alfa 2006

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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA Reitor Marcos Macari Vice-Reitor Herman Jacobus Cornelis Voorwald Pró-Reitor de Pesquisa José Arana Varela

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA alfa Revista de lingüística Homenagem a Maria Tereza de Camargo Biderman

Alfa: Revista de Lingüística UNESP – Universidade Estadual Paulista – Campus de São José do Rio Preto Departamento de Estudos Lingüísticos e Literários Rua Cristóvão Colombo, 2265 – Jardim Nazareth 15054-000 – São José do Rio Preto – SP cristina@ibilce.unesp.br Comissão Editorial Arnaldo Cortina Marco Antônio Domingues Sant’Anna Marize Mattos Dall’Aglio Hattnher Sandra Aparecida Ferreira Sebastião Carlos Leite Gonçalves Sílvia Dinucci Fernandes Editora responsável Cristina Carneiro Rodrigues Organizadoras Ieda Maria Alves e Gladis Maria de Barcellos Almeida Capa Adriana Bessa Dammann Revisão dos Abstracts Álvaro Luiz Hattnher Assessoria Técnica Maria do Carmo Junqueira Conselho Editorial Alceu Dias Lima (UNESP), Ângela Cecília Souza Rodrigues (USP), Arnaldo Cortina (UNESP), Ataliba Teixeira de Castilho (USP), Beatriz Nunes de Oliveira Longo (UNESP), Bento Carlos Dias da Silva (UNESP), Christian Hudelot (LEAPLE-CNRS), Cláudia Maria Xatara (UNESP), Clélia Cândida Abreu Spinardi Jubran (UNESP), Cristina Carneiro Rodrigues (UNESP), Daniel Leonard Everett (University of Manchester), Diana Luz Pessoa de Barros (USP), Esmeralda Vailati Negrão (USP), Ester Miriam Scarpa (UNICAMP), Francisco da Silva Borba(UNESP), Helena Hatsue Nagamine Brandão (USP), Hildo Honório do Couto (UnB), Ieda Maria Alves (USP), Ingedore G. V. Koch (UNICAMP), Jacques Fontanille (Université de Limoges), Jacyntho Luís Brandão (UFMG), João Azenha Júnior (USP), João Moraes (UFRJ), João Wanderlei Geraldi (UNICAMP), John Robert Schmitz (UNICAMP), José Luiz Fiorin (USP), Kanavillil Rajagopalan (UNICAMP), Laurent Danon-Boileau (Université René Descartes), Leda Bisol (PUC-RS), Leonor Scliar Cabral (UFSC), Luís Antônio Marcuschi (UFPE), Luís Carlos Travaglia (UFU), Maria Aparecida Caltabiano M. B. Silva (PUC-SP), Maria Augusta Bastos de Mattos (UNICAMP), Maria Bernadete M. Abaurre (UNICAMP), Maria Celeste Consolin Dezotti (UNESP), Maria do Rosário F.V. Gregolin (UNESP), Maria Helena de Moura Neves (UNESP), Maria Helena Vieira Abrahão (UNESP), Maria Luiza Braga (UFRJ), Maria Marta Pereira Scherre (UnB), Maria Tereza de Camargo Biderman (UNESP), Marilda Couto Cavalcanti (UNICAMP), Mary Aizawa Kato (UNICAMP), Rafael Eugenio Hoyos-Andrade (UNESP), Renata Coelho Marchezan (UNESP), Roberto Gomes Camacho (UNESP), Rodolfo Ilari (UNICAMP), Rosemary Arrojo (State Univesity of New York), Silvana Mabel Serrani Infante (UNICAMP), Sírio Possenti (UNICAMP), Vera Lúcia Paredes Pereira da Silva (UFRJ), Zélia de Almeida Cardoso (USP).

Publicação semestral/Bi-annual publication Alfa: Revista de Lingüística / UNESP – Universidade Estadual Paulista – v.1 (1962) – v.23 (1977); v.24 (1980) – São Paulo, UNESP, 1962-1977; 1980 – Semestral Publicação suspensa de 1978-1979 ISSN 0002-5216 (Impressa) Os artigos publicados na Alfa: Revista de Lingüística são indexados por: The articles published in Alfa: Revista de Lingüística are indexed by: LLBA – Linguistics and Language Behavior Abstracts; MLA International Bibliography; Bancos de Dados DARE – Unesco; Bibliographie Latinoamericaine D’Articles — Institute des Hautes Études D’Amerique Latine; BLL – Bibliography of Linguistic Literature; BLLDB – Bibliography of Linguistic Data Base; Clase-Cich-Unam – Citas Latinoamericanas en Ciencias Sociales y Humanidades; Francis Data Base.

aPRESENTaÇÃO Este número da revista Alfa, que contempla a área do Léxico, homenageia a trajetória acadêmica da Profa. Maria Tereza de Camargo Biderman, que, neste ano de 2006, completou setenta anos – a maior parte deles dedicada aos estudos Os trabalhos aqui reunidos foram escritos por ex-orientandos e por colegas de diferentes instituições, brasileiras e estrangeiras, com os quais a mestra Maria Tereza tem mantido estreitas relações pro?ssionais e também, em Versando sobre diferentes perspectivas do Léxico, esses trabalhos estudam a palavra em distintas dimensões: na dimensão lexicológica, em que a palavra é enfocada em seus aspectos formais e semânticos, sincrônica ou diacronicamente; na dimensão lexicográ?ca, em que as palavras, obedecendo a diferentes formas de organização, são reunidas nos dicionários; na dimensão terminológica, em que se estuda a palavra especializada, o termo, como também sua inserção em Essas diferentes perspectivas do trabalho lexical estão presentes no trabalho acadêmico da Profa. Maria Tereza de Camargo Biderman, quer sob a forma de produção bibliográ?ca quer como docente, desde 1977, junto ao Curso de Pós-Graduação em Lingüística e Língua Portuguesa, Faculdade de Ciências Iniciou suas atividades didáticas em 1965, na Faculdade de Filoso?a, Ciências e Letras de Marília, na época um dos institutos isolados que, em 1977, passaram a formar a UNESP (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho). A partir desse ano, a Profa. Biderman começou a exercer suas atividades no campus de A produção acadêmica de nossa homenageada, pesquisadora de nível IA do CNPq, apresenta um número grande de artigos publicados em periódicos e de capítulos de livros, de comunicações apresentadas em congressos nacionais e internacionais. Destacamos, dentre sua produção, a organização de dois números da revista Alfa dedicados ao Léxico: n. 28 supl., em 1984, e n. 42, em 1998; a obra teórica Teoria Lingüística: Teoria Lexical e Lingüística Computacional,

publicada em 1978 e em segunda edição em 2001 (Editora Martins Fontes); e sua signi?cativa produção dicionarística, iniciada, em 1992, com a publicação do Dicionário Contemporâneo de Português (Editora Vozes). Desde então, publicou vários dicionários destinados ao público escolar – Dicionário Didático de Português (Ática, 1998); Dicionário do Estudante (Editora Globo, 2005); Dicionário Ilustrado de Português (Editora Ática, 2005); Meu primeiro livro de palavras – um dicionário ilustrado do português de A a Z, em co-autoria (Ática, 2005) – e um dicionário terminológico: Dicionário de Termos Financeiros e Bancários (Disal Coordena, no momento, o projeto Institutos do Milênio do CNPq Dicionário Histórico do Português do Brasil (sécs. XVI, XVII e XVIII), de que participam pesquisadores e pós-graduandos de dez universidades brasileiras e de A trajetória acadêmica da Profa. Maria Tereza de Camargo Biderman, assim como sua contribuição aos estudos do léxico e suas qualidades pessoais justi?cam esta homenagem que, apoiada pela Comissão Editorial da revista Alfa, lhe prestam alguns daqueles que com ela têm vivenciado felizes e proveitosos momentos acadêmicos.

Aparecida Negri Isquerdo ………………………………………………………………………………….9

Claudia Zavaglia ………………………………………………………………………………………………25

Maria José Bocorny Finatto………………………………………………………………………………43

Clotilde de Almeida Azevedo Murakawa …………………………………………………………..55

Dieter Messner ………………………………………………………………………………………………..69

Gladis Maria de Barcellos Almeida ……………………………………………………………………85

Graça Rio-Torto ……………………………………………………………………………………………..103

Ieda Maria Alves ……………………………………………………………………………………………131

Claudia Maria Xatara ……………………………………………………………………………………..145

Margarita Correia …………………………………………………………………………………………..155

Rosinalda Pereira Batista ………………………………………………………………………………..173

Maria Fernanda Bacelar do Nascimento ………………………………………………………….189

Maria Filomena Gonçalves ……………………………………………………………………………..205

Maria Teresa Cabré Castellví ………………………………………………………………………….229

Marilei Amadeu Sabino…………………………………………………………………………………..251

Daniela de Faria Prado ……………………………………………………………………………………265

ÍNDICE DE ASSUNTOS……………………………………………………………………………………………277

SUBJECT INDEX …………………………………………………………………………………………………….279

ÍNDICE DE AUTORES / AUTHOR INDEX ………………………………………………………………..281

APRESENTAÇÃO Este número da revista Alfa, que contempla a área do Léxico, homenageia a trajetória acadêmica da Profa. Maria Tereza de Camargo Biderman, que, neste ano de 2006, completou setenta anos – a maior parte deles dedicada aos estudos Os trabalhos aqui reunidos foram escritos por ex-orientandos e por colegas de diferentes instituições, brasileiras e estrangeiras, com os quais a mestra Maria Tereza tem mantido estreitas relações profissionais e também, em decorrência, Versando sobre diferentes perspectivas do Léxico, esses trabalhos estudam a palavra em distintas dimensões: na dimensão lexicológica, em que a palavra é enfocada em seus aspectos formais e semânticos, sincrônica ou diacronicamente; na dimensão lexicográfica, em que as palavras, obedecendo a diferentes formas de organização, são reunidas nos dicionários; na dimensão terminológica, em que se estuda a palavra especializada, o termo, como também Essas diferentes perspectivas do trabalho lexical estão presentes no trabalho acadêmico da Profa. Maria Tereza de Camargo Biderman, quer sob a forma de produção bibliográfica quer como docente, desde 1977, junto ao Curso de Pós-Graduação em Lingüística e Língua Portuguesa, Faculdade de Ciências Iniciou suas atividades didáticas em 1965, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília, na época um dos institutos isolados que, em 1977, passaram a formar a UNESP (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho). A partir desse ano, a Profa. Biderman começou a exercer suas atividades no campus A produção acadêmica de nossa homenageada, pesquisadora de nível IA do CNPq, apresenta um número grande de artigos publicados em periódicos e de capítulos de livros, de comunicações apresentadas em congressos nacionais e internacionais. Destacamos, dentre sua produção, a organização de dois números da revista Alfa dedicados ao Léxico: n. 28 supl., em 1984, e n. 42, em

Computacional, publicada em 1978 e em segunda edição em 2001 (Editora Martins Fontes); e sua significativa produção dicionarística, iniciada, em 1992, com a publicação do Dicionário Contemporâneo de Português (Editora Vozes). Desde então, publicou vários dicionários destinados ao público escolar – Dicionário Didático de Português (Ática, 1998); Dicionário do Estudante (Editora Globo, 2005); Dicionário Ilustrado de Português (Editora Ática, 2005); Meu primeiro livro de palavras – um dicionário ilustrado do português de A a Z, em co-autoria (Ática, 2005) – e um dicionário terminológico: Dicionário de Termos Coordena, no momento, o projeto Institutos do Milênio do CNPq Dicionário Histórico do Português do Brasil (sécs. XVI, XVII e XVIII), de que participam pesquisadores e pós-graduandos de dez universidades brasileiras e de Portugal. A trajetória acadêmica da Profa. Maria Tereza de Camargo Biderman, assim como sua contribuição aos estudos do léxico e suas qualidades pessoais justificam esta homenagem que, apoiada pela Comissão Editorial da revista Alfa, lhe prestam alguns daqueles que com ela têm vivenciado felizes e proveitosos momentos acadêmicos.

Aparecida Negri Isquerdo ……………………………………………………………………………….. 9

Claudia Zavaglia …………………………………………………………………………………………… 25

Maria José Bocorny Finatto …………………………………………………………………………… 43

Clotilde de Almeida Azevedo Murakawa ……………………………………………………….. 55

Dieter Messner ……………………………………………………………………………………………… 69

Gladis Maria de Barcellos Almeida ………………………………………………………………… 85

Graça Rio-Torto …………………………………………………………………………………………… 103

Ieda Maria Alves ………………………………………………………………………………………….. 131

Claudia Maria Xatara …………………………………………………………………………………… 145

Margarita Correia ………………………………………………………………………………………… 155

Rosinalda Pereira Batista …………………………………………………………………………….. 173

Maria Fernanda Bacelar do Nascimento ………………………………………………………. 189

Maria Filomena Gonçalves ………………………………………………………………………….. 205

Maria Teresa Cabré Castellví ……………………………………………………………………….. 229

Marilei Amadeu Sabino ……………………………………………………………………………….. 251

Daniela de Faria Prado …………………………………………………………………………………. 265

ÍNDICE DE ASSUNTOS …………………………………………………………………………………………. 277

SUBJECT INDEX ………………………………………………………………………………………………….. 279

ÍNDICE DE AUTORES / AUTHOR INDEX ……………………………………………………………… 281

ACHEGAS PARA A DISCUSSÃO DO CONCEITO DE REGIONALISMOS NO PORTUGUÊS DO BRASIL

Aparecida Negri ISQUERDO1  RESUMO: Este trabalho discute a questão dos regionalismos no português do Brasil, associando a questão da norma lexical a fatores de natureza sócio-histórica – formação étnica do povo brasileiro, processos de ocupação e povoamento do território, contatos lingüísticos, atividades econômicas – e a características ambientais que individualizam as diferentes regiões do Brasil. Examina ainda critérios para a definição dos regionalismos, com destaque para os apontados por Oliveira (1999), e analisa um recorte de regionalismos que integram o acervo lexical da língua portuguesa do Brasil com base nesses critérios.  PALAVRAS-CHAVE: Léxico; norma lexical; regionalismo; variação diatópica; português; Brasil.

Introdução Tomar uma decisão acerca do tema a ser abordado neste trabalho foi particularmente difícil, justamente por tratar-se de uma publicação em homenagem à Profa. Maria Tereza Biderman. Explico-me: além de ter sido ela a Mestra que me forneceu as primeiras diretrizes para os estudos sobre o léxico e que me acompanhou durante a formação acadêmica, no âmbito da pós- graduação stricto sensu, trata-se de uma pessoa muito especial do ponto de vista humano, de quem continuo aprendendo inúmeras lições de vida. Assim, partindo das lições aprendidas com a Mestra, enriquecidas com a experiência individual acumulada durante o meu caminhar acadêmico (pesquisas individuais e orientação de trabalhos sobre o léxico), proponho aqui uma reflexão acerca da A despeito de tratar-se de um tema de certa forma abordado, desde o século XIX, quando começaram a surgir estudos pontuais sobre o léxico do português do Brasil (ISQUERDO, 2006a, p.11-29), a questão da norma lexical regional 1 UEL – Centro de Letras e Ciências Humanas – Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas – 86010-610 – Londrina – PR – Brasil. Bolsista PV/CNPq. Endereço eletrônico: anegri.isquerdo@terra.com.br

continua a representar um desafio para os estudiosos da área. Fato esse justificável pela própria diversidade lexical que caracteriza a variante brasileira da língua portuguesa, diversidade essa decorrente da história social que individualiza as diferentes regiões do Brasil em termos de processos de ocupação e de povoamento, de formação étnica da população e de características sócio- ambientais que singularizam os diferentes espaços geográficos. Em face disso, entendo que a discussão acerca das particularidades lexicais do português do Brasil não pode ser dissociada de questões de natureza histórica sobre a formação do povo brasileiro.

Contextualização histórica e a questão lingüística Na busca de uma associação entre vocabulário regional e história social, recupero inicialmente três classificações de regiões culturais do Brasil, estabelecidas por estudiosos brasileiros, em diferentes momentos da história do País – João Ribeiro (1954),2 Diégues Júnior (1960) e Darcy Ribeiro (1997) –, os quais oferecem uma visão do processo de gestação da sociedade brasileira que, João Ribeiro (1954, p.257), ao tratar da história da formação do Brasil, pondera que, apesar das numerosas divisões administrativas do Brasil e do fato de a língua e a tradição portuguesa de certa forma garantirem a unidade nacional, a enorme extensão geográfica e a história das antigas capitanias confirmam a existência de grandes grupos locais distribuídos por todo o território brasileiro. Nessa perspectiva, o mesmo estudioso compara a formação do Brasil a um vastíssimo arquipélago de ilhas humanas que só acham contacto pelo caminho do mar. O sertão, as florestas, até alguns rios inavegáveis e principalmente o defeito de escassa colonização, repartem o território em grupos distantes e quase incomunicáveis desde a época colonial. (RIBEIRO, 1954, p.257) Cuesta e Luz (1971, p.130), recuperando essa metáfora, asseveram que nessas ilhas humanas foram se constituindo as cidades, centros irradiadores com papel importante do ponto de vista lingüístico, visto que “em ondas de acção lenta, mas eficiente, a língua culta vai-se propagando desde as cidades até aos campos dos arredores, graças ao prestígio que o homem da cidade exerce sobre o camponês”.

2 Segundo o Prefácio da 14ª edição, a obra História do Brasil, de João Ribeiro, foi publicada em 1900. Para este trabalho, consultamos a edição de 1954.

