??gica. N?úo faz a menor diferen?ºa para o l??gico, neste segundo sentido, que suas f??rmulas n?úo pare?ºam e- nunciados cient?¡ficos, que n?úo sejam usadas como enunciados cient?¡- ficos e que a ci?¬ncia n?úo possa ser desenvolvida segundo os es- quemas simples que seu c?®rebro ?® capaz de entender (e, portanto, encara como os ??nicos esquemas admiss?¡veis). Ou ele deixa de no- tar a discrep?óncia ou a encara como resultante de imperfei?º?Áes que h?úo de ser afastadas da explica?º?úo satisfat??ria. Nem por som- bra lhe ocorre que as `imperfei?º?Áes’ possam desempenhar uma jun?º?úo importante e que o progresso cient?¡fico se torne imposs?¡vel, caso elas sejam afastadas. Para ele, a ci?¬ncia ?® axiom?ítica, mais te- oria dos modelos, mais regras de correspond?¬ncia, mais linguagem Procedimento dessa ordem presume (sem perceber que h?í um pressuposto envolvido) que j?í se completou um estudo antro- pol??gico, em condi?º?Áes de familiarizar-nos com as classifica?º?Áes ÔÇö expl?¡citas ou n?úo ÔÇö da ci?¬ncia e que esse estudo inclinou-se em favor da abordagem axiom?ítica (etc., etc.). Estudo dessa esp?®- cie jamais se realizou. Os . fragment?írios elementos resultantes do trabalho de campo, hoje existentes, e devidos principalmente aos esfor?ºos de Hanson, Kuhn, Lakatos e outros, mostram que a a- bordagem do l??gico n?úo remove apenas algumas partes irrelevan- tes da ci?¬ncia, mas aqueles tra?ºos que fazem o progresso cient?¡fico (7) Os debates em torno de significado, por mim referi- dos, s?úo outra ilustra?º?úo das defici?¬ncias da abordagem do l??- gico. Para Giedymin, que escreveu duas longas notas acerca da mat?®ria, esse termo e seus derivados, tal como o termo `in- comensurabilidade’, s?úo `obscuros e insuficientemente preci- sos’94 . Concordo. Giedymin deseja tornar os termos mais Tenta conseguir a clareza que sente estar faltando atrav?®s de uma explica?º?úo em termos de um particular tipo de l??gica for- mal e do modelo da linguagem dupla, restringindo a discuss?úo

a `intens?úo’ e `extens?úo’, como explicadas na l??gica escolhida. Aqui a discord?óncia tem in?¡cio. Com efeito, a quest?úo n?úo ?® a de saber como `significado’ e `incomensurabilidade’ ocorrem em um de- terminado sistema l??gico. A quest?úo ?® a de saber que papel de- sempenham em ci?¬ncia (efetivamente praticada, n?úo a reconstru?¡- da), O esclarecimento h?í de provir de mais pormenorizado estudo desse papel e as lacunas h?úo de ser preenchidas com os resultados de tal estudo. Como o preenchimento de lacunas exige tempo, os termos-chave permanecer?úo `obscuros e insuficientemente preci- (8) L??gicos e fil??sofos da ci?¬ncia n?úo v?¬m a situa?º?úo por esse prisma. N?úo estando dispostos e sendo incapazes de manter uma discuss?úo n?úo-formal, exigem que os principais termos do debate sejam `esclarecidos’. E `esclarecer’ os termos de uma dis- cuss?úo n?úo significa estudar as propriedades adicionais e at?® agora desconhecidas do campo em causa (de que necessitamos para tor- nar os termos completamente intelig?¡veis); significa incluir nesses termos no?º?Áes existentes, oriundas de um dom?¡nio de l??gica e senso comum inteiramente diverso, de prefer?¬ncia id?®ias observacionais, at?® que aqueles termos tamb?®m se afigurem comuns, e significa, ainda, tomar cuidado para que o processo de inclus?úo das no?º?Áes nos termos obede?ºa ?ás leis (aceitas) da l??gica. S?? se permite que a discuss?úo avance ap??s haverem sido dessa maneira modificadas as fases iniciais. Assim, o curso de uma investiga?º?úo ?® desviado para os estreitos canais das coisas j?í compreendidas e a possibilidade de descoberta conceptual fundamental (ou de altera?º?úo conceptual fundamental) v?¬-se consideravelmente reduzida. Altera?º?úo con- ceptual fundamental, de outra parte, pressup?Áe novas vis?Áes do mundo e novas linguagens capazes de express?í-las. Ora, construir uma nova concep?º?úo do mundo e a correspondente lingua- gem nova ?® processo que requer tempo consider?ível, tanto em ci?¬ncia quanto em metaci?¬ncia. Os termos da linguagem nova s?? se tornam claros quando o processo se encontre avan-

?ºado ÔÇö cada palavra ?® o centro de numerosas linhas que as ligam a outras palavras, senten?ºas, por?º?Áes de arrazoados, gestos, que, de in?¡cio, parecem absurdos, mas que se tomam perfeitamente ra- zo?íveis uma vez estabelecidas aquelas conex?Áes. Argumentos, pontos de vista, teorias, termos e debates podem, assim, ver-se es- clarecidos de pelo menos duas diferentes maneiras: (a) ?á maneira j?í descrita, que nos leva de volta a id?®ias comuns e trata as coisas novas como caso especial de coisas anteriormente entendidas; e (b) por incorpora?º?úo a uma linguagem do futuro, significando isso que se deve aprender a argumentar com termos n?úo-esclarecidos e a usar sen- ten?ºas para as quais inexistem, ainda, regras de emprego. Assim como a crian?ºa come?ºa a usar palavras sem compreend?¬-las, acrescentan- do mais e mais fragmentos ling???¡sticos n?úo entendidos ?á sua ativi- dade l??dica, para s?? depois descobrir o princ?¡pio de atribui?º?úo de significado ÔÇö desenvolvendo uma atividade anterior que ?® pres- suposto necess?írio da emerg?¬ncia final do significado ÔÇö o inven- tor de um mundo novo (e o fil??sofo da ci?¬ncia que procura en- tender-lhe o procedimento) h?í de estar preparado para dizer ab- surdos at?® que a quantidade de absurdos criada por ele e seus companheiros seja suficientemente grande para emprestar sentido a todas as partes desse novo mundo. N?úo h?í melhor vers?úo desse processo do que a descri?º?úo das vicissitudes de sua educa?º?úo, dei- xada por John Stuart Mill. Referindo-se ?ás explica?º?Áes de assuntos l??gicos que seu pai lhe dava, escreve ele: `As explica?º?Áes n?úo tor- navam o assunto claro para mim, ?áquele tempo, mas n?úo eram, por causa disso, in??teis; permaneciam como um n??cleo para que em torno dele, se cristalizassem minhas observa?º?Áes e reflex?Áes. A import?óncia das observa?º?Áes gerais vinha a ser por mim compre- endida por for?ºa de exemplos particulares que eu encontrava poste- riormente95. Construir uma linguagem nova (para compreender `o mundo ou o conhecimento) ?® processo de esp?®cie exatamente a- n?íloga, exceto pela circunst?óncia de que os `n??cleos’ iniciais n?úo s?úo dados, mas h?úo de ser inventados. Percebemos, assim,

como ?® essencial aprender a falar por enigmas e qu?úo desastroso efeito tem sobre nossa compreens?úo o impulso no sentido de al- can?ºar clareza imediata. (Al?®m disso, esse impulso trai um tipo de mentalidade acanhada e b?írbara: `usar palavras de modo frouxo, sem examin?í-las muito curiosamente, n?úo ?®, em geral, marca de educa?º?úo descuidada; pelo contr?írio, h?í certo descuido de educa- Todas essas observa?º?Áes s?úo assaz triviais e podem ser ilus- tradas por exemplos ??bvios. A l??gica cl?íssica s?? chega ?á cena quando se reuniu suficiente material de argumenta?º?úo (em mate- m?ítica, ret??rica, pol?¡tica) suscet?¡vel de servir como ponto de parti- da e campo de testes. A aritm?®tica desenvolveu-se sem uma com- preens?úo clara do conceito de n??mero; tal compreens?úo s?? veio a surgir quando passou a existir quantidade suficiente de `fatos’ a- ritm?®ticos para lhe darem subst?óncia. De maneira semelhante, a- dequada teoria do significado (e da incomensurabilidade) s?? pode surgir depois de reunido n??mero suficiente de `fatos’ que fa?ºam dessa teoria algo mais do que um exerc?¡cio de lan?ºamento de con- (9) Importa, ainda, examinar outro dogma antes de retomar o fio principal da exposi?º?úo. Trata-se do dogma segundo o qual todas as disciplinas, independentemente da maneira como se cons- tituam, obedecem automaticamente ?ás leis da l??gica ou devem o- bedecer a tais leis. Assim fosse, e o trabalho antropol??gico de campo poderia ser dado como sup?®rfluo. `O que ?® verdadeiro em l??gica ?® verdadeiro em psicologia… no m?®todo cient?¡fico e na his- Essa dogm?ítica asser?º?úo n?úo ?® clara (sob uma das prin- cipais interpreta?º?Áes que admite) nem ?® verdadeira. Para co- me?ºar, suponhamos que as express?Áes `psicologia’, `hist??ria da ci?¬ncia’, `antropologia’ referem-se a certos dom?¡nios de fa- tos e regularidades (da natureza, da percep?º?úo, do esp?¡ri- to humano, da sociedade). Nesse caso, a asser?º?úo n?úo ?® clara,

pois n?úo h?í uma disciplina ??nica ÔÇö a L?ôGICA ÔÇö capaz de reve- lar a estrutura l??gica desses dom?¡nios. H?í Hegel, h?í Brouwer, h?í os formalistas. Apresentam eles n?úo apenas interpreta?º?Áes diversas de um e mesmo conjunto de `fatos’ l??gicos, mas `fatos’ inteira- mente diversos. E a asser?º?úo n?úo ?® verdadeira por existirem enunci- ados cient?¡ficos leg?¡timos que violam regras l??gicas simples. Por exemplo, h?í enunciados que desempenham importante papel no campo das disciplinas cient?¡ficas estabelecidas e que s?? se revelam observacionalmente adequados se forem autocontradit??rios: fixe- mos um padr?úo de movimento que acaba de entrar em repouso e notaremos que ele se move em dire?º?úo oposta, sem, contudo, alte- rar sua posi?º?úo. A ??nica descri?º?úo fenomenologicamente adequa- da ?®: `ele se move no espa?ºo, mas n?úo muda de lugar’ ÔÇö e essa descri?º?úo ?® autocontradit??ria98. H?í exemplos fornecidos pela ge- ometria99: assim a figura inscrita (que n?úo precisa parecer do mesmo modo para todas as pessoas) ?® vista como um tri?óngulo is??sceles cuja base n?úo ?® dividida ao meio pela perpendicular. H?í exemplos em que a ?? b & b = c & a >> c, ?® a ??nica descri?º?úo fe- nomenologicamente adequada100. Al?®m disso, n?úo h?í uma ??nica ci?¬ncia ou outra forma de vida que seja ??til, progressista e ao mesmo tempo esteja em conson?óncia com exig?¬ncias l??gicas. Ca- da ci?¬ncia inclui teorias que s?úo incompat?¡veis com fatos e com outras teorias e que, se analisadas em pormenor, revelam contra- di?º?Áes. S?? cren?ºa dogm?ítica nos princ?¡pios de uma disciplina su- postamente uniforme, a `L??gica’, nos leva a esquecer tal situa- ?º?úo101. A obje?º?úo segundo a qual os princ?¡pios l??gicos e os princ?¡- pios, digamos, aritm?®ticos, diferem dos princ?¡pios emp?¡ricos, por n?úo serem pass?¡veis de tratamento pelo m?®todo das conjecturas e das refuta?º?Áes (ou por qualquer outro m?®todo emp?¡rico’) foi afas- tada ra?ºas a pesquisas mais recentes, realizadas nesse campo de Em segundo lugar, admitamos que as express?Áes psicolo- gia’, `antropologia’, `Hist??ria da ci?¬ncia’, `f?¡sica’ n?úo se referem

a fatos e leis, mas a certos m?®todos de reunir fatos, incluindo cer- tas maneiras de relacionar a observa?º?úo ?á teoria e ?á hip??tese,

a ilus?úo de um arranjo de objetos tridimensionais. A ilus?úo ocorre porque

acontecimentos rela?º?Áes. Assim como uma periegesis minuciosa esgota o que pode ser dito acerca de um pa?¡s, uma lista minuciosa esgota o que pode ser dito acerca de um objeto112. `Quebrado na ?ígua’ pertence ao remo da mesma forma que `retil?¡neo para a m?úo': s?úo `igualmente reais’. Na cosmologia B, entretanto, `que- brado na ?ígua’ ?® uma `apar?¬ncia’, contraditada pelo que sugere a `a- par?¬ncia de um objeto retil?¡neo’ e isso mostra o qu?úo pouco dig- nas de confian?ºa h?úo de ser as apar?¬ncias113. O conceito de objeto transformou-se do conceito de um agregado, de eq??importantes partes percept?¡veis, no conceito de uma ess?¬ncia impercept?¡vel, subjacente a uma variedade de fen??menos enganadores. (Podemos presumir que o modo de o objeto apresentar-se sofreu similar transforma?º?úo e os objetos, agora, parecem menos `achatados’ do que antes.) Considerando essas altera?º?Áes e peculiaridades, ?® plaus?¡vel presumir que a compara?º?úo de A e B, como interpretada pelos que as aceitam (e n?úo como `reconstru?¡da’ por pessoas estranhas a essas cosmologias, bem treinadas em l??gica, mas, sob outros aspectos, despreparadas) provocar?í problemas v?írios. No restante deste ca- p?¡tulo ser?úo examinados t?úo-somente alguns aspectos de alguns desses problemas. Assim, apenas mencionarei as transforma?º?Áes psicol??gicas de que se acompanha a transi?º?úo de A para B e que n?úo constituem apenas mat?®ria de conjectura114, mas podem ser definidas por uma pesquisa aut??noma. H?í, nesse ponto, rico ma- terial para pormenorizado estudo do papel dos sistemas de refe- r?¬ncia (conjuntos mentais, linguagens, modos de representa?º?úo) e Para come?ºar, o cosmos A e o cosmos B s?úo formados por Os elementos de A s?úo partes relativamente independen- tes de objetos que mant?¬m rela?º?Áes externas. Participam de a- gregados sem terem alteradas suas propriedades intr?¡nsecas. A `natureza’ de um especial agregado ?® determinada por suas par- tes e pela maneira como essas partes se relacionam entre si.