João Ribeiro (1954) estabelece cinco células fundamentais que, sob sua óptica, pelo processo de multiplicação, deram origem à textura do Brasil. São esses os cinco grupos locais propostos: 1) o Extremo Norte (a Amazônia, o Maranhão, Piauí e Ceará); 2) o Norte (Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte); 3) o Centro (Sergipe, Baía, Ilhéus e Porto Seguro); 4) o Interior (São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso); 5) o Sul (Espírito Santo, Rio de Janeiro, Diégues Júnior (1960), por seu turno, tomando como referência os diferentes processos de colonização e de povoamento ocorridos na história do Brasil, as atividades econômicas que se destacaram nas várias regiões brasileiras em diferentes momentos da sua história, estabelece dez regiões culturais para o Brasil: nordeste agrário do litoral, mediterrâneo pastoril, Amazônia, mineração, centro-oeste, extremo-sul pastoril, colonização estrangeira, café, cacau e sal. Já Darcy Ribeiro (1997), trazendo a visão do antropólogo acerca da formação do perfil do povo brasileiro (matrizes étnicas, processos civilizatórios), delimita cinco áreas culturais que representam os diferentes “brasis na história”, a que correspondem cinco tipos humanos identificadores dessas áreas, com marcas distintas que refletem características étnicas, atividades econômicas e modos de ser singulares, no âmbito da sociedade brasileira: o Brasil crioulo, o Brasil Essas três tipologias de classificação de áreas culturais do Brasil, sob perspectivas distintas, procuram traçar um perfil da formação do povo brasileiro, atrelado a condicionantes históricos que interferiram e, de certa forma, determinaram o perfil do homem e da sociedade brasileira. Desde a formação agrária no Nordeste açucareiro, com a marcante presença das etnias indígena e africana, a expansão da atividade pastoril do Nordeste até o Centro-Oeste e as atividades extrativistas na Amazônia; a mineração que gerou a iniciativa das bandeiras e o movimento bandeirante responsável pela ocupação do interior do Brasil que, motivado pela saga dos mamelucos paulistas em busca de pedras preciosas e de ouro e de caça aos índios, gerou a ocupação de Mato Grosso, as minas goianas, os arraiais; a colonização do extremo-sul do Brasil, marcada pela disputa de territórios, pela ação das missões jesuíticas, pela ocupação do litoral por açorianos e a chegada de levas de migrantes europeus que marcaram a colonização da região, além da figura do gaúcho e do papel das estâncias na sociedade sulista. Não podem, pois, esses fatores de natureza etno-histórica serem desconsiderados, ao se focalizar a questão dos regionalismos no português do Brasil. Acrescem-se ainda as particularidades físico-geográficas que identificam as várias regiões brasileiras em termos de características geomorfológicas, de clima, de flora e fauna, que geram hábitos culturais distintos que, por sua vez, exigem formas específicas de nomeação.

As áreas culturais apontadas individualizam-se, pois, por marcas étnicas, histórico-geográficas e lingüísticas, o que permite, por exemplo, o delinear de áreas dialetais que evidenciam características dos diferentes falares que Não é demais lembrar a situação de contato da língua portuguesa com as línguas indígenas e africanas, no Brasil colonial, fator determinante para a configuração da variante aquém-mar do idioma transplantado. Nesse particular, Silva Neto (1986, p.595), por exemplo, pondera que “na constituição do português brasileiro há desde o século XVI duas derivas:3 a) uma deriva bastante conservadora, que se desenvolve, portanto, muito lentamente, e b) uma deriva a que condições sociais próprias imprimem velocidade inesperada”. No entender do filólogo, no primeiro caso temos o falar de uma população proveniente de vários pontos de Portugal que, posta em contacto num meio tão diverso, elaborou um denominador comum que não participava das mudanças operadas na metrópole e que, por isso mesmo, era muito conservador. No segundo, pelo contrário, temos o falar das grandes massas que tiveram de aprender a língua dos senhores de modo imperfeito e muito rapidamente. (SILVA NETO, 1986, p.595) Assim, no transcorrer dos primeiros séculos da colonização, nos diferentes núcleos populacionais, surgia uma variante lingüística que permitia a comunicação entre índios, negros e mestiços que tinham que aprender a falar a língua da minoria branca por uma questão de sobrevivência. Em face disso, na colônia falava-se um “português de tipo arcaizante e nivelado de dialectalismos que, modificados por hábitos lingüísticos de índios e negros, se substituiu a idiomas pré-colombianos e africanos menos ricos e desenvolvidos” (CUESTA; Nos séculos XVI e XVII, foram intensos o convívio e a miscigenação luso- tupi, o que explica a rápida difusão da língua geral nas áreas urbanas e rurais. É sabido que dentre as línguas faladas no Brasil nos primeiros anos da colonização, destaca-se o Tupi, a língua que se transformou em língua veicular e que favorecia a aproximação, em termos de comunicação, entre os indígenas e os colonizadores Já a chegada da Família Real ao Brasil, em 1808, além de transplantar uma outra norma do português europeu, distinta da trazida pelos colonizadores no século XVI, provocou uma espécie de “reaportuguesamento das cidades”. Em 3 O autor vale-se de termo proposto pelo lingüista norte-americano Edward Sapir, que utiliza deriva como “determinada direção, que já encerra uma série de possibilidades. A rapidez ou a lentidão com que se caminha por essa estrada depende de condições histórico-sociais” (SILVA NETO, 1986, p.594).

razão disso, as falas urbanas “aproximaram-se muito mais da língua literária do que as rurais, embora estas últimas, sobretudo pelos contactos humanos, vão sofrendo, com o aumento das comunicações e a difusão do ensino, fortes O século XVIII marca, portanto, o fim do período colonial, quando começa a desenhar-se uma nova realidade nacional, a do século imperial da vida política brasileira que se estende ao longo do século XIX, marcada por dois movimentos decisivos para os novos rumos da colônia: a Independência do Brasil (1822) e a Proclamação da República (1889). Esses fatos históricos exercem forte influência na questão lingüística. Inicia-se a busca da identidade do português do Brasil, quando ganha força a preocupação com a descrição da língua num afã nacionalista, representado particularmente pelos escritores românticos. A Semana de Arte Moderna (1922) retoma com veemência a questão da língua Em síntese, a história social do Brasil amalgama as diferentes influências e contatos sofridos pela língua portuguesa em terras brasileiras, cadinho onde se misturaram etnias, línguas e realidades culturais ímpares e singulares que resultaram nas especificidades lingüístico-culturais que identificam o homem Considerando a dimensão continental do Brasil, os diferentes “brasis” que singularizam a realidade brasileira refletem-se no uso da língua, permitindo o estabelecimento de áreas dialetais no falar brasileiro. Nesse sentido, foi de suma importância a contribuição de Nascentes (1953, p.20-24) que, partindo da discussão de propostas como a de Júlio Ribeiro (1891) e a de Garcia (1915); pautando-se na divisão de grupos locais formulada por João Ribeiro (1914), justamente por entender que “sem uma base histórica não se pode fazer nada nesse assunto [divisão dialetal]”, e, após ter realizado o seu “ardente desejo de percorrer todo o Brasil, do Oiapoc ao Xuí, de Recife a Cuiabá”, propôs a divisão dialetal do Brasil que até na atualidade tem servido de referência para estudos O filólogo dividiu o País em seis subfalares distribuídos em dois grandes grupos, o do norte e o do sul, “separados por uma zona que ocupa uma posição mais ou menos eqüidistante dos extremos setentrional e meridional do país”. Consoante essa divisão, são dois os subfalares do Norte: o amazônico (Acre, Amazonas, Pará e parte de Goiás) e o nordestino (Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e parte de Goiás). Já ao grupo do Sul, o estudioso brasileiro acoplou quatro subfalares: o baiano (intermediário entre os dois grupos reúne os estados do Sergipe, da Baía, parte de Minas – Norte, Nordeste e Noroeste – e de Goiás); o fluminense (Espírito Santo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Minas – Mata e parte do Leste); o mineiro (Centro Oeste

e parte Leste de Minas Gerais); o sulista (São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas – Sul e Triângulo –, Sul de Goiás e Mato Grosso). Considerou como território incaracterístico, em termos lingüísticos, a área que compreendia entre a fronteira boliviana (rios Verde, Guaporé, Mamoré até Abunã) e a fronteira de Mato Grosso com o Amazonas e o Pará, áreas até então praticamente despovoadas (NASCENTES, 1953, p.25-26).4 Na contemporaneidade, o Projeto Atlas Lingüístico do Brasil,5 que está documentando a língua portuguesa do Brasil na sua modalidade oral, poderá ratificar a proposta de Nascentes; propor novos contornos para a divisão apresentada pelo dialetólogo, ou até mesmo definir um novo desenho para a divisão dialetal do português do Brasil. Além disso, o produto final desse projeto – o Atlas Lingüístico do Brasil –fornecerá dados concretos sobre a norma lexical atualizada nos diferentes estados da Federação, o que propiciará a delimitação e a distribuição de regionalismos, muitos deles arcaísmos que se conservaram no uso da língua em certos espaços geográficos. A esse respeito, é ilustrativa a posição de Leão (1961) quando, ao tratar dos arcaísmos nos falares regionais, já apontava a falta de um estudo exaustivo acerca dessa questão, o que, segundo a estudiosa, só seria possível dentro de “minuciosas pesquisas dialetológicas”. Complementa a autora: “enquanto não se medirem os fatos para a elaboração de um atlas lingüístico brasileiro, disporemos apenas de informações fragmentárias e imprecisas, relativas aos arcaísmos da língua corrente, e à sua penetração na língua literária” (LEÃO, 1961, p.14). Essa ponderação da filóloga aplica-se também à questão dos regionalismos.

Situando a questão dos regionalismos Discutir a configuração dos regionalismos no âmbito de uma língua implica considerar a noção de norma regional e popular, já que esses fatos lingüísticos situam-se na esfera da variação lexical de natureza diatópica, ou seja, a variação que se processa no eixo horizontal ou espacial. Partindo, pois, do conceito coseriano de norma como “um sistema de realizações obrigatórias, consagradas social e culturalmente” (COSERIU, 1979, p.50), podemos entendê-la como uma tradição solidificada no uso da língua por uma comunidade lingüística, como hábitos que se impõem ao indivíduo, daí o seu caráter prescritivo.

4 A respeito da delimitação das áreas dialetais no Brasil, ver Cardoso (1996). A autora formula e discute questões como a existência ou não de uma grande divisão Norte/Sul no português do Brasil; o problema dos limites rígidos na definição de áreas diatopicamente diferenciadas; a definição de fatos lingüísticos relevantes a serem considerados numa distribuição geolingüística, além de enfatizar a necessidade de um Atlas Lingüístico do Brasil como requisito para a busca de uma divisão lingüística do Brasil. 5 Projeto interinstitucional sediado na Universidade Federal da Bahia. Maiores informações sobre o projeto poderão ser obtidas por meio de consulta ao sítio: http://www.alib.ufba.br/.

No caso do português do Brasil, a norma pode ser entendida sob duas perspectivas: num sentido mais amplo e num ponto de vista mais restrito. No primeiro caso, tomam-se como referência, por exemplo, as normas americana e européia, concebidas como variantes facultativas determinadas por uma tradição cultural e social, o que permite admitir a existência de duas normas dentro de um único sistema lingüístico, o português. Na segunda perspectiva, adotando como parâmetro apenas a norma brasileira, focalizam-se as normas representativas das diferentes regiões brasileiras, também concebidas como variantes condicionadas por fatores socioculturais. Esse ponto de vista conduz a duas noções de norma: “uma norma geral – a da sociedade global ou da nação – e as normas parciais, regionais, ou as normas dos grupos minoritários dentro Nessa linha de raciocínio, pode-se admitir a existência de diferentes níveis de regionalismos, considerando-se os diferentes graus de disseminação do fato lingüístico. No Brasil, a discussão centra-se, sobretudo, na definição de brasileirismo, conceito polêmico que tem povoado discussões acerca das marcas dialetais em dicionários gerais da língua, nomeadamente nas várias edições do Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Em matéria de definição e de classificação, todavia, as posições teóricas são distintas e diversificadas. D´Albuquerque, por exemplo, na obra Falsos Brasileirismos ([1945?], p.40), propõe duas categorias de brasileirismos: gerais (usados em todo o Brasil) e regionais (baianismos, gauchismos, mineirismos…). Essa posição é referendada por Mattoso Câmara Jr. (1973, p.66), quando define brasileirismos como: Qualquer fato lingüístico peculiar ao português usado no Brasil, em contraste com o fato lingüístico correspondente peculiar ao português usado em Portugal ou lusitanismo. O brasileirismo pode ser: a) regional, quando privativo de uma dada região do Brasil; b) geral, quando se estender por todo o território brasileiro.

Já Biderman, em seu Dicionário contemporâneo do português (1992), destinado a alunos do Ensino Fundamental e Médio, define regionalismo como “qualidade do que é característico de uma região” e brasileirismo como “uso de linguagem típico do Brasil”. Todavia, ao tratar do assunto em texto especializado, recupera a definição de Boulanger (1985), adaptando-a à situação brasileira: qualquer fato lingüístico (palavra, expressão, ou seu sentido) peculiar a uma ou outra variedade regional do português falado no Brasil, exceptuando a variedade empregada no eixo lingüístico Rio/São Paulo, considerada a variedade de referência, ou seja, o português

brasileiro padrão, e excluindo também as variedades usadas em outros territórios lusófonos. (BIDERMAN, 2001b, p.136) A autora aponta ainda dois aspectos a serem considerados no exame desse tipo de fato lingüístico: i) “qual o ponto de referência para definir um termo como regional”? ii) “se o vocábulo é regional relativamente a um dialeto padrão, Como já pontuado em trabalho anterior (ISQUERDO, 2006b), essa definição remete a duas questões mais amplas relacionadas à questão da norma lexical do português do Brasil: i) a necessidade premente de uma clara definição de políticas lingüísticas para o Brasil que estabeleçam diretrizes para o enfrentamento e o tratamento de questões que afetam a realidade lingüística brasileira, dentre outras, a dos regionalismos; e ii) a necessidade de uma ampla descrição da língua portuguesa do Brasil na sua modalidade oral e de estudos profundos acerca da produção na modalidade escrita, representativa de A complexidade dessa questão se acentua quando focalizada do ponto de vista da lexicografia regional e geral. Nesse particular, no Brasil, merece especial destaque a tese de doutoramento de Ana Maria Pinto Pires de Oliveira (1999) que, sob a orientação de Maria Tereza Camargo Biderman, realizou um exaustivo estudo sobre a questão dos brasileirismos no Dicionário Aurélio. Essa tese configura-se como um ponto de referência para o estudo dos regionalismos no português do Brasil, não só pelas contribuições fornecidas para o estudo desse fato lingüístico, mas também por fornecer uma análise consistente sobre a formação da norma lexical da variante brasileira do português.6 Em razão disso, optei por destacar, no âmbito deste trabalho, aspectos pontuais dessa pesquisa.7 Esse estudo teve como objetivo inventariar e analisar unidades vocabulares classificadas dialetalmente como brasileirismos por Ferreira, no Novo dicionário da Língua Portuguesa (1994), versão informatizada, e apresentar uma proposta de sistematização desses fatos lingüísticos. O levantamento de todas as unidades lexicais marcadas como brasileirismos, na obra lexicográfica em estudo, resultou num montante de 24.498 itens lexicais. Em virtude da amplitude do corpus, a pesquisadora selecionou 10% dos verbetes reunidos em cada uma das letras que compõem a nomenclatura do dicionário, o que resultou numa base de dados

6 Particularmente o Capítulo III – O Português do Brasil – apresenta uma síntese significativa de trabalhos realizados sobre o português do Brasil e discute com muita propriedade a problemática da classificação de unidades lexicais como brasileirismo/regionalismo (OLIVEIRA, 1999, p.59-81). 7 Com essa opção presto dupla homenagem, por entender que a deferência aqui dispensada à Profa. Ana Maria P. P. Oliveira, in memoriam, estende-se à sua orientadora, Profa. Maria Tereza Biderman, uma vez que a opção pela realização do estudo dos brasileirismos no Dicionário Aurélio resultou de uma resposta positiva da pesquisadora à sugestão da sua orientadora.

de 2.449 itens lexicais, dos quais selecionou uma amostragem de 400 brasileirismos, Com base na análise e discussão de critérios já existentes para a identificação de brasileirismos, a autora definiu esse fato lexical como “todo fato lingüístico, de caráter geral ou regional, que caracterize o português em uso no Brasil, em contraste com o usado na Europa”. Assim, pautando-se nos resultados do seu estudo sobre a questão das marcas dialetais de natureza diatópica no Dicionário Aurélio (1994) e orientada por esse conceito de brasileirismo, propôs a seguinte tipologia para o estudo desse fato lingüístico: indigenismos; africanismos; lexias transplantadas que, no Brasil, assumiram novos matizes – brasileirismos semânticos; formações e derivações brasileiras de base vernácula e de base híbrida – vernácula/indígena e vernácula/estrangeira e lexias de origem Dentre outras conclusões obtidas com o estudo, a pesquisadora constatou a “fragilidade da classificação de alguns brasileirismos apontados no Dicionário Aurélio, não raras vezes considerada incoerente, se comparada à expressão lingüísticautilizadanadefinição”.Alémdisso,“anãoespecificaçãodoscritérios empregados pelo lexicógrafo na categorização desses fatos lingüísticos” foi outro fator apontado pela estudiosa para a imprecisão da classificação apresentada A estudiosa destaca também a necessidade de se estabelecer a diferença entre brasileirismos e regionalismos, pois muitos itens lexicais classificados como regionalismos, às vezes, correspondem a arcaísmos portugueses, o que significa que não podem ser considerados brasileirismos. A pesquisadora cita como exemplos desse fenômeno casos de unidades lexicais do campo léxico da alimentação marcadas dialetalmente como brasileirismos gerais no Dicionário Aurélio que são de uso restrito a uma dada região, o que lhes confere o estatuto de regionalismos: acalenta-menino, acarajé, arroz-de-hauçá, arroz-de-função, As definições dessas unidades lexicais constantes do Novo Dicionário Aurélio – Século XXI (1999) são ilustrativas quanto aos equívocos evidenciados nesse dicionário, no que tange à inserção de marcas dialetais de natureza diatópica, tão bem apontados por Oliveira (1999). No caso, itens lexicais que nomeiam referentes específicos de determinadas regiões são classificados como de uso nacional (brasileirismos). Por exemplo: acalenta-menino é definido como “Bras. Feijão saboroso, que cozinha depressa, muito usado na alimentação das crianças”; acarajé como “Bras. Cul. Bolinho da culinária afro-baiana, feito de massa de feijão-fradinho, frito em azeite-de-dendê, e que se serve com molho de pimenta, cebola e camarão seco; acará”; arroz-de-hauçá, como “Bras. Cul. Prato típico da cozinha baiana e nordestina, preparado com arroz branco, sem

outro tempero senão o sal, e que se costuma enfeitar com pedacinhos de carne- do-sertão, ou de charque, fritos com alho e cebola, e postos em volta do prato”; arroz-de-função, como “Bras. Cul. V. arroz-doce. Arroz cozido no leite adoçado com açúcar, e temperado com casca de limão, canela em pau, ou água de flor de laranja, cravo, etc., e em geral polvilhado com canela; arroz-de-função, arroz- de-leite”; anguzô, como “Bras. Angu com caruru; Bras. Espécie de angu de milho; Observando-se o teor das definições, nota-se que esses regionalismos nomeiam referentes em sua maioria representativos do Nordeste brasileiro, portanto, desconhecidos no restante do País. Em arroz-de-hauçá, por exemplo, a própria definição já esclarece tratar-se de uma comida baiana e nordestina. Arroz-de-função, por sua vez, remete a uma variante regional de arroz-doce, que não integra a norma atualizada em todas as regiões brasileiras. Daí fatos lingüísticos dessa natureza não se configurarem como brasileirismos/ Exemplos desse tipo remetem à questão do referente como um dos fatores geradores de regionalismos. Recortes de mundo distintos exigem formas também específicas de nomeação. Aliás, o problema da referenciação constituiu-se num dos grandes obstáculos a ser transposto pelo colonizador no período colonial, o que pode ser observado nos relatos de viagens, nos documentos escritos no Brasil colônia, a começar pela Carta de Caminha, que evidenciam a relação entre palavras e coisas em território brasileiro, e contribuem para a identificação dos “nomes do Brasil”, na verdade, “os nomes atribuídos às coisas do Brasil”, ensejando assim o início do delinear de uma norma nacional, distinta em muitos Na verdade, essa norma foi se desenhando de forma distinta nas diferentes regiões brasileiras, motivada por condicionantes extralingüísticos, como os fatores físico-geográficos que as individualizam, os contatos étnicos que ali se processaram, as atividades econômicas predominantes, enfim, pela história social das várias áreas culturais que foram se formando, nos mais diferentes rincões Considerando, pois, esses condicionantes, como também o papel do referente na configuração de um regionalismo e a tese da necessidade de se diferenciar brasileirismos de regionalismos, defendida por Oliveira (1999) e aqui aceita, examinarei alguns verbetes do Vocabulário da erva-mate no cone sul de Mato Grosso do Sul (JUSTINIANO, 2006),8 que bem ilustram essas questões. Trata-se de um vocabulário específico de uma atividade extrativista explorada no sul do 8 Trabalho produzido como dissertação de Mestrado no Programa de Mestrado em Letras da UFMS, defendido em 2005. A pesquisa foi realizada junto a profissionais que atuam nas diferentes fases do trabalho com a erva-mate em quatro municípios localizados na fronteira do Brasil com o Paraguai (Ponta Porã, Amambai, Caarapó e Tacuru). O levantamento dos dados foi realizado com o auxílio de questionário elaborado para esse fim e resultou num acervo de 301 unidades lexicais relacionadas à atividade extrativista da erva-mate.

estado de Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, desde o século XIX, que já se configurou como um expoente econômico da região. São unidades lexicais que nomeiam referentes específicos, configurando-se assim como regionalismos locais.

erva crioula s.f. 1 Erva-mate do tipo caseira produzida na própria região e pelo processo rudimentar. Aqui na fazenda, nóis toma apenas erva cuê s.f. 1 Erva sem sabor, velha, que já foi utilizada no preparo do tereré ou do mate. Tomadô de tereré ou di mate, logo percebe o erva-mate cancheada s.f. 1 erva-mate cancheada Erva já submetida ao processo de erva-mate cancheada quebramento e pronta para ser moída. O estado de Mato Grosso exportava para a Argentina a e lá, ela era erva sarandada s.f. 1 Erva submetida à saranda, espécie de peneira que separa a erva mais fina da grossa. A é fina, com poucos palitos, especial para exportação (CF).9 Observa-se que o lema do verbete e a sua respectiva definição remetem a uma realidade regional, distinta das demais regiões brasileiras. Além da especificidade dos referentes, percebem-se marcas de contatos interétnicos – erva cuê, por exemplo, é uma unidade lexical de uso corrente na região que nomeia a erva que já foi usada, que já está sem sabor, após muitas “rodadas de mate ou de tereré”; erva-mate cancheada, por seu turno, dá mostras da influência gaúcha no falar da região; canchear, por exemplo, é classificado no Dicionário Aurélio (1999) como “brasileirismo do Sul”. Todavia, a palavra migrou com o grupo que a fala e fixou-se em outra região do Brasil para nomear uma atividade no âmbito de uma especialidade, no caso, o vocabulário usado por falantes ligados à atividade de extração e preparo da erva-mate. Nos dois exemplos, temos formações de base híbrida, respectivamente, português/guarani (erva cuê) e quíchua, via espanhol platino, e sufixo português (canchear). Outra hipótese é a de que a unidade lexical em exame tenha entrado na região pelo Paraguai, em razão dos contatos lingüísticos existentes nesse espaço geográfico. Formações híbridas é uma das categorias apontadas por Oliveira (1999) para classificar um Os demais verbetes – erva crioula e erva sarandada – também ilustram o uso regional dos termos crioulo (rudimentar, caseiro) e saranda (espécie de 9 Na transcrição do verbete, foram suprimidos alguns itens contemplados pela definição, como origem, sinônimos, variantes, remissivas, notas, dados os limites deste trabalho. A sigla entre parênteses após a abonação identifica o informante que forneceu o exemplo.

peneira). Sarandear – o ato de movimentar a saranda com a finalidade de peneirar a erva – pode ter resultado de analogia entre a ação de sarandear (saracotear-se, menear o corpo na dança) e a ação de movimentar a peneira para separar a erva fina da grossa. Sarandear pode ser uma variante de sarabanda – “música, e dança alegre com meneios de corpo hum pouco indecentes” (MORAIS E SILVA, 1922). Do espanhol “zarabanda” – “danza picaresca que se bailaba en España en los siglos XVI y XVII. Música para ella. Copla que se cantaba con ella. Movimiento rápido e desordenado de cosas, que produce mareo” (MOLINER, 2000). A palavra pode ter migrado para o sul do Brasil, seja diretamente do espanhol platino, seja com o colonizador português, e se fixado na fala sulista, integrando a norma local. Talvez o Dicionário Aurélio tenha considerado essa segunda hipótese para não marcar dialetalmente essa unidade lexical. O Dicionário Houaiss (2001), por sua vez, a classifica como um “regionalismo do Frente ao exposto, pode-se aventar a hipótese de a unidade lexical sarabanda ter se disseminado no Centro-Oeste, sul de Mato Grosso do Sul, com as várias levas de migração gaúcha que marcaram o povoamento da região em questão e na fronteira do Brasil com o Paraguai ter sofrido alterações formais e uma especialização de sentido, dando origem à saranda (peneira) e a sarandear (ato de movimentar a peneira). Não é demais lembrar que Morais e Silva (1922) registra sarabandear como “dançar sarabanda”. Ou seria o uso dessa palavra fruto do contato do português com o espanhol também nessa faixa de fronteira, já que a atividade de exploração da erva-mate até hoje depende da mão-de-obra do imigrante paraguaio, o detentor dos segredos do seu preparo para o consumo? Reportando-se novamente à tipologia de Oliveira (1999) e considerando as hipóteses aventadas, saranda poderia ser incluída na categoria das lexias de origem expressiva próprias do uso brasileiro. Ainda no âmbito do vocabulário da erva-mate, merecem destaque verbetes como: caa plantado, caa pocã, caa porá, cancha, cancha de barbaquá, cancha de tambora.

caa plantado s.m. 1 Conjunto de pés de erva-mate plantado pelo homem. Os produz ainda mais que os outros nativos caa pocã s.f. 1 Erval ruim que reúne poucas plantas e que não rende no corte. Quando o minero encontrava uma ficava muito caa porã s.f. 1 Erval bom formado por vários pés de erva juntos, e que rendem bastante na hora do corte. Na região de Aral Moreira havia bastante que enchia os olhos do capatais (FG).

Esses três verbetes dão mostras de uma característica do vocabulário pesquisado por Justiniano (2006): a presença do fenômeno das línguas em contato no vocabulário da erva-mate. Fatores de natureza histórico-geográfica justificam esse quadro. Como se trata de fronteira seca, convivem nessa faixa de território três idiomas: o português, o espanhol e o guarani. No vocabulário da erva-mate, essa realidade lingüística ficou particularmente evidenciada.10 Dos verbetes supramencionados, formados a partir de ka’a (folha, mato, erva), dois são de base indígena (caa pocã e caa porã) e um de natureza híbrida, indígena/português (caa plantado). São exemplos de regionalismos locais motivados por condicionantes extralingüísticos, como a formação étnica do grupo, a situação histórico-geográfica da localidade, a atividade econômica focalizada. O primeiro, uma formação híbrida e os dois últimos, indigenismos, Por fim, destaco o conjunto de verbetes formados a partir de cancha – cancha de barbaquá, cancha de tambora – que denota a influência do espanhol platino no léxico regional aqui focalizado. No âmbito dos ervais sul-mato-grossenses, genericamente, cancha nomeia o espaço onde se processa o trabalho com a Ilex paraguariensis. Nos verbetes a seguir, aparece especificada por um determinante, barbaquá e tambora, formando lexias híbridas. A primeira, de base indígena, designa “forno usado para secar a erva-mate, cujo calor é transmitido ao carijo por meio de condutores” (FRANCO; HOUAISS; VILLAR, 2001). Já a segunda, de origem espanhola, assume uma conotação bem específica no contexto de uso em tela: “objeto cilíndrico feito de chapas de aço, composta de ganchos internos que vão conduzindo as folhas de erva para fora, que é colocado sobre um forno, cuja finalidade é o sapecamento da erva-mate crua” (JUSTINIANO, 2006). Mais dois casos de regionalismos classificados como formações híbridas, segundo Oliveira (1999): cancha de barbaquá s.f. 1 Pátio em frente ao barbaquá que serve para depositar a erva crua que vem dos ervais e para a circulação dos trabalhadores. A serve pra gente jogar cancha de tambora s.f. 1 Pátio em frente à tambora que serve para depositar a erva para o primeiro sapeco. Quem trabalha na recebe muito calor dos forno da canhoneira (FG).

10 Do total de verbetes que integram o vocabulário, 57% (162) são de base portuguesa; 17% (55) de base guarani ou de outras línguas indígenas; 12% (39) de origem espanhola e 14% (45) de base híbrida (JUSTINIANO, 2006, p.207).

Considerações finais Neste trabalho, foram destacadas questões que afetam o estudo dos regionalismos no âmbito da língua portuguesa do Brasil. Alguns aspectos carecem ser retomados à guisa de conclusão, mais como uma ratificação do já exposto, em caráter de síntese, uma vez que conclusões parciais já foram apontadas ao longo do trabalho. Creio ter ficado evidente a necessidade de uma ampla descrição da norma lexical atualizada nas diferentes regiões brasileiras, como condição básica para a definição dos regionalismos no português do Brasil. A par disso, há que se ter em vista que esse estudo não pode estar desvinculado da dimensão histórico-social da linguagem, considerando-se que é no âmbito de um grupo social que a norma se instaura, é disseminada ou fica confinada a determinados espaços geográficos, dependendo das características socioculturais desse grupo. Enfim, o estudo dos regionalismos não pode abster-se do exame de fatores dessa natureza, sob pena de equivocar-se na configuração de um fato lingüístico como regional.

ISQUERDO,A. N. Contributions for the Discussion of the Concept of Regionalisms in Brazilian Portuguese. Alfa, São Paulo, v.50, n.2, p.9-24, 2006.

 ABSTRACT: The present work discusses regionalisms in Brazilian Portuguese, relating the issue of lexical norm to sociohistorical factors – ethnic formation of the Brazilian people, the settlement process of the territory, linguistic contacts, economic activities – and the environmental characteristics individualizing the different geographic regions of Brazil. It also examines the criteria for the definition of regionalisms, highlighting those presented by Oliveira (1999) and analyzes some regionalisms that form the lexical collection of the Brazilian Portuguese language based on those criteria.

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DICIONÁRIO E CORES Claudia ZAVAGLIA1  RESUMO: O léxico de uma língua pode ser considerado um bem ou um conjunto de bens lingüísticos pertencente a uma sociedade de importância e valor reconhecidos num determinado lugar, região ou país que, devido ao progresso técnico e científico, evolui em continuidade, nas mais diversas frentes, uma vez que o processo de nomeação da realidade é uma constante dinâmica e vivaz. É nesse conjunto imenso de unidades lexicais, cujas divergências lingüístico-semânticas são inerentes e formadoras de culturas e comunidades de fala, que se inserem os itens lexicais cromáticos como microssistemas lingüísticos singulares repletos de significação e riqueza sintático-semântico-pragmática. No microssistema das cores, esse universo lexical abarca tipos de combinações fixas das mais variadas espécies, de forma representativa e peculiar. Nesta exposição, tratarei, especificamente, daqueles proverbiais e das expressões fixas, por meio de considerações de cunho teórico e prático concernentes à sistematização e à busca dessas expressões lexicais no processo de elaboração de uma obra lexicográfica especial, no caso, um Dicionário Multilíngüe de Cores – DMC.

Um mundo feito a cores Isaac Newton, pioneiro em fracionar a luz do sol e as cores que a compõem, serviu-se de um prisma e produziu um espectro, obtendo, assim, a difração da luz branca em sete cores (as chamadas primárias):“vermelha”,“laranja”,“verde”, “amarela”, “azul”, “anil” e “violeta”. Goethe (1993), não compartilhando dos critérios utilizados por Newton, uma vez que este último tratou a produção da cor essencialmente como um fenômeno físico, reestudou e reanalisou as experiências com prismas e lentes. Giannotti, na Apresentação de Doutrina das cores (GOETHE, 1993, p.19) afirma que ele propõe uma interpretação das cores a partir do órgão da visão, que não pode ser identificado a um conjunto de prismas e lentes, pois o 1 UNESP – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas – Departamento de Letras Modernas – 15054-000 – São José do Rio Preto – SP – Brasil. Endereço eletrônico: zavaglia@ibilce.unesp.br

olho é um órgão vivo. Sua aversão a experimentos com lentes e prismas, no interior de um quarto escuro, ilustra bem essa nova postura diante do fenômeno cromático. A investigação ao ar livre, onde o olhar reencontra a natureza, é a única que parece fasciná-lo.

Segundo Brusatin (1983), diferentemente de quase todos os animais mamíferos, o homem possui a capacidade de “enxergar a cores”, como os peixes, os répteis, os pássaros, a abelha e a libélula, e essa é uma condição de sensível incerteza sobre a qual se apoiou toda e qualquer teoria científica concernente à essência das cores, no que diz respeito ao modo inconstante da sua aparição e É interessante ressalvar, contudo, que, do mesmo modo que para o físico a palavra cor designa uma luz, ou seja, um comprimento de onda, para os lingüistas tal unidade lexical denomina o absorver e o refletir da luz dos corpos, sejam eles naturais ou artificiais. Nessa vertente, de acordo com a sua vivência e experiência, o homem, com o decorrer do tempo, foi criando e registrando lingüisticamente As expressões cromáticas estão ligadas à experiência e à sensibilidade do homem diante do mundo que o cerca, tanto para representar a cor como um aspecto sob a luz do sol – folhas verdes, bolsa marrom, casaco preto, como para representar signos universais e metafóricos como ouro negro ou sair do vermelho. Claro está que o homem, no seu dia-a-dia, não vive mais sem as cores (se é que algum dia viveu): sensibiliza-se com a cor de uma flor da mesma maneira que é incitado a adquirir uma roupa de uma determinada pigmentação ou a pintar a sua casa de azul, de amarelo ou de branco. Inconscientemente exprime as suas emoções, utilizando-se de cromônimos2 – hoje tão incorporados a sua realidade, por meio de expressões idiomáticas, sintagmáticas ou proverbiais –, cujo elo entre cor e objeto não se vincula mais em manifestações como: fiquei vermelho como um pimentão, deu branco ou estou tremendo como varas verdes. Desse modo, tentar levar aos olhos dos falantes de uma língua as cores de sua linguagem me parece uma trajetória adequada para o enaltecimento de um dos mecanismos mais criativos de que é possuidor o homem, ou seja, a sua produção lingüística.