Enumere-se as, partes, em ordem adequada, e ter-se-?í o objeto. Isso aplica- se a agregados f?¡sicos, aos seres humanos (esp?¡ritos e corpos), a animais e tamb?®m se aplica a agregados sociais como, digamos, a Os elementos de B situam-se em duas classes: ess?¬ncias (objetos) e apar?¬ncias (de objetos ÔÇö o que vem a seguir somente Podem formar totalidades harmoniosas. onde cada parte confere significado ao todo e do todo recebe significado (caso extremo ?® o de Parm?¬nides, para quem partes isoladas n?úo apenas s?úo irreco- nhec?¡veis, como s?úo inteiramente inconceb?¡veis). Aspectos ade- quadamente combinados n?úo produzem objetos, mas condi?º?Áes psicol??gicas para a apreens?úo de fantasmas, que n?úo passam de outros aspectos e de aspectos particularmente enganadores (afigu- ram-se muito convincentes). N?úo h?í enumera?º?úo de aspectos que se torne A transi?º?úo de A para B introduz, assim, entidades novas e novas rela?º?Áes entre entidades (o que se v?¬ claramente na pintura e na estatu?íria). Altera, ainda, o conceito e a autoexperi?¬ncia do homem. O homem arcaico ?® uma reuni?úo de membros, liga?º?Áes, tronco, pesco?ºo, cabe?ºa115, ?® um boneco posto em movimento por for?ºas externas, tais como os inimigos, as circunst?óncias soci- ais, os sentimentos (que s?úo descritos e percebidos como institui- ?º?Áes objetivas ÔÇö ver acima)116: `o homem ?® alvo aberto a muit?¡s- simas for?ºas que incidem sobre ele e o penetram at?® o pr??prio cerne’117. ?ë um ponto de troca de causas materiais e espirituais, mas sempre objetivas. Isso n?úo ?® apenas uma id?®ia `teor?®tica’, mas fato de observa?º?úo. O homem n?úo ?® apenas descrito dessa maneira; ?® retratado dessa maneira e dessa maneira sente ser constitu?¡do. N?úo possui um centro de a?º?úo, um `eu’ espont?óneo que produza suas pr??- prias id?®ias, inten?º?Áes, sentimentos e que difira do comportamen- to de situa?º?Áes sociais, de eventos `mentais’ do tipo A. Esse eu

n?úo ?® mencionado, nem percebido. N?úo se encontra em lugar al- gum de A. Mas desempenha papel decisivo em B. Com efeito, n?úo ?® implaus?¡vel supor que algumas relevantes peculiaridades de B, tais como aspectos, apar?¬ncias, ambig??idades de sentimento118, se incluam no est?ígio, como resultado de consider?ível crescimento de auto- Talvez que nos inclin?íssemos a explicar a transi?º?úo da for- ma seguinte: o homem arcaico disp?Áe de uma limitada cosmologi- a; descobriu algumas coisas e n?úo outras. Em seu universo, faltam importantes objetos, de sua linguagem est?úo ausentes conceitos importantes, sua percep?º?úo carece de estruturas de maior impor- t?óncia. Acrescente-se os elementos faltantes ao cosmos A, os ter- mos faltantes ?á linguagem A, as estruturas faltantes ao mundo perceptivo de A e ter-se-?í o cosmos B, a linguagem B, a percep?º?úo H?í tempos denominei a teoria em que tal explica?º?úo se a- p??ia `teoria oca’, ou `teoria do queijo su?¡?ºo’ da linguagem (e de ou- tros meios de regulamenta?º?úo). De acordo com a teoria oca, toda cosmologia (toda linguagem, todo modo de percep?º?úo) apresenta apreci?íveis lacunas que podem ser preenchidas, permanecendo inalte- rado tudo o mais. A teoria oca v?¬-se diante de numerosas dificulda- des. No presente caso, manifesta-se a dificuldade de que o cosmos B n?úo cont?®m um s?? elemento do cosmos A. Nem termos co- muns, nem teorias filos??ficas, nem pinturas e est?ítuas, nem con- cep?º?Áes art?¡sticas; a religi?úo e as especula?º?Áes teol??gicas n?úo con- servam elementos de A, no momento em que a transi?º?úo para B se encerra. Isto ?® um fato hist??rico120. ?ë tal fato um acidente ou apre- senta A algumas propriedades estruturais que impedem a coexis- J?í mencionei um exemplo que pode sugerir-nos ra- z?úo acerca do por que B n?úo comporta fatos-A: o dese- nho abaixo pode ser a interse?º?úo de tr?¬s caminhos, tal como apresentado segundo os princ?¡pios de quadros-A

(que s?úo faixas visuais). Introduzida a perspectiva (como conjunto mental, ou m?®todo objetivo), o quadro n?úo mais pode ser visto da mesma forma. Em vez de linhas tra?ºadas em um papel, temos a ilus?úo de profundidade e um panorama tridimensional, embora de tipo muito simples. N?úo h?í meio de incorporar o quadro-A ao quadro-B, exceto como parte dessa ilus?úo. Contudo, uma ilus?úo de A situa?º?úo toma-se mais clara quando nos voltamos para os conceitos. Disse eu acima que `a natureza’ de um objeto (= agre- gado) em A ?® determinada pelos elementos do agregado e pelas rela?º?Áes entre esses elementos. Caberia acrescentar que essa de- termina?º?úo ?® `fechada’, no sentido de que os elementos e suas re- la?º?Áes constituem o objeto; dados esses elementos e rela?º?Áes, est?í o objeto dado. Exemplificando, os `elementos’ descritos por Ulisses, em seu discurso, Il?¡ada, 9.225 ss., constituem honra, gra?ºa, respei- to. Os conceitos-A s?úo, assim, muito parecidos com no?º?Áes como as de `xeque-mate': dado certo arranjo das pe?ºas no tabuleiro, n?úo h?í meio de `descobrir’ que o jogo possa ser continuado. Essa `des- coberta’ n?úo preencheria uma falha, n?úo aumentaria nosso conhe- cimento de poss?¡veis posi?º?Áes no xadrez, mas poria t?®rmino ao jogo. O mesmo seria acarretado pela `descoberta’ de `significados Exatamente as mesmas observa?º?Áes aplicam-se ?á descober- ta de um eu individual, diferente das faces, do comporta- mento, dos `estados mentais’ objetivos, do tipo que ocorre em

de percep?º?úo e de vez que existem altera?º?Áes conceptuais que nunca deixam tra?ºo nas apar?¬ncias126; contudo, esses fen??menos n?úo mais podem ser descritos do modo costumeiro e n?úo podem, portanto, ser encarados como observa?º?Áes dos `fatos objetivos’ Note-se a natureza aproximada e vaga desta explica?º?úo de `incomensur?ível’ e a aus?¬ncia de terminologia l??gica. A raz?úo da fluidez j?í foi explicada (itens 3 e 4, acima). A aus?¬ncia de l??gica deve-se ao fato de lidarmos com fen??menos externos a seu dom?¡- nio. Meu objetivo ?® o de encontrar uma terminologia para descre- ver certos complexos fen??menos hist??rico-antropol??gicos s?? im- perfeitamente compreendidos, n?úo me interessando definir pro- priedades de sistemas l??gicos, especificados em pormenor. Ter- mos tais como `princ?¡pios universais’ e `sustar’ supostamente re- sumem informa?º?úo antropol??gica, muito ?á semelhan?ºa de como a vers?úo acerca do tempo nuer que nos d?í Evans-Pritchard (texto correspondente ?á nota 91) resume a informa?º?úo antropol??gica a seu alcance. (Cf. a breve discuss?úo no item 3 acima.) O car?íter va- go da explica?º?úo reflete a fei?º?úo incompleta e a complexidade do material e convida a uma articula?º?úo por meio de pesquisa poste- rior. A explica?º?úo h?í de encerrar algum conte??do ÔÇö de outra for- ma, seria in??til. N?úo deve, entretanto, encerrar conte??do demasiado, Note-se, ainda, que, falando em `princ?¡pio’, n?úo pretendo referir-me simplesmente a um enunciado tal como `conceitos se a- plicam quando satisfeito um n??mero finito de condi?º?Áes’ ou `co- nhecimento ?® enumera?º?úo de elementos discretos que formam a- gregados parat?ícticos'; pretendo referir-me ao h?íbito gramatical cor- respondente ao enunciado. Os dois enunciados acima citados des- crevem o h?íbito de ter o objeto como dado quando foi completa- da a lista de suas partes. Esse h?íbito ?® sustado (embora n?úo con- traditado) pela conjectura de que nem mesmo a mais completa lista esgota o objeto; ?® tamb?®m sustado (mas, outra vez, no contradita- do) por uma incessante busca de no-

duzir id?®ias que n?úo se afei?ºoem aos modos ocidentais de pen- sar128. Linguagens desse tipo h?úo de ser aprendidas a partir da es- taca zero, como uma crian?ºa aprende palavras, conceitos, apar?¬n- cias129 (`apar?¬ncias’ porque os rostos e as coisas n?úo s?úo apenas `dados’, s?úo `lidos’, ou `interpretados’ de certas maneiras ÔÇö dife- rentes maneiras sendo relevantes em diferentes ideologias). N?úo cabe exigir que o processo de aprendizado se estruture de acordo com as categorias, leis e percep?º?Áes com que estamos familiari- zados. ?ë precisamente maneira de aprender `livre de preconceito’ que um estudo de campo deve alcan?ºar. Retomando do estudo de campo ?ás concep?º?Áes e ?á sua pr??pria linguagem, como, por e- xemplo, o ingl?¬s, o antropologista freq??entemente se d?í conta de que uma tradu?º?úo direta ?® imposs?¡vel e que suas concep?º?Áes e as concep?º?Áes da cultura a que ele pertence s?úo incomensur?íveis com as id?®ias `primitivas’ que ele come?ºou a compreender (e tal- vez haja superposi?º?úo em algumas partes e incomensurabilidade quanto a outras). Naturalmente que ele desejar?í fazer uma expo- si?º?úo daquelas id?®ias em ingl?¬s, mas s?? ter?í como realizar esse prop??sito se estiver preparado para usar termos comuns de mo- do estranho e novo. Talvez tenha de construir um jogo ling???¡sti- co inteiramente novo com palavras inglesas e s?? ter?í condi?º?Áes de iniciar sua exposi?º?úo quando esse jogo ling???¡stico se haja tor- nado relativamente complexo. Ora, sabemos que quase todas as linguagens cont?¬m os meios de reestruturar grandes por?º?Áes de seu aparato conceptual. Sem isso, a ci?¬ncia popular, a fic?º?úo ci- ent?¡fica, os contos de fada, os contos fant?ísticos e a pr??pria ci- ?¬ncia seriam imposs?¡veis. H?í, pois, um sentido em que podemos afirmar que os resultados de um estudo de campo s?úo sempre sus- cet?¡veis de se ver expressos em ingl?¬s. N?úo significa isso, entretan- to, como alguns racionalistas parecem crer, que minha primeira tese seja falsa. Essa, infer?¬ncia somente se justificaria se poss?¡vel mostrar que uma apresenta?º?úo correta (e n?úo apenas um dicion?í- rio-caricatura) de novas concep?º?Áes, em determinado idioma, como, digamos, o ingl?¬s, deixa a `gram?ítica’ desse idioma into-

proprios de um esquema, s?úo sustados pelo outro. ?ë esse o fato que define a incomensurabilidade, a despeito de todas as similari- Shapere (e outros, depois dele) tamb?®m tentou mostrar que as teorias incomensur?íveis n?úo apenas s?úo raras como constituem J?í disse que uma altera?º?úo cient?¡fica pode levar ?á substitui- ?º?úo de enunciados em certo campo e que a substitui?º?úo ser?í am- pla quando estivermos lidando com ideologias amplas. Afetar?í n?úo apenas teorias, mas tamb?®m enunciados observacionais e (ver Ora, essa adapta?º?úo da observa?º?úo ?á teoria (e esse ?® o fulcro da primeira obje?º?úo) freq??entemente afasta conflitantes relatos de ob- serva?º?úo e preserva uma cosmologia nova de maneira ad hoc. Sur- ge, al?®m disso, a suspeita de que as observa?º?Áes, interpretadas em termos da teoria nova, n?úo mais podem ser usadas para refutar a No que toca ?á obje?º?úo, seja-me permitido assinalar, em concord?óncia com o antes mencionado (cf. cap?¡tulos V e VI), que uma inconsist?¬ncia entre teoria e observa?º?úo pode revelar um erro de terminologia observacional (e at?® de nossas sensa?º?Áes), de modo que ?® muito natural alterar essa terminologia, adapt?í-la ?á teoria nova, para ver o que sucede. Essa altera?º?úo faz surgirem (e deve fazer surgirem) novas disciplinas auxiliares (hidrodin?ómica, teoria dos s??lidos, ??tica, no caso de Galileu) que, eventualmente, s?úo mais do que compensa?º?úo pela perda de conte??do emp?¡rico. No que se refere ?á suspeita137, importa lembrar que as previs?Áes de- correntes de uma teoria dependem de seus postulados (e de regras gramaticais associadas) e, tamb?®m, das condi?º?Áes iniciais, ao passo que o significado de no?º?Áes `primitivas’ depende apenas de postu- lados (e regras gramaticais associadas). Nos raros casos em que uma teoria acarreta asser?º?Áes acerca de poss?¡veis condi?º?Áes iniciais138, cabe refut?í-la com o aux?¡lio de relatos de observa?º?úo autocontradit??-