Um léxico feito a cores Partindo-se da premissa de que cada língua tem uma maneira própria de compreender e divisar o mundo, o universo das cores é representado de acordo

2 Termo traduzido em português do italiano “cromonimo” (singular) / “cromonimi” (plural) empregado por Enrico Arcaini em Analisi linguistica e traduzione. Bologna: Patron, 1991.

com as particularidades de cada cultura, ou seja, conotativamente e subjetivamente. Por consegüinte, a percepção das cores será representada lingüisticamente de forma diferenciada de uma cultura para outra. Com efeito, Arcaini (1991) relata que toda língua natural é caracterizada pelo relativismo cultural e assim cada sistema lingüístico descreve de modo particular e único o universo das cores. Dessa maneira, cada língua assume uma maneira própria para distinguir e retratar os feixes cromáticos de sua cultura desprovidos de objetividade. Por outro lado: “Lingüisticamente o problema consiste em correlacionar – por meio da análise dos fatos empíricos – as descrições oferecidas por sistemas determinados a mundos que poderiam ter soluções bem delineadas no universo sensível” (ZAVAGLIA, 1996, p.14). Para Berlin e Kay (1969, p.2), a doutrina predominante dos lingüistas e antropólogos americanos do século XX é a da relatividade lingüística. Essa doutrina defende que cada língua tem um modo próprio de compilação de suas experiências e, portanto, que cada língua possui uma arbitrariedade semântica em relação a todas as outras línguas. Eco (1985, p.163 apud MORAES, 1995, p.65), com base no relativismo lingüístico, acredita que cada língua organiza o seu mundo lexical de acordo com suas necessidades práticas e, conseqüentemente, considera como relevantes diferentes aspectos do mundo. Esse mesmo autor pronuncia ainda que: Quando um indivíduo profere o nome de uma cor, ele não está apontando diretamente para um estado do mundo (processo de referência), mas ao contrário, ele está correlacionando esse termo a uma unidade ou a um conceito cultural. Essa articulação do termo é determinada, obviamente por uma dada sensação, mas a transformação dos estímulos sensoriais em um objeto da percepção é, do mesmo modo, determinado pela relação semiótica entre a expressão lingüística e o significado ou conteúdo culturalmente correlacionado com ele. (ECO, 1985, p.160 apud MORAES, 1995, p.65) Segundo diversos estudiosos sobre o argumento em questão, a percepção sobre o contínuo da luz vincula-se diretamente à prática cultural. Com efeito, se em determinadas culturas verifica-se a ausência de certas unidades lexicais cromáticas, isso não significa que os falantes dessas línguas não possuam habilidades fisiológicas de percepção do universo cromático. Antes, acreditamos que essas cores não sejam relevantes ou, ainda, não desfrutem de referências para tais universos culturais. Nesse mesmo sentido, Eco (2003) afirma que o modo de organizar, distinguir e segmentar as cores altera-se de cultura para cultura. E ainda: Mesmo se forem individualizadas algumas constantes transculturais, parece difícil traduzir os nomes de cores entre línguas longínguas no tempo ou de culturas diversas; observou-se, também, que “o

significado dos nomes de cor é uma das maiores dificuldades da história da ciência”. Se se usa o termo cor para se referir à pigmentação das substâncias no ambiente, não se disse nada ainda sobre a nossa percepção cromática. É necessário distinguir os pigmentos como realidade cromática da nossa resposta perceptiva como efeito cromático – que depende de muitos fatores, tais como a natureza das superfícies, a luz, o contraste entre os objetos, o conhecimento anterior. (ECO, 2003, p.356, tradução nossa).

Sapir (1961, p.51) diz que há uma correlação entre o universo lexical de uma língua e a cultura, e que a variabilidade do léxico, refletindo o ambiente social, tem alcance no tempo e no espaço. Em outras palavras, os conceitos culturais, e o léxico a eles referente, torna-se cada vez mais rico e ramificado com o aumento da complexidade cultural no grupo. Sapir discorre sobre a relação que existe entre o ambiente físico e a língua e afirma que “o léxico da língua é que mais nitidamente reflete o ambiente físico e social dos falantes” (apud MORAES, 1995, p.60). O léxico completo de uma língua pode ser considerado, na verdade, como todas as idéias, interesses e ocupações que chamam a atenção da comunidade, e que “[…] quanto mais necessário for para uma cultura fazer distinções dentro de uma dada série de fenômenos, tanto menos provável será a existência de um termo genérico para a série toda” (MORAES, 1995, p.60). O léxico é tudo aquilo que o homem nomeia a partir de sua percepção da realidade, constituindo-se, portanto, em uma forma de registrar os seus conhecimentos. Após dar nome aos objetos, o homem os classifica e atribui- lhes significado. Portanto, os signos lingüísticos ou palavras são associados a Segundo Biderman (1996),

[…] o léxico está associado ao conhecimento, e o processo de nomeação em qualquer língua resulta de uma operação perceptiva e cognitiva. Assim, no aparato lingüístico da memória humana, o léxico é o lugar do conhecimento, sob o rótulo sintético de palavras – os signos lingüísticos. (BIDERMAN, 1996, p.27)

Para Silva (2002, p.69), o léxico representa: “o repositório dos aspectos culturais e ideológicos de uma determinada comunidade lingüística, para conhecer bem o significado de uma palavra é preciso conhecer também o contexto cultural no qual ela se insere, bem como as situações em que é usada”. É nesse conjunto imenso de unidades lexicais, cujas divergências lingüístico- semânticas são inerentes e formadoras de culturas e comunidades de fala, que

se inserem os itens lexicais cromáticos como microssistemas lingüísticos singulares repletos de significação e riqueza sintático-semântico-pragmática. Esse grande universo lexical abarca tipos de combinações fixas das mais variadas espécies, tais como sintagmas nominais, verbais, preposicionais; expressões idiomáticas, provérbios, ditos populares, frases feitas, locuções, colocações, gírias, máximas, sentenças, entre outros. Ao conjunto dessas combinações estáveis chamaremos fraseologismos (F). Estes estão presentes, de forma representativa e peculiar, no microssistema das cores. Nesta exposição, tratarei, especificamente, daqueles proverbiais e das expressões fixas, cuja denominação será, doravante, Provérbios Cromáticos (PrCr) e Expressões Idiomáticas Cromáticas (EICr), respectivamente.

Expressões idiomáticas e provérbios Segundo Xatara e Oliveira (2002): Definimos idiomatismo ou expressão idiomática (EI) como “toda lexia complexa indecomponível, conotativa e cristalizada em um idioma pela tradução cultural”, baseando-nos, entre tantas outras teorias lexicais, nas de Biderman (1978), Chafe (1979), Danlos (1981), Gross (1982), Carneado Moré, Corbin (1983), Rwet (1983), Tagnin (1988) e Lodovici (1989), bem como nas considerações levantadas por Xatara em pesquisas anteriores (1994 e 1998). (XATARA; OLIVEIRA, 2002, p.57)

A partir dessa definição, as autoras salientam que uma expressão idiomática “é uma unidade locucional ou frasal que constitui uma combinatória fechada, de distribuição única ou distribuição bastante restrita” (XATARA; OLIVEIRA, 2002, p.57). Ademais, atentam para o fato de ao se apresentarem como sintagmas complexos, as EIs não possuem paradigmas, isto é, não permitem, em sua grande Para que uma unidade frasal (UF) seja caracteriza como EI, suas partes combinatórias não podem se desmembrar em unidades singulares de sentido. Ao contrário, o significado deve ser depreendido a partir da totalidade da UF que se tornará una, tendo semântica própria e peculiar. A idiomaticidade é alcançada por meio de diferentes estratégias lingüísticas – as figuras de linguagem –, empregadas, comumente, na criação literária para a produção de efeitos expressivos no texto; as mais comuns são as metáforas (ter o sangue azul), a metonímia (vestir verde-e-amarelo), a antonomásia (ser o Poeta Negro), a sinestesia (ter os lábios roxos de frio), entre outras. Entretanto, as linhas limítrofes entre os fraseologismos idiomáticos e os não idiomáticos são tênues,

muitas vezes se confundem, coexistindo, não raro, significados idiomáticos e literais como para os sintagmas mosca branca (inseto/algo raro [ser]) e elefante branco (animal/algo de dimensões gigantescas [ser]). Welker (2004, p.162) entende os fraseologismos “– também chamados, entre outros termos, de frasemas, unidades fraseológicas ou combinatórias lexicais” como “sintagmas mais ou menos fixos”. Esse mesmo autor caracteriza tudo aquilo que se entende por “fraseologismos” como sendo polilexicais e fixos. Já aqueles idiomáticos devem conter, indiscutivelmente, traços de idiomaticidade, ou seja, a seqüência das partes que os compõem devem funcionar como uma unidade significativa. No que diz respeito às expressões idiomáticas, Caramori (2000, p.66) as define como “se estivessem em uma roda (roda temática), de mão dadas: virar uma fera pode parecer mais assustador do que ficar uma arara, mas, em determinados contextos, elas serão facilmente intercambiáveis” ressaltando a elasticidade semântica das mesmas. Vale (2001) questiona: uma expressão cristalizada (doravante EC) deve ser considerada como um conjunto de palavras ou como uma palavra única? A noção de palavra é,3 por certo, uma das mais controvertidas na lingüística (Biderman, 1978, p.72-166). A tradição da escrita alfabética do Ocidente estabeleceu grosso modo que palavra deveria ser tudo aquilo que estivesse compreendido entre dois espaços em branco. Não se pretende aqui discutir a noção de palavra – embora a própria noção de expressão idiomática ou fixa ou cristalizada levante uma série de problemas para as diversas definições de palavra – mas é interessante notar que essa definição é ainda hoje a que norteia as diversas gramáticas tradicionais. (VALE, 2001, p.1) Concernente à caracterização das EIs, esse mesmo autor revela que se baseia na sua definição tradicional, ou seja, uma seqüência de itens lexicais constituída de “mais de um segmento […] cujo significado total não pode ser deduzido pelo significado das partes que a compõem” (VALE, 2001, p.18); adiante, diz que essa definição, mesmo sendo funcional, não é suficiente, uma vez que as expressões cristalizadas “podem ser caracterizadas por um continuum que vai da expressão relativamente transparente e flexível à expressão completamente No processo de lexicalização de um idiomatismo, uma condição decisiva para a sua cristalização, e conseqüente inclusão em macro ou microesruturas de dicionários, é a freqüência de uso pela comunidade lingüística no qual se encontra inserido. De fato, são os falantes de uma tradição cultural que elegem, consagram e consolidam uma expressão idiomática enquanto “ente existente” em seu universo lexical, tanto no que diz respeito à sua estruturação gráfica

quanto à sua estabilidade significativa. Com efeito, são os usuários do português do Brasil que tornam legítimo e julgam que se deva empregar ficar vermelho de raiva em detrimento de *ficar amarelo/cinza/rosa/marrom/preto de raiva. Por outro lado, a flexibilidade da língua e a aceitação de seus falantes permitem contruções do tipo ficar verde, roxo ou azul de raiva, mesmo que com freqüências menores de uso.4 O mesmo ocorre para o resultado contrário, ou seja, quando não se cristalizam e não se veiculam expressões como ficar branco de raiva, a não ser que seja empregada em contextos específicos, cujo contraste claro e escuro se faz evidente,comonafrase:“OUrubuficoubrancoderaiva,olhoueviupoucodistante uma lagoa e pensou […]”, a partir do momento que sabemos que urubus são pretos. Já os provérbios representam um patrimônio cultural incomensurável que proporciona uma imensa riqueza de significados às línguas humanas, fato esse que os projeta em uma dimensão histórica universal. Além disso, sintetizam o valor de incontáveis experiências humanas que, de certo modo, são levadas a uma reflexão pelas gerações futuras para que possam extrair úteis ensinamentos e apropriadas exortações, isto é, conselhos e avisos, para serem capazes de enfrentar, com maior serenidade e confiança em si mesmos, os pequenos, grandes A estruturação dos provérbios é variada; entretanto, baseia-se, geralmente, em uma unidade frasal que pode estar restrita a uma oração, com ou sem verbo, a uma estrutura binária de sintagmas correlatos, a enunciados fechados. Lança mão de diversos recursos para promover a sua memorização e cadência rítmica, como por exemplo, a rima, aliteração, repetição ou oposição de palavras, paronomásia, elipses. Dá preferência ao “presente do indicativo ou imperativo; formulação abstrata, figurada ou plena de imagens; formas impessoais ou Concernente ao léxico das cores, os provérbios estão repletos de nomes ou adjetivos cromáticos, cujas considerações sobre uso e freqüência são as mesmas feitas em relação aos idiomatismos. De fato, diz-se De/À noite todos os gatos são pardos e não marrons, pretos, amarelos ou brancos. Por outro lado, permitem- se mutações para o provérbio O que seria do azul se todos gostassem do amarelo? tais como como O que seria do roxo, do vemelho, do verde se todos gostassem do amarelo, do preto, do azul?.

Dicionários vs fraseologismos cromáticos Há uma área de estudos, antiga e tradicional, que oferece muitos benefícios à humanidade, no que diz respeito à comunicação tanto oral quanto escrita. É a

4 Em pesquisa realizada na internet, a maior freqüência se dá com a expressão idiomática que utiliza o nome de cor “vermelho”, seguida do “verde”, “roxo” e “azul” em ordem decrescente.

chamada Lexicografia. Os lexicógrafos, para melhor delimitar seu objeto de estudo, elaboraram um tipo de obra de referência, a saber, os dicionários. A utilização de fundamentos teóricos e de critérios científicos é, contudo, ainda muito recente na produção lexicográfica. Os dicionários enquandram-se no campo de estudos da lexicografia. “A ciência dos dicionários”, é assim que Biderman (1984) define a lexicografia. Essa mesma autora afirma que essa ciência teve início nos séculos XVI e XVII quando foram elaborados os primeiros dicionários monolíngües e bilíngües (em latim e uma língua moderna). E ainda: “O dicionário é um instrumento cultural que remete tanto à língua como à cultura. O lexicógrafo descreve ambas – língua e cultura – como um todo pancrônico, Na maioria das vezes, o dicionário serve apenas como livro de consulta; espera-se, portanto, que os consulentes encontrem fácil e rapidamente entre suas unidades textuais a informação de que necessitam em particular. A disposição das palavras em um dicionário padrão geralmente é feita em ordem alfabética, como entradas lexicais, ou lemas, excetuando-se repertórios vocabulares especiais do tipo analógicos ou onomasiológicos. Para Aubert (1996, p.27) “A lexicografia considera as palavras enquanto parte do léxico, ou seja, como fazendo parte do conjunto de unidades de que uma determinada comunidade dispõe para se comunicar por intermédio da língua”. Segundo Boutin-Quesnel et al (1985, p.29), dicionário é o “repertório de unidades lexicais que contém informações de natureza semântica, referencial, gramatical ou fonética”. Esse autor definiu dicionário especial como “dicionário de língua que descreve unidades lexicais selecionadas por algumas de suas características. Ex: dicionário de sinônimos, dicionário de gíria, dicionário fonético”. Sabe-se que, apesar de todo esforço que faça um lexicógrafo, ou uma equipe deles, seria praticamente impossível expor num dicionário todo o léxico de uma língua, ou fornecer respostas para todas as questões existentes ou que possam surgir no âmbito lingüístico. O dicionário não é mais que uma obra “representativa” da língua ou de uma parte dela. Ressalte-se, ainda, que a língua está em constante transformação, principalmente em virtude das grandes Uma vez que pretendo descrever o tratamento dado aos fraseologismos no DMC, convém examinar de que modo os dicionários gerais em português e os bilíngües italiano-português introduzem os Provérbios Cromáticos (PrCr) e as Atrevo-me a afirmar, com certa precisão, que os dicionários gerais ou padrão possuem certa uniformidade e coerência dinâmico-estrutural no que concerne aos PrCrs e às EICrs: a inserção dessas unidades frasais (UFs), com raras e remotas exceções,5 é feita na microestrutura dos verbetes. Quando muito, essas obras

lexicográficas inserem na sua nomenclatura um ou outro sintagma cromático, geralmente hifenizado, atinentes a campos semânticos bem delimitados, como é o caso da botânica, zoologia e química: abóbora-amarela, abelha-preta, vermelho-turco, respectivamente.6 Observemos as entradas vermelho e verde no dicionário monolíngüe Aurélio da lígua portuguesa:7 Cromônimo Aurélio – 1999 VERMELHO vermelho1 Adj. 1. Da cor do sangue, da papoula, do rubi. 2. Diz-se dessa cor. 3. Afogueado, corado, rubro. 4. Diz-se das partes externas do corpo incidentalmente sujeitas a maior afluxo sanguíneo; congestionado. 5. Diz- se de cantiga ou anedota picante, obscena. 6. Pertencente ou relativo à ex-U.R.S.S. 7. P. ext. Fig. Comunista, marxista, ou socialista. ~ V. açafrão – , anã -a, bode -, cota -a, cruz -a, lama -a, latão -, mancha -a, naipes -s, planeta – e sinal -.S.m. 8. A cor vermelha. 9. Indivíduo vermelho (6 e 7). 10. Verniz de resina de sangue-de-drago e álcool. 11. Fís. No espectro visível (q. v.), a cor da radiação eletromagnética com os mais longos comprimentos de onda, situados, aproximadamente, entre 620 e 790 nanômetros. 12. Pop. Condição de prejuízo (de indivíduo, empresa, etc.). vermelho2 S. m. Zool. 1. Bras. Designação comum a várias espécies dos lutjanídeos, especialmente o peixe actinopterígio, perciforme, Lutjanus aya, de coloração vermelha tendente ao róseo, mais clara no abdome, mancha negra no meio do corpo e na parte anterior. Atinge até 1m de comprimento, e sua carne é boa. Ocorre em toda a costa do Brasil. [Sin., nesta acepç.: acaraaia, acarapitanga, acarapuã, caranha, carapitanga, VERDE verde Adj. 2 g. 1. Da cor mais comum nas ervas e nas folhas das árvores; da cor da esmeralda. 2. Diz-se dessa cor. 3. V. verdejante. 4. Diz-se da planta que ainda tem seiva. 5. Diz-se da fruta que ainda não está madura. 6. Diz-se da madeira que não está seca. 7. Muito pálido. 8. Fig. Tenro, fraco, delicado. 9. Fig. Relativo aos primeiros anos de existência. 10. Coberto de vegetação (nativa ou cultivada). 11. Relativo à preservação dos recursos naturais e do equilíbrio ecológico (q. v.), ou às idéias ou ações políticas, econômicas, administrativas, dos que defendem esta

5 Salvo o Dicionário de Usos do Português Contemporâneo de Francisco da Silva Borba, São Paulo: Editora Ática, 2002 que inova sua macroestrutura inserindo construções sintagmáticas. Embora essa obra tenha escopos de dicionário padrão, ainda poderia ser classificada naquele de tipo especial, uma vez que priveligia o “uso” da língua. Infere-se que, devido a essa especificidade, muitas entradas, apesar de existentes, são omitidas porque não usuais. De fato, esse dicionário possui na sua nomenclatura entradas cromáticas como: bola-preta, cana-verde, capim-azul, carta branca, cheiro-verde, entre outras, muito bem descritas e organizadas. Nessa mesma esteira procede o Dicionário Unesp do Português Contemporâneo de Francisco da Silva Borba (org.) São Paulo: Editora Unesp, 2004.

6 7 Por questões de espaço, restringir-me-ei a analisar apenas este dicionário e não o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

preservação. 12. Relativo ao uso ou à aplicação de princípios ou técnicas não-poluentes de exploração dos recursos naturais. 13. Relativo ao, ou que é partidário ou simpatizante do PV (Partido Verde) [v. verde (11)]. ~ V. algas -s, área -, bode -, caldo -, carne -, cinturão, Inferno -, luz -, marketing -, ouro -, pano -, raio -, sinal -, tapete – e vinho -. S. m. 14. A cor verde em todas as suas gradações. 15. Fís. No espectro visível (q. v.), a cor da radiação eletromagnética de comprimento de onda situado, aproximadamente, entre 510 e 575 nanômetros. 16. A vegetação, as plantas verdes; verdor, verdura. 17. Os recursos vegetais em geral, esp. aqueles que formam ecossistemas naturais, ou os encontrados em áreas em que ainda não houve interferência sensível das atividades humanas. 18. P.ext. O meio ambiente; a natureza. 19. Bras. Alimentos verdes para o gado. 20. Bras. N.E. GO A estação chuvosa. 21. Bras. MG Pastagem que rebenta após a queima da manga chimarrão. 23. Bras. AL Verdete us. para matar formigas. S. 2 g. 24. Bras. V. integralista (2). 25. Bras. Membro do Partido Verde, ou simpatizante dele. Cair no verde. Bras. RJ Gír.1. Fugir para o campo; esconder-se no mato. Jogar verde. 1. Plantar verde para colher maduro. Plantar verde para colher maduro. 1. Estimular alguém mediante perguntas hábeis, dissimuladas, a fazer uma declaração, contar um fato; jogar verde.

As informações que figuram dos verbetes são bastante vastas e plurifuncionais; de fato, procuram conter toda a aquarela de significações possível para cada uma das entradas. As EIs, quando incluídas, localizam-se ao final do verbete, no interior ainda da sua microestrutura, como se observa para as EIs cair no verde; plantar verde para colher maduro e jogar verde da entrada verde do Aurélio, atribuindo ao consulente a tarefa de “descobrir” por si só onde estão introduzidas no dicionário. Ou seja, se o usuário não inferir que deverá utilizar como núcleo de sua pequisa o nome de cor, é muito pouco provável que terá sucesso em suas investigações dicionarísticas, no que diz respeito a essas EIs. De fato, nas entradas cair, plantar, colher, maduro e jogar não há indício algum para essas expressões. Chamo a atenção para a ausência total de EIs na entrada vermelho. Não há vestígios, com efeito, de inserção para as EIs estar/ficar vermelho de raiva/inveja/vergonha; ser faixa-vermelha; estar/sair no/do vermelho; parar no vermelho; passar no vermelho; estar/deixar/ficar vermelho como um camarão/pimentão; ver tudo vermelho; estender (o) tapete vermelho. Para a UL verde, ainda faltam informações sobre a EI: ter mão verde; em contrapartida, as EIs dar sinal verde; ser/estar casado na igreja verde; ver passarinho verde; tremer como/que nem varas verdes encontram-se registradas no interior dos verbetes das entradas sinal; igreja; passarinho e vara, respectivamente. Mais uma vez, a tarefa de “adivinhar” por qual palavra procurar Convém ressaltar que não existem regras lexicográficas que definam por qual unidade lexical presente na EI o dicionarista se deva pautar para a produção

de seus verbetes; há princípios, se posso assim me expressar, que orientam o pesquisador a identificar uma unidade que contenha mais representatividade semântica em detrimento de outra no conjunto total da expressão. Assim, o que se observa hoje nos dicionários brasileiros é uma lacuna no que diz respeito à orientação que um usuário de determinada obra deva seguir para a realização No que diz respeito às expressões proverbiais, a situação agrava-se um pouco mais. No dicionário Aurélio, nem mesmo no campo das rubricas há indicações sobre os provérbios. De fato, não é possível localizar PrCrs tais como Céu azul, vento de norte ou sul; Céu pardacento, ou chuva ou vento; Ruivas ao nascente, chuva de repente; Vermelho ao mar, calor de rachar; Mais vale ficar vermelho cinco minutos, que amarelo toda a vida; Mais vale rosto vermelho que coração negro; Todo sangue é vermelho; Quem se aproxima do rubro, vermelho ficará; quem se aproxima do nanquim, preto estará; Nem todo branco é farinha; Em briga de branco, preto não se mete; Sapato branco em Janeiro é sinal de pouco No caso dos dicionários bilíngües ou plurilíngües, as informações lingüísticas que acompanham cada unidade lexical costumam ser, geralmente, menos detalhadas do que a dos dicionários monolíngües, talvez porque, ao recorrer aos primeiros, o interesse do público-alvo se reduza apenas à busca de equivalentes semânticos ou mesmo de empregos sinonímicos. Assim, a maioria desse tipo de dicionário oferece somente algumas informações a respeito das unidades abarcadas, como a categoria gramatical a qual pertence e suas formas flexionadas, não se estendendo à indicação de seu uso colocacional, de co- Vejamos, a seguir, como os três dicionários bilíngües (DBs) italiano-português mais representativos no mercado lexicográfico brasileiro se comportam, no que diz respeito aos nomes de cores azzurro e grigio: Cromônimo Spinelli-Casasanta – 1988 Mea – 1997a Benedetti – 2004 AZZURRO (pers. LAZWARD) /ad’dzurro/, adj. azul; cielo —, céu azul; occhi azzurri, olhos azuis; azzurro mare, azul-marinho; il Principe Azzurro, o príncipe encantado; sangue —, sangue azul // s.m. azul // céu // (desporto) elemento da equipa nacional italiana; gli azzurri, a agg. azul: pesce azzurro, *(fig.) principe azzurro, príncipe encantado *i calciatori azzurri, joga- s.m. o azul. *jogador da Seleção Italiana. *(pol.) pertencente ao partido “Forza Italia”.

GRIGIO cinzento, a // pardo, a // cielo —, céu gris // pelliccia — /’gridzo/, adj. (pl. f. –gie capelli grigi, cabelos grisalhos; occhi grigi, olhos cinzentos; cielo una vita grigia (fig.), uma vida cinzenta; un’ora grigia, uma triste hora; — in volto, carrancudo, mal- humorado, trombudo, agg. cinzento. // grisalho: capelli grigi, cabelos grisalhos. // (anat.) materia, sostanza grigia, substância cinzenta, inteligência // (fig.) descolorido, uniforme, monótono. // (fig.) nublado: cielo grigio, céu // pêlo-de-rato, cavalo de pêlo cinzento.

Como se vê, os modelos de confecção de verbetes prestigiam o uso de sinônimos e descartam quaisquer possibilidades de definição da palavra-entrada para a compreensão semântica do consulente. Devemos destacar, todavia, que tanto o Mea quanto o Benedetti demonstram uma preocupação, ainda que incipiente, com a significação das entradas, uma vez que introduzem, ora sim ora não, sintagmas semicontextualizados ou orações-modelo em suas microestruturas, o que pode ser considerado um avanço, sem dúvida alguma, para a lexicografia bilíngüe do universo italiano-português. Ressaltamos, contudo, que o Mea refere-se ao contexto lingüístico-cultural de Portugal, característica essa que é inadequada ao contexto brasileiro, principalmente em processos ou práticas tradutórias de uma língua para a outra. De fato, observe o emprego da unidade lexical “equipa” na microestrutura da entrada azzurro. Uma outra observação que se faz relevante é concernente à entrada grigio nos três dicionários arrolados, a saber: o item lexical cinza em língua portuguesa é inexistente como equivalente tradutório em todos eles e em todos os níveis das suas microestruturas. De fato, essas obras lexicográficas arrolam como equivalentes de grigio as unidades lexicais cinzento, grisalho, pardo e gris. Infere- se, portanto, que cinza em português não é considerado um adjetivo cromático, mas tão-somente como o substantivo concreto que designa “pó ou resíduos de combustão”. Em consonância a esta observação, quando buscamos na direção português-italiano do Spinelli-Casanta a entrada cinza deparamo-nos com a inexistência da acepção de cinza como adjetivo que designa cor; o mesmo se observa no Dicionário de Português-Italiano do Mea. Entretanto, no Aurélio, essa acepção ocorre, vejamos: “Adj. 2 g. e 2 n. 5. Bras. V. cinzento (1 e 2): `Os olhos cinza, envelhecidos, não revelavam nada’ (Francisco Jorge Torres, Bruxaxá, p.16); vestido cinza; gravatas de cor cinza”. No DMC, grigio tem sido traduzido muitas vezes pelo adjetivo cinza, uma vez que comprovamos e atestamos a sua freqüência. É o caso de expressões cromáticas como: vestimenta cinza, roupa cinza, irmãs cinzas entre outras.

No que diz respeito às EIs, o único dos três DBs que traz alguma indicação de atentar aos fraseologismos é o Mea, quando insere grigio in volto do qual depreendemos a EI essere/diventare grigio in volto, isto é, estar/ficar de cara fechada/amarrada. Por outro lado, a localização da EI se dá ao final do interior Na direção português-italiano, a maioria das EICrs se localizam pelo próprio nome de cor nela contido, como ocorre para a entrada branco, no qual encontramos ter carta branca; ganhar cabelos brancos; ser branco como a neve/ o leite; passar a noite em branco etc. Em contrapartida, são inxesistentes indicações para expressões usuais como dar (um) branco e ser o rei da cocada preta, como o são para qualquer tipo de PrCr que tenho levantado até o momento. Finalizo esta seção com uma oportuna citação de Welker (2002, p.8) que coloca a questão “em que lugar do dicionário eles (os fraseologismos) deveriam ser arrolados?: O fato de que frasemas idiomáticos deveriam aparecer isoladamente no final do verbete é confirmado pela seguinte constatação de um usuário: “A própria experiência mostra que pode ser difícil encontrar logo um frasema no B-W [dicionário Brockhaus-Wahrig], sem primeiro ter que ler uma grande parte do verbete, quando não se associa […] imediatamente o significado do componente do frasema com determinada acepção do lema (Braasch 1988:95)”. É exatamente a associação entre componente(s) do fraseologismo e acepções do lema que é difícil ou mesmo, em muitos casos, impossível. Em que acepção – não idiomática – de pôr, de ponto ou de i poder-se-ia procurar, por exemplo, pôr os pontos nos “is”? (WELKER, 2002, p.8-9)

A macroestrutura do DMC No Dicionário Multilíngüe de Cores (DMC),8 a nomenclatura é constituída por sintagmas nominais, verbais ou preposicionados cromáticos; por expressões idiomáticas, provérbios e fraseologismos cromáticos na sua totalidade, ou o núcleo da expressão e de seu significado, quando são permitidas permutas com Sendo assim, no repertório lexicográfico ora em pauta há entradas como VISO ROSSO [fare il]; GIALLO DALL’INVIDIA [diventare; essere]; CINTURA NERA REI DA COCADA PRETA [ser]; VARA VERDE [tremer como; que nem]; TAPETE 8 Projeto em desenvolvimento na Universidade Estadual Paulista – UNESP – Campus de São José do Rio Preto – IBILCE, fomentado pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa e Bolsas de Iniciação Científica.

VERMELHO[estender];VERDEPARACOLHERMADURO[jogar;plantar];ROXO Para as expressões idiomáticas fixas, isto é, aqueles que não admitem nenhum tipo de substituição de suas partes morfológicas por outras, as entradas ANDARE IN BIANCO; DI PUNTO IN BIANCO; MANGIARE IN BIANCO; ESSERE IN ROSSO; VER TUDO NEGRO; REMÉDIO DE TARJA PRETA; SERVIÇO DE No DMC, os provérbios encontram-se estruturados primeiramente de acordo com o nome de cor que faz parte da sua unidade freaseológica. Em um segundo momento, toda entrada de PrCr é feita a partir da sua UF total, como À NOITE TODOS OS Como o objetivo deste trabalho é propor um verbete inovador, mais completo, que além de preencher os vazios lingüísticos comumente encontrados em dicionários bilíngües, facilite e torne prática a pesquisa por parte do consulente, optou-se aqui pela introdução dos fraseologismos como ocorrência real nos textos, ou seja, da forma como são utilizados no seu emprego lingüístico, evitando, dessa forma, o desconforto de uma busca ou procura demorada por Para finalizar, a título de exemplificação e ilustração das observações procedidas até o momento, creio ser apropriado apresentar dois dos 600 verbetes multilíngües elaborados para o DMC até então para cada uma das direções do dicionário: Italiano – Português DELFINO ROSA / / s.m. BOTO COR-DE-ROSA; COR DE ROSA: O boto cor-de-rosa está ameaçado de extinção no Brasil. (http://www.ucb.br/cecb/cd_5a_03/ html/ extincao.htm) // Entrambi i mammiferi acquatici sono in via di estinzione, così come il caimano negro e il delfino rosa. (http://viaggeria.lycos.it/comunita/ guide/ interventi.asp?id=450) *Pink dolphin: The pink dolphin has a large forehead, which holds all the echolocation organs. (http://www.amersol.edu.pe/ms/7th/ 7block/ jungle_research/new_cards/14/report14a.html) **Dauphin rose: Le voyage à la rivière des Amazones (1745), du Français Charles Marie de la Condamine, pose l’énigme du dauphin rose. (http://www.linternaute.com/savoir/encyclopedie/dauphins) ***Delfín rosado: El delfín rosado, también conocido como Delfín del Amazonas o “boto” es una de las cinco especies de delfínes de agua dulce. (www.clubdelmar.org/ delfinrosado.htm) # Mamífero (Inia geoffrensis) de água doce que tem o corpo pisciforme e pertence à familia dos cetáceos.

Português – Italiano CORPO AMARELO / / s.m. CORPO LUTEO: Dopo aver ovulato, il follicolo dominante si trasforma in un organello denominato corpo luteo con funzione endocrina di produzione di estrogeni e progesterone. (NET)// O LH (hormônio luteinizante) estimula a formação do corpo lúteo ou corpo amarelo. (NET) *Yellow body; corpus luteum: Following the release of the egg from the ovary, the follicle which held the egg collapses on itself, becoming a yellow body “corpus luteum” (NET) **Corps jaune: Image montrant le cycle de la maturatin de follicule de De Graaf, l’ovulation et son évolution vers la formation du corps jaune. (www.aly-abbara.com/livre_gyn_obs/images/ cycle_ovulatoire.html) ***Cuerpo amarillo; cuerpo luteo: se desarrolla el cuerpo amarillo o cuerpo luteo a partir de los folículos atrésicos, el cual secreta gran cantidad de progesterona y también estrógenos. (www.farmaciagermana.com/ FarmaciaGermanahomeopatiafitoterapiadietetica.htm) # Massa gialla creata sul luogo dell’espulsione dell’ovulo dalla ovaia, nel periodo di fertilità. SIN: CORPO LÚTEO

Agradecimentos À Profa. Dra. Maria Tereza Camargo Biderman, exemplo de mulher a ser seguido, por todos seus ensinamentos conscientes ou não em relação a minha vida profissional, acadêmica e pessoal.

 ABSTRACT: The lexicon of a language can be considered an asset or a group of linguistic assets belonging to an important and valuable society that is recognized in a specific place, area or country. Due to the technical and scientific progress, the lexicon is developed continually in several fronts, once the nomination process of the reality is a dynamic and lively constant. Chromatic lexical items, as singular linguistic microsystems full of syntactic- semantic-pragmatic significance and wealth, are part of that large set of lexical units, whose linguistic-semantic divergences are inherent and formative of culture and speech communities. In the color microsystem, the lexical universe contains kinds of fixed expressions of varied types, in a representative and peculiar way. In this paper I will specifically discuss some proverbial and fixed expressions through theoretical and practical basis regarding to the systemization and search of these lexical expressions in the process of elaborating a special lexical work, in this case, a Multilingual Dictionary of Colors –  KEYWORDS: Lexicon; color names; fixed expressions; proverb; multilingual dictionary.

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LEXICOGRAFIA E TERMINOGRAFIA: ALGUNS CONTRAPONTOS FUNDAMENTAIS

Cleci Regina BEVILACQUA1 Maria José Bocorny FINATTO2  RESUMO: Este trabalho faz considerações sobre a natureza e o funcionamento do trabalho terminográfico, contrapondo-o à produção lexicográfica. Partindo de experiências com a elaboração de dicionários terminológicos da área jurídico-ambiental, pondera-se que há, nos dois tipos de trabalho, duas perspectivas bastante distintas para o enfoque do léxico.  PALAVRAS-CHAVE: Lexicografia; terminografia; dicionário monolíngüe; dicionário especializado; terminologia.