rios, tal como: `o objeto A n?úo se move em uma geod?®sica’, o que, analisado em termos da vers?úo Einstein-Infeld-Hoffmann equivale a `a singularidade alfa que se move em uma geod?®sica n?úo se move A segunda obje?º?úo critica uma interpreta?º?úo de ci?¬ncia que se afigura necess?íria para a incomensurabilidade vir ?á tona. J?í fiz notar que a indaga?º?úo `S?úo incomensur?íveis duas particulares te- orias amplas como a mec?ónica cl?íssica e a teoria especial da rela- tividade?’ n?úo ?® uma indaga?º?úo completa. As teorias podem ser interpretadas de diferentes modos. Ser?úo comensur?íveis segundo algumas interpreta?º?Áes, incomensur?íveis segundo outras. O ins- trumentalismo, por exemplo, torna comensur?íveis todas as teo- rias que se relacionam ?á mesma linguagem de observa?º?úo e s?úo, com base nela, interpretadas. Um realista, de outra parte, deseja oferecer vers?úo unificada assim das mat?®rias observ?íveis como das n?úo-observ?íveis e recorrer?í aos mais abstratos termos da te- oria que tem em vista para alcan?ºar aquele prop??sito139. Utilizar?í esses termos ou para conferir significado a senten?ºas de observa- ?º?úo ou para alterar a interpreta?º?úo habitual a elas dada. (Exempli- ficando, utilizar?í id?®ias da teoria especial da relatividade para al- terar a interpreta?º?úo cl?íssica habitual, traduzida em enunciados cotidianos acerca das formas de seq???¬ncias temporais, e assim por diante.) Contra essa posi?º?úo, ?® assinalado, por quase todos os empiristas, que os termos te??ricos t?¬m sua interpreta?º?úo deri- vada do fato de se ligarem a uma preexistente linguagem de ob- serva?º?úo ou a uma outra teoria j?í associada a essa linguagem. As- sim, Carnap afirma, em passagem citada anteriormente140, que `N?úo h?í interpreta?º?úo independente para LT [a linguagem em cu- jos termos certa teoria ou certa concep?º?úo do mundo ?® formula- da]. O sistema T [os axiomas da teoria e as regras de dedu?º?úo] ?®, em si mesmo, um sistema de postulados n?úo interpretados. [Seus] termos… s?? conseguem interpreta?º?úo indireta e incompleta devido ?á circunst?óncia de alguns deles se associarem, atrav?®s de regras C [de correspond?¬ncia], a termos de observa?º?úo…’ Ora, se os

dos ordin?írios de pesagem) e s?? vem a ser usada depois que essa conex?úo lhe tenha conferido um conte??do mais ou menos defini- Esse procedimento, cuja aplica?º?úo pode envolver um apa- rato l??gico formid?ível e que, por isso mesmo, ?® freq??entes vezes encarado como o dernier cri de uma filosofia verdadeiramente ci- ent?¡fica, mostra-se ainda pior do que a exig?¬ncia (que j?í foi co- mum) de que se esclarecessem pontos duvidosos vertendo-os para o latim. Com efeito, o latim era escolhido em virtude de sua precis?úo e clareza e pelo fato de ser conceptualmente mais rico era, pois, escolhido por uma raz?úo te??rica, enquanto que a esco- lha de uma linguagem de observa?º?úo ou de uma teoria anterior se deve ao fato de que s?úo `previamente entendidas': deve-se ao fato de sua popularidade. Al?®m disso, admitindo que os termos pr?®-relativistas (termos que se acham consideravelmente afasta- dos da realidade ÔÇö particularmente se recordarmos que defluem de uma teoria incorreta, baseada em uma ontologia n?úo existen- te) possam ser ensinados de maneira ostensiva, atrav?®s, digamos, de m?®todos rudimentares de pesagem (e precisamos admiti-lo, caso contr?írio todo o esquema cai por terra, de imediato), cabe perguntar: por que n?úo introduzir os termos relativistas de modo direto e sem aux?¡lio de termos de algum outro idioma? Enfim, ?® coisa do senso comum que o ensino, o aprendizado ou a formu- la?º?úo de linguagens novas e desconhecidas n?úo devem ser con- taminados por material estranho. Os ling??istas nos lembram, a cada momento, que tradu?º?Áes perfeitas nunca s?úo poss?¡veis, mesmo que empreguemos complexas defini?º?Áes contextuais. A?¡ est?í uma das raz?Áes da import?óncia que adquire o trabalho de cam- po, quando as linguagens novas s?úo aprendidas a partir da estaca zero e uma das raz?Áes para rejeitar, como inapropriada, qualquer explica?º?úo que se assente na id?®ia de uma tradu?º?úo completa ou parcial. Entretanto, o que ?® an?ítema em ling???¡stica ?® justamente o que se toma por assente no empirismo l??gico, surgindo a m?¡tica `linguagem observacio-

nal’ a substituir o ingl?¬s dos tradutores. Comecemos a realizar tra- balho de campo tamb?®m neste dom?¡nio e passemos a estudar a linguagem das teorias novas sem apelar para as f?íbricas de defini- ?º?Áes, das duplas linguagens, mas acompanhando os metaf?¡sicos, os f?¡sicos, os escritores e os cortes?úos que erigiram as novas concep- ?º?Áes do mundo. Isto encerra meu exame do princ?¡pio orientador que inspira a segunda obje?º?úo contra o realismo e contra a possi- Uma terceira obje?º?úo ?® a de que existem experimentos cruciais que refutam uma das duas teorias supostamente incomensur?íveis, confirmando a outra. Por exemplo, costuma-se dizer que o expe- rimento Michelson-Morley, a varia?º?úo das part?¡culas elementares, o efeito Doppler, refutam a mec?ónica cl?íssica e confirmam a rela- tividade. Resposta a esta posi?º?úo tamb?®m n?úo ?® dif?¡cil. Adotando o ponto de vista da relatividade, verificamos que os experimentos, agora naturalmente descritos em termos relativistas, usando as no?º?Áes re- lativistas de extens?úo dura?º?úo, massa, velocidade, e assim por di- anteÔÇØ145, s?úo relevantes para a teoria e verificamos, ainda, que d?úo apoio ?á teoria. Adotando o ponto de vista da mec?ónica cl?íssica (com ou sem o ?®ter), verificamos que os experimentos, agora descritos nos termos muito diversos da f?¡sica cl?íssica (ou seja, aproxi- madamente ?á maneira como os descreveu Lorentz), s?úo rele- vantes; mas verificamos, tamb?®m, que contrariam (a conjun?º?úo de eletrodin?ómica e) a mec?ónica cl?íssica. Por que seriam neces- s?írio possuir terminologia que nos permitisse dizer que ?® o mesmo o experimento confirmador de uma teoria e refutador da outra? N?úo usamos, n??s pr??prios, essa terminologia? Bem, por um lado seria f?ícil, embora algo laborioso, expressar o que acabou de ser dito sem presumir identidade. Em segundo lugar, a identifica?º?úo, claro est?í, n?úo contraria minha tese, pois agora usamos os termos da relatividade ou da f?¡sica cl?íssica, como se A linguagem em que esse discurso ?® vazado pode ser cl?íssica, re- lativista ou vodu. N?úo adianta insistir em que os cientistas atuam

perorganismo, como entidade biol??gica, ao passo que um elemento essencial da ci?¬ncia nova de Descartes, Galileu e seus seguidores, Devem esses desenvolvimentos ser proibidos? E se n?úo o forem, Obje?º?úo estreitamente ligada a essa surge da no?º?úo de expli- ca?º?úo, ou redu?º?úo e acentua que tal no?º?úo presume a continuidade de conceitos (outras no?º?Áes poderiam ser usadas para dar in?¡cio a exatamente a mesma esp?®cie de argumento). Usando exemplo meu, sup?Áe-se que a relatividade deva explicar as partes v?ílidas da f?¡sica cl?íssica; em conseq???¬ncia, n?úo pode ser incomensur?ível com ela. A resposta ?®, mais uma vez, ??bvia. Por que se preocupa- ria o relativista com o destino da mec?ónica cl?íssica, a n?úo ser para v?¬-la como parte de um desenvolvimento hist??rico? S?? h?í uma ta- refa que podemos legitimamente exigir que uma teoria desempe- nhe: dever?í proporcionar-nos correta vis?úo do mundo, ou seja, da totalidade de fatos, tal como constitu?¡dos por seus pr??prios conceitos b?ísi- N?úo ser?í razo?ível admitir que um ponto de vista como o da me- c?ónica cl?íssica, que se mostrou falho, sob v?írios aspectos, e que encontra dificuldade ante seus pr??prios fatos (ver acima, o que se refe- re aos experimentos cruciais) n?úo tem como dispor de conceitos inteiramente adequados? N?úo ser?í igualmente razo?ível tentar substituir esses conceitos pelos de uma cosmologia de maior ?¬xi- to? Al?®m disso, por que deveria a no?º?úo de explica?º?úo ser afetada pela exig?¬ncia de continuidade conceptual? Essa no?º?úo foi consi- derada estreita em demasia (exig?¬ncia de derivabiidade) e teve de ser ampliada para incluir conex?Áes parciais estat?¡sticas. Nada nos impede de fazer uma amplia?º?úo ainda maior para admitir, diga- Teorias incomensur?íveis podem ser, pois, refutadas atrav?®s de alus?úo a seus pr??prios e respectivos tipos de experi?¬ncia, ou seja, atrav?®s da descoberta de contradi?º?Áes internas de que estejam padecendo. (Na aus?¬ncia de alternativas comensur?íveis,

tais refuta?º?Áes s?úo, por?®m, muito fracas, como se pode ver dos argumentos em prol da prolifera?º?úo, mencionados nos cap?¡tulos II e III.) Seus conte??dos n?úo podem ser comparados. Nem ?® poss?¡vel formular um ju?¡zo de verossimilitude, a n?úo ser dentro das fronteiras de uma particular teoria (lembremos que o problema da incomen- surabilidade somente surge quando analisamos a altera?º?úo de pon- tos de vista cosmol??gicos abrangentes; teorias restritas raramente condu- zem ?á necessidade de revis?Áes coziceptuais). Nenhum dos m?®to- dos que Carnap, Hempel, Nagel, Popper ou mesmo Lakatos dese- jam usar, para racionaliza?º?úo das mudan?ºas cient?¡ficas, pode ser aplicado; o que pode ser aplicado, o m?®todo da refuta?º?úo, ?® de for- ?ºa muito reduzida. O que fica s?úo os ju?¡zos est?®ticos, os ju?¡zos de gosto, os preconceitos metaf?¡sicos, as aspira?º?Áes religiosas; em suma, o que resta s?úo nossos desejos subjetivos: a ci?¬ncia, no que tem de mais avan?ºado e geral, devolve ao indiv?¡duo uma liberdade que ele parece perder quando penetra em partes mais vulgares da mesma ci?¬ncia; al?®m disso, a imagem de seu `terceiro mundo’, o desenvol- vimento de seus conceitos, cessa de ser `racional’. Esse o ??ltimo argumento necess?írio para nos mantermos presos ?á conclus?úo do cap?¡tulo XII (e de todo o livro), a despeito dos ataques dos racio- nalistas mais modernos e mais refinados.

NOTAS 1. De acordo com Whorff, `o sistema ling???¡stico que ama como pano de fundo (ou seja, a gram?ítica), no caso de cada linguagem, n?úo ?® simplesmente um sistema reprodu- tor para veicular id?®ias; ?®, em vez disso, um aperfei?ºoador de id?®ias, um programa e um guia para a atividade men- tal do indiv?¡duo, para a sua an?ílise de impress?Áes, para

crescentemente em torno de um rationale, atrai palavras se- manticamente adequadas e perde elementos anteriores que se tornam semanticamente inapropriados. O que mant?®m o todo ?® a l??gica’. Cf., tamb?®m, o relato de Mill a respeito de seu de- senvolvimento educacional, tal como descrito no texto cor- 8. Whorff, op. cit., p. 70. Essas classifica?º?Áes sutis s?úo por Whorff denominadas cript??tipos. Um cript??tipo ?® um `signifi- cado oculto, sutil, fugidio, n?úo correspondente a qualquer pa- lavra e que, n?úo obstante, a an?ílise ling???¡stica demonstra ser, 10. Cf. `On a Recent Critique of Complementarity, Part II’, Philo- 11. Exemplo recente ?® a cr?¡tica feita por Popper a Bohr. Popper n?úo se preocupa em conhecer as concep?º?Áes de Bohr (para prova, cf. o artigo referido na nota anterior) e a posi?º?úo que ele ataca ?®, afinal, sua pr??prria maneira de v?¬-las. Contudo, o m?®todo de ataque revela at?® que ponto ele ainda se deixa domi- nar pela ideologia da f?¡sica cl?íssica (que desempenha papel decisivo em sua metodologia e, como se percebe, na defini?º?úo que oferece de enunciado b?ísico, em Logic of Scientific Discovery, Nova Iorque, 1959, p. 103: `Cada enunciado b?ísico ou ?® um enunciado acerca de posi?º?Áes relativas de corpos f?¡sicos… ou h?í de equivaler a algum enunciado b?ísico dessa esp?®cie meca- nicistaÔÇØ ‘; isto ?®, enunciados b?ísicos s?úo enunciados de f?¡sica 13. `Um mestre da introspec?º?úo, Kenneth Clark, recentemente descreveu, de maneira v?¡vida, a derrota de que foi v?¡tima quando tentou `apanhar’ uma ilus?úo. Contemplando um quadro de Velasquez, desejou observar o momento em que as pinceladas e as marcas da tinta, sobre a tela, se trans-

20. Isso ?® verdade para a filosofia da ci?¬ncia, embora n?úo para a epistemologia geral, onde nos contentamos com examinar os h?íbitos ling???¡sticos daquela criatura antiga, mas ainda hoje e- xistente, que viveu no fim da Idade da Pedra, o Homo Oxonien- 21. Die Naturwiedergabe in der ?ñlteren Griechischen Kunst, Roma, 1900, cap?¡tulo 1. Loewy usa `arcaico’ em termos de express?úo gen?®rica para abranger fen??menos da arte eg?¡pcia, grega, primitiva, dos desenhos de crian?ºas e de amadores. Na Gr?®cia, suas observa- ?º?Áes se aplicam desde o estilo geom?®trico (1000 a 700 a.C.) at?® o per?¡odo arcaico (700 a 500 a.C.) que trata a figura huma- Cf., tamb?®m, F. Matz, Geschichte der Griechischen Kunst, vol. I, 1950, e Beazly e Ashmole, Greek Sculpture and Painting, Cam- Webster encara esse uso de `padr?Áes simples e claros’ na arte geom?®trica dos gregos como o `precursor’ de posteriores de- senvolvimentos na arte (em ??ltima an?ílise, a inven?º?úo da 28. Os fatos da perspectiva s?úo notados, mas n?úo se incluem na H. Schifer, Von Aegyptischer Kunst, Wiesbaden, 1963, pp. 88 e ss., onde o problema ?® mais amplamente discutido.