Introdução No processo de elaboração de um dicionário terminológico, muito antes de ser finalizada a lista de verbetes e revisadas as respectivas definições, o terminólogo vivencia um processo geral de planejamentos: desenho da macroestrutura geral, da microestrutura, seleção da nomenclatura etc. Trata-se de um planejamento complexo, multifacetado e que deve ser revisado durante todo o período de execução da obra, especialmente na sua etapa de revisão final. Um questionamento se coloca já desde o início do planejamento do trabalho terminográfico e tende a recrudescer ao seu final: que critérios presidem a confirmação ou rejeição de uma unidade de registro no repertório de termos Adotando aqui o ponto de vista de quem organiza dicionários terminológicos e atua como mediador da comunicação especializada, queremos apenas pontuar e discutir possíveis elementos juntivos e disjuntivos entre dois “estilos” de produzir obras dicionarísticas, o estilo lexicográfico e o terminográfico. É nossa

1 UFRGS – Departamento de Línguas Modernas – 91540-000 – Porto Alegre – RS – Brasil. Endereço eletrônico: bevilacqua@terra.com.br 2 UFRGS – Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas – 91540-000 – Porto Alegre – RS – Brasil. Endereço eletrônico: mfinatto@terra.com.br

intenção contextualizar o questionamento antes colocado nas duas situações, mas privilegiando a produção terminográfica. De tal sorte, oferecemos alguns subsídios iniciais para quem pretenda investigar o que a terminografia tem de particular e em que aspectos provavelmente pode “conectar-se” com a tradição lexicográfica, salvaguardadas as suas diferenças e especificidades Nossas considerações, neste texto, serão tecidas tomando alguns poucos exemplos de dicionário geral monolíngüe de tipo padrão como um elemento central e prototípico da lexicografia, ainda que o dicionário monolíngüe de usos ou de freqüências seja também mencionado como um tipo de produto lexicográfico que lhe é afim ou conexo. Na parte que se refere à terminografia, valemo-nos de algumas amostras do nosso Glossário de Gestão Ambiental, em fase de finalização, tomado como uma amostra da grande variedade da produção Na oportunidade de um reconhecimento merecido, queremos registrar, neste trabalho, que a nossa primeira percepção da distinção aqui tratada, entre Terminologia/terminografia e Metalexicografia e lexicografia prática, diferença que hoje nos parece fundamental, só pôde colocar-se à medida que pudemos contar, há mais de 15 anos atrás, com as orientações valiosas da Profa. Dra. Maria Tereza Camargo Biderman. Naquela época, iniciávamos nossa trajetória em Terminologia e Lexicografia junto ao Grupo TERMISUL. Em visita à nossa cidade para ministrar uma disciplina de Lexicografia junto ao nosso Curso de Assim, ao revisitar o tema da distinção entre esses dois fazeres, temos, por um lado, a oportunidade de rememorar o nosso passado e, por outro, de ponderar o nosso próprio futuro como pesquisadoras em meio aos novos tipos de trabalhos que iniciamos recentemente.

Lexicografia – fundamentos e o processo de lematização A finalidade da obra lexicográfica é, na percepção do usuário, a de, simplesmente, dirimir dúvidas. Sob essa ótica, sua principal missão será auxiliar os falantes nativos de uma língua com suas dificuldades de ortografia, de categorização e gramatical de palavras, além de prestar esclarecimentos sobre o significado e o uso de uma palavra pouco utilizada, incluindo algumas informações etimológicas. Essa visão do dicionário monolíngüe como fonte de soluções imediatas para determinadas dúvidas de uso da norma culta da língua produziu e fez prevalecer, durante muito tempo, a idéia de que qualquer

dicionário fosse uma lista de palavras com determinadas informações sobre as mesmas e que, portanto, era um “produto-lista” de elaboração relativamente Contudo, para além dessa percepção utilitária tão imediata, em que pese a complexidade das funções citadas, é relativamente fácil antever que um dicionário, em geral, supera a singela função de “tira-dúvidas”. Afinal, é também um tipo de repositório ou de registro de todo um patrimônio sociocultural configurado pela língua, de modo que oferece bem mais do que respostas simples para dúvidas de grafia ou de regência verbal. Mas, com certeza, esse “a mais” contido em um dicionário só será descoberto pelo consulente da obra, independentemente do seu tipo ou natureza, à medida que ele saiba reconhecer as diferentes nuances de informação oferecidas em um verbete. Esse Além do caráter de “tira-dúvidas de acesso rápido”, a produção lexicográfica pode ser percebida de um outro modo, em um viés bem menos pragmático e bastante apaixonado:

Fazer um dicionário é um assunto sumamente laborioso que requer, além de capacidades científicas tão espetaculares como agudeza de espírito, fantasia, coerência e juízo crítico, muitas virtudes discretas, aparentadas com as dos artífices, como paciência, assiduidade, constância, precisão nos pormenores e – por último mas não em ínfimo lugar – uma grande paixão de colecionador. (WEINRICH, 1979, p.314) Seja para ultrapassar a apreensão da utilidade instantânea ou para compreender a visão admirada sobre os dicionários de quem aprendeu a conhecer as nuances das diferentes obras e que vivencia o seu fazer, quando interessa conhecer uma percepção teórica e metodológica exemplar da produção lexicográfica, Weinrich (1979) é um daqueles autores que merece ser relido sempre. Tomamos aqui algumas de suas idéias como um ponto de partida para No seu entendimento fundamental, a obra lexicográfica, quando sua elaboração estiver associada a um trabalho de lingüistas aplicados,3 terá, em geral, uma vinculação com três elementos básicos. Esses elementos são: a) um corpus de referência; b) uma dada concepção de gramática e de língua; c) uma No que diz respeito ao corpus de referência da lexicografia, trata-se de uma amostra de uso de língua, do qual parte um determinado tipo de reconhecimento 3 Lingüistas identificados grosso modo pelo autor, nos anos 70, pela subárea Lingüística Aplicada. Tal designação, nos dias de hoje, é bastante problemática em função de amplitude de estudos e produção assim identificada.

do léxico. Esse corpus deve ser o mais representativo possível em função do tipo de produto que se tem em mente e do tipo de usuário que se pretende Os elementos concepção de gramática e concepção de descrição do significado aparecem intrinsecamente relacionados. Se a obra tem um caráter mais descritivo ou mais prescritivo, se as apresentações das paráfrases definitórias que correspondem ao conteúdo de cada unidade lematizada são mais ou menos pontuais, acompanhadas de abonações ou de exemplos – isso tudo dependerá do tipo de filiação teórica, relativa aos Estudos da Linguagem, em que se enquadrem a obra e seus autores. Em síntese, a concepção de língua e uma determinada avaliação do papel do léxico frente ao todo da língua, subjacente a cada empreendimento lexicográfico, modelará a apresentação de Assim, por exemplo, no caso de um dicionário de usos do Português do Brasil, no qual estejam apresentadas as unidades por suas freqüências em um determinado corpus, espelhar-se-á uma concepção teórica específica. Nesse caso, conforme depreendemos dos ensinamentos de Biderman (1998, p.162), a língua poderá ser vista como um sistema probabilístico de combinatórias e de usos mais ou menos freqüentes, salientando-se que a freqüência será tomada Em uma perspectiva como essa, cada tipo de palavra registrada terá padrões de freqüência que lhe são peculiares e isso deverá ser levado em conta na apresentação das informações para o consulente do dicionário, inclusive na Um outro aspecto particularmente interessante do “procedimento lexicográfico” é a lematização. Afinal, como outros aspectos, implica uma determinada concepção teórica do que seja uma palavra, mas também funciona como uma “marca” do fazer lexicográfico. Consiste no registro sintético da unidade, a partir de uma forma de realização tomada como referência, normalmente indicada na forma singular e no masculino quando temos nomes, A lematização sintetiza, dentro de si, um reconhecimento da variação morfológica da unidade reconhecida como tal e também das suas combinatórias sintáticas. Essas combinatórias tendem a ser explicitadas no espaço do verbete destinado a exemplos, abonações e também no segmento tradicionalmente reservado às locuções em que a palavra lematizada participe, usualmente apresentadas como subverbetes de um verbete principal. Desse modo, por exemplo, em um dicionário monolíngüe, podemos encontrar um verbete para pé e, após todas as acepções elencadas para a palavra, um subverbete para pé de anjo.

Há ainda que se considerar a descrição dos significados da unidade, geralmente apresentados do mais denotado ao mais conotado, ordenados em uma sucessão de acepções. Esse ordenamento parece ser algo típico da produção lexicográfica, capaz de identificá-la como um gênero textual. Naturalmente, a apresentação de acepções deve ser criteriosa, não sendo raras ou recentes as críticas sobre sua não pertinência em algumas obras.4 Homonímia e polissemia são também itens relativos à descrição do significado, itens especialmente retratados nos dicionários de língua. Quando o lexicógrafo entender que é caso de homonímia, apresenta dois diferentes sentidos de uma palavra em entradas duplas: uma mesma unidade passa a ser vista como duas; por isso, terá dois verbetes separados. Se, em sua concepção, o lexicógrafo percebe o fenômeno como polissemia, colocará duas acepções Pequenos mas também grandes detalhes como esses citados até aqui, apenas a título de exemplo, são reveladores de posições teóricas, ora homogêneas, ora variadas, que circunscrevem um fazer capaz de apaixonar o observador atento da lexicografia. Afinal, o tratamento do léxico nos dicionários espelha uma série de posições, imagens e modelos do funcionamento da linguagem, sendo capaz de oferecer também um quadro de percepções, colocadas historicamente, sobre as relações entre a língua e a cultura de uma sociedade. Essas posições, repousadas nos dicionários brasileiros,5 percebidas pelos críticos desse tipo de obra e também por teóricos da linguagem em diferentes épocas, ensejam diferentes espécies de investigações científicas que, partindo da lexicografia, a tomarão como um objeto de estudo rico e Esses estudos, uma vez produzidos e devidamente divulgados, com certeza, promoverão a maior visibilidade de uma crítica lexicográfica brasileira. Além disso, podem subsidiar investigações sobre qualidade ou adequação de determinados tipos de dicionários, auxiliando a preencher lacunas de formação de professores na área de Letras e Lingüística e impulsionando uma melhor percepção do fazer lexicográfico em nossa sociedade.

O fazer terminográfico, frente às interfaces da Lexicologia, Lexicografia teórica, e Lexicografia prática, coloca-se como uma aplicação das teorizações

4 Um trabalho que tratou de investigar a pertinência de acepções na lexicografia brasileira é o de Krieger (1980). As suas considerações ainda são válidas, aplicáveis a novas obras e merece ser relido. 5 Para uma boa e recente síntese da trajetória histórica da metalexicografia e dos dicionários brasileiros, recomendamos o trabalho de Welker (2006).

da Terminologia. É, assim, diferente da lexicografia, frisamos, mas guarda com A elaboração de um dicionário ou glossário de termos,6 por exemplo, de Culinária ou de Direito Ambiental, pode ser percebida como um produto imediato, que, tal como o produto lexicográfico, também serve para tirar dúvidas sobre o sentido de um “termo técnico”, em uma área de saber específica. Mas também pode ser visto como produto da reflexão e, ao mesmo tempo, resultado da O produto concreto, um dicionário terminológico, conforme temos entendido junto ao Grupo TERMISUL,7 advém do reconhecimento terminológico, processo empreendido a partir de um dado corpus de referência, segundo uma sistemática planejada. Esse corpus representa uma determinada linguagem especializada em uso e deve servir de fonte para que se reconheçam usos terminológicos em sua dimensão mais ampla, o que comporta padrões textuais, fraseologias (conforme a concepção de BEVILACQUA, 2004), expressões cristalizadas, combinatórias freqüentes ou específicas, e, naturalmente, definições ou Essa linguagem técnica ou científica, segundo nossa ótica, não corresponde a uma língua à parte da língua cotidiana, mas perfaz um uso seu que a torna peculiar, especializada, em uma dada situação de comunicação. O reconhecimento dessa linguagem, procedido segundo determinados princípios e critérios, gerará o dicionário ou glossário, grosso modo percebido apenas como Há quem considere que a terminografia pode ser compreendida como uma lexicografia especializada (PICHT, 1993). Optamos por desviar, aqui, dessa discussão, apenas assinalando a sua existência. Afinal, entendemos que, quando se imagina que a terminografia seja uma derivação da lexicografia, colocamo- nos em meio a um enredamento teórico e epistemológico, o qual convém ser Entretanto, à parte de uma longa discussão sobre derivações ou disjunções que se queira travar oportunamente, vale recuperar as idéias de Coseriu (1979), ainda hoje úteis para uma aproximação das duas práticas. Esse célebre lingüista assinalava que um dicionário (de qualquer tipo, lexicográfico ou terminológico) trata de reconhecer uma língua funcional (grifos nossos). Na sua concepção, o termo língua funcional é entendido como uma língua delimitada dentro de uma língua histórica. Em tais condições, os dicionários tratam de uma língua que 6 Adotamos junto ao Grupo TERMISUL uma distinção entre dicionário e glossário. Um glossário, na nossa concepção, implica uma abrangência menor de corpus de estudo que a de um dicionário. Um dicionário da legislação ambiental brasileira pressupõe um trabalho exaustivo de reconhecimento da terminologia. Um glossário, por sua vez, compreenderia, usualmente, um segmento dessa mesma legislação. 7 Para maiores detalhes, veja www.ufrgs.br/termisul.

corresponde a um determinado “dialeto”, num determinado nível, e na forma de Nesse ponto temos, então, uma importante conexão-pergunta entre os dois fazeres aqui em cotejo: uma linguagem especializada poderia ser entendida como um estilo funcional de uma língua determinada? Nessa medida, sem debater o estatuto da estilística coseriana frente aos Estudos da Linguagem atuais, a lexicografia que, por exemplo, tratasse da variante sul-rio-grandense do português brasileiro seria bastante semelhante à lexicografia especializada que se ocupe, também por exemplo, da “língua funcional” dos químicos utilizada Ainda que se reconheça, como bem assinala Cabré (1998, p.38), que “as regras gerais que governam o funcionamento do léxico são as mesmas que governam os termos” (grifo nosso) e que não temos uma “língua” diferente da língua portuguesa do Brasil na comunicação técnico-científica feita em português, acreditamos que os processos de trabalho lexicográfico e Todavia, há diferenças notáveis. Diferenças que não precisam ser “resolvidas”, mas, sim, compreendidas a bem de se preservar um trabalho criterioso em um e em outro caso. Naturalmente, é preciso reconhecer que a lexicografia monolíngüe incorpora, aos seus diferentes itens de informação, registros diatécnicos, isto é, indica e explicita as determinadas acepções de uma palavra que correspondem a seus usos técnicos ou científicos. Isso é inerente à prática lexicográfica e é feito de um modo peculiar. O processo equivalente, na relação todo-parte entre linguagem cotidiana, geral, e linguagem especializada, não ocorre na terminografia. Isso porque a preocupação não é O modo de registro do verbete, em cada uma das situações, atestará algumas especificidades que merecem atenção à medida que realizam concepções teóricas distintas. O modo de lematização, por exemplo, é um fator de distinção considerável da Terminografia, sobre o que tratamos a seguir.

Fundamentos da Terminografia e alguns exemplos contrastantes Como vimos em um trabalho anterior (FINATTO, 1998), a obra enciclopédica tende a superar a lexicográfica em detalhamento e variedade de informações definicionais. Na obra terminográfica, verificamos um modo de apresentação da informação que lhe é típico, muito mais recortado ou delimitado, normalmente vinculado a um conjunto textual de referência reconhecido pelo consulente da obra, tal como se tivesse sido elaborado especialmente para um determinado

segmento de usuários. Assim, muitas informações não precisam ser explicitadas no verbete, pois há a pressuposição, empiricamente fundamentada, do Isso é o que vemos nos exemplos a seguir:8 Circunvizinhança em que uma organização opera, incluindo-se ar, água, solo, recursos naturais, flora, fauna, seres humanos e suas inter- relações (cf. NBR ISO 14001). Nota: Neste contexto, circunvizinhança (KRIEGER et al. Glossário de Gestão Ambiental, no prelo) meio ambiente 2 m. sing Conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas. (cf. Legislação Brasileira LEI6938 de 31/08/81) (KRIEGER et al. Glossário de Gestão Ambiental, no prelo) No caso do nosso Glossário, vê-se uma clara vinculação das definições e das demais informações com um universo de referência bastante específico. No primeiro verbete, um conjunto de Normas ISO da série 14.000, relativas à certificação de conformidade ambiental para empresas privadas ou públicas. No segundo, a referência é a legislação ambiental brasileira relativa ao mesmo Outro aspecto digno de nota é o tratamento do significado do termo meio ambiente. Os dois verbetes, apresentados um após outro, com o acompanhamento de um número, indicam que reconhecemos dois conceitos diferentes, o que caracteriza, na relação com a lexicografia, um tratamento de homonímia. Aqui, nessa decisão metodológica, vale um princípio teórico básico da terminografia: a cada conceito diferente deve corresponder uma entrada diferente, devidamente sinalizada. Assim, definições diferentes pressupõem conceitos diferentes,9 individualizados, válidos em determinadas situações e Além disso, vale destacar que, de acordo com nossa concepção de Terminologia, de viés comunicativo e textual, a qual dirige e modela a apresentação da informação para o usuário, acreditamos que o estatuto terminológico de uma unidade é dado por sua pertinência a um determinado tipo de texto. Isto é, nenhuma unidade lexical é a priori um termo, mas sim,

8 Na nossa obra aparecem também termos equivalentes em alemão, espanhol, francês e inglês, e notas sobre 9 Não exploraremos aqui a distinção entre conceitos e significados. Para maiores detalhes sobre essa importante distinção, veja-se, por exemplo, a tese de doutoramento de Finatto (2001).

torna-se um termo à medida que essa condição é ativada em um ambiente Vejamos, agora, um exemplo de registro lexicográfico desse mesmo item: meio 1 [Do lat. mediu, por via popular.] metade: Depois de marcar o meio da linha vamos dividi-la em duas 2. Ponto eqüidistante, ou mais ou menos eqüidistante, de diversos outros em sua periferia; centro: Dois diâmetros se cruzam no meio da [seguem mais 20 acepções] 1. O conjunto de condições naturais e de influências que atuam sobre [seguem mais 17 locuções] (DICIONÁRIO AURÉLIO, 1999)

Esses, acreditamos, são exemplos bastante ilustrativos das duas práticas em suas junções e disjunções. Naturalmente, cabe registrar que o Dicionário Aurélio também utiliza o sistema de numeração para marcar homonímia, além da farta indicação de polissemia. Há um segundo verbete para meio, “meio 2”, Nos verbetes terminográficos, a característica é a acepção única, embora haja a presença de dois registros em separado para o termo meio ambiente. Na lexicografia, tal como se depreende desse exemplo, meio ambiente está morfologicamente subordinado ao registro da palavra meio. Esse tipo de subordinação não tem razão de existir no repertório terminográfico, visto que a concepção de léxico, diferente da primeira, não está em função da morfologia ou da etimologia, mas, sim, em função de um uso determinado, bastante localizado. Nesse sentido, se o uso mais freqüente de um determinado termo for no plural, assim será lematizada a unidade terminológica: no plural. Um exemplo desse caso é o termo águas residuárias, que também integra o nosso Glossário de Gestão Ambiental.

Discussão e perspectivas Como tentamos demonstrar brevemente, a lexicografia e a terminografia, representadas aqui por uns poucos exemplos de um dicionário monolíngue e

de um glossário de termos, são práticas diferentes à medida que realizam concepções diferentes da língua e do léxico, nas funcionalidades da língua a Considerando o pleno valor da prática terminográfica mais tradicional, representada pela produção dicionarística impressa em papel, parece-nos importante também ampliar a pesquisa na área para que sejam explorados, de um modo mais dinâmico, outros aspectos do reconhecimento terminológico, tais como a distribuição e o uso das terminologias em textos especializados, com informações oferecidas ao usuário em formato digital. Nessa direção, o grupo de pesquisa que integramos está desenvolvendo o projeto “Acervo TERMISUL: padrões da linguagem legal, normativa e científica”.10 Entre as informações que já estão sendo oferecidas, estão: a) corpora textuais em português, alemão, espanhol, francês e inglês; b) ferramentas para a extração de informações desses corpora, tais como geradores de contextos por expressões Também será oferecido um conjunto de amostras de glossários elaborados pelos alunos de graduação do Curso de Bacharelado em Letras – habilitação Tradutor. Esses glossários privilegiam a identificação dos termos e de seus diferentes tipos de uso em textos. A partir desse princípio teórico-metodológico, da nossa concepção de Terminologia, juntamente com uma ampla lista dos termos mais freqüentes em dada área de conhecimento ou especialidade, são Em síntese, além da inserção textual da terminologia, interessa-nos o modo como se configura o conhecimento e suas inter-relações. Esses dois procedimentos também podem ser incorporados ao rol das particularidades de um fazer terminográfico mais atual, fortemente marcado pela informatização e por recursos de consulta on-line. A esse fazer aqui referido, certamente corresponde uma produção lexicográfica de feição digital, informatizada, consultada via internet, que se diferenciará da produção tradicional impressa tanto pelo conteúdo quanto pelo tipo de recursos, orientação teórica e Ao encerrar este trabalho, vale retomar o questionamento lançado no seu início sobre que critérios presidem a confirmação ou rejeição de uma dada unidade em um repertório de termos, seja um glossário colocado na internet ou Os critérios são vários e, frisamos, devem ser teoricamente dependentes. Além disso, determinam não só quais elementos são apresentados, mas também o que deve e o que pode estar ausente. São princípios que também condicionam

a forma de apresentação das informações para o consulente. A origem desses princípios não importa; o que importa é que sejam constantes, homogêneos, Assim, muito antes que saber responder, pontualmente, a pergunta básica da terminografia, vale, sim, saber de onde ela se coloca e o que há nela implicado. Vale o mesmo para a produção lexicográfica e para a seleção de entradas de um Conforme a nossa homenageada, “é preciso desvendar o mistério de como se estrutura o léxico da nossa língua” (BIDERMAN, 1998, p.178). Nessa missão, lexicografia e terminografia cumprem importantes funções. Os “desvendamentos” da lexicografia e da terminografia, ao nosso ver, não são antagônicos; mas complementares.

Agradecimentos À colega Anna Maria Becker Maciel, que colaborou com o planejamento estrutural deste texto. Às estudantes Siane Simioni e Edna Hornes de Lima, pelo auxílio inicial. Ao CNPq, à FAPERGS e PROPESQ/UFRGS, pelo suporte às nossas pesquisas em Terminologia.

BEVILACQUA, C. R.; FINATTO, M. J. B. Lexicography and terminology: some basic contrasts. Alfa, São Paulo, v.50, n.2, p.43-54, 2006.

 ABSTRACT: This paper deals with the nature and functioning of the terminographical work in counterpoint to the lexicographical work. Starting from the experience of elaborating dictionaries in the legal environmental area, it is put forward that there are two quite distinct  KEYWORDS: Lexicography; terminography; monolingual dictionary; specialized dictionary; terminology.

Referências bibliográficas BEVILACQUA, C. R. Unidades fraseológicas especializadas: descripción y regras de formación em el ámbitode la energía solar. 2004. Tese (Doutorado em Lingüística Aplicada) – Instituto Universitário de Lingüística Aplicada, Universitat BIDERMAN, M. T. A face quantitativa da linguagem: um dicionário de freqüências do português. Alfa, São Paulo, v.42, p.161-181, 1998. Número especial.

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11 “Terminologia – Uma área de conhecimento trans e interdisciplinar. A evolução desde Eugen Wüster”, artigo de Heribert Picht. A tradução de Leonardo Zilio, feita em 2005, em breve estará disponível no Cadernos de Tradução do Instituto de Letras da UFRGS.

LÉXICO E GRAMÁTICA NO DICCIONARIO DA LINGUA PORTUGUEZA (1813) DE ANTÓNIO DE MORAIS SILVA

Clotilde de Almeida Azevedo MURAKAWA1  RESUMO: António de Morais Silva publicou em 1789 a 1ª edição de seu Diccionario da Lingua Portugueza e em 1813, a sua 2ª edição, ambas em Lisboa. Partindo da relação entre gramática e dicionário, obras que se completam no ensino e aprendizagem de uma língua, estudamos neste trabalho a projeção gramatical do autor na elaboração dos verbetes da 2ª edição do Diccionario, numa tentativa de demonstrar que Morais, influenciado pelas idéias reformistas do Século das Luzes em Portugal, inovou em termos lexicográficos e gramaticais, registrando essas inovações e também algumas críticas às gramáticas de  PALAVRAS-CHAVE: Lexicografia; léxico; gramática; palavra-entrada; unidade lexical; pensamento lingüístico.

Contexto histórico-cultural O século XVIII, conhecido como Século das Luzes ou período do Iluminismo, representou em Portugal um momento de renovação nas várias instituições político-culturais do país. Para Coelho (1979, v.2, p.455) o Iluminismo pode ser definido como […] um esforço de renovação cultural, de natureza sobretudo política, realizado no curso do séc. XVIII, que tinha em vista, por uma actualização de conceitos, de normas e de técnicas, uma maior eficiência na ordem social, e se subordinava à concepção nova do progresso humano. A designação provinha, como é óbvio, do significado de iluminação como esclarecimento, e com isto se prende a designação daquele século como das luzes.

Contraposto ao século anterior de estagnação principalmente cultural, o setecentismo português foi inovador e reformista. Inúmeras causas levaram

1 UNESP – Faculdade de Ciências e Letras – Programa de Pós-Graduação em Lingüística e Língua Portuguesa – 14800-901 – Araraquara – SP – Brasil. Endereço eletrônico: murakawa.jau@netsite.com.br

Portugal a um isolamento dos demais países da Europa, principalmente da Inglaterra e França: 1) a ausência de uma corte protetora voltada para a cultura em geral, como tinha sido a de D. Manuel e de D. João III; 2) o Colégio das Artes nas mãos dos religiosos da Companhia de Jesus controlando a maior parte das publicações: 3) o ensino sob direção dos jesuítas; 4) a Inquisição e as mesas censórias tolhendo a liberdade de expressão e pensamento (MURAKAWA, 2006). Foi preciso chegar o reinado de D. João V (1689-750) para que […] esses sintomas premonitórios da necessidade dum novo tipo de cultura, que lá fora adquirira já direitos de cidade, se transformem numa declarada oposição à cultura jesuítica ainda dominante entre nós. Verney, Teodoro de Almeida, Francisco Freire de Carvalho, Lopes Praça e outros são unânimes em considerar o reinado de D. João V como a época da introdução da cultura moderna em Portugal (MACEDO, 1934, v.6, p.423).

Nomes ilustres se destacaram durante o reinado de D. João V e entre eles D. Luís da Cunha, D. Francisco Xavier de Meneses, 4º Conde da Ericeira e fundador das Conferências Discretas e Eruditas, Alexandre de Gusmão e, em especial, D. Raphael Bluteau, autor do Vocabulario Portuguez e Latino (1712-1728), obra É ainda no reinado de D. João V e de seus sucessores que a cultura portuguesa é contemplada com a fundação de instituições culturais basilares, como a Academia Real de História Portuguesa, fundada em 1720 por D. João V, e a No tocante ao ensino, as propostas reformistas de Luis António Verney, expostas em seu Verdadeiro Método de Estudar de 1746, provocaram mudanças significativas. Cidade (1934) reúne no excerto abaixo as críticas e o pensamento de Verney com relação à vida política e cultural do país naquele tempo: à Escolástica, o pedagogista impugna a célebre gramática alvarística, repreende o desprêzo do ensino de história, da cronologia e da geografia, como das línguas grega e hebraica, indispensáveis à interpretação das Letras Sagradas, que quere directa, e não através de emplastro dos comentaristas; critica o ensino da lógica, da filosofia, da metafísica, e da ética, do direito, da teologia, mais empenhado na exibição das subtilezas do que atento à objectividade do real, que cumpre observar e experimentar, ou à possibilidade do texto que é profliga o método especulativo aplicado à medicina, que reduz toda (CIDADE, 1934, v.6, p.472)

Após a expulsão dos jesuítas em 1759 pelo Marquês de Pombal e a publicação do Alvará de 28/06/1759 e da Carta Régia de 06/11/1772 no reinado de D. José I, foram criadas em Portugal 1758 cadeiras autônomas de Latim, Grego, Retórica e Filosofia, no ensino oficial, já fora do controle dos religiosos. Em 1761, é criado o Colégio dos Nobres por indicação de M. Pina e Proença e Verney, e principalmente de Ribeiro Sanches sendo essa “[…] a primeira criação pedagógica pombalina que põe em prática recomendações como a primazia no estudo do Português sobre o Latim, a necessidade de línguas vivas, das ciências algébricas e experimentais, exercícios físicos, noções práticas” (SARAIVA; LOPES, 1979, p.604). A revolução cultural por que passava Portugal foi acompanhada pelos ideais da Revolução Francesa representados por Diderot, Voltaire, Mirabeau, Montesquieu, autores com obras proibidas pela Inquisição de circularem, mas que corriam, às escondidas, de mão em mão entre os jovens intelectuais e universitários portugueses.

António de Morais Silva e o Século das Luzes Foi no contexto histórico-cultural anteriormente delineado que vamos situar António de Morais Silva (1755-1824), brasileiro, natural do Rio de Janeiro e estudante de Direito da Universidade de Coimbra. Fazia parte o lexicógrafo brasileiro de um grupo de jovens estudantes que, como todo jovem, cheio de ideais de mudanças, algumas delas vindas da França, não era bem visto pelo Denunciado pelo colega Francisco Cândido Chaves por práticas consideradas heréticas aos olhos do Tribunal, Morais foi processado por duas vezes: a primeira em 1779 (Processo nº 8044) e a segunda em 1806 (Processo nº 14321). Antes de ser chamado a depor, apresentou-se ao Tribunal, em 1779, para fazer uma confissão voluntária e gozar do direito de “apresentado”, conforme estabeleciam os regimentos inquisitoriais. António Baião, sobre a apresentação de Morais, diz o seguinte: Coimbra era meio pequeno e o segredo da Inquisição estava bem longe de ser guardado à risca, motivo porque o futuro gramatico e dicionarista se apressou a ir assim de encontro ás acusações que lhe faziam. (BAIÃO, 1924, v.2, p.115) Mesmo tendo confessado, o Santo Ofício não julgou sinceras suas palavras e decretou sua prisão. Tal ato levou o dicionarista à fuga para a Inglaterra, onde recebeu a proteção de Luis Pinto de Sousa Coutinho, Visconde de Balsemão, Tendaes e Ferreiros e representante de Portugal na Inglaterra.

O agradecimento de Morais ao Visconde de Balsemão aparece no “Prologo ao Leitor” na edição de 1789 de seu Diccionario, reproduzido na edição de 1813, onde considera seu protetor “Varão benemerito da Humanidade, e da Patria” e a quem deveu os ensinamentos adquiridos, consultando a vasta e copiosa livraria Retornando a Lisboa em 1785, depois de passar pela Itália e França, apresentou-se Morais ao Tribunal para fazer sua confissão de culpa dando mostras de verdadeiro arrependimento. O Santo Ofício condenou-o, em 23 de dezembro do mesmo ano, a fazer a abjuração in forma Ecclesiae, com confiscação Permaneceu Morais em Portugal até 1794, quando, depois de se casar com Narcisa Pereira da Silva, resolveu retornar ao Brasil, mais precisamente, para Muribeca, em Pernambuco, onde adquiriu um engenho de cana-de-açúcar e Novamente processado pela Inquisição em 1806, esse segundo processo não logrou efeito e foi arquivado definitivamente. Morais morreu anos mais tarde, Foi, provavelmente, em Londres que Morais organizou a estrutura de seu Diccionario da Lingua Portugueza publicado em 1789 pela Officina de Simão Thaddeo Ferreira, em Lisboa. Desta 1ª edição Morais não se considerou autor, dando a Raphael Bluteau o mérito da composição e a ele, Morais, o mérito de reformador. Na verdade, desde a 1ª edição já podemos encontrar as inovações lexicográficas que iriam se consagrar na edição de 1813, publicada também em Lisboa na Typographia Lacerdina. Nesta edição o autor diz: “Diccionario da Lingua Portugueza, recopilado dos vocabularios impressos até agora, e nesta segunda edição novamente emendado, e muito accrescentado, por Antonio de A edição de 1789, vendida aos editores Borel, Borel e Companhia, foi considerada uma obra quase perfeita para a época: […] com a publicação do novo Diccionario da Lingua Portugueza, que pertendemos dar á luz; o qual por ser extrahido de quantos até agora tem apparecido, e concertado por sugeito, em quem concorrião as partes de bom entendimento, discrição, zelo, e constancia precisas para tão difficil, e trabalhosa empreza, tem sido reputado no juizo das pessoas mais entendidas, senão absolutamente perfeito, ao menos o melhor de quantos ha, e todavia bastante para encher o importantissimo fim a que se dirige. (SILVA, 1789, v.1, p.iv) Foram os mesmos editores que em 1813 levaram a público a 2ª edição do Diccionario que apresenta, além da dedicatório ao Príncipe Regente D. João VI,

o Prologo da Primeira Impressão, o Ao leitor Benevolo, a Tabua dos Livros Portuguezes com que se autorisa o uso das palavras e o Epitome da Grammatica Portugueza, compêndio gramatical publicado anteriormente em 1806 por Simão Thaddeo Ferreira. Ao final do Epítome, Morais diz: “Acabou-se este Epitome da Grammatica Portugueza no Engenho novo da Moribeca em Pernambuco em 13 O acréscimo do Epitome à 2ª edição nos permite pensar que o lexicógrafo buscou apresentar suas reflexões sobre a gramática da língua portuguesa aliada ao seu Diccionario com a finalidade de estabelecer uma relação entre léxico e No Epítome, o consulente encontra as regras gerais da língua; e nos verbetes do dicionário, as observações que Morais faz, contrariando, algumas vezes, as regras gramaticais vigentes. Ressalte-se que tais observações não estão registradas na edição de 1789, e isto corrobora o pensamento de que o lexicógrafo brasileiro buscou apresentar ao público português uma obra inovadora, com fundamentação lexicográfica e gramatical própria e de acordo com o pensamento iluminista que circulava em seu tempo. Não é por acaso que Morais coloca como epígrafe ao Epitome o trecho seguinte de Condillac (1715-1780): Nous avons compliqué nôtre Grammaire, parce que nous l´avons voulu faire d´après les grammaires Latines. Nous ne la simplifierons, qu´autant que nous rappellerons les expressions aux élémens du discours. Condillac, Gramm. p. 2. chap. 21 note(1) p.205. édit. de 1780. à Geneve. (SILVA, 1813, v.1, p.i) O conteúdo da citação reflete o pensamento lingüístico que ia se estabelecendo: tornar a língua portuguesa o centro dos estudos, deslocando para outro plano a língua latina. Era esta a proposta de Verney que Coelho sintetiza no trecho seguinte: […] a necessidade de tornar centro de estudos lingüísticos, em vez do Latim, a própria língua materna; ao lado das línguas clássicas já consideradas, de algumas modernas (para o caso, e conforme as necessidades do tempo, o Francês e o Italiano); a substituição da Retórica de ornato, sem finalidade persuasiva, por certos princípios mínimos conducentes ao discurso em perspectivas de razão; a inclusão, no quadro das necessidades da cultura geral, dos estudos históricos e geográficos […] (COELHO, 1979, v.4, p.1139) Constituído de um Prologo dirigido ao Leitor Benevolo e de uma Introdução, o Epitome está dividido em dois Livros: Livro I Das Palavras por si sós ou partes das Sentenças, com 9 capítulos, dedicados cada um a uma classe gramatical; e

o Livro II Da Composição das partes da Sentença entre si, ou Syntaxe, com 4 capítulos, onde o Capitulo I trata da Syntaxe de Concordancia e da Syntaxe da Regencia; o Capitulo II Da Syntaxe, ou Composição Figurada; o Capitulo III Das Composições viciosas; e o Capítulo IV Dos Sinais Ortograficos, e da Pontuação. Fecham o conjunto dos livros as tábuas da conjugação verbal. As 48 páginas do Epitome, com um número representativo de notas de pé de página, apresentam a gramática da língua portuguesa pensada e refletida por Morais e registrada, Do Epitome (SILVA, 1813, v.1, p.iii), extraímos cinco pontos importantes que mostram a concepção de Morais sobre a gramática do português: 1. A Grammatica é arte, que ensina a declarar bem os nossos 2. A Grammatica Universal ensina os methodos, e principios de falar 3. A grammatica particular de qualquer lingua, v.g. da Portugueza, applica os principios communs de todos os idiomas ao nosso, seguindo 4. Trata pois a Grammatica das Sentenças, (isto é, ensina a fazer proposições, ou sentidos perfeitos) e das diversas partes, de que ellas 5. As sentenças constão de Palavras: as palavras de Sillabas; as Sillabas de Sons elementares, e suas modificações, e estes representão se aos olhos com Lettras.