dr?® Leroc-Gourhan, Treasures of Prehistoric Art, Nova Iorque, 1967, ambos com excelentes ilustra?º?Áes. Loewy n?úo conhecia esses resultados: o `mea culpa d’un ceptique’ de Cartailhac, 30. Cf. a transforma?º?úo no apresentar animais, ao longo da tran- si?º?úo dos tempos pr?®-din?ísticos para a Primeira Dinastia. O le?úo de Berlim (Berlim, Staatliches Museum, Nr. 22.440) ?® sel- vagem, amea?ºador, muito diferente, quanto ?á express?úo e exe- Este ??ltimo parece mais uma representa?º?úo do conceito de le?úo do que de qualquer le?úo particular. Cf., tamb?®m, a diferen?ºa entre o falc?úo no quadro da vit??ria do rei Narmer (parte de tr?ís) e na pedra f??nebre do rei Wadji (Djet) da Primeira Di- nastia `Sob todos os aspectos, avan?ºava-se no sentido da cla- ridade pura, as formas se fortaleciam e se tornavam simples’ Sch?ñfer, pp. 12 e ss., especialmente p. 15, onde s?úo apresenta- 31. A arte geom?®trica ?ítica n?úo deveria ser considerada primitiva embora n?úo encerre a esp?®cie de realismo fotogr?ífico que os eruditos parecem exigir em pintura. ?ï arte altamente requin- tada, com suas conven?º?Áes pr??prias, a servirem prop??sitos espec?¡ficos. Quanto a formas e ornamenta?º?úo uma revolu?º?úo a separa da pintura de Micenas. Nessa revolu?º?úo, as figuras se viram reduzidas a silhuetas m?¡nimas e, a partir de tais silhuetas 32. Essa tese tamb?®m encontra apoio na observa?º?úo de que os chamados primitivos com freq???¬ncia ignoram o objeto que 34. Beazly e Ashmole, op. cit., p. 3.

representa?º?úo foi utilizado pelos primeiros expressionistas, por exemplo, Jacob von Hoddis, em seu poema Weltende: Dem B??rger fliegt vom spitzen Kopf der Hut, Der Sturm ist da, die wilden Meere hupfen Telhados tombam e se partem ao meio Nas praias ÔÇö segundo se l?¬ ÔÇö sobe a mar?® A tormenta chegou, os mares bravios saltam Von Hoddis afirma que Homero ?® um precursor, explican- do que a simultaneidade foi usada por Homem n?úo. a fim de tornar um evento mais claro, mas com o objetivo de cri- ar um sentimento de espa?ºo imensur?ível. Quando Homero descreve uma batalha e compara o ru?¡do das armas ao bicar do pica-pau quer simplesmente mostrar que enquanto uma batalha se trava, continua presente a quietude dos bosques, apenas interrompida pelo ru?¡do da ave. N?úo se pode con- ceber uma cat?ístrofe sem, ao mesmo tempo, pensar em um evento totalmente destitu?¡do de import?óncia. O Grande se mistura ao Pequeno, o Impor-

das percep?º?Áes exteriores. De qualquer modo, h?í um n??mero apreci?ível de experi?¬ncias demon?¡acas e elas nos impedem de 70. Significa isso que o ?¬xito n?úo resulta de esfor?ºo do indiv?¡duo, mas ?® fruto de afortunado ajuste de circunst?óncias. Isso se ex- Contudo, essas palavras, em Homero, n?úo enfatizam o efeito do agente, mas o fato de que o resultado ocorre de maneira apropriada ÔÇö o processo que acarreta esse resultado n?úo en- frenta muitas perturba?º?Áes, ajustando-se a outros processos que se manifestam ao lado dele; no dialeto ?ítico, ??????? ain- da significa `Estou agindo bem’. Analogamente, ??????? n?úo enfatiza a conquista pessoal, mas o fato de que essas coisas v?úo bem, ou seja, acomodam-se ao que as cerca. O mesmo vale para a aquisi?º?úo do conhecimento. `Ulisses viu muita coi- sa e passou por numerosas experi?¬ncias; al?®m disso ele ?® o ??????????? que sabe como agir em situa?º?Áes novas e ele ?® o homem que obedece aos preceitos de sua deusa Atena. A par- te do conhecimento que resulta de ver n?úo deflui, em verdade, da atividade e da pesquisa do pr??prio Ulisses; simplesmente acontece, enquanto ele ?® guiado pelas circunst?óncias exterio- res. Ulisses ?® bem diferente de Solon; este, como relata Her??- doto, foi o primeiro a viajar por motivos te??ricos, porque se interessava pela pesquisa. Em Ulisses, o conhecimento de muitas coisas acha-se curiosamente separado de sua atividade no campo de ?????????: a atividade restringe-se a encontrar meios para alcan?ºar determinado objetivo, salvar a sua vida e a vida de seus companheiros.’ B. Snell, Die alten Griechen und Wir, G?Âttingen, 1962, p. 48. A?¡ se encontra, ainda, an?ílise 71. Exemplo: F. Schachermayer, Die fr??he Klassik der Griechen, 72. Cf. Wilamowitz-Moellendorf, op. cit.

76. Her?íclito, segundo Di??genes La?®rcio, IX, L 77. A asser?º?úo de que Tales usou um princ?¡pio que expressava a unidade subjacente dos fen??menos naturais e de que identifi- cou esse princ?¡pio ?á ?ígua encontra-se em Arist??teles, Metaphy- sics, 983 b 6-12 e 26 e ss. Estudo mais meticuloso dessa passa- gem e de algumas outras e consulta a Her??doto sugere que ele pertence ao grupo de pensadores que cuidam de muitos fe- n??menos extraordin?írios, realizam numerosas observa?º?Áes, mas n?úo procuram reuni-los em um sistema. Cf. a v?¡vida apre- senta?º?úo de F. Kraft, em Geschichte der Naturwissenschaften, 1, 78. Fen??menos relativos ?á perspectiva s?úo algumas vezes trata- dos como se foss??m propriedades muito especiais dos objetos representados. Exemplificando, um vaso da Velha Dinastia (Egito Antigo) apresenta uma indenta?º?úo no topo, indicativa de perspectiva, mas a indenta?º?úo ?® apresentada como caracte- r?¡stica do pr??prio objeto; cf. Sch?ñfer, op. cit., p. 266. Alguns artistas gregos procuram encontrar situa?º?Áes em que a pers- pectiva n?úo precisa ser levada em conta. Assim, a peculiarida- de do chamado estilo das figuras vermelhas (que surge apro- ximadamente no ano 530 a.C.) `n?úo consiste no fato de que h?í esbo?ºos em perspectiva, mas no fato de que h?í novos e bem variados meios de evit?í-los'; cf. E. Pfuhl, Malerei und Zeichnung 79. Ver a discuss?úo que se acha no primeiro cap?¡tulo do livro de A. J. Ayer, Foundations of Empirical Knowledge. O exemplo ?® bem 80. Esta ?®, tamb?®m, a maneira pela qual J. L. Austin enfrenta o caso. Cf. Sense and Sensibilia, Nova Iorque, 1962. ?ë

claro que problemas como o `problema da exist?¬ncia de enti- Todos esses problemas s?úo criados pelo novo enfoque ÔÇö pelo qual se supera a ideologia aditiva dos tempos arcaicos e pr?®- 81. B. Snell, Die Ausdr??cke f??r den Begriff des Wissens in der vorplatonis- chen Philosophie, Berlim, 1924. Coment?írio breve aparece em Snell, Die alten Griechen und wir, pp. 41 e ss. Ver, ainda, von Fritz, Philosophie und sprachliche Ausdruck bei Demokrit, Plato, und 82. ?Ünica vez em que aparece na Il?¡ada, de Homero, 15, 42; relati- va ?á ????? de um carpinteiro. (Latimore traduz `perito em car- pintaria’.) 86. Cf. a parte II de Hedwig Kenner, Das Theater und der Realismus 90. Evans-Pritchard, The Nuer, Oxford, 1940, parte III cf., tam- 92. Achinstein, Minnesota Studies in the Philosophy of Science 4, Minne- apolis, 1970, p. 224, afirma que `Feyerabend nos deve uma te- oria do significado’ e Hempel disp?Áe-se a aceitar a incomensu- rabilidade somente ap??s se deixar clara a no?º?úo de significado que a?¡ se acha impl?¡cita, op. cit., p. 156.

blicados no British Journal for the Philosophy of Science, agosto de 1970, pp. 257 e ss., e fevereiro de 1971, pp. 39 e ss. A refer?¬n- cia far-se-?í indicando apenas a p?ígina. Giedymin assevera que os problemas l??gicos n?úo podem ser resolvidos utilizando uni- camente a an?ílise de documentos hist??ricos ou (pode-se pre- 95. O processo ?® muito mais aleat??rio do que um racionalista es- taria disposto a admitir, ou suspeitar ou mesmo notar. Cf. von Kleist, `?£ber die allm?ñhliche Verfertigung der Gedanken beim Reden’, in Meisterwerke Deutscher Literaturkritik, ed. por Hans Meyer, Stuttgart, 1962, pp. 741-7. Hegel vislumbrou a situa- ?º?úo. Cf. K. Loewith e J. Riedel, eds., Hegel, St??dienausgabe I, 96. Plat?úo, Teeteto, 184 c. Ver, ainda, 1. D??ring, Aristoteles, Heidel- berg, 1966, p. 379, criticando a exig?¬ncia de Arist??teles, a soli- 98. J?í se objetou (Ayer, G. E. L. Owen), afirmando que estamos diante de apar?¬ncias, n?úo diante de eventos reais, e que a des- cri?º?úo correta seria `parece mover-se…’ Mas isso n?úo afasta a dificuldade. Com efeito, ao introduzir `parece’, o voc?íbulo surge no in?¡cio da senten?ºa, que assume a forma `parece que se move e que n?úo muda de lugar’. Considerando que as apa- r?¬ncias est?úo no dom?¡nio da psicologia fenomenol??gica, esta- belecemos nossa tese, a saber, a de que esse dom?¡nio cont?®m 99. E. Rubin, `Visual Figures Apparently Incompatible with Ge- ometry’, Acta Psychologica, VII, 1950, pp. 365 e ss.

Sprachlicher Ausdruck bei Demokrit, Plato und Aristoteles Leipzig- 110.`…transformando-se na encarna?º?úo da justi?ºa c??smica, Zeus perde sua humanidade. Assim, a religi?úo do Olimpo, em sua fei?º?úo moralizada, tendeu a transformar-se em uma religi?úo do 112.A id?®ia de que o conhecimento consiste em listas remonta ao passado sumeriano, cf. von Soden, Leistung und Grenzen Sume- risch-Babylonischer Wissenschaft, nova edi?º?úo, Darmstadt, 1965. A diferen?ºa entre a matem?ítica e a astronomia babil??nica e gre- ga reside precisamente nisso. Uma desenvolve m?®todos para a apresenta?º?úo do que hoje denominamos `fen??menos’, eventos interessantes e relevantes, ocorridos no c?®u; enquanto a outra procura elaborar a astronomia `deixando o c?®u de parte’ (Pla- 114.Transforma?º?Áes similares, aparecem na maioria dos escritos 115.`Para ser precisos, diremos que Homero nem chega a dispor de palavras para indicar bra?ºos e pernas; fala de m?úos, ante- Nem h?í um termo abrangente para indicar o tronco.’ Snell, 116.`As emo?º?Áes n?úo surgem espontaneamente no homem, mas s?úo a ele comunicadas pelos deuses’, Snell, p. 52. Ver, tam- 119.Quanto a autoconsci?¬ncia, cf. Karl Pribram, `Problems Con- cerning the Structure of Consciousness’, manuscrito, Stan- ford, 1973.

A, inclusive algumas muito pormenorizadas e requintadas, contaminam-se de conceitos-B. Um exemplo ?® dado em nota 104 ao presente cap?¡tulo. Aqui, tal como em outras situa?º?Áes, somente o m?®todo antropol??gico pode conduzir a conheci- 123.Pfuhl, op. cit.; cf., tamb?®m, J. White, Perspective in Ancient Dra- 124. Plutarco relata a seguinte est??ria, em sua Vida de Solon: `Quando a companhia de T?®spis come?ºou a representar trag?®dias e a novidade atra?¡a a popula?º?úo, mas ainda n?úo dava lugar a competi?º?Áes p??blicas, Solon, gostando de ouvir e de aprender, e sendo muito dado, em sua velhice, ao lazer e ?á divers?úo, e apreciando festas e m??sica, foi ver T?®spis atuar em uma pe?ºa dele pr??prio, tal como era de uso em tempos antigos. Solon aproximou-se de T?®s- pis, ap??s a representa?º?úo, e perguntou-lhe se ele n?úo se Quando T?®spis respondeu que nada havia de chocante no representar aquelas obras e a?º?Áes, dando-lhes o as- pecto de fantasia, Solon golpeou violentamente o ch?úo com seu cajado: ÔÇ£Se aplaudimos estas coisas em car?íter de brincadeiraÔÇØ, disse ele, ÔÇ£logo nos encontraremos a honr?í-las a s?®rioÔÇØ ‘. O relato parece n?úo ter fundamento hist??rico, por?®m mostra uma atitude muito comum (quanto a essa atitude, cf. cap?¡tulo 8 de John Forsdyke, Greece before Homer, Nova Iorque, 1964). Solon, por?®m, ao que parece, impressinou-se algo menos com as tradi- cionais formas de pensamento e talvez haja sido um dos primeiros atores dram?íticos (da variedade pol?¡tica): cf. G. Else, The Origin and Early Form of Tragedy, Cam-

bridge, 1965, pp. 40 e ss. A atitude contr?íria, que revela o se- guro e j?í um tanto vaidoso cidad?úo de B, ?® expressa por Sinio- nides, que responde ?á indaga?º?úo de porque os tessalianos n?úo se deixaram iludir por ele, dizendo `Porque s?úo muito est??pi- 126.Isso ?® esquecido por Hanson, que parece esperar que cada transforma?º?úo conceptual importante dominar?í, de imediato, nossas percep?º?Áes. Para min??cias, cf. nota 52 e texto corres- pondente, de meu `Reply to Criticism’, Boston Studies in the Phi- 127.Isso responde a uma cr?¡tica inclu?¡da em nota 63, do artigo de Shapere, publicado em Mind and Cosmos, Pittsburgh, 1966. As classifica?º?Áes a que os princ?¡pios levam s?úo `impl?¡citas’, no sentido de Whorff: cf., acima, nota 4 e texto que se estende 128. A observa?º?úo de Lakatos (`Falsification’, op. cit., p. 179, nota 1), segundo a qual `podemos tornar compar?íveis’ concep?º?Áes n?úo compar?íveis, recorrendo a `um dicion?í- rio’, continua a refletir a atitude dos antropologistas mais antigos. O mesmo ocorre com a observa?º?úo de Giedy- min, de acordo com a qual `quaisquer duas linguagens e quaisquer duas teorias podem ser transformadas em logi- camente compar?íveis’ (British Journal for the Philosophy of Science, vol. 21, 1970, p. 46), exceto pelo fato de ele a- crescentar a ressalva `se n?úo forem impostas restri?º?Áes no que concerne ?á extens?úo de vocabul?írio e regras de significado’. No caso da antropologia, temos, ?® claro, importante restri?º?úo que ?®: conservar-se t?úo pr??ximo quanto poss?¡vel da linguagem que est?í sendo falada por certa tribo. Na filosofia da ci?¬ncia, a situa?º?úo ?® exata- mente a mesma. Desejamos descobrir os princ?¡pios da transforma?º?úo cient?¡fica, ou seja, queremos des- cobrir como teoria de Newton, na forma em que se apresen-