Esses cinco pontos do pensamento do lexicógrafo nos permitem estabelecer uma relação com o pensamento lingüístico moderno: 1) a existência de universais lingüísticos; 2) a noção de uso lingüístico e de norma culta; 3) o princípio da articulação da linguagem; 4) o princípio da variação fonética; 5) a diferença entre som e letra.

Léxico e gramática no Diccionario Rey-Debove (1984), em seu artigo “Léxico e Dicionário”, publicado na Revista Alfa, em tradução de Clóvis Barleta de Morais, afirma que a aprendizagem de uma língua se dá de duas maneiras: uma natural, baseada em tentativas de comunicação por meio de conhecimento memorizado, como é o aprendizado da criança em seu ambiente familiar, e outra, artificial e metalingüística, baseada em consulta a dois tipos de obras descritivas: a gramática e o dicionário. Essas duas maneiras de aprendizagem não são excludentes, pelo contrário, se complementam; a aprendizagem natural é aperfeiçoada ao longo do tempo através da gramática e do dicionário; e a artificial “é na maioria das vezes

sustentada por verificações duma experiência prática de comunicação” (REY- A partir da afirmação da lingüista francesa dando ênfase à relação estreita entre gramática e dicionário na aprendizagem de uma língua, analisamos o Diccionario de Morais em sua edição de 1813, na tentativa de comprovar que o lexicógrafo brasileiro tinha plena consciência dessa relação estreita e buscou registrar nos verbetes de seu dicionário, de maneira explícita e algumas vezes Muito embora tenha utilizado o Vocabulario Portuguez e Latino (1712-1728) de Bluteau como fonte de referência para a elaboração de seu dicionário, apresentou inovações lexicográficas que tornaram sua obra modelo para a A primeira das inovações foi registrar, logo após a palavra-entrada, a classe gramatical a que pertence a unidade lexical. Esta, por sua vez, aparece grafada em maiúscula e com o acento diacrítico indicando a sílaba tônica; o sinal ( ` ) indicando se a vogal é fechada e o agudo ( ´ ) ou forte para as abertas; chamou de mudas as pretônicas e postônicas. Este tipo de informação não aparece em Bluteau, que apenas registrou o gênero da unidade latina equivalente à palavra-entrada. No Epitome da Grammatica Portugueza, Morais descreve de um modo geral os sons vocálicos e consonantais; mas é no interior do verbete que chama a atenção do leitor para determinadas particularidades com relação à pronúncia de certas unidades. Assim, no verbo AFOGÁR, informa no final do verbete: “N.B. afogar tem o mudo: except. Indicat. eu afógo, _ ógas, _ óga; afógão: subj. eu, elle afógue, tu afógues, elles afóguem” (SILVA, 1813, v.2, p.58). O mesmo tipo de informação está registrado entre parênteses em PARA, preposição: “(os aa mudos)” (SILVA, 1813, v.2, p.393). Neste caso, o que leva os aa serem mudos é a atonicidade da preposição em sua colocação frasal, como exemplifica Morais Com relação à pronúncia, Morais deu especial atenção às unidades lexicais cuja grafia etimológica poderia induzir o consulente a erro de leitura. Em BRACHIOLOGIA adverte entre parênteses “(ch como k)” (SILVA, 1813, v.1, p.296); ou ainda em INHÁBIL ou INHABILENTÁR, chama a atenção para que o nh não soe. Em INHÁBIL registra: “(o n não fere o h)” (SILVA, 1813, v.2, p.161); e em No Prologo da 1ª edição, de 1789, reproduzido na edição de 1813, se declara Morais contrário à ortografia em uso, sendo adepto da Ortografia Filosófica: “fundada na analise dos sons proprios ou vogaes, e na de suas modificações, pede que a cada hum se dè um só sinal, ou letra privativa, distinta, e que não represente nenhum outro som, ou consoante” (SILVA, 1789, v.1, p.ix).

Quanto ao grupo qu- ora pronunciado cue, ora ke, como grafa o autor, Morais em QUESTUÁRIO indica “(o que como cue)” (SILVA, 1813, v.2, p.541); já em QUEXIQUÉR, para o mesmo grupo indica “N.B. O que soa ki, ou qi sem o u” Morais, no Epitome (SILVA, 1813, v.1, p.iv), afirma em nota de rodapé que o alfabeto português, assim como tantos outros, é em parte redundante e em parte “falto de lettras, e talvez tem, e usa caracteres equivocos, exprimindo as mesmas lettras sons differentes; e talvez differentes lettras representão o mesmo som” (SILVA, 1813, v.1, p.iv). Selecionamos esta passagem para justificar as observações que Morais faz no interior de verbetes como em:TEXTO “(soa tèisto)” (SILVA, 1813, v.2, p.773); ou em CONTEXTO “(Contèisto sòa)” (SILVA, 1813, v.1, p.547). No caso de “mesma letra” com sons diferentes, Morais registra no primeiro verbete que inicia a letra X: X, s.m. A vigesima segunda letra do Alfabeto Portuguez soa como o ch de chapeo: talvez soa como is; v.g. exemplo, como eisemplo, extemporaneo, como se fora escrito com eis, sexto como seisto, o que nunca succede quando o x fere a vogal seguinte; v. g. péxa. Talvez soa no estilo solenne como es; v. g. connéxo, séxo, néxo, connéxão, etc, que soão conecso, secso, necso, connecsão, etc. (SILVA, 1813, v.2, p.868)

Já à sua época o lexicógrafo brasileiro chamou a atenção para: a inutilidade do h no início de algumas palavras onde não existe a aspiração; a ausência de caracteres simples para lh e nh; a confusão de grafia para g e j; a redundância de c antes de a e o com som de q e k e o mesmo com c seguido de e e i redundante Sobre a inutilidade do grafema h no início de palavras, Morais faz críticas a Duarte Nunes de Leão que grafou o adjetivo numeral HUM com h: “[…] não sei porque os Etymologistas se obstinão a escrever este adj. com h já que nem o pede a Etymologia, nem a pronuncia, que não é aspirada” (SILVA, 1813, v.2, Não contrariando a ortografia vigente, Morais manteve as duplicadas como em ABBÁDE, ACCEDÈR, AFFEICOÁR, AGGREGÁDO, etc.; ou ainda a grafia etimológica de ARCHIVÍSTA, CHRISMA, ATHÈO, GEOGRAPHÍA, STELLIONÀTO, etc. Mas em alguns casos registrou a grafia que lhe pareceu mais correta, remetendo, entretanto, a unidade lexical para outro verbete com a grafia usual de seu tempo. A entrada FARMÁCIA (SILVA, 1813, v.2, p.12) remete para PHARMÁCIA (SILVA, 1813, v.2, p.446), onde novamente volta a grafar com f. O mesmo registro ocorre em PERÍPHRASE; no texto do verbete informa:“Hoje escrevemos perífrase evitando o ph” (SILVA, 1813, v.2, p.434).

Defendendo uma posição diversa da estabelecida em seu tempo, grafou com y a unidade PRÁYA por considerar que o i ocupa a posição de consoante. Assim dá como entrada PRÁIA, mas no final do verbete registra “(Praya, melhor ortogr.)” (SILVA, 1813, v.2, p.482). E tem o mesmo procedimento para todas as Ainda com relação ao y grego afirma que ele deve ser usado entre vogais em hiato como em -eo-, -ea-, em CORRÈO “(ou antes correyo)” (SILVA, 1813, v.1, p.477); CORRÈA “(ou antes correya)” (SILVA, 1813, v.1, p.474); IDEA “(melhor Muitas das posições gramaticais propostas por Morais estão no Epitome em notas de rodapé; no caso do y grego diz ele: O Y usão muito por i nas palavras derivadas da lingua Grega, v.g., hydra, synodo: mas é superfluidade. O uso que d´elle se deve fazer, é como de consoante entre vogáes, que tem semelhante som, v.g. pra- ya, idé-ya, vè-ya, vè-yo, corrè-yo, vi-ya, bri-yo, eu ri-yo, o ri-yo corre […] (SILVA, 1813, v.1, p.iv)

Um registro interessante que confirma o pensamento e a reflexão constantes do autor sobre os fatos da língua é o registro de entradas grafadas de modo diferente indicando variação fonética: BORBOLÈTA/BARBOLÈTA; CEBOLÈTA/ Ainda com relação às formas variantes, Morais, ao assinalar a irregularidade de alguns verbos como MEDÍR, PEDÍR que mudam d em ç nas variações que acabam em a e o, meço/meça e peço/peça, registra em entradas separadas as variantes MÍDA, MÍDAS, MIDÀMOS, MIDÁIS, MÍDÃO, como sendo “variações irregulares subjuntivas do verbo Medir” (SILVA, 1813, v.2, p.298). O mesmo tipo de registro se encontra no verbo PEDÍR, onde aparece a entrada PIDA, PIDE e PIDO (SILVA, 1813, v.2, p.450). O registro de tais formas foi feito com abonações de autores clássicos da língua portuguesa. No verbete EXPEDÍR, verbo derivado de PEDÍR, Morais acrescenta a seguinte nota: “Os Livros Clássicos fazem nos Subjuntivos pida, impida; expida. Alv. 13. Set. 1725. Hoje dizem peça, expeça, e impeça (SILVA, 1813, v.1, p.799). É de Camões o exemplo seguinte: “não midas o passado” (SILVA, 1813, v.2, p.298). Algumas dessas formas conjugadas ainda são empregadas em registros populares como pida, pidas, pidamos, onde o A diferença entre uma forma culta e outra popular é evidenciada pelo lexicógrafo na conjugação do verbo PROVÈR onde se confunde a conjugação:

Erradamente diz o vulgo próve por provè; pròva por proveja; pròvo por provèjo, confundindo o uso dos classicos, e confundindo as variações do verbo provar com as do verbo provèr, que se conjuga á imitação de Ver, sua raiz. (SILVA, 1813, v.2, p.522)

Partindo de um critério essencialmente gramatical, sistematicamente registrou em entradas separadas unidades lexicais homônimas. Substantivos como BÁNCO, CRÁVO, LÍMA, MÀNGA, NÓRA, homógrafos e homófonos se encontram na mesma entrada, muito embora do ponto de vista histórico tenham étimos e significados diversos. Entretanto, se têm étimos diferentes e pertencem aclassesgramaticaisdiferentes,estãoementradasseparadascomoem:ADUÁR (s.m.) e ADUÁR (v.at.); CHÒCO (adj.) e CHÒCO (s.m.); GENTÍL (s.m.) e GENTIL (adj.); MAMÃO (s.m.) e MAMÃO (adj.); NÁDO (s.m.) e NÁDO (adj.); TENÁZ Os critérios adotados por Morais para a inserção de homônimos em entradas separadas são bastante precisos. Se a classe gramatical é o primeiro critério para a separação, também outros são levados em consideração como a homografia e a homofonia, separando unidades que são homógrafas mas não são homófonas, como em: ENXÈRGA (s.f.) e ENXÉRGA (s.f..); LÒBO (s.m.) e LÓBO (s.m.); PRÉGAR (v.at.) e PRÈGAR (v.at.). É exatamente a heterofonia que faz a separação e nos permite entender o significado de cada uma delas. O verbo PRÈGAR “Segurar com prego” (SILVA, 1813, v.2, p.490) e PRÉGAR “Annunciar Doutrina Religiosa, inculcar, […]” (SILVA, 1813, v.2, p.490). O fato inverso também foi levado em consideração: PÈNA (s.f.) e PÈNNA (s.f.) estão em entradas separadas; entra aqui a heterografia. A primeira unidade é definida como “Mal fisico, ou moral, que se faz soffrer a quem commeteo delicto, crime, peccado” (SILVA, 1813, v.2, p.424); e a segunda, definida como “Pluma, a materia que reveste exteriormente as aves” (SILVA, 1813, v.2, p.428). Ambas de Finalmente, os homônimos com homofonia e homografia mas pertencentes a classes gramaticais diferentes são os mais encontrados no Diccionario. Em vários casos, observamos que uma unidade lexical guarda semelhança de significado com a outra, como em: CÍNTO (s.m.) e CÍNTO (p. pass de cingir); FEITÍÇO (s.m.) e FEITÍÇO (adj.); HERVÁDO (s.m.) e HERVÁDO (part. pass.); Muito embora na Lexicografia contemporânea o critério gramatical não seja considerado o melhor para a separação de homônimos, pois entre eles não há modificação semântica, foi o adotado e seguido por Morais já que sua fonte de referência o Vocabulario Portuguez e Latino de Bluteau (1712-1728) não faz qualquer tipo de separação. Bluteau relaciona todos os valores semânticos de

uma unidade sem se importar com a classe gramatical, a etimologia, ou ainda a homofonia ou a homografia da palavra-entrada (MURAKAWA, 2006).

Considerações finais O repertório lexical reunido por António de Morais Silva em seu Diccionario, edição de 1813, foi extraído de um corpus de referência constituído de obras de 203 autores portugueses dos séculos XIV ao XVIII (MURAKAWA, 2006). Como bem diz o lexicógrafo “Os Autores, com que autorizei os artigos addidos, são Portuguezes castiços, e de bom Seculo pela maior parte: […]” (Silva, 1813, v.1, p.x). Num confronto entre as duas edições do Diccionario, pode-se observar, na 2ª edição, o quanto Morais inovou em termos de acréscimo à nomenclatura. A 1ª edição, em dois volumes, contém 1290 páginas, sendo 749 no volume 1 e 541 no volume 2. A 2ª edição, publicada 24 anos mais tarde, contém 1678 páginas também distribuídas em dois volumes, onde 806 estão no volume 1 e 872 no volume 2, não incluídas as páginas destinadas à introdução e ao Epitome. A 2ª edição em muito foi ampliada, não só em sua nomenclatura mas também em informação lexicográfica, como novos valores polissêmicos acrescentados às unidades e informação gramatical contida nos verbetes, orientando o leitor para O acréscimo do Epitome da Grammatica Portugueza (1813), em que as regras gerais da língua estão estabelecidas, permitiu ao autor, quando necessário, colocar notas, observações, correções e críticas a certos empregos gramaticais prescritos. A Duarte Nunes de Leão (1530?-1608) criticou o uso do h no numeral HUM, justificando no interior do verbete a sua posição UM. Além de considerar o h desnecessário, assinalou a improcedência de tal emprego já que o numeral A Jerônimo Contador de Argote (1676-1749) que considerou o verbo HAVER, no sentido de existir, concordando no singular com nomes sujeitos do plural, Morais argumenta que HAVER, neste caso, é ativo e está numa frase elíptica com sentido de possuir, ter. Assevera Morais “[…] Ha homens, é frase elliptica, i. e., o mundo tem, contem homens: ha dias, o tempo ha decorrido dias: nesta terra ha boas frutas; a especie das frutas tem nas boas nesta terra […]” (SILVA, 1813, v.2, p.112). Essas críticas não estão na 1ª edição do Diccionario e isto comprova o que vimos dizendo: léxico e gramática se completam na obra de Morais e comprovam a reflexão e o pensamento do autor sobre os fatos da O nome Morais é hoje sinônimo de dicionário e autoriza 7 edições posteriores às três primeiras que foram da lavra do brasileiro: 1789, 1813 e 1823.

É de Aquilino Ribeiro (1885-1963) o texto abaixo que extraímos da 10ª edição do Morais, publicada em 12 volumes, organizada por Augusto Moreno, Cardoso Júnior e José Pedro Machado, com o título Grande Dicionário da Língua Portuguesa (1949, p.31) e que coloca a obra dicionarística de Morais no lugar que merece na História da Lexicografia Portuguesa: Foi à praça um dia destes em leilão o Dicionário da Língua Portuguesa composto por D. Rafael Bluteau, reformado e acrescentado por António de Morais Silva, ed. de 1789. Era o antepassado do vero e grandioso Morais. Em boa carneira, in 4º, tinha o seu quê de pedra de ara e de Com efeito, estão ali as Ordenações da língua. Graças a Morais, o Desde então para cá, tudo que se fez é acessório.

MURAKAWA, C. A. A. Lexikon and grammar in Diccionario da Lingua Portugueza (1813), by António de Morais Silva. Alfa, São Paulo, v.50, n.2, p.55-67, 2006.

 ABSTRACT: In 1789, Antonio de Morais Silva published the first edition of his Diccionario da Lingua Portuguesa and, in 1813, he published the second edition, both in Lisbon. Taking into account the relation between grammar and dictionary as works which complement each other in the teaching and learning of a language, we studied the projection of the author´s grammatical thought in the elaboration of the entries to the second edition of his Diccionario in an attempt to demonstrate that Morais, influenced by the reformist ideas of the Century of the Lights in Portugal, innovated in lexicographical and grammatical terms and registered them with criticisms to the grammars of his time, within the entries of his  KEYWORDS: Lexicography; lexicon; grammar; entry; lexical item; linguistic thought.

Referências bibliográficas BAIÃO, A. Episódios dramáticos da inquisição portuguesa. Rio de Janeiro: BLUTEAU, R. Vocabulario portuguez e latino. Lisboa: Collegio das Artes da CIDADE, H. Literatura: reacção contra o seiscentismo. In: HISTÓRIA de Portugal. COELHO, J. do P. Dicionário de literatura. Barcelos: Companhia Editora do Minho, 1979. MACEDO, F. N. de. A renovação das ideas e das instituições de cultura. In: HISTÓRIA de Portugal. Barcelos: Portucalense, 1934. v.6, p.421-448.

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