em ci?¬ncia, inclusive aqueles em que se faz emprego de im- 130. `O fato ?® que mesmo l?¡nguas totalmente diferentes (como o ingl?¬s e o hopi ou o chin?¬s) admitem tradu?º?úo de uma para outra e h?í muitos hopis e chineses que aprenderam a dominar muito bem o ingl?¬s’, escreve Popper (`Normal Science and its Dangers’, Criticism and the Growth of Kn??wled- ge, op. cit., p. 56). Esquece ele que uma tradu?º?úo adequada sempre se faz com alguma viol?¬ncia seja ao ingl?¬s, seja ?á outra l?¡ngua. Quem jamais negou que as pessoas possam aprender a movimentar-se em esquemas mutuamente in- comensur?íveis? Essa mesma observa?º?úo aplica-se ?á anota- ?º?úo de Post (p. 253 de seu ensaio), segundo a qual, `n?úo h?í barreiras de comunica?º?úo entre as sucessivas teorias, pelo menos ÔÇö desde o s?®culo XVI’. O fato de a possibilidade de comunica?º?úo n?úo acarretar comparabilidade de signifi- cado (comensurabilidade) decorre desta considera?º?úo (que 64): duas pessoas, A e B, talvez falem duas l?¡nguas inco- mensur?íveis, X e Y; sem embargo, A, interpretando cada senten?ºa de B, como enunciadora de uma afirmativa em X, e B, interpretando cada senten?ºa de A como enunciadora de uma afirmativa em Y, podem entender-se facilmente dentro de certo limite: `duas proposi?º?Áes g e h podem en- cerrar conte??do informativo comum para A e B, ainda que g seja incompat?¡vel com os princ?¡pios constitutivos e indi- viduadores da estrutura categ??rica de A e que Y seja in- compat?¡vel com os princ?¡pios individuadores e constituti- vos da estrutura categ??rica de A’. Insisto fortemente em que o leitor tenha ?á m?úo o livro de K?Ârner, enquanto a- companha minha exposi?º?úo a prop??sito de incomensura- bilidade (que ?® muito mais frustradora para os l??gicos).

II, cap?¡tulo IV, quest?úo I. A teoria remonta a S?úo Tom?ís de 132.Bohr adverte-nos (Zs. Physik, vol. 13, 1922, p. 144) `de que a conex?úo assint??tica’ entre a teoria qu?óntica e a f?¡sica cl?íssica `tal como admitida pelo princ?¡pio de correspond?¬ncia… n?úo acarreta, em absoluto, o desaparecimento gradual da diferen?ºa entre o tratamento teor?®tico-qu?óntico dos fen??menos de radi- a?º?úo e as id?®ias da eletrodin?ómica cl?íssica; tudo quanto se a- firma ?® uma concord?óncia assint??tica de resultados num?®ricos estat?¡sticos’. Em outras palavras, o princ?¡pio da correspon- Segundo Bohr, essa concord?óncia entre n??meros chega a a- presentar certa desvantagem, pois `obscurece a diferen?ºa de princ?¡pio entre as leis que governam o mecanismo real dos microprocessos e as leis cont?¡nuas do ponto de vista cl?íssico’ (p. 129; cf. tamb?®m Atomic Theory and the Description of Nature, Cambridge, 1932, pp. 85 e 87 e ss.) Bohr, portanto, acentuou repetidamente que `o princ?¡pio de correspond?¬ncia h?í de ser encarado como uma lei puramente quantum-teor?®tica que de modo algum reduz o contraste entre os postulados [da exis- t?¬ncia de estados estacion?írios e o postulado da transi?º?úo] e a teoria eletromagn?®tica’ (Ibid., p. 142, nota). As dificuldades que surgem do ignorar tal situa?º?úo foram muito claramente explicadas pelo falecido N. R. Hanson em Patterns of Discovery, Rev., vol. 69, especialmente p. 251. Delas n?úo se d?úo conta os racionalistas ch?úos que inferem a continuidade dos conceitos a partir da exist?¬ncia de aproxima?º?Áes; cf. ensaio de Popper em Criticism, op. cit., p. 57.

Straud, `Conventionalism and the Indeterminacy of Translation’, Synthese, 1968, p. 173. A id?®ia de que uma linguagem nova h?í de ser ensinada com o aux?¡lio de uma est?ível linguagem de observa?º?úo deriva da tradi?º?úo emp?¡rica e especialmente das concep?º?Áes acerca de reconstru?º?úo l??gica surgidas no C?¡rculo de Viena. Segundo essas concep?º?Áes, o conte??do emp?¡rico de uma teoria (ou de algum idioma comum) se determina indagando quanto da teoria (ou do idioma) pode ser traduzido em uma linguagem ideal cujas caracter?¡sticas emp?¡ricas sejam de f?ícil determina?º?úo. As teorias s?úo consideradas significativas at?® a medida em que essa tradu?º?úo possa ocorrer. Com base nessas concep?º?Áes, era natural tentar relacionar a aquisi?º?úo de uma linguagem nova ?á linguagem ideal escolhida. Entretanto, logo se viu que as linguagens ideais n?úo s?úo f?íceis de elaborar e que mesmo os primeiros e mais elementares passos enfrentam dificuldades inteiramente ausentes da f?¡sica. Al?®m disso, o conceito de `bases’ escolhidas, de reconstru?º?úo, teve de ser gradualmente enriquecido para colocar-se ?á altura da intersubjetividade dos termos cient?¡ficos. Uma s?®rie de desenvolvimentos dessa esp?®cie, poucos deles claramente compreendidos ou mesmo reconhecidos, conduziu ?á gradual substitui?º?úo da id?®ia de reconstru?º?úo pela id?®ia de interpreta?º?úo e levou, da?¡, ?á id?®ia de ensino (cf. a cr?¡tica perspicaz que Hempel faz da situa?º?úo atual O desenvolvimento, com seus erros e omiss?Áes, com o seu gradual passar de uma para outra posi?º?úo, ?® desconhecido de J. Giedymin (B. J. P. S., 22, 1971, pp. 40 e ss.), que me critica por tom?í-lo em conta. A ignor?óncia de Giedymin n?úo surpreende porque ele se recusa, explicitamente, a dar import?óncia ?á Hist??ria (B. J. P. S., 21, 1970, p. 257).

143.Carnap, op. cit., p. 40; cf., tamb?®m, Hempel, Philosophy of Natu- 144.Por esse motivo, Leibniz considerava o alem?úo de seu tempo e especialmente o alem?úo dos art?¡fices como perfeita lingua- gem de observa?º?úo, enquanto, para ele, o latim j?í se achava demasiado contaminado por no?º?Áes teor?®ticas. Ver seu `Un- vergreifliche Gedancken, betreffend die Ausuebung und Ver- besserung der Deutschen Sprache’, Wissenschaftliche Beihefte zur Zeitschrif des allgemeinein deutschen Sprachvereins, IV?¬. s?®rie, fasc?¡cu- 145.Para exemplo de tais descri?º?Áes, cf. Synge, `Introduction to General Relativity’, se?º?úo II, in Relativity Groups and Topology, ed. D. Witt e De Witt, 1964. Para maneira ainda mais elegante de introduzir a relatividade, cf. Bondi, Assumtions and Myth in 148.Essa dificuldade foi levantada por Roger Buck, numa discus- s?úo no Minnesota Center, cf. Minnesota Studies, vol. 4, p. 232.

Ilustra?º?úo D. Vaso guerreiro, da Acr??pole de Micenas, de 1200 a.C., apro- ximadamente. Museu Nacional de Atenas. (Cortesia da Cole?º?úo Mansell)

Ilustra?º?úo E. Pormenor da ilustra?º?úo C: carro de corridas ou carro de guerra, com seus aurigas.

comportamento nem dados de observa?º?úo de tipo mais subjetivo poder?úo jamais determinar as interpreta?º?Áes (quanto a este ponto, cf. meu artigo `Towards a Realistic Interpretation of Experience’, Proceedings of the Aristotelian Society, 1958). E a posterior ramifica?º?úo dessa trivialidade (tal como o hipop??tamo refrigerado, de David- son) s?? p??de ocorrer porque os fil??sofos da linguagem n?úo est?úo, ao que parece, familiarizados com os problemas, as t?®cnicas e as obje?º?Áes feitas ao convencionalismo. Al?®m disso, nosso problema ?® de fato hist??rico e n?úo de possibilidade l??gica.

XVIII Dessa forma, a ci?¬ncia aproxima-se do mito, muito mais do que uma filosofia cient?¡fica se inclinaria a admitir. A ci?¬ncia ?® uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo homem e n?úo necessariamente a melhor. Chama a aten?º?úo, ?® ruidosa e impudente, mas s?? inerentemente superior aos o- lhos daqueles que j?í se hajam decidido favoravelmente a cer- ta ideologia ou que j?í a tenham aceito, sem sequer examinar suas conveni?¬ncias e limita?º?Áes. Como a aceita?º?úo e a rejei- ?º?úo de ideologias devem caber ao indiv?¡duo, segue-se que a separa?º?úo entre o Estado e a Igreja h?í de ser complementada por uma separa?º?úo entre o Estado e a ci?¬ncia, mais recente, mais agressiva e mais dogm?ítica institui?º?úo religiosa. Tal se- para?º?úo ser?í, talvez, a ??nica forma de alcan?ºarmos a huma- nidade de que somos capazes, mas que jamais concre- tizamos.

que esses pressupostos sejam plaus?¡veis e at?® mesmo verdadeiros. N?úo Submet?¬-los a exame significa deixar de utilizar a metodologia a eles associada, passar a praticar a ci?¬ncia de maneira diversa e veri- ficar o que vem a ocorrer. Casos espec?¡ficos, tais como os relata- dos nos cap?¡tulos anteriores, mostram que os exames referidos se est?úo continuamente realizando e que falam contra a validez uni- versal de qualquer regra. Todas as metodologias t?¬m limita?º?Áes e A altera?º?úo da perspectiva decorrente dessas descobertas conduz, uma vez mais, ao longamente esquecido problema do m?®- rito da ci?¬ncia. A ele conduz pela primeira vez na hist??ria moderna, pois que a ci?¬ncia moderna se imp??s a seus oponentes, n?úo os con- venceu. A ci?¬ncia dominou pela for?ºa, n?úo atrav?®s de argumentos (isso ?® especialmente verdadeiro no que se refere ?ás primeiras co- l??nias, onde a ci?¬ncia e a religi?úo do amor fraternal foram introdu- zidas como algo natural, sem consulta aos habitantes e sem lhes ouvir argumentos). Hoje, damo-nos conta de que o racionalismo, inclinando-se para a ci?¬ncia, n?úo pode ser de qualquer valia em fa- ce da pend?¬ncia entre ci?¬ncia e mito e damo-nos conta, ainda, gra- ?ºas a investiga?º?Áes de car?íter inteiramente diverso, que os mitos s?úo muito mais v?ílidos do que os racionalistas t?¬m ousado admi- tir1. Somos, assim, for?ºados a suscitar a quest?úo do m?®rito da ci?¬n- cia. Exame do assunto revela que ci?¬ncia e mito se superp?Áem sob muitos aspectos, que diferen?ºas aparentemente percept?¡veis s?úo, com freq???¬ncia, fen??menos localizados que, em outros pontos, se transformam em similaridades e que as discrep?óncias fundamen- tais resultam antes de prop??sitos diversos do que de m?®todos dife- rentes a tentarem alcan?ºar um ??nico e mesmo fim `racional’ (como Para colocar em evid?¬ncia as surpreendentes similaridades entre o mito e a ci?¬ncia, examiuarei, de maneira breve, o inte- ressante artigo de Robin Horton, intitulado `African Traditional

Thought and Western Science’2. Horton estuda a mitologia africa- na e aponta as seguintes caracter?¡sticas: a busca de teoria ?® busca da unidade subjacente ?á complexidade que se percebe. A teoria disp?Áe as coisas em um contexto causal mais amplo que o contex- to causal propiciado pelo senso comum: tanto a ci?¬ncia quanto o H?í teorias de diferentes graus de abstra?º?úo e elas s?úo utilizadas de A constru?º?úo de teoria consiste em partir os objetos do senso co- mum para reunir os fragmentos de maneira diversa. Os modelos teor?®ticos nascem da analogia, mas gradualmente se distanciam do Essas caracter?¡sticas, definidas a partir do estudo de casos, levado a efeito de modo n?úo menos cuidadoso e pormenorizado que o de Lakatos, refutam a id?®ia de que a ci?¬ncia e o mito obede- ?ºam a diferentes princ?¡pios de forma?º?úo (Cassirer), que o mito se instaura sem reflex?úo (Dardel) ou especula?º?úo (Frankfort, ocasio- nalmente). Nem cabe acolher a id?®ia, defendida por Malinowski e tamb?®m por eruditos cl?íssicos, tais como Harrison e Cornford, de que o mito exerce fun?º?úo essencialmente pragm?ítica ou se baseia em ritual. O mito est?í muito mais pr??ximo da ci?¬ncia do que se poderia esperar com base em uma discuss?úo filos??fica. Est?í mais pr??ximo da ci?¬ncia do que o pr??prio Horton se inclinaria a admi- Para perceb?¬-lo, consideremos algumas das diferen?ºas a- centuadas por Horton. Segundo ele, as id?®ias centrais do mito s?úo vistas como sagradas. Teme-se que sofram amea?ºas. `Quase nunca se depara com uma confiss?úo de ignor?óncia’ e eventos `que fogem fortemente ?ás linhas de classifica?º?úo admitidas pela cultura em que ocorrem’ despertam a `rea?º?úo do tabu’4. As cren?ºas b?ísicas s?úo protegidas por essa rea?º?úo e tamb?®m pelo artif?¡cio das `elabora?º?Áes secund?írias’5 que, em nossos tempos, s?úo s?®ries de hip??teses ad hoc. A ci?¬ncia, de outra parte, se ca- racteriza por um `ceticismo essencial’6; `quando as falhas se

acumulam rapidamente, a defesa da teoria se transforma inexora- velmente em ataqu?¿ a ela’7. Isso ?® poss?¡vel devido ?á `abertura’ do empreendimento cient?¡fico, devido ao pluralismo das id?®ias que encerra e tamb?®m devido a que `tudo quando escapa ou deixa de amoldar-se ao estabelecido sistema de categorias n?úo ?® visto como aterrador, como algo a ser isolado e repudiado. ?ë, pelo contr?írio, um `fen??meno’ intrigante ÔÇö ponto de partida e desafio para a cri- a?º?úo de novas classifica?º?Áes e de novas teorias’8 . V?¬-se que Hor- ton absorveu bem as li?º?Áes de Popper9. Um estudo de campo a Revela esse estudo que, embora alguns cientistas possam agir segundo o esquema descrito, a grande maioria segue trilha di- ferente. O ceticismo ?® m?¡nimo; dirige-se contra a maneira de ver dos oponentes e contra ramifica?º?Áes secund?írias das id?®ias fun- damentais que se defende, mas nunca se levanta contra as pr??prias id?®ias b?ísicas10. Atacar id?®ias b?ísicas desperta rea?º?Áes de tabu que n?úo s?úo menos intensas do que as rea?º?Áes de tabu nas chamadas sociedades primitivas11. As cren?ºas b?ísicas s?úo protegidas por essa rea?º?úo e, como vimos, por elabora?º?Áes secund?írias; e tudo quanto deixa de acomodar-se ao estabelecido sistema de categorias ?® de- clarado incompat?¡vel com tal sistema ou ?® encarado como algo es- candaloso ou, mais freq??entemente, ?® simplesmente considerado como n?úo-existente. A ci?¬ncia n?úo est?í preparada para fazer do pluralismo teor?®tico o fundamento da pesquisa. Newton dominou por mais de 150 anos; Einstein introduziu, por curto espa?ºo de tempo, um ponto de vista mais liberal, mas viu-se sucedido pela Interpreta?º?úo de Copenhague. As semelhan?ºas entre ci?¬ncia e mito s?úo inega- Os campos est?úo, entretanto, ainda mais estreitamente relacionados. O dogmatismo pesado a que fiz alus?úo n?úo ?® a- penas um fato, mas desempenha tamb?®m important?¡ssima fun- ?º?úo. Sem ele seria imposs?¡vel a ci?¬ncia12. Pensadores `primitivos’ mostraram maior percep?º?úo da natureza do conhecimento do

que seus `esclarecidos’ rivais filos??ficos. Torna-se necess?írio, pois, reexaminar nossa atitude em face do mito, da religi?úo, da magia, da feiti?ºaria e em face de todas aquelas id?®ias que os racionalistas gostariam de ver para sempre afastadas da superf?¡cie da Terra H?í outra raz?úo para que o reexame se torne urgentemente necess?írio. O surgimento da ci?¬ncia moderna coincide com a su- press?úo das tribos n?úo-ocidentais pelos invasores ocidentais. As tribos n?úo s?úo apenas fisicamente suprimidas, mas perdem a inde- pend?¬ncia intelectual e se v?¬em for?ºadas a adotar a sang??in?íria re- ligi?úo do amor fraternal ÔÇö o Cristianismo. Os membros mais in- teligentes conseguem uma vantagem adicional: s?úo iniciados nos mist?®rios do Racionalismo Ocidental e no que ?® sua culmin?óncia ÔÇö a ci?¬ncia ocidental. Por vezes, isso conduz a um quase intole- r?ível conflito com a tradi?º?úo (Haiti). Na maioria dos casos, a tra- di?º?úo desaparece sem deixar o tra?ºo de um argumento e as pesso- as simplesmente se tornam escravas, de corpo e esp?¡rito. Hoje, es- se desenvolvimento sofre gradual invers?úo ÔÇö h?í grande relut?ón- cia, indubitavelmente, mas a invers?úo se processa. Volta-se a ga- nhar liberdade, as velhas tradi?º?Áes s?úo redescobertas, quer pelas minorias dos pa?¡ses ocidentais, quer pelas grandes popula?º?Áes de Reina soberana porque seus praticantes s?úo incapazes de compreender e n?úo se disp?Áem a tolerar ideologias diferentes, porque t?¬m for?ºa para impor seus desejos e porque usam essa for?ºa como seus ancestrais usaram a for?ºa de que eles dispunham para impor o cristianismo aos povos que iam encontrando em suas conquistas. Assim, em- bora um norte-americano possa, agora, abra?ºar a religi?úo de seu gosto, n?úo lhe ?® permitido pedir que, na escola, seus filhos apren- dam m?ígica e n?úo a ci?¬ncia. Existe separa?º?úo entre Estado e Igre- ja, n?úo existe separa?º?úo entre Estado e ci?¬ncia.

Contudo, a ci?¬ncia n?úo tem autoridade maior que a de qualquer outra forma de vida. Seus objetivos n?úo s?úo, por certo, mais importantes que os prop??sitos orientadores de uma comuni- dade religiosa ou de uma tribo que se mant?®m unida gra?ºas a um mito. De qualquer modo, n?úo h?í por que esses objetivos possam restringir as vidas, os pensamentos, a educa?º?úo dos integrantes de uma sociedade livre, onde cada qual deve ter a possibilidade de decidir por si pr??prio e de viver de acordo com as cren?ºas sociais que tenha por mais aceit?íveis. A separa?º?úo entre Estado e Igreja deve, portanto, ser complementada pela separa?º?úo entre Estado e N?úo h?í a temer que tal separa?º?úo leve a um colapso da tec- nologia. Sempre haver?í pessoas que preferir?úo ser cientistas a ser donos de seus destinos e que se submeter?úo alegremente ?á mais desprez?¡vel forma de escravid?úo (intelectual e institucional), con- tanto que se vejam bem pagas e que tenham em torno de si quem lhes examine o trabalho e lhes cante louvores. A Gr?®cia se desen- volveu e progrediu porque p??de contar com os servi?ºos de escra- vos, a essa condi?º?úo involuntariamente reduzidos. N??s nos desen- volveremos e progrediremos com o aux?¡lio de numerosos escra- vos volunt?írios, a trabalhar em universidades e laborat??rios e a nos proporcionar p?¡lulas, g?ís, eletricidade, bombas at??micas, refei?º?Áes congeladas e, ocasionalmente, uns poucos e interessantes contos de fadas. Trataremos bem esses escravos, chegaremos a dar-lhes ouvidos, pois, vez por outra, ter?úo relatos interessantes a fazer, mas n?úo lhes permitiremos impor a pr??pria ideologia a nossos fi- lhos, sob o disfarce de teorias `progressistas’ de educa?º?úo13. N?úo lhes permitiremos que ensinem as fantasias da ci?¬ncia como se fossem enunciados factuais de realidade. Talvez a separa?º?úo entre Estado e ci?¬ncia constitua a ??nica oportunidade que teremos de sobrepujar o barbarismo febril de nossa era t?®cnico-cient?¡fica, a- tingindo a humanidade que est?í a nosso alcance, mas que jamais concretizamos inteiramente14. Reexaminemos, para concluir, os argumentos que podem ser aduzidos em prol de tal procedimento.

mas – conserva a ci?¬ncia, em que v?¬ medida da verdade. Evans- Pritchard, L?®vi-Strauss e outros reconheceram que o `Pensamento Ocidental’, longe de ser um pico isolado no desenvolvimento da humanidade, ?® perturbado por problemas que n?úo est?úo presentes em outras ideologias ÔÇö mas excluem a ci?¬ncia da relativiza?º?úo das formas de pensamento. Para eles, a ci?¬ncia ?® uma estrutura neutra, encerrando conhecimento positivo, que ?® independente de cultura, ide- A raz?úo desse tratamento especial est?í, sem d??vida, em nosso pequeno conto de fadas: se a ci?¬ncia encontrou m?®todo que transforma concep?º?Áes ideologicamente contaminadas em teorias verdadeiras e ??teis, a ci?¬ncia n?úo ?® mera ideologia, por?®m medida objetiva de todas as ideologias. N?úo cabe, portanto, a exig?¬ncia de Contudo, o conto de fadas ?®, como vimos, falso. N?úo h?í m?®todo especial que assegure o ?¬xito ou o torne prov?ível. Os ci- entistas n?úo resolvem os problemas por possu?¡rem uma varinha de cond?úo ÔÇö a metodologia ou uma teoria da racionalidade ÔÇö mas porque estudaram o problema por longo tempo e conhecem bem a situa?º?úo, porque n?úo s?úo tolos (embora caiba duvidar disso hoje em dia, quando quase qualquer pessoa pode tomar-se um ci- entista) e porque os excessos de uma escola cient?¡fica s?úo quase (Al?®m disso, os cientistas s?? muito raramente resolvem os pro- blemas, cometem erros numerosos e oferecem, freq??entemente, solu?º?Áes impratic?íveis.) No fundo, pouqu?¡ssima diferen?ºa h?í entre o processo que leva ao an??ncio de uma nova lei cient?¡fica e o pro- cesso de promulga?º?úo de uma nova lei jur?¡dica: informa-se a todos os cidad?úos ou aos imediatamente envolvidos, faz-se a coleta de Sem embargo, enquanto uma democracia faz algum esfor?ºo para esclarecer o processo, de sorte que todos o entendam, a ci?¬ncia ou o esconde ou o distorce, para que ele se Amolde a seus sect?írios in- teresses.

ladas do m?®todo especial assume sua fun?º?úo decisiva. Oculta a liberdade de decis?úo que os cientistas criadores e o p??blico em geral t?¬m, mes- mo no que se refere ?ás mais s??lidas e avan?ºadas partes da ci?¬ncia, antepondo-lhes a repeti?º?úo dos crit?®rios `objetivos’ e assim prote- gendo os grandes nomes (os Pr?¬mio Nobel; os chefes de laborat??- rios de organiza?º?Áes como a Associa?º?úo M?®dica Americana, de os especialistas em campos n?úo-cient?¡ficos; os especialistas em ou- tros ramos da ci?¬ncia): s?? importam os cidad?úos que foram expos- tos ?ás press?Áes das institui?º?Áes cient?¡ficas (sofreram longo proces- so de educa?º?úo), que sucumbiram a essas press?Áes (foram aprova- dos no exame) e que est?úo, agora, firmemente convencidos da verdade do conto de fadas. Dessa maneira os cientistas se iludiram a si pr??prios e aos demais com respeito ?á tarefa a que se dedicam, sem, contudo, virem a sofrer qualquer real desvantagem: disp?Áem de mais dinheiro, mais autoridade e exercem maior atra?º?úo do que merecem ÔÇö e os mais est??pidos processos e mais ris?¡veis resulta- dos que alcan?ºam em sua esfera de atua?º?úo v?¬m rodeados de uma aura de excel?¬ncia. ?ë tempo de reduzi-los ?ás devidas propor?º?Áes e Essa advert?¬ncia, que apenas alguns dos contempor?óneos mais bem preparados t?¬m condi?º?Áes de aceitar, parece entrar em N?úo ?® certo que um m?®dico disponha de melhores recursos para diagnosticar e curar uma enfermidade do que um leigo ou o feiticeiro de uma sociedade primitiva? N?úo ?® certo que as epide- mias e as doen?ºas graves s?? desapareceram ap??s a implanta?º?úo da medicina moderna? N?úo temos de admitir que a tecnologia conse- guiu enormes avan?ºos ap??s o surgimento da ci?¬ncia moderna? E n?úo s?úo as viagens ?á Lua a prova mais impressionante e inconteste de sua excel?¬ncia? A?¡ est?úo algumas das quest?Áes lan?ºadas ao desa- fiador impudente que ousa criticar a especial posi?º?úo das ci?¬ncias.

din?ómica moderna n?úo poderiam ter progredido sem recorrer a Enquanto a astronomia se beneficiou do pitagorismo e do amor de Plat?úo pelos c?¡rculos, a medicina se beneficiou do uso de ervas, da psicologia, da metaf?¡sica, da fisiologia de feiticeiros, par- teiras, curandeiros, botic?írios errantes. Sabe-se muito bem que a medicina dos s?®culos XVI e XVII, embora teoricamente hipertro- fiada sentia-se in??til em face da doen?ºa (e assim permaneceu por longo tempo, ap??s a `revolu?º?úo cient?¡fica’). Inovadores como Pa- racelso voltaram a id?®ias primitivas e aprimoraram a medicina. Em todos os pontos, a ci?¬ncia se v?¬ enriquecida por m?®todos n?úo- cient?¡ficos e resultados n?úo-cient?¡ficos, enquanto processos fre- q??entemente vistos como partes essenciais da ci?¬ncia foram aban- O processo n?úo se restringe ?á hist??ria inicial da ci?¬ncia moderna. Est?í longe de ser simples conseq???¬ncia do primitivo est?ígio das ci?¬ncias, nos s?®culos XVI e XVII. Ainda hoje, a ci?¬n- cia pode tirar e tira vantagem da considera?º?úo de elementos n?úo- cient?¡ficos. Exemplo examinado acima, no cap?¡tulo IV, ?® a revi- vesc?¬ncia da medicina tradicional na China comunista. Quando os comunistas, na d?®cada de 1950, for?ºaram os hospitais e esco- las de medicina a transmitir as id?®ias e m?®todos registrados no Manual de Medicina interna do imperador Amarelo e a aplic?í-las no tratamento dos pacientes, muitos especialistas ocidentais (entre eles, Eccles, um dos `Cavaleiros de Popper’) se horrorizaram e predisseram a derrocada da medicina chinesa. Ocorreu exata- mente o oposto. A acupuntura, a moxa, o diagn??stico pelo pulso conduziram a novas percep?º?Áes, novos m?®todos de tratamento e colocaram novos problemas, tanto para o m?®dico ocidental quan- to para o chin?¬s. E os que n?úo apreciam ver o Estado imiscuir-se em quest?Áes cient?¡ficas devem lembrar-se do acentuado chauvi- nismo da ci?¬ncia: para a maioria dos dentistas, a frase `liberdade para a ci?¬ncia’ significa liberdade para doutrinar n?úo apenas os que resolveram acompanh?í-los, mas tamb?®m resto da sociedade.

ci?¬ncia aprimorada e impelida a novos caminhos por influ?¬ncias n?úo-cient?¡ficas! Cabe a n??s, cabe aos cidad?úos da sociedade livre aceitar o chauvinismo da ci?¬ncia sem contradit?í-la ou subjug?í-la pela for?ºa oposta da a?º?úo geral. A?º?úo geral foi utilizada contra a ci?¬ncia pelos comunistas chineses na d?®cada de 1950 e voltou a ser usada, em circunstancias muito diversas, por algumas pessoas que se opunham ?á teoria da evolu?º?úo, na Calif??rnia da d?®cada de 1970. Acompanhemos esses exemplos e livremos a sociedade do aperto estrangulador de uma ci?¬ncia ideologicamente petrificada, assim como nossos ancestrais nos livraram do aperto estrangula- O caminho que leva a tal objetivo ?® claro. Uma ci?¬ncia que insiste em ser a detentora do ??nico m?®todo correto e dos ??nicos resultados aceit?íveis ?® ideologia e deve ser separada do Estado e, especialmente, dos procesos de educa?º?úo. Cabe ensi- n?í-la, mas t?úo-somente ?áqueles que decidiram aderir a essa par- ticular supersti?º?úo. De outra parte, uma ci?¬ncia que renuncie a essas pretens?Áes totalit?írias deixa de ser independente e aut??- noma e poderia ser ensinada sob diferentes combina?º?Áes (mito e cosmologia moderna seria uma dessas combina?º?Áes). Est?í claro que todo empreendimento tem o direito de exigir que os a ele devotados se preparem de maneira especial e pode, inclu- sive, impor a aceita?º?úo de certa ideologia. (Eu, por exemplo, sou contra a descaracteriza?º?úo dos assuntos, que se v?úo tor- nando mais e mais semelhantes entre si; quem n?úo aprecie o catolicismo atual que o abandone e se torne protestante ou a- teu, em vez de arruin?í-lo com altera?º?Áes despidas de sentido, como a da missa na l?¡ngua nacional.) E isso ?® verdade em rela- ?º?úo ?á f?¡sica, tal como verdadeiro com respeito ?á religi?úo ou ?á prostitui?º?úo. Contudo, essas ideologias especiais, essas capaci- ta?º?Áes especiais n?úo encontram lugar no processo da educa?º?úo geral, que prepara o cidad?úo para desempenhar seu papel na so- ciedade. Um cidad?úo amadurecido n?úo ?® um homem que foi instru?¡do em uma especial ideologia ÔÇö como o puritanismo ou

o racionalismo cr?¡tico ÔÇö e que agora ?® portador dessa ideologia, como de um tumor mental; um cidad?úo amadurecido ?® uma pes- s?Áa que aprendeu a tomar decis?Áes e que decidiu em favor daquilo que mais lhe conv?®m. ?ë pessoa de alguma solidez espiritual (n?úo se apaixona pelo primeiro trovador ideol??gico que lhe cruze o cami- nho) e que, portanto, est?í apta a escolher conscientemente a tarefa que Preparando-se para essa escolha, a pessoa estudar?í as ideologias mais importantes em termos de fen??menos hist??ricos, estudar?í a ci?¬n- cia como fen??meno hist??rico e n?úo como o ??nico e sensato meio de enfrentar um problema. Estudar?í a ci?¬ncia a par de outros con- tos de fadas, tais como os mitos de sociedades `primitivas’, de sor- te a contar com as informa?º?Áes necess?írias para chegar a uma de- cis?úo livre. Parte b?ísica de uma educa?º?úo geral dessa esp?®cie s?úo conhecimentos dos principais propagandistas de todos os campos, de modo que o ne??fito possa desenvolver resist?¬ncia contra todas as formas de propaganda, incluindo a propaganda que se denomi- na `argumento’. Somente ap??s esse processo de endurecimento se- r?í ele chamado a pronunciar-se em face das quest?Áes racionalis- mo-irracionalismo, ci?¬ncia-mito, ci?¬ncia-religi?úo e outras quest?Áes semelhantes. A decis?úo que tome em prol da ci?¬ncia ÔÇö admitindo que a tome ÔÇö ser?í muito mais `racional’ do que ?®, hoje, qualquer decis?úo em favor da ci?¬ncia. Seja como for ÔÇö a ci?¬ncia e as esco- las estar?úo cuidadosamente separadas, como est?úo, hoje em dia, religi?úo e escolas. Os cientistas participar?úo, ?® claro, de decis?Áes governamentais, pois todos participam de tais decis?Áes. Mas n?úo lhes ser?í dada autoridade dominante. Ser?í o voto de todos os interessados que decidir?í as quest?Áes fundamentais, referentes, por exemplo, a m?®todos de ensino utilizados, ou ?á verdade de cren?ºas b?ísicas, tal como a relativa ?á teoria da evolu?º?úo ou ?á teoria qu?óntica ÔÇö o voto e n?úo a autoridade dos importantes que se ocultam por detr?ís de inexistente metodologia. N?úo h?í a temer que essa maneira de dispor a sociedade conduza a resul-

tados indesej?íveis. A pr??pria ci?¬ncia recorre ao m?®todo da discus- s?úo e do voto, embora sem claro dom?¡nio de seu mecanismo e uti- lizando-o de maneira fortemente tendenciosa. E a racionalidade de nossas cren?ºas se ver?í consideravelmente acentuada.

NOTAS 1. Cf. os excelentes estudos de caso levados a efeito por Evans- Pritchard, Griaule, Edith Hamilton, Jeremias, Frankfort, Thorkild Jacobsen e outros. Para um levantamento, cf. de Santillana von Dechend, Hamlet’s Mill, Boston, 1969 e meu Einf??hrung in die Naturphilosophie, Braunschweig, 1974. Trata-se de estudos de caso no sentido de Lakatos e observam os seus mais r?¡gidos crit?®rios. Por que, pois, ele e os racionalistas tan- Estou citando com base na reimpress?úo abreviada de Max Ver discuss?úo do que ele denomina `Closed and Open Predi- Esse ?® procedimento muito comum na feiti?ºaria afri- cana. Cf. Evans, Witchcraft, Oracles and Magic Among

the Azande, Oxford, 1937, pp. 230, 338; ver, tamb?®m, Social 2. Cf. as primeiras rea?º?Áes contra as vari?íveis ocultas em teoria qu?óntica, a atitude para com a astrologia, a telepatia, o vodu, Ehrenhaft, Velikovsky e assim por diante. Cf., tamb?®m, o in- teressante relato de Kostler, The Midwife Toad, Nova Iorque, 3. Isso foi acentuado por Kuhn; ver `The Function of Dogma in Scientific Research’, in A. C. Crombie (ed.) Scientific Change, Londres, 1973, pp. 69-347 e The Structure of Scientific Revolution, 5. Quanto ?ás defici?¬ncias da ci?¬ncia, em mat?®ria de humanita- rismo, cf. `Experts in a Free Society’, The Critic, novem- bro/dezembro, 1971, ou a aperfei?ºoada vers?úo alem?ú desse ensaio e de `Towards a Humanitarian Science’, na Parte II do vol. I de meu Augew?ñhlte Aufs?ñtaze, Vieweg, 1974.

Anarquismo: epistemol??gico, 43, 259, 269, 274, 279, 319, 345 pol?¡tico, 22, 23, 290-94 religioso, 290, 292 ver tamb?®m Dada?¡smo Antropologia, 68, 1 46n, 311, 407 da ci?¬ncia e cosmologia, 32,1n, 374, 429n ver tamb?®m Estudo de campo m?®todo antropol??gico e a incomensurabilidade, 397, 399, 400 Apar?¬ncia, 106, 199, 426n na cosmologia grega antiga, 387 realidade ou fal?ícia da, 105, 108 vs. realidade, 88 Apoio emp?¡rico, 49, 53, 241, 387, 408 ver tamb?®m Confirma?º?úo Aprendizado, 30, 71, 262, 275, 338, 359, 407, 408 Argumento: como obst?ículo ao progresso, 30, 299 como um m?®todo de doutrina?º?úo, 30, 305, 465 da observa?º?úo e das interpreta?º?Áes naturais, 109, 114, 128, 153 da torre, 101-138, 144, 230 ver tamb?®m sob Galileu e a metodologia dos programas de pesquisa cient?¡fica, 301, 305 e anarquismo epistemol??gico, 244, 292, 294, 299 e chauvinismo cient?¡fico, 341 e cosmologia, 357, 383 e incomensurabilidade, 115, 269, 351, 431n e os l??gicos, 321n, 387 valor limitado do, 31, 121, 237, 315 vs. emo?º?Áes, 449 Aristotelismo, 31 3t ci?¬ncia, 96n, 240, 284, 287, 310, 404 din?ómica e teoria do movimento, 143, 154, 246, 350 empirismo e m?®todo cient?¡fico e teoria do conhecimento e da per- cep?º?úo, 57n, 95n, 129, 177, 182, 191, 249n, 330n forma de vida, 256, 296 ju?¡zos b?ísicos de valor, 312 sistema filos??fico e cosmologia, 231-34, 238, 312, 410

teoria do espa?ºo, 350 vs. sistema copernicano, 101-252, 102, 129, 245, 314 Arte, 71, 247n, 375, 396, 399, 463 e ci?¬ncia, 71, 261 estilo arcaico, 356 Antropologia, 1 60n, 310, 329n Astronomia, 74n, 159n, 171-74, 232, 297, 314, 350 456, 460 e ci?¬ncia, 75n, 261 ver tamb?®m Copernicano, Sistema Idade Paleolitica e Idade da Pedra, 75n medieval, 39n, 330n na Babil??nia e no Egito, 328n, 428n na Gr?®cia Antiga, 74n, 328n, 428n ptolomaica, 136n, 171-74, 179, 245, 329n Atomismo, 70, 80, 135n, 317, 320n, 322n Autoridade, 44, 285, 305, 454, 465 Avalia?º?úo de teorias ver Metodologia como padr?Áes de aprecia?º?úo Axiom?ítica, 381

Corrobora?º?úo ver Confirma?º?úo Cortes?ús, 409 ver tamb?®m Prostitui?º?úo Cosmologia, 33, 90, 106, 133, 173, 234, 311, 328n, 347-440, 456, 464 altera?º?Áes da, 347-440 alternativa e contra-indu?º?úo, 42, 72n classifica?º?Áes impl?¡citas e incomensurabilidade, 350, 347-440, 411 e elimina?º?úo de programas de pesquisa em decad?¬ncia, 322n e linguagem, 349 e metodologia, 311, 322n, 449, 460 estudo antropol??gico da, 374 Cren?ºas, 21, 33, 80, 106, 316 b?ísicas, 451, 466 Cristianismo, 453 Cristologia, 299 Cr?¡tica, 42, 53, 90, 108, 236, 246, 259, 270, 289, 312, 355, 431n

D Dada?¡smo, 25n, 44n, 293, 294 ver tamb?®m Anarquismo Decis?Áes governamentais, 456, 465 ver tamb?®m Democracia Demarca?º?úo entre ci?¬ncia e n?úo-ci?¬ncia, 68, 306, 330n Democracia, 456, 463, 465 Descartes, Filosofia de, 330n, 402 Descoberta, 180, 230, 259, 270, 273, 288, 394, 402, 463 conceptual, 396 contexto da, 259 vs. contexto da justifica?º?úo, 258 de interpreta?º?Áes naturais, por meio da contra-indu?º?úo, 110-113 incomensurabilidade, 396 Desenvolvimento da cultura, 41, 279

desigual, lei do, 228, 248n, 299, 327n do indiv?¡duo, 46, 71, 274, 279, 291, 338 ver tamb?®m Educa?º?úo; Liberdade; Pluralismo Dinheiro, 301, 323n, 336 Dogmatismo, 53, 1 16n, 174, 264, 280n, 285, 384, 448, 452

E Educa?º?úo, 21, 22, 51, 71, 29i, 338, 382, 419n, 453, 459, 464 Einstein metodologia de, 92n, 93n, 330n teorias de, ver Relatividade Elabora?º?Áes secund?írias, 1 46n, 451 Emo?º?Áes, 238, 341, 462 Empirismo, 39t, 57, 62n, 116n, 130, 244, 354, 406 contempor?óneo, 44, 259-66 cr?¡tico, 271 de Arist??teles ver Aristotelismo exig?¬ncia em favor do aumento de conte??do emp?¡rico, 53, 318 ver tamb?®m Conte??do emp?¡rico das teorias l??gico, 278t, 408 ver tamb?®m Positivismo l??gico ver tamb?®m Experi?¬ncia Entidades teor?®ticas, 388, 392, 425n Enunciados b?ísicos, 86, 270, 306, 328n, 414n Epistemologia, 19, 29, 131, 232, 309, 318, 322n, 386, 416n anarquismo epistemol??gico ver Anarquismo dada?¡smo epistemol??gico ver Dada?¡smo ilus?úo epistemol??gica, 276, 317, 323, 325n ver tamb?®m Conte??do emp?¡rico das teorias preconceitos epistemol??gicos, 88 receitas epistemol??gicas, 22 ver tamb?®m Metodologia como regras de pr?ítica cient?¡fica oportunismo epistemol??gico ver Oportunismo Equiparti?º?úo, Princ?¡pio da, 83 Escolas filos??ficas, 274, 316 Especula?º?úo, 132, 154, 245, 451

Esp?¡rito/corpo, problema do, 115, 253-56, 294, 390 Espontaneidade, 290 Essencialismo, 427n Estado, 70, 290, 337, 448, 453, 457, 464 Estados mentais, 351, 391, 396 Estudo de campo da ci?¬ncia, 386, 452 e incomensurabilidade, 400, 408 ver tamb?®m Antropologia Evid?¬ncia, 33, 42 60n, 87n, 99n, 141, 178, 201, 223, 237, 241, 275, 354 manufaturada, 33, 153, 316 Evolu?º?úo, Teoria da, 40, 292, 464 Exames, 338 Existencialismo, 340 Expectativas, 271 ver tamb?®m Poper, dial?®tica de Experi?¬ncia, 39, 62n, 86, 127, 263, 388, 444 altera?º?Áes da (com o prop??sito de haver ajuste com teorias), 127, 136n, 154, 158, 190 em Arist??teles, 232 metaf?¡sica especulativa, 132, 155 Experimento, 53, 79, 94n, 132, 270, 312 crucial, 52, 409, 411 resultados experimentais, 39, 41, 49, 88, 287 Explica?º?Áes, 59n, 280, 288, 371, 410, 458 ver tamb?®m Hip??teses ad hoc

Fisicalismo, 317 Fisiologia, 69, 88, 159n, 182, 204n, 218n, 234, 246, 290, 357, 402 Formalismo, 44, 98n, 264 em est?®tica, 361 ver tamb?®m Arte, estilo arcaico formalistas, 385 sistemas formais, 287, 378 ver tamb?®m L??gica Formas de vida e de pensamento, 112, 255, 293, 297, 337, 378, 448, 454 ver tamb?®m Estudo de campo; Antropologia

G Galileu din?ómica e mec?ónica de, 47, 121-38, 142-46, 154, 156, 224, 245 e a Lua, 184,. 194-99 e o argumento da torre, 101-118, 125, 130, 144, 230 e revolu?º?úo copernicana, 79, 101-118 m?®todo de, 121, 127, 144-46, 156, 177, 244, 254 ??tica e telesc??pio, 154, 157-59, 180-88, 195, 200, 201, 223, 245 relatividade, 108, 114, 121, 143, 245, 255 Genesis, 40 Gram?ítica, 135n, 255, 357, 364, 397, 400, 405, 412n, 443

e racionalismo cr?¡tico, 270, 277 papel progressivo na ci?¬ncia, 30, 139-50, 238, 261, 278 presen?ºa na ci?¬ncia moderna, 60, 85 Hist??ria, 19-20 avalia?º?úo da hist??ria da ci?¬ncia, 287, 289, 299 background hist??rico da ci?¬ncia, 88, 229, 238, 315, 449 da arte, 357 da ci?¬ncia, 21, 33, 41, 74n, 246, 450 e filosofia da ci?¬ncia ver Filosofia da ci?¬ncia e incomensurabilidade, 269, 378, 384, 397, 399, 444 na educa?º?úo, 456, 464 econ??mica, social, pol?¡tica, 19, 248n, 327n interna/externa, 260, 316 movimentos retroativos da, 237, 396 programas de pesquisa hist??rica, 319, 322n refuta?º?Áes hist??ricas da metodologia, 29, 34, 89, 225, 244, ver tamb?®m Reconstru?º?Áes racionais Homo Oxoniensis, 416n Humanismo, 339 Humanitarismo, 17, 22, 57, 71, 72n, 291, 294

Indutivismo, 157, 247n, 272, 285, 289, 306, 313, 392 Instrumentalismo, 173, 298, 349, 375, 401, 406, 410 Instrumentos, 33, 114, 158, 232, 244, 323n, 349 ver tamb?®m Telesc??pio Interpreta?º?Áes naturais, 102t, 102-138, 255, 405 Intersubjetividade, 207n, 435n Intui?º?úo, 21, 264 Irracionalismo, 31, 43, 238, 259, 270, 398, 465

J Ju?¡zos b?ísicos de valor, 306t-3 15 Justifica?º?úo, contexto da, 258

K Kepler: e a Lua, 208n, 209n, 215n ess?¬ncia celestial, 185 leis de, teoria de Newton, 31, 308 ??tica e telesc??pio, 158, 179, 200, 223 poliopia, 204n, 209n

e racionalismo cr?¡tico, 274 e raz?úo, 279 e sistema copernicano, 238 liberta?º?úo da ci?¬ncia e dos sistemas de pensamento, 274, 395, 412, 464 Libertinos, 341 Linguagem, 34, 88, 107, 127, 234, 243, 349, 381, 388, 430n, 441-446 filosofia da, 238, 444 Listas (como forma de conhecimento), 390, 397, 428n L??gica, 21, 230, 243, 260, 286-88, 349, 354, 376, 397, 407, 414n, 444, 458 indutiva, 321n Lysenko, o caso, 70, 337

e pressupostos cosmol??gicos, 322n intui?º?úo, 264 m?®todo hist??rico de Lakatos, para avalia?º?úo de padr?Áes, 287, 306-313, 318 padr?Áes anarquistas, 290-300 ver tamb?®m Anarquismo; Confirma?º?úo unidade de aprecia?º?úo, 51, 288 Metodologia como regras de pr?ítica cient?¡fica: aprecia?º?úo da, 311, 318, 450 da contra-indu?º?úo ver Contra-indu?º?úo do empirismo ver Empirismo do falsificacionismo ver Falsiflcacionismo do indutivismo ver Indutivismo do m?®todo cient?¡fico ??nico ver M?®todo cient?¡fico do racionalismo cr?¡tico, 267-282 e a metodologia dos programas de pesquisa, 288, 323n e contra-regras, 39 e hist??ria da ci?¬ncia, 19-21, 259, 316, 320n e oportunismo ver Oportunismo e pol?¡tica ver Pol?¡tica e pr?ítica anarquista, 290-306 ver tamb?®m Anarquismo e pressupostos cosmol??gicos, 311, 449, 460 e raz?úo, 285 e regras democr?íticas ver Democracia e resolu?º?úo cient?¡fica de problemas, 457 e teoria da racionalidade ver Racionalismo imposi?º?úo, 303 para a elimina?º?úo de teorias e de programas de pesquisa, 261, 286, 288, 289 perniciosa e prejudicial para a ci?¬ncia, 449 princ?¡pio da prolifera?º?úo ver Prolifera?º?úo suas limita?º?Áes, 43 sua viola?º?úo e o progresso cient?¡fico, 29 tudo vale, princ?¡pio do, 27-34 vs. pr?ítica cient?¡fica, 21, 87, 226, 244, 259, 278, 286 Metodologia dos programas de pesquisa cient?¡fica ver Programas de pesquisa Michelson-Morley, experimento de, 409

Mito, 40, 268, 284, 339, 379, 399, 408, 427n comparado com a ci?¬ncia, 50, 74n, 279, 287, 300, 329n, 348, 370, 448-57, 464 Moralidade, 31, 280, 290, 371, 428n Movimento browniano, 51, 60n

N Neg??cios ver Ci?¬ncia, moderna e neg??cios Newton m?®todo e teorias de, 81, 306, 330n, 350, 354, 398, 404 Novos fatos ver Fatos Nuer, 376

O Objetividade, 21, 34, 57, 71, 89, 192, 235, 285, 294, 300, 457 ver tamb?®m Intersubjetividade Objetos f?¡sicos, 89, 351, 390, 397, 402 Observa?º?úo: argumento da, 109, 153 e contra-indu?º?úo, 41, 91 e feiti?ºaria, 50 e Galileu, 131-32, 155, 203n ver tamb?®m Galileu, e a Lua, ??tica e telesc??pio e incomensurabilidade, 355, 382, 396, 402, 405 e interpreta?º?Áes naturais, 101-118 ver tamb?®m Interpreta?º?Áes naturais enunciados de, 51, 90, 106, 111, 114, 405 n??cleo sensorial dos, 111, 154, 255 produ?º?úo dos, 109 intersubletiva, 207n leis de, 48 linguagem de, 88, 106, 114, 120, 127, 381, 401, 406 natureza hist??rica da, 229 pelo telesc??pio ver Telesc??pio realidade ou fal?ícia da, 105

seu papel na ci?¬ncia, 33, 229, 241, 270, 275, 298, 312, 385 teorias acerca da, 41, 232 termos observacionais e teorias, 51, 88, 90, 110, 259, 262, 405 terrestre vs. celeste, 183, 192 Percep?º?úo; Fisiologia; Impress?Áes sensori ais Odiss?®ia, 366 Ontologia, 115, 276, 361, 374, 402, 408, 422n Oportunismo, 274, 291 de Finstein, 94n, 330n epistemol??gico, 19, 116n, 278

P Padr?Áes: da a?º?úo racional, 34346 de cr?¡tica, 42 Metodologia como padr?Áes de aprecia?º?úo e educa?º?úo geral, 338 e liberdade, 22 Paix?úo, 32, 279, 294 Paz social, 295 Pensamento primitivo, 98n, 400 Percep?º?úo, 42, 88, 106, 182-87, 189-220, 231, 291, 312, 363, 374, 422n Fisiologia; Impress?Áes sensoriais Perspectiva, 372, 374, 389, 394, 396, 416n Pesquisa, 21, 32, 83, 130, 154, 205n, 218, 261, 278, 323n, 386, 423n, 452 antropologia na ci?¬ncia, 374, 397 Pluralismo, 40, 67, 70, 268, 308, 452 ver tamb?®m Prolifera?º?úo Pol?¡tica, 19, 32, 66, 70, 161n, 248n, 274, 290, 337, 455, 458 Polui?º?úo intelectual, 337

Popper: dial?®tica de, 32, 269, 401 terceiro mundo de, 244, 317, 412 Popperismo, 72n, 93n, 141, 174, 267-82, 330n, 401, 403, 415n, 452 P??r em causa, 44n ver tamb?®m Conflitos Positivismo, 160n, 269, 274, 403 l??gico, 72n, 177, 278, 407, 408 Possess?úo demon?¡aca, 50, 160n, 403 ver tamb?®m Vodu; Feiti?ºaria Pr?ítica cientifica ver Metodologia como regras de pr?ítica cient?¡fica Preconceito, 42, 67, 88, 107, 165n, 238, 279, 314, 286, 455, 457 Pressupostos, 41, 247n a priori, 107 Previs?úo: e o objetivo do cientista, 41 sem acuidade num?®rica, 79 Programas de pesquisa, Metodologia dos, 281n, 283-346, 330n Progresso: conceptual, 410 hist??rico, 248n Progresso cient?¡fico: aux?¡lios, m?®todos e fontes, 29, 34, 39, 49, fl4, 247n, 315, 410, 460 e anarquismo, 34, 279 condi?º?Áes pr?®vias para, 240, 261, 279, 288, 325n, 381, 386, 396 crit?®rios e defini?º?Áes, 79, 240, 321n, 403 facilidades e obst?ículos, 30, 44, 110, 259, 276, 279, 286, 386, 458 Prolifera?º?úo, Princ?¡pio da, 44n, 73n ver tamb?®m Pluralismo Programa, 31, 121, 129, 154, 165n, 174, 238, 242, 297, 305, 309, 314, 341, 458, 465 Prostitui?º?úo, 30, 338, 464 Protestantismo, 62n Prova ou demonstra?º?úo, 260

Psican?ílise, 231, 422n Psicologia, 110, 121, 160n, 183, 198, 205n, 259, 301, 316, 321n, 327n, 357, 384, 391, 402 das massas, 304, 317 Ptolomaica, astronomia ver Astronomia Puritanismo, 25n, 63n, 72n, 341

R Racionalismo, 31, 43, 72n, 76n, 116n, 121, 232, 259, 267-82, 285, 294, 300, 319, 329n, 391, 412, 431n, 465 cr?¡tico, 250n, 267-82, 286, 465 teoria da racionalidade, 31, 33, 259, 269, 278, 290, 300, 317, 319 343-46, 457 Raz?úo, 22, 33, 44, 80, 108, 228, 239, 268, 279, 290, 293, 340, 427n Rea?º?úo do tabu, 451 Realidade ver Apar?¬ncia Realismo, 109, 128, 231, 234, 357, 374, 401, 403, 406, 409, 419n Reconstru?º?Áes, 379 antropol??gicas, 374 l??gicas, 376, 382, 391, 435n racionais, 73n, 250n, 260, 306, 308, 313 Redu?º?úo, 53, 411 Regras: e dial?®tica, 34 ling???¡sticas, 376, 382 socialmente restritivas, 395 ver tamb?®m Anarquismo; Lei e ordem; Metodologia como regras de pr?ítica cient?¡fica Relatividade: especial, 80, 84, 281n, 307, 354, 376, 402, 409 geral, 80, 281n, 398, 434n lingu?¡stica, princ?¡pio da, 443 teoria da, 87, 250n, 278, 350, 363, 407, 427n ver tamb?®m Galileu Religi?úo, 21, 90, 284, 299, 329n, 337, 370, 448, 453, 455, 464

R?®plicas aos cr?¡ticos, 44n, 169-74, 250n, 33-42, 430n Ret??rica, 43, 203n, 290, 309, 384 Senso comum: ci?¬ncia e mito, 451 ver tamb?®m Interpreta?º?Áes naturais conservadorismo e a metodologia dos programas de pesquisa cient?¡fica, 304, 309, 328n e incomensurabilidade, 382, 399, 407 e materialismo, 256 e sistema copernicano, 124, 129, 153, 245

S Sensa?º?Áes e impress?Áes sensoriais, 41, 88, 104, 129, 152, 234, 263, 395, 412n ver tamb?®m Interpreta?º?Áes naturais Sentidos, 41, 88, 107, 114, 129, 199, 232, 372, 427n ver tamb?®m Interpreta?º?Áes naturais Significado, 355, 377, 381, 405, 407, 432n Simplicidade, 35n, 179 Simultaneidade, 350 Sistemas de refer?¬ncia, 90, 347-440, 358, 391, 396, 404 ver tamb?®m Cosmologia; Conceitos; Incomensurabilidade Sociologia, 259, 301, 321n, 322n, 327n Sof?¡stica, 40, 104 Status quo, 31, 51, 66, 99n, 236, 293, 298, 315

cin?®tica, 51, 52, 61n, 231 de Arist??teles, 171 dos modelos, 379, 451 e fato, 33, 79, 80, 86, 225, 231, 277 Termodin?ómica, 47, 51 Termo teor?®tico, 262, 406 Testes, 34, 50, 114, 145, 190, 196, 236, 260, 355, 377, 409, 450 Totalitarismo conceptual, 388 Tradu?º?úo, 398408 radical, 444 Transfer?¬ncia l??gica, Princ?¡pio da (devido a Popper), 384 Tudo vale, Princ?¡pio do, 34, 44n, 290, 302

U Uniformidade, 21, 45, 52, 336 Universidades, 44, 341 V Vari?ív?®is ocultas, 231, 329n Verdade, 34, 44, 121, 165n, 264, 269, 280, 323n, 355, 388 Verossimilitude, 412 Vodu, 68, 69, 409, 462

Este livro foi composto na COMPOSITORA HELV?ëTICA LTDA., Rua Correia Vasques, 25, RI e impresso nas oficinas gr?íficas da EDITORA VOZES LTDA., ?á Rua Frei Lu?¡s, 100, Petr??polis.

